Como surgiram os organismos multicelulares?

Existem muitas histórias a serem contadas na evolução: como surgiu a vida? Como surgiu o primeiro eucarioto? A primeira mitocôndria?
A questão sobre os organismos multicelulares é importante devido ao extenso tempo no qual o nosso planeta foi apenas habitado por seres de uma célula só sem que aparecessem seres multicelulares. Qual seria a razão? O que mudou entre os microssistemas antigos para que houvesse uma pressão evolutiva à favor da multicelularidade?
Uma idéia de como os seres multicelulares surgiram foi sugerida por um trabalho publicado há mais de 10 anos no periódico Evolutionary Ecology.
Um grupo americano, que crescia a alga Chlorella vulgaris em cultura por inúmeras gerações na forma unicelular, colocou na cultura o protista predador Ochromonas vallescia. Nas primeiras gerações, o número das algas caiu repentinamente, seguido por uma queda proporcional dos predadores logo depois. Até aí nada demais: é um comportamento de presa-predador clássico e bem descrito. No entanto, quando as populações da presa se recuperaram, veio a surpresa: as algas formavam aglomerados de dez a centenas indivíduos.As colônias maiores de algas se protegiam contra o voraz predador.
Ochromonas vallescia - predador voraz
O mais espantoso veio depois: após 10 a 20 gerações na presença do predador, o número de células nos agregados se estabilizou em oito. A explicação? Organismos de colônias muito grandes tinham dificuldades de absolver nutrientes do meio de cultura, enquanto colônias menores viravam comida de protista.
Chlorella vulgaris em colônias múltiplas e de 8.
Este experimento favorece uma hipótese antiga para o surgimento da multicelularidade: o surgimento de predadores. Antes de surgirem células capazes de englobar (fagocitar) outras células, não havia pressão seletiva para as demais células viverem juntas. Esta estratégia de vida pode ter se especializado a ponto de compartimentalizar funções e as colônias se transformar em indivíduos multicelulares.
É preciso notar que estas células já possuíam a capacidade de fazer colônia, portanto a rapidez da transição entre unicelular e multicelular observada foi através da seleção de alelos já existentes na população de algas. No caso dos primeiros casos de multicelularidade, o processod deve ter sido muito mais lento.
Fontes: PleyotropyEvolutionary Ecology

A origem do homem

Selo da Blogagem Científica da África
Somos todos africanos. Isto é o que sugere os estudos sobre as nossas origens. O meu primeiro texto para a Blogagem Coletiva da África é sobre como saímos da África para conquistar o mundo.
A origem e evolução do homem é um tema complexo, cheio de hipóteses conflitantes e nuances interessantes. Algo que todos devem saber para se entender a nossa origem: o ser humano é uma espécie que surgiu em algum local ao sul da África e adora viajar. Para se ter uma idéia, acredita-se que houve pelo menos quatro grandes migrações de hominídeos (espécies da Família Hominidae, ou grandes macacos) fora da África em direção da Ásia.
Busto de Homo erectus (Wikipedia)
Os primeiros grande hominídeos a sair da África foram os Homo erectus, cerca de 2 milhões de anos atrás! Os Homo erectus já conseguiam usar ferramentas rústicas e vivia da caça de pequenos animais e coleta de frutos e raízes (palavra chave: caçadores-coletores). Os H. erectus chegaram a popular pedaços da Europa e ao Sudeste Asiático. Acredita-se que a migração desta espécie foi ajudada pelo fato de ser a primeira a conseguir andar totalmente bípede, deixando os Homo habilis para trás.
Já cerca de 400 a 600 mil anos atrás, saía da África o Homo heidelbergensis, possuía uma caixa craniana maior que o H. erectus e usava ferramentas mais sofisticadas. Estas características o permitia caçar grandes mamíferos para se alimentar. O H. heidelbergensis substituiu (matou, caçou, expulsou?) os H. erectus em grande parte da África, dando origem aos neandertais no continente europeu.
Enquanto os H. heidelbergensis/ H. neanderthalis se espalhavam pela Europa, uma nova linhagem de hominídeos se diferenciava na África cerca de 200 mil anos atrás: o Homo sapiens sapiens. Notem que provavelmente existiram múltiplas espécies de Homo que não são nossos antepassados. Enquanto uma linhagem se diferencia em um local, outras podem surgir em outros.
O Homo sapiens sapiens possuía uma capacidade craniana extraordinária e sabia usar ferramentas melhores e mais avançadas que os demais. Apesar de seu “sucesso” posterior, esta espécie surgiu a partir de uma população pequena, com 10 mil casais ou menos. Acredita-se que os Homo sapiens sapiens saíram da África cerca de 40 mil anos atrás e acabaram substituindo todas as espécies de hominídeos espalhadas pelo globo, incluindo os neandertais (não se sabe se os neandertais foram mortos ou absorvidos pelos H. sapiens sapiens mas o fato é que eles “sumiram” mais ou menos 35 mil anos atrás). O resto é história :)
As grandes perguntas que ficam é: o que o continente Africano possuía para gerar tantas espécies diferentes de hominídeos? Por que o H. sapiens e não os neandertais ou outros dominaram o mundo?
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Mais:
- os hominídeos só chegaram às Américas 15 mil anos atrás.
- os europeus ainda possuem genes provenientes de neandertais vindo de relações interraciais. O encontro das populações de H. sapiens com as de H. neanderthalis deve ter sido algo chocante.
- a origem e expansão dos hominídeos está diretamente ligada à, vejam só: mudanças climáticas! Será que elas serão as responsáveis pelo nosso início e pelo nosso fim?
- uma teoria que compete com a idéia de que descemos das árvores é a de que viemos da água! Sim! Muitas características nossas são associadas a vida aquática… soma-se à nossa tendência a virar viajante e explica-se a Lucia Malla ;)

