As feiras além do pastel
J, japonês de Recife, veio para São Paulo trabalhar como consultor em uma empresa de Informática. Chegou em São Paulo em uma quarta-feira e foi trabalhar de táxi na manhã seguinte em um prédio de escritórios perto da Berrini. E assim foi na sexta, segunda e terça que se seguiram: todos os dias de manhã ele pegava o táxi e ia, quase dormindo, para o trabalho. Na quarta-feira, no entanto, o taxista o acordou antes de chegar ao destino final: “Ô moço, tem uma feira aqui na rua do seu prédio, você sabe um caminho alternativo?”. J, olhando a feira cheia de vida, na rua de seu prédio responde: “Rapaz! Se eu te dissesse que ontem esse troço não estava aí, você acredita?”. O taxista, vendo que o moço não conhecia as feiras livres, deu risada e respondeu: “Pode deixar rapaz, que eu dou um jeito!”
Meu amigo ainda complementa, revoltado: “Imagina só, uma rua cheia de multinacional, sendo fechada uma vez por semana! Em Recife a gente tem feiras mas elas ficam em locais delimitados não no meio da rua.” Testemunhei o relato de J com um sorriso enorme no rosto: sendo paulistano de nascença, nunca havia pensado que feiras livres de rua poderiam não existir em outras cidades do país. Feiras livres são uma parte inseparável da grande metrópole, quem nunca foi à feira para comer pastel e beber caldo-de-cana?
As feiras livres em São Paulo, existem 889 delas, acontecem em determinadas ruas da cidade semanalmente. Nos dias de feira, estas ruas são tomadas durante meio-dia (entre às 6 h e 14 h) por barracas cheias de frutas, verduras e legumes além de consertadores de panelas, vendedores de bugigangas, salgadinhos, carnes e peixes, condimentos e, é claro, pastel e caldo-de-cana.
As vantagens de se ir na feira
Nos dias de hoje, com hiper-mega-mercados e sacolões por todos os lados, é difícil saber como as feiras-livres, local considerado como barulhento, sujo e anti-higiênico por muitos, ainda sobrevivem na paisagem paulistana. No entanto, os feirantes entenderam exatamente o que fazer para atrair consumidores: a relação personalizada com o consumidor e a qualidade e diversidade dos produtos oferecidos. Ao invés das pilhas e pilhas de mercadorias que encontramos nos supermecados, temos quantidades menores mas com qualidade melhor. O preço não é, necessariamente mais vantajoso mas o que se compra na feira é, sem dúvida, mais fresco e saboroso uma vez que os períodos de armazenamento e transporte aos quais os produtos de supermecados são expostos não permitem que o produto seja colhido maduro.
A relação do feirante com o consumidor é outro garnde atrativo das feiras. Imagine se o supermecado vai ter um funcionário que vai te atender pessoalmente e vai responder de forma precisa perguntas sobre os produtos e suas origens: se você quer saber qual batata fica melhor assada, qual laranja é melhor para fazer sucos para bebês, a a berinjela está boa no dia ou quando é a melhor época para se comprar mandiocas, é só perguntar. A preocupação em se manter a freguesia é tanta que é comum os feirantes darem brindes, venderem fiado ou até repôr produtos que, na semana anterior, não estavam de boa qualidade. Honestidade com o freguês, afinal, também contribui com a fidelização da fregueses. Portanto os feirantes geralmente não têm pudores ao admitir que um produto não está bom ou está caro na semana, coisas é impensáveis em um supermercado ou até em um sacolão.
E tem o pastel, é claro
Um dos principais motivos para as pessoas irem à feira livre é o pastel. Não existe lugar melhor apra se comer pastel do que na rua. O interessante é o funcionamento da barraca: as atendentes pegam o pedido, que é passado para uma pessoa que pega os pastéis dos sabores corretos (geralmete são muitos) e os coloca para fritar. A fritura do apstel é feita por uma terceira pessoa,q ue não se preocupa com mais nada a não ser a cor certa do pastel. Com o pastel frito, a atendente pega os pastéis dos sabores pedidos, marcados por símbolos específicos e idnecifráveis por quem não é do ramo, e os oferece para a pessoa que pediu. O pagamento é feito na base da confiança. Depois de se alimentar, o consumidor cqalcula o valor da refição e paga para as atendentes. Algumas barracas até dão brindes, de acordo com a quantidade consumida: mais pastéis, é claro.
Um estudo sociológico
Um outro motivo para ir à feira livre é mais pessoal: eu adoro ver a dinâmica das barracas, feirantes e consumidores. Somente a distribuição das barracas é uma aula de economia: há mais de uma barraca de fruta, verdura e legume mas cada uma ocupa um nicho diferente. Há uma de frutas que vende produtos mais baratos mas com qualidade menor, há uma que vende produtos mais caros mas tem muita diversidade e a que tem menor diversidade de frutas mas uma qualidade maior. Tudo para atrair um perfil de consumidor. Ainda existem barracas especializadas, como as que vendem bananas, produto exclusivo destas barracas. O mesmo acontece com os legumes, mas substitua as bananas pelas batatas.
