Agência de Banco sustentável, sim ou não?

Cheers!

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Hoje fui convidado a conhecer uma agência do Banco Real supostamente sustentável. Estava realmente disposto a não gostar, crítico que sou de empresas que se dizem sustentáveis. No entanto, acabei me surpreendendo com o que vi: a agência foi muito bem pensada e construída. Antes do resto do post, um alerta: vou elogiar a agência sem ter recebido para isso. Vou me ater a uma análise da estrutura e funcionamento do prédio, uma vez que nada posso dizer sobre os serviços e taxas oferecidos por tal banco, muito menos pelos seus juros e ética nos negócios.
A agência que visitamos foi o Banco Real da Granja Viana, à beira da Rodovia Raposo Tavares. Ela foi inaugurada em Janeiro de 2007, após 8 meses de construção e 4 meses de planejamento. Esta agência foi planejada para ser um protótipo de sustentabilidade para toda a rede do Banco Real. De acordo com o arquiteto, Roberto Oranje, a agência custou cerca de 30% a mais do que uma agência comum, metade deste valor devido às freqüentes alterações no projeto induzidas por testes mal-sucedidos. O prédio possui certificação LEED prata, o que é bastante decente.
Antes da visita decidi avaliar a agência de acordo com os seguintes critérios: 1) consumo de energia elétrica; 2) uso da água; 3) sistema de climatização; 4) gerenciamento de resíduos; e 5) materiais utilizados. Após a visita, decidi adicionar mais um critério: 6) acessibilidade. Todas as fotos, com explicações, podem ser encontradas na minha conta do Flickr.
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1) Consumo de energia elétrica – A agência da Granja Vianna consome cerca de 30% menos energia que as demais agências do Banco Real. Considerando-se que estas agências já possuem ações de redução de conteúdo, é uma economia significante. Esta economia é obtida com diversas estratégias. Primeiro, o prédio é bastante claro, possuindo janelas com vidro enormes e muitos espaços para a entrada de luz. Para se evitar que o sol da tarde atrapalhe o trabalho dentro da agência, existem faixas de concretos que evitam que os raios do sol incidam diretamente no vidro. Segundo, as lâmpadas utilizadas são de LEDs ou fluorescentes de 28W, que iluminam tão bem quanto uma de 40W mas com um consumo menor. Terceiro, existem inúmeros interruptores de luz que permitem um melhor controle das luzes que devem ser acesas a cada momento. Quarto, um sistema de timer apaga todas as luzes da agência em um determinado horário. Nada de deixar o prédio iluminado 24 horas. Finalmente, painéis solares abastecem todos os caixas eletrônicos, incluindo baterias que mantêm os caixas funcionando até às 22 h.
Não posso deixar de mencionar que a área VIP do banco (espaço Van Gogh) possuía uma televisão constantemente ligada… as partes mais ricas sempre acabam dando o mal-exemplo…
2) O uso da água – Todo o uso da água pela agência foi pensado para o consumo mínimo. Para se ter uma idéia, as plantas utilizadas na jardinagem são de baixo consumo hídrico, evitando-se gastos desnecessários com irrigação. A água utilizada pelo prédio vem de três fontes: a água tratada da Sabesp, água da chuva armazenada em dois reservatórios de 7500 litros e a água tratada pela própria agência.
A água da chuva é captada por todo o telhado da agência, que é coberto por uma camada de 20 cm de argila expandida. A argila serve para dar uma pré-filtrada na água da chuva, evitando-se o entupimento dos drenos. A água ainda passa por filtros de areia e carvão ativado de bambu antes de ser armazenada nos mega-reservatórios. Esta água é utilizada nas torneiras e descargas dos banheiros que, aliás, possuem dois níveis de fluxo de água: um pequeno, para urina, e um grande, para fezes. As torneiras possuem sensores de aproximação, garantido um uso menor de água e facilitando o seu uso por cadeirantes.
Após ser utilizada, a água dos banheiros é direcionada para uma fossa séptica, onde decanta, e depois é tratada microbiologicamente. Após passar por filtros, a água é utilizada na irrigação das plantas da agência. O consumo de água da agência é de 15 a 20% menor que em outras agências. Este número poderia ser ainda maior, até 60%, se não fosse o sistema de climatização escolhido.
3) A climatização – Muita da energia consumida por um prédio geralmente é utilizada no sistema de climatização. Aparelhos de ar-condicionados gigantescos secam o ar, gelam as pessoas e ainda espalham indescritíveis microrganismos no ar. Na agência do Banco Real, os projetistas optaram por um sistema híbrido que utiliza principalmente um sistema evaporativo. O princípio é simples: o ar é trazido de fora da agência através de uma grade cheia de água (tratada da Sabesp, fiquem tranqüilos). A água umedece o ar e chega a fazer a temperatura cair até 5 graus! Além disso o ar é assoprado por grades baixas, o que deixa uma sensação de brisa no ambiente. Em situações de alta umidade do ar ou alta temperaturas, um ar-condicionado convencional é ligado como complemento. Fendas localizadas no teto ainda garantem uma constante troca de ar, que chega a 100% (comparados com os 20% dos sistemas convencionais).
Além dos dois sistemas, o prédio ainda é bem isolado termicamente, possui plantas ao seu redor e diminui a entrada de radiação solar através de barreiras de concreto, metal ou plástico.
4) Gerenciamento de resíduos – Os projetistas da agência tomaram o cuidado para se reciclar ou reutilizar a maior parte do entulho gerado pela construção do prédio (77%). Toda a agência usa papel reciclado e possui cestas específicas para papel. Há pontos de coleta seletiva de outros materiais, inclusive pilhas e baterias usadas. Ponto negativo para o uso de copos de plástico pelo público e pelos funcionários, estes pelo menos poderiam ter canecas de plástico reciclável, não?
5) Materiais utilizados – A agência foi inteiramente construídas com materiais locais (menos de 800 km de distância) e alternativos. Um exemplo é o carpete de restos de garrafas PET, o impermeabilizante de óleo de mamona, piso de blocos de areia de fundição, etc. Muitas vezes a demanda gerada pelo Banco Real acabou alavancando o comércio destes produtos, que podem reutilizar resíduos de outras práticas industriais.
6) Acessibilidade – A acessibilidade foi um ponto que não foi explorado na visita mas me impressionou muito. Há elevadores de acesso, guias para cegos, aparelhos para surdos além de haver balcões de atendimento e banheiros adaptados para diversas deficiências.
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Concluindo-se, fiquei realmente impressionado com a inciativa do Banco Real. As lições aprendidas e as soluções encontradas na construção do prédio estão sendo repassadas para as outras agências do banco e, mais importante, para outras empresas interessadas. O que me preocupa é que, em tempos de crise, iniciativas pioneiras como a da Granja Vianna são as primeiras a serem cortadas. Sinceramente, torço para que os novos donos do Banco Real mantenham esta iniciativa pois ela é algo a ser mostrado e copiado por aí, o que é bom para a imagem do Banco e para o planeta.