Agência de Banco sustentável, sim ou não?

Cheers!

Cheers!


Hoje fui convidado a conhecer uma agência do Banco Real supostamente sustentável. Estava realmente disposto a não gostar, crítico que sou de empresas que se dizem sustentáveis. No entanto, acabei me surpreendendo com o que vi: a agência foi muito bem pensada e construída. Antes do resto do post, um alerta: vou elogiar a agência sem ter recebido para isso. Vou me ater a uma análise da estrutura e funcionamento do prédio, uma vez que nada posso dizer sobre os serviços e taxas oferecidos por tal banco, muito menos pelos seus juros e ética nos negócios.
A agência que visitamos foi o Banco Real da Granja Viana, à beira da Rodovia Raposo Tavares. Ela foi inaugurada em Janeiro de 2007, após 8 meses de construção e 4 meses de planejamento. Esta agência foi planejada para ser um protótipo de sustentabilidade para toda a rede do Banco Real. De acordo com o arquiteto, Roberto Oranje, a agência custou cerca de 30% a mais do que uma agência comum, metade deste valor devido às freqüentes alterações no projeto induzidas por testes mal-sucedidos. O prédio possui certificação LEED prata, o que é bastante decente.
Antes da visita decidi avaliar a agência de acordo com os seguintes critérios: 1) consumo de energia elétrica; 2) uso da água; 3) sistema de climatização; 4) gerenciamento de resíduos; e 5) materiais utilizados. Após a visita, decidi adicionar mais um critério: 6) acessibilidade. Todas as fotos, com explicações, podem ser encontradas na minha conta do Flickr.
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1) Consumo de energia elétrica – A agência da Granja Vianna consome cerca de 30% menos energia que as demais agências do Banco Real. Considerando-se que estas agências já possuem ações de redução de conteúdo, é uma economia significante. Esta economia é obtida com diversas estratégias. Primeiro, o prédio é bastante claro, possuindo janelas com vidro enormes e muitos espaços para a entrada de luz. Para se evitar que o sol da tarde atrapalhe o trabalho dentro da agência, existem faixas de concretos que evitam que os raios do sol incidam diretamente no vidro. Segundo, as lâmpadas utilizadas são de LEDs ou fluorescentes de 28W, que iluminam tão bem quanto uma de 40W mas com um consumo menor. Terceiro, existem inúmeros interruptores de luz que permitem um melhor controle das luzes que devem ser acesas a cada momento. Quarto, um sistema de timer apaga todas as luzes da agência em um determinado horário. Nada de deixar o prédio iluminado 24 horas. Finalmente, painéis solares abastecem todos os caixas eletrônicos, incluindo baterias que mantêm os caixas funcionando até às 22 h.
Não posso deixar de mencionar que a área VIP do banco (espaço Van Gogh) possuía uma televisão constantemente ligada… as partes mais ricas sempre acabam dando o mal-exemplo…
2) O uso da água – Todo o uso da água pela agência foi pensado para o consumo mínimo. Para se ter uma idéia, as plantas utilizadas na jardinagem são de baixo consumo hídrico, evitando-se gastos desnecessários com irrigação. A água utilizada pelo prédio vem de três fontes: a água tratada da Sabesp, água da chuva armazenada em dois reservatórios de 7500 litros e a água tratada pela própria agência.
A água da chuva é captada por todo o telhado da agência, que é coberto por uma camada de 20 cm de argila expandida. A argila serve para dar uma pré-filtrada na água da chuva, evitando-se o entupimento dos drenos. A água ainda passa por filtros de areia e carvão ativado de bambu antes de ser armazenada nos mega-reservatórios. Esta água é utilizada nas torneiras e descargas dos banheiros que, aliás, possuem dois níveis de fluxo de água: um pequeno, para urina, e um grande, para fezes. As torneiras possuem sensores de aproximação, garantido um uso menor de água e facilitando o seu uso por cadeirantes.
