Contando com as abelhas
Como indicado em um post anterior, abelhas sabem contar até quatro. Mais fascinante que o fato de almaque é todo o processo utilizados pelos pesquisadores para chegar a esta conclusão.
A pesquisa, realizada na Austrália, utilizou abelhas comuns (Apis mellifera) para tentar responder a seguinte pergunta: insetos sabem contar? A pergunta é bastante simples, porém obter uma resposta aceitável já é mais difícil. Como descobrir isso?
Os pesquisadores, para responder esta questão, construíram um tubo com várias marcas amarelas (abaixo). As abelhas eram liberadas uma a uma e recebiam um prêmio, na forma de comida, após passar uma das marcas. O treino durava de três a cinco dias. Após este período de treino, as abelhas eram liberadas dentro do tubo, só que sem nenhum prêmio e os locais nos quais as abelhas investigavam à procura da comida eram anotados.

O resultado não poderia ser mais elegante: quando o prêmio ficava na primeira marca, as abelhas procuravam-no na região da primeira marca (abaixo, letra a). O mesmo acontece na segunda e na terceira marca (letras b e c, abaixo) e, em menor intensidade, na quarta marca (letra d, abaixo). Já, quando o prêmio era posto na quinta marca (letar e, abaixo), as abelhas já não exibiam uma preferência clara por uma marca: elas procuravam a comida em todas as marcas. Isso fez os pesquisadores concluírem que as abelhas contam, mas somente até quatro (e olhe lá).

Para eliminar a possibilidade das abelhas decorarem a distância entre a entrada do tubo e o prêmio ao invés de contar as marcas, os pesquisadores variavam a distância das marcas de um dia para o outro, obtendo resultados semelhantes; e os pesquisadores ainda mudaram os formatos das marcas entre o treino e o teste (de faixas para círculos), sem alteração no resultado inicial.
Este estudo não vai mudar o modo no qual vemos as coisas ou entendemos as abelhas. No entanto, achei-o belíssimo ao buscar uma resposta simples para uma pergunta difícil, além de conseguir eliminar outras possíveis explicações para o fenômeno.
Fonte: Dacke M, Srinivasan MV. (2008) Evidence for counting in insects. Anim Cogn. 2008 Oct;11(4):683-9.



Discussão - 7 comentários
Alguns experimentos científicos são tão belos que chegam a me fascinar mais do que a própria descoberta.
Impressionante! Tanto a idéia dos cientistas como a natureza das abelhas…
São abelhas Ramones, one, two, three, four…
Falando sério, o interessante disso é a ilustração de um experimento científico, como tu falaste mesmo.
Talvez o limite 4 (ou mais ou menos isso) possa estar relacionado à capacidade da memória pequena para coisas novas, por isso não é tão preciso.
João, o mais incrível é que pode fazer um alvéolo hexagonal sem saber contar até 6. Um dia eu li que as abelhas vão construindo as paredes até atingir o tamanho de uma antena. feito isso, elas dão um giro de 120 graus e começam a construir uma parede nova. Isso é programado em seu genoma e não depende de cognição muito refinada.
João, o próprio Darwin respondeu isso. A abelha gasta muito mais açúcar para fazer cera do que mel, logo economizar na cera é ótimo. O melhor jeito de fazer isso é construir os alvéolos compartilhando paredes. Ela se fixa num ponto e constrói um círculo, o máximo de paredes que se consegue fazer com o círculo é o hexágono
Acho que o desenho de experimentos é tudo que nos impede de saber que os animais conseguem pensar muito mais do que o esperado. Quem sabe algum dia entenderemos o até mais e obrigado pelos peixes.
Interessante… Mas, apesar do “controle”, algo me parece ilógico. Se as abelhas contam bem até 4, mas se confundem de 5 para cima, qual seria o motivo para sempre construírem alvéolos sextavados? De acordo com o resultado do estudo, as abelhas não seriam capazes de distinguir um pentágono de um hexágono, de um heptágono, etc, quanto mais um sólido tridimensional cujo corte seja uma figura com mais de 4 lados…