É interessante ver estas práticas de mercado serem imitadas nas feiras-livres. As barracas mais genéricas (“frutas”, “legumes”) ganham na diversificação de seus produtos enquanto as barracas especializadas possuem um perfil de consumidor próprio (“batatas”, “banana”). Há ainda o grande monopólio das barracas de carnes e a de peixes, geralmente uma por feira. Há também a adaptação do feirante ao consumidor: na feira do Lageado, no Jaguaré, por exemplo, há muitos descendentes de japoneses. Por isso as barracas de verduras oferecem muitos produtos que são consumidos na culinária nipo-brasileira, como a raiz de bardana ou os brotos de feijão. Os donos da barraca sabem, inclusive, os nomes japoneses de seus produtos.
O universo das feiras livres, por fim, é muito mais do que o caos que muitos pensam que é. As feiras livres são bem mais estruturadas e organizadas do que a primeira impressão revela. Para se conhecer uma feira livre é necessário freqüentá-la e freqüentar uma feira livre é apaixonar-se por este microcosmo. Por isso, da próxima vez que você vier a São Paulo, visite uma feira livre. Se você morar na cidade, da próxima vez que for comprar pastel com caldo-de-cana, passe na barraca de fruta para garantir a sobremesa.
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Discussão - 7 comentários
Nossa eu adorei o seu texto me ajudou muito e concerteza depois dele a unica coisa q me vem ha cabeça eh um bom pastel….parabens..bjuss
Bom dia, Carlos!Não sei como alguém pode não gostar de feira! Eu adoro e quando, por algum motivo fico sem feira na semana, fico toda atrapalhada.Não me conformo em comprar banana por kilo, que é como os supermercados vendem. NO BRASIL????? É um absurdo!Eu adoooooro feira, com barulho e bagunça e tudo. Vocês já foram à feira de manhãzinha, quando está vazia e as barracas todas arrumadinhas? É um cartão postal da fartura e diversidade de alimentos “deste país”! Uma beleza…Um abraço, que agora vou procurar uma feira para ir, rsrs.
Todos, é engraçado como gostar de feira parece ser algo cultural. Eu conheço muitas pessoas que não suportam frequentá-la. Oscar, em Cuiabá faz pouco sentido ter horario de verao mesmo. Sao pAulo fica no limite de se valer a pena.Lucia, pastel é bom mesmo, pena que compro minhas coisas de manhã…João Carlos, as feiras sofreram bastante com a concorrencia dos supermecados ams, aos poucos, elas começaram a melhorar. Quem sabe isso não aconetce no Rio?Carol, experimente a feira! É frequentando-a que se aprender a gostar…
Adoreiiii esse texto! Muito bom MESMO!Adoro Feira Livre e adoro pastel de feira, mas não sabia que meu pastel era mais que um “caos” urbano!Beijocas
Pois veja só. Carlos… Aqui, na Zona Sul do Rio de Janeiro, as feiras livres estão praticamente mortas.Pelo jeito, os feirantes daqui não se adaptaram à freguesia como os de SP. (Claro: o pastel de lá ainda é o melhor do bairro). Eu acredito que isto se deve, em grande parte, ao avanço da área urbana sobre o que antes era “Zona Rural” do município e o desinteresse do pequeno agricultor em montar sua própria barraquinha na feira, quando pode vender seus produtos para “boutiques naturebas” (essas, sim, proliferaram, e muito…)E eu não conheço Sampa o suficiente (só passei cinco dias aí e praticamente restrito ao Alto de Pinheiros) para saber se as feiras de rua daí também têm que disputar seu lugar com os carros (a maioria dos prédios daqui é da década de 1940 ou 50 e não têm garagem, de modo que as ruas viraram estacionamentos noturnos em fila dupla – às vezes tripla…)Ah!… Sim… Araruama também funciona como no NE: tem um local reservado para a montagem da feira-livre semanal (mas não tem transporte público, o que acaba por se tornar o “paraíso das vans” – ou “peruas”, como vocês dizem por aí).O “carioca” é uma espécie em extinção… Mas a Cidade do Rio de Janeiro ainda não percebeu que a capital federal se mudou para Brasília, faz muito tempo…
Excelente texto, Carlos! Me deu vontade imediata de ir à feira – e comer um pastel, lógico!
Fui um dos organizadores de uma feira livre aqui, quando “estava” coordenador da Secretaria de Meio Ambiente local, e te digo: é difícil lidar com as várias culturas enraigadas.Quanto ao meu post, Carlos. aqui em Cuiabá, talvez por estarmos muito próximos ao Equador, nossa genética não esteja evolutivamente adaptada às variações e as reclamações são muito frequentes. A Cronobiologia ainda é nova e tem muito a estudar, mas certamente a variabilidade genética deve estar fazendo toda a diferença.Gostei da sua argumentação e do seu blog e já linkei ao meu!Um abraço!