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Discussão - 7 comentários

  1. Iniciativas como esta são sempre louváveis e merecem divulgação, mas a meu ver ainda são incipientes no Brasil principalmente por falta de iniciativa dos profissionais ligados à área ambiental em difundir comercialmente seus conhecimentos. O Brasil possui ótimos pesquisadores e desenvolve tecnologia tão bem quanto países mais ricos, mas ainda temos problemas quando o assunto é a integração deste conhecimento à sociedade. Ainda pecamos na implementação do que aprendemos e desenvolvemos nas universidades. Ou seja, creio que ainda falte um pouco de visão comercial a estes profissionais; falta apresentarmos às empresas propostas sólidas que gerem benefícios ambientais, mas também benefícios às próprias empresas. Neste caso da agência do Banco Real temos um ótimo exemplo disso: a agência provavelmente teve um atrazo em sua construção devido às reformulações do projeto e um custo de construção maior, mas se calcularmos a economia gerada pela redução do consumo e gerenciamento de resíduos esta agência provavelmente sairá com um balanço positivo em relação às outras onde o consumo e desperdício são maiores. Então, repito: cabe a nós profissionais da área mostrarmos ao setor privado (e público) que ser ambientalmente correto é financeiramente viável. E cabe à sociedade cobrar para que isto ocorra.

  2. Marfil disse:

    OFF POST: O Blog BRONTOSSAUROS EM MEU JARDIM recebeu indicações ao 6º Prêmio Spoiler de Cinema e Blogs 2008, conforme anunciou acessoria de imprensa, hoje cedo. O site concorre como Melhor Conceito Filosófico. Parabéns aos Editores!

  3. Danillo disse:

    Altamente nerd seu blog! Um grande exemplo pra mim. Sou apenas um cientista em potencial, estudante de medicina lammer. Grande abraço e sucesso!

  4. Ulisses Adirt disse:

    Legal mesmo. Pena que notícias como essa (http://www.cocadaboa.com/2008/04/banco_real_nao_financia_mais_v.php), por enquanto, vão continuar sendo só ficção.
    P.S.: Carlos, se não me engano, o correto é “as partes mais ricas sempre acabam dando o MAU exemplo…”

  5. Claudia disse:

    Belo post, Carlos. É tão dificil falar mal do Real… hehehe
    Mas lógico q eles ainda tem problemas, mas diante do q temos, eles sao imbatíveis! Só resta saber o q o Santander vai fazer com isso… E eu tenho medo! hoho

  6. É como vc disse a agência gastou uma quantia maior por causa de projetos que tiveram que ser refeitos e tal … creio que agora deve haver um plano mais concreto e que não virá trazer tantos gastos… mas como lembrado .. em tempos de crise … até isso fica relevante…
    Conheci uma casa sustentável em Florianópolis, construída pelos alunos da UFSC e a idéia é praticamente esta … achei a idéia genial e ao contrário o custo não era muito alto ^^
    No mais .. gostaria muito de conhecer este banco também … mas seu blog serviu de elo no qual eu sei que não conseguirei concretizar no momento (uma visita) … muito obrigada :)

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