Por que não existem insetos no mar?
Outro dia, em um momento de iluminação, percebi que não há muitos insetos marinhos por aí (ouso a dizer que não existem mas a Biologia adora exceções). Intrigado, fui tentar descobrir o porquê. Já aviso que este é mais um daqueles posts cheios de especulações e achismos que deve estar cheio de maluquices e meias-verdades tiradas dos macaquinhos do meu sótão.
Vamos aos fatos: os insetos são o grupo de animais mais bem sucedidos no ambiente terrestre. A combinação da metamorfose, vôo, metabolismo baixo e polinização explicam parte da enorme diversidade de insetos que encontramos fora do mar. Em ambientes marinhos, no entanto, os artrópodes dominantes são os crustáceos, grupo dos camarões, siris e lagostas. Apesar de existirem crustáceos terrestres (tatuzinhos de jardim) e aracnídeos marinhos e terrestres, não há insetos marinhos. Eu creio que esta é uma conseqüência da história evolutiva deste grupo.
Os primeiros insetos devem ter surgido uns 400 milhões de anos atrás, no período Devoniano. Este período foi caracterizado pela conquista do ambiente terrestre por vertebrados e artrópodes, seguindo o caminho trilhado pelas plantas no período Siluriano. Nesta época, os crustáceos já dominavam os mares e os insetos acabaram conquistando o ambiente terrestre por falta de competidores. Isto explica, no entanto, somente por que os insetos não eram marinhos no começo, no entanto depois eles poderiam ter voltado ao mar e reconquistado os seus nichos, assim como baleias, focas, etc.
Um dos motivos dos insetos nunca terem voltado ao mar deve ser alguma limitação fisiológica. Uma delas é o seu sistema respiratório, baseado em canais espalhados pelo corpo do animais pelo qual o ar entra. Este sistema não permitem insetos viverem em profundidades muito altas, uma vez que eles necessitam do oxigênio do ar. Porém existem insetos de água doce que possuem estratégias próprias de sobrevivência que poderiam ser aplicados no ambiente marinho.
Uma outra razão para os insetos nunca terem invadido os mares são que dois de seus triunfos: o vôo e a polinização, não funcionam no mar. O vôo, por motivos óbvios. A polinização por que não há plantas com flores no mar (por que não há plantas com flores no mar? próximo post, talvez?). A ausência de flores no mar, cuja associação com os insetos explica o sucesso evolutivo de ambos grupos, explicaria a ausência de insetos marinhos.
Uma última razão para a inexistência de insetos é a ação de predadores. Grupos que evoluíram concomitantemente com os predadores, como os crustáceos e aracnídeos, teriam estratégias para evitar a predação enquanto insetos, recém chegados ao ambiente seriam comidos rapidamente.
No fim, a pergunta no início do post é mais uma que vou ficar devendo uma respsota. Independente da razão para o grupo com maior número de espécies entre os animais estar excluído no maior ambiente do planeta, é algo a se pensar. A evolução das espécies neste planeta tem muito mais histórias para serem descobertas.



Discussão - 20 comentários
Amigo biólogo, não li os comentários para ver se já falaram alguma coisa, mas existem insetos marinhos sim.
Veja: http://www.springerlink.com/content/j3t2765311878268/
Está certo que vivem predominantemente em zonas costeiras, mas existem espécies pelágicas.
Att,
Felipe A Ribeiro
Muito interessante essa discussão no blog. Vou fazer algumas colocações:
1) Existem tipos de respiração que permitem aos insetos aquáticos captarem o oxigênio disperso na água (ex.: plastrão, respiração cutânea e traqueobrânquias).
2) Alguns insetos são marinhos (representantes da família Chironomidae e de das ordens Hemiptera, Coleoptera e Trichoptera), mas são de poucas espécies e restringem-se à região litorânea.
3) Há insetos que passam a vida toda na água: Hemiptera de várias famílias (Belostomatidae, Nepidae, Pleidae, Helotrephidae etc.), algumas vespas (Hymenoptera) e besouros (Coleoptera), por exemplo.
Abraços.
Os insetos de fatos anivel terrestres são os filos mais abundantes, mas existe sim insetos no mar claro que não abundante como no meio terrestre mas se tratando de biologia não pode-se afirmar este fato pois faço um levantamento sobre Halobates e constatei sua presença em região nerítica (ambiente marinho)em Alagoas. Atencisamente Bióloga.
gostei muito de suas colocaçoes, a biologia é o amor de minha vida, e a química minha paixão, lógico, depois de meus filhos.
Gosto muito de pesquisar .
Excelente discussão, Carlos.