Após ser utilizada, a água dos banheiros é direcionada para uma fossa séptica, onde decanta, e depois é tratada microbiologicamente. Após passar por filtros, a água é utilizada na irrigação das plantas da agência. O consumo de água da agência é de 15 a 20% menor que em outras agências. Este número poderia ser ainda maior, até 60%, se não fosse o sistema de climatização escolhido.
3) A climatização – Muita da energia consumida por um prédio geralmente é utilizada no sistema de climatização. Aparelhos de ar-condicionados gigantescos secam o ar, gelam as pessoas e ainda espalham indescritíveis microrganismos no ar. Na agência do Banco Real, os projetistas optaram por um sistema híbrido que utiliza principalmente um sistema evaporativo. O princípio é simples: o ar é trazido de fora da agência através de uma grade cheia de água (tratada da Sabesp, fiquem tranqüilos). A água umedece o ar e chega a fazer a temperatura cair até 5 graus! Além disso o ar é assoprado por grades baixas, o que deixa uma sensação de brisa no ambiente. Em situações de alta umidade do ar ou alta temperaturas, um ar-condicionado convencional é ligado como complemento. Fendas localizadas no teto ainda garantem uma constante troca de ar, que chega a 100% (comparados com os 20% dos sistemas convencionais).
Além dos dois sistemas, o prédio ainda é bem isolado termicamente, possui plantas ao seu redor e diminui a entrada de radiação solar através de barreiras de concreto, metal ou plástico.
4) Gerenciamento de resíduos – Os projetistas da agência tomaram o cuidado para se reciclar ou reutilizar a maior parte do entulho gerado pela construção do prédio (77%). Toda a agência usa papel reciclado e possui cestas específicas para papel. Há pontos de coleta seletiva de outros materiais, inclusive pilhas e baterias usadas. Ponto negativo para o uso de copos de plástico pelo público e pelos funcionários, estes pelo menos poderiam ter canecas de plástico reciclável, não?
5) Materiais utilizados – A agência foi inteiramente construídas com materiais locais (menos de 800 km de distância) e alternativos. Um exemplo é o carpete de restos de garrafas PET, o impermeabilizante de óleo de mamona, piso de blocos de areia de fundição, etc. Muitas vezes a demanda gerada pelo Banco Real acabou alavancando o comércio destes produtos, que podem reutilizar resíduos de outras práticas industriais.
6) Acessibilidade – A acessibilidade foi um ponto que não foi explorado na visita mas me impressionou muito. Há elevadores de acesso, guias para cegos, aparelhos para surdos além de haver balcões de atendimento e banheiros adaptados para diversas deficiências.
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Concluindo-se, fiquei realmente impressionado com a inciativa do Banco Real. As lições aprendidas e as soluções encontradas na construção do prédio estão sendo repassadas para as outras agências do banco e, mais importante, para outras empresas interessadas. O que me preocupa é que, em tempos de crise, iniciativas pioneiras como a da Granja Vianna são as primeiras a serem cortadas. Sinceramente, torço para que os novos donos do Banco Real mantenham esta iniciativa pois ela é algo a ser mostrado e copiado por aí, o que é bom para a imagem do Banco e para o planeta.

