Cientistas são chatos e invejosos
Umas semanas atrás, publiquei uma notícia sobre uma coleção de pegadas de dinossauros encontradas nos Estados Unidos. O que impressionava da coleção era a quantidade de pegadas reunidas em um só local, o que levou os cientistas chamarem o local de “discoteca de dinossauros”, para o meu horror e o deleite da mídia internacional.
Obviamente, tal notícia chamou a atenção da comunidade de paleontólogos/geólogos, que foi investigar o tal local. De modo mais do que previsível, alguns dos especialistas discordam da conclusão dos geólogos e concluíram que os buracos devem ser mesmo buracos causados pela chuva. A controvérsia em torno do sítio foi tanta, que os cientistas que primeiro divulgaram as pegadas resolveram publicar outro press-release alertando sobre a possibilidade das “pegadas” não serem pegadas.
Este caso é emblemático de duas características da comunidade científica que geralmente passam despercebidas pelos civis:
1) Nenhuma conclusão científica é uma verdade absoluta e cientistas erram. Todas conclusões científicas são interpretações de resultados/observações. Se um grupo de cientistas interpretam um fato de uma forma, um outro grupo de cientistas podem interpretar de outra forma. Mais experimentos/observações podem ser feitas para saber quem está mais errado (provavelmente ambos grupos estão). O bom disso é que a Ciência possui mecanismos de auto-correção, e que são usados freqüentemente.
2) Cientistas são chatos, vaidosos e invejosos. Eles não podem ver um colega ou uma teoria se tornar popular sem tentar destruí-los (no bom sentido, é claro). Isso é importante ao se discutir com que acha que existem garndes conspirações científicas por aí: se um cientista vir uma oportunidade de destruir uma verdade científica, ele o fará imediatamente e com prazer. Seja por ser chato, por desejar fama ou por odiar os detendores da teoria vigente (às vezes é por ser um bom cientista e estar fazendo o seu trabalho). Ou seja: se uma teoria é amplamente aceita é porque, provavelmente, não há evidências suficientes para destruí-la (como a seleção natural, por exemplo).
Lembrem-se disso sempre que alguém vier falando das conspirações para a manutenção do status quo, da evolução, das mudança climáticass e tal.



Discussão - 6 comentários
Do que eu sei, a universidade de Utah não é uma coisinha, não. Segundo aquele famoso ranking chinês, ela é a 79ª melhor no mundo; já a de Wyoming encontra-se no mesmo nível da Unesp, entre 400ª e 500ª.
(Não consigo lembrar que pesquisas fazem lá, se não me engano um professor meu de mecânica se doutorou lá. E o artigo da Wikipedia só trata da parte esportiva, basicamente…)
Sempre que eu falo disso (conspirações tipo médicos querendo que o mundo permaneça doente e abafamento de motoperpétuos) com os meus amigos, geralmente estou introduzindo o assunto, como se só eu soubesse dessas coisas e acho que é assim mesmo.
Só quem sabe dessas coisas, em geral, somos os céticos e os loucos que inventam essas estórias, não a população em geral.
Ou seja, só quem já escolheu seu lado do muro, que normalmente não tem ninguém em cima…
Hotta:
Muito interessante esse artigo, que mais ainda revela nas personalidades o frio e cartesiano cérebro suplantado pela emoção e o desejo do esplendor. Pobres e carentes humanos somos todos nós.
Engraçada foi a citação de um colega tentar destruir o outro no bom sentido.
Carlos, o que eu achei interessante nesse caso foi que, até os geólogos da Universidade de Utah afirmarem que os tais buracos não eram uma forma de erosão natural naquela região, nenhum paleontologista tinha se dado ao trabalho de ir até lá…
Publicada a notícia no Palaios, uma equipe de 4 paleontologistas da Universidade do Wyoming saem correndo para lá e, apesar de encontrarem rastros de dinossauros no local, se apressam em “estragar a festa”…
É, no mínimo, muito suspeita essa “pressa” toda, principalmente porque são paleontólogos de uma universidade de um estado vizinho… Está me parecendo um caso de “bairrismo” entre duas universidades de pouca expressão e de uma disputa besta entre especialistas em ciências diferentes.
O que eu gosto na profissão de cientista é que é uma da´s únicas onde a auto-correção funciona mesmo (sem aquela história de acobertar uma falcatrua – pelo menos não por muito tempo).
Se esses mecanismos de auto-correção funcionassem sem protecionismo em outras profissões, estariamos em melhores lençóis.