Mentir no CV é sacanagem….

Hoje de manhã fiquei li no Orkut e pelo Stoa uma carta que divulga mais um possível um escândalo na Ciência brasileira: um pesquisador teria colocado informações falsas em seu currículo da Plataforma Lattes. A Plataforma Lattes é uma ferramenta moderníssima que dispõe gratuitamente o currículo de grande parte dos pesquisadores do Brasil. Desta forma é possível checar a produção bibliográfica de qualquer pesquisador em poucos minutos e ter uma idéia de seu peso no mundo acadêmico. Na plataforma Lattes, o pesquisador adiciona as próprias informações que, por serem facilmente checadas, geralmente são verdadeiras.
Na carta, datada de 4 de novembro de 2008, há a acusação de que o pesquisador Weber Antônio Neves do Amaral da ESALQ-USP colocou informações falsas em seu currículo. Estas informações não devem ter sido apenas erros cometidos por um funcionário ou estagiário uma vez que artigos científicos citados são simplesmente inexistentes! Além disso, existe um selo de certificação no Lattes que tem o propósito de mostrar que o autor do currículo realmente aprova o seu conteúdo!
Após ler a carta, fui atrás do currículo do pesquisador. No entanto, ele foi atualizado em 01 de dezembro de 2008 e não contém os trabalhos citados na carta. No entanto, utilizando-se o cache do Google, em 07 de setembro de 2008, o currículo Lattes do pesquisador contém a menção de artigos publicados em revsitas conceituadas como Trends in Ecology and Evolution (TEE) e Heredity. No entanto, não há nenhuma evidência de que tais artigos existam! No caso da TEE, o volume 2 da revista, mencionado como tendo sido publicado em 1997, foi publicado em 1987 e, nas páginas mencionadas, um artigo completamente diferente pode ser encontrado.

Lattes no Google Cache

Lattes no Google Cache (clique para ver maior)


Onde encontrar estes artigos? (clique para ver maior)

Onde encontrar estes artigos? (clique para ver maior)


O interessante é saber que o currículo Lattes é utilizado como critério de análise em concursos, relatórios de atividades e propostas de projetos. Portanto, é possível que o pesquisador, possa ter conquistado verba de projetos e cargos utilizando informações falsas! É claro que apenas uma sindicância detalhada pode concluir se houve ganhos com tais informações. O registro de atualizações do currículo Lattes pode ser utilizado para se descobrir há quanto tempo tais informações estão no ar e de que forma o pesquisador pode ter sido beneficiado delas. A sindicância também pode apurar se terceiros colcaram tais informações no currículo do pesquisador a fim de prejudicá-lo com este escândalo, algo que pode ter acontecido (será?).
Espero que tudo seja esclarecido rapidamente e providências sejam tomadas pela USP e pelo CNPq, que admnistra a Plataforma Lattes, é muito triste ver mais um escândalo estourando na comunidade científica. Como disse um pesquisador daqui, a reputação é a única coisa que um cietista possui na carreira, se ela se for e se a população começar a duvidar dela, não sobra nada.
Fonte: Stoa

De lado 31: Transformer Owl

No blog de Ciências da Wired tem 10 vídeos de animais escolhidos pelo público. Um dos vídeos é de uma coruja sul-africana que tem os mais fantásticos displays que eu já vi! Já deve ser conhecida de todos (menos eu) ma saí vai:

A coruja tem este comportamento para tentar se livrar de corujas competidoras sem ter que lutar pelo território. Ela expande suas plumas para parecer maior do que ela é, tentando espantar seu oponente ou, nocaso de enfrentar um oponente muito grande, ela se contrai toda para evitar ser detectada. Note que, no primeiro caso, ela fica com os olhos bem destacados e, no segundo, ela contrai os olhos para evitar sua detecção!

O vídeo ainda ganha pontos pela edição feita pela televisão japonesa.

Vá no post original para mais 9 vídeos!

De lado 30: em defesa da liberdade de expressão

O fantástico Neil Gaiman[bb], em seu blog, responde a um leitor a razão pela qual ele defende incondicionalmente a liberdade de expressão. É uma resposta longa mas este trecho dá uma idéia da resposta:

Freedom to write, freedom to read, freedom to own material that you believe is worth defending means you’re going to have to stand up for stuff you don’t believe is worth defending, even stuff you find actively distasteful, because laws are big blunt instruments that do not differentiate between what you like and what you don’t, because prosecutors are humans and bear grudges and fight for re-election, because one person’s obscenity is another person’s art.
Because if you don’t stand up for the stuff you don’t like, when they come for the stuff you do like, you’ve already lost.

“Liberdade para escrever, liberdade para ler, liberdade para possuir materiais que você acredita valer a pena defender significa que você vai ter que defender coisas que você não acredita que que valham a pena ser defendidas, até cosias que você ache de mau gosto, porque leis são grandes instrumentos cegos e não diferenciam entre o que você gosta e o que você não gosta. Porque promotores públicos são humanos, rancorosos e têm que lutar pela reeleição*, porque algo obsceno para um é arte para outro.
Porque se você não lutar pelas coisas que você não gosta, quando eles vierem atrás das coisas que você gosta, você já perdeu”
* promotores públicos são selecionados por votação nos EUA.

Sobre o ranking Vestibular e outros indicadores II

Agora que a história do ranking BlogBlogs já se acalmou, vamos acender a fogueira discutindo um ranking realmente importante: o vestibular. Não vou fazer uma análise detalhada, necessitaria de um livro para isso. Vou me ater mais ao exame da FUVEST, que seleciona alunos para a USP, que é o que experimentei e acompanhei nestes últimos anos (sou regionalista sim!).
A idéia do vestibular é simples: há mais candidatos para se entrar na USP do que vagas. Como as universidades gostam de alegar que funcionam através da meritocracia, nada mais natural selecionar os melhores candidatos para as escassas vagas da Universidade. O problema é óbvio: quem são os melhores candidatos? Quais INDICADORES devemos utilizar?
O indicador escolhido foi o de performance em uma série de provas: uma de múltipla escolha, uma redação e algumas provas dissertativas, que variam com a área. De acordo com este indicador, alunos com as maiores notas são os melhores candidatos para estudar na USP.
No texto anterior, digo que um bom indicador correlaciona-se com a qualidade que ele reporta. No caso do exame da FUVEST[bb], quem tem maior nota deveria tender a ser o melhor universitário e, futuramente, o melhor profissional entre os candidatos. No entanto, a capacidade de se fazer uma prova é uma habilidade pouco utilizada na vida de um profissional (fora os concursos), além disso a prova não mede características do aluno como comprometimento com a escolha, maturidade, motivação, independência, criatividade, iniciativa, etc. Estas sim, necessárias para qualquer profissional.
Também digo no texto anterior que todo indicdor pode ser burlado e isso obviamente acontece no Vestibular. Não há motivos de se desconfiar de fraudes no exame mas muitos candidatos são treinados para fazer o exame durante o seu Ensino Médio e nos cursinhos. Cursinhos, aliás, são a maior aberração mercadológica e pedagógica já existente! É o “Mamãe eu quero subir no ranking do BlogBlogs” elevado à um zilhão (atenção, zilhão não é um número existente). Uma conseqüência do vestibular é um favorecimento dos candidatos que tiveram mais tempo de treino e melhores centros de treinamento, levando à um desvio a candidatos com maior poder aquisitivo que não precisam trabalhar, por exemplo.
No fim, este indicador deixa de selecionar os melhores candidatos e passa a selecionar apenas os que tiveram mais tempo/dinheiro/adestramento para ir bem no teste. Não digo que ele seja totalmente injusto mas ele não cumpre o seu papel de modo correto, além de provocar desvios pedagógicos horríveis no Ensino Médio (e cicatrizes psicológicas brutais nos candidatos). É um indicador falho, portanto.
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Decidi terminar o texto antes de começar a falar demais, por favor, coloquem pontos pertinentes nos comentários. A discussão vai ser boa!
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Qual seria o meu método de escolha de candidatos? Eu faria um exame que pedisse uma redação, tivesse problemas de lógica e perguntas de interpretação de texto. Todos que tirassem uma nota mínima teriam o direito de concorrer a uma vaga na universidade. O critério de seleção seria o mais democrático possível: sorteio.
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Não quero contaminar a discussão sobre indicadores com outro tema polêmico mas vou me arriscar. Um dos argumentos contra as cotas raciais ou de classe social é a de que é uma violação da meritocracia ou que o ensino na universidade vai piorar. Não concordo com ambos argumentos por que isso assume que o vestibular é um bom indicador de qualidade do aluno. Há pesquisas, aliás, que mostra que cotistas tendem a se sair melhor nos cursos, talvez para fugir do estigma de cotista mas também pela motivação e senso de responsabilidade (e pela leniência dos não-cotistas, prontofalei).

“Eu estava perdido e me encontrei”

“Você sente que a sua Vida está fugindo do controle?

“Deixe-me falar do meu deus.”

“A culpa é dos pingüins assassinos que controla o mundo.”

“Está tudo conectado!”

Existem pesquisas que sugerem que a percepção de falta de controle pessoal faz as com que pessoas percebam padrões inexistentes ao seu redor. Além disso, sentir-se fora do controle faz com que as pessoas subestimem o papel doa caso em suas vidas. Acredita-se que existe um mecanismo psicológico que nos faz buscar ativamente a sensação de controle, se a sensação de controle interno é baixa, acabamos procurando padrões externos na tentativa de sentir-se sob controle novamente.
Evidências deste mecanismo pode ser observadas em pára-quedistas antes de saltar, que percebem mais imagens quando mostrados figuras com ruído – como a estática de uma televisão – do que em qualquer outro momento. Da mesma forma, jogadores de baseball que atuam em posições que dependem mais de outros jogadores acabam tendo mais tiques de superstição do que outros.

"Vc não vê Jesus?" Foto: theogeo at FLICKR

"Vc não vê Jesus?" Foto: theogeo at FLICKR


Em um experimento, cientistas criaram artificialmente de ausência de controle pessoal dando feedbacks aleatórios após o término de tarefas. Ao pedir que ambos grupos detectassem padrões em 24 cartões contendo ruído (sendo que 12 continham padrões reais e 12 não continham), ambos grupos encontraram padrões nos 12 cartões que realmente continham padrões reais. No entanto, ao se mostrar cartões imagens sem padrão, o grupo que recebeu feedback achou padrões ilusórios em cerca de 5 cartões enquanto o grupo que não recebeu feedbacks encontrou padrões ilusórios em apenas 3.
Em um outro experimento, foi pedido que os grupos se lembrarem de experiências em que suas vidas se encontraram em perigo e se manipulou a percepção de controle sobre a resolução destas situações. Ao se mostrar 10 cartões com bolas pretas dispostas aleatoriamente, o grupo que se sentia sem controle achou padrões em 3 cartões enquanto o grupo que se sentia sob controle achou padrões em apenas um. Além disso, ao se oferecer mostrar dados que sugeriam conspirações, o grupo que se sentia sem controle mostrou-se mais inclinado a acreditar na real existência de conspirações.
Estes experimentos sugerem o por quê há um aumento na crença de superstições (como horóscopo) em tempos de crise financeira, como atualmente. Também explicam o por quê as pessoas exigem governos mais fortes em épocas de guerras ou terrorismo ou a conversão de presos à prática de religiões: o sentimento de falta de controle faz as pessoas acreditarem em um universo mais simples e estruturado (e também mais previsível). Este mecanismo pode ser adaptativo pois pode diminuir o sentimento de ansiedade e aumentar a a em épocas de incertezas.
Seria interessante medir se pessoas que acreditam em um universo caótico, com forte influência do acaso (ateus, por exemplo), possuem um alto sentimento de controle pessoal. Este sim seria um indício dos benefícios da ausência de deus.
Fonte: Strange Loops, Science

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