Acho que o Kim tocou num ponto chave. Acredito que os insetos ainda não ocuparam o ambiente marinho, pois sua reprodução depende da fase adulta, quando ocorre o comportamento, reprodutivo, cópula, etc, tudo adaptado ao ambiente terrestre. Acho uma tremenda restrição evolutiva (apesar de não conhecer nenhum jeito de mensurar este tipo de coisa).
Existe algum inseto aquático que passa todas as fases de sua vida sob a água, e não apenas a fase larval? Se não existir (improvável) pode ser uma forte evidência de que o ciclo de vida dos insetos teria esta restrição evolutiva (apesar de não justificar o fato a ausência de insetos marinhos).
Pensando assim, um inseto marinho poderia surgir de larvas que adquirem a capacidade de se reproduzir ainda no ambiente aquático. Como a idéia levantada pelo Kim. Caso ocorra algum dia, acho que este seria um caminho viável.
Certa vez aprendia a história do “Clunio sp”, um insetinho que vive apenas 2h, nasce na maré alta, copula, carrega a fêmea (não-alada) até algas vermelhas expostas na maré mais baixa do mês onde são postos os ovos, que eclodem 2 ciclo-lunares a frente e assim vai… não sei se essa espécie seria considerada marinha (acho que sim), mas os ritmos envolvidos e a associação ao ambiente marinho são fascinantes. E um exemplo de adaptação dos insetos neste ambiente. [historinha aqui
Toma tento! Escrevi um texto imenso sobre responsabilidades e similaridades de blogueiros e jornalistas, embora eu saiba que você foi irônico =) Deletei e só deixo isto: toma tento, busque fontes (plural, plural) e retome um assunto tão interessante!
Uma idéia jogada: algumas espécies (que me recordo, salamandras) nunca alcançam uma idade “adulta”. Não poderia ser o caso de insetos “presos” em estágio larval se adaptarem melhor ao ambiente marinho? Gostaria de saber mais sobre a respiração neste estágio para limar melhor a hipótese.
É Carlos, isso é bem verdade hehehehehe. As relações polinizador/planta são fantásticas!!! Acho que em “charme” só perdem para a relação parasita/hospedeiro…
Enfim, essa deve ser uma pergunta sem resposta nos dias de hoje… Ou talvez você seja o primeiro a se questionar profundamente sobre isso!!!
Concordo que a resposta à questão possa ser: não há razão para os insetos terem voltado ao mar, só não aconeteceu. Isso me satisfaria.
Vou pensar no negócio do email… mas isso é coisa de jornalista! Blogueiros não procuram fontes para suas postagens
Nilson, existem muitos insetos que perderam a capacidade de voar. Também existem insetos de água doce que sabem nadar muito bem. Acho que a resposta final é ainda mais difícil do que pensei.
Sempre tem uma leitora Malla para nos corrigir
Eu não consegui achar muitos detalhes dos dois mas desconfio que eles não vivem dentro da água, vivem? Vou tentar achar algo e postar depois.
Eu achoq ue a resposta é algo do tipo: “eles não voltaram ao mar porque os crustáceos já estavam lá”.
O vôo e a polinização foram dois fatores que aumentaram draticamente os nichos dos insetos, contribuindo para a sua “conquista” do ambiente terrestre. Digo polinização mesmo porque foi a coevolução com as plantas que impulsionou muito da diversificação dos insetos.
De fato ambos não impedem a colonização do mar mas tiram aquele “quê” a mais que os insetos têm.
O interessante das larvas é que muitas resistem à salinidade do mar, mesmo assim muitas podem ter sido presas fáceis dos predadores…
eu também adorei seu post sobre os vírus!
Quem não leu:
http://lablogatorios.com.br/eccemedicus/2009/01/04/a-dadiva-da-doenca/
Os insetos foram os primeiros animais a se adapterem ao ambiente terrestre, não é?
Pode ser que nem haja uma causa para a fato de nunca terem retornado ao ambiente marinho. Talvez seja uma contingência histórica. Simplismente surgiram poucas possibilidades na história da vida na Terra disso acontecer.
Claro que dai a pergunta vira “porque nunca surgiu a oportunidade” e lá vamos nós de novo…
Manda um email para algum entomologista, Carlos. Na minha experiência, os cientistas, mesmos os famosos, costumam ser bastante acessíveis.
Interessante essa questão!
Pelo meu achômetro, o fato de existirem insetos com fase larval aquática pode ser muito insuficiente p/ os insetos colonizarem os mares se não existirem algun(s) outro(s) salto(s) evolutivo(s); pois por exemplo, que eu saiba, muitos desses insetos são alados na fase adulta e se estes mantém as asas, é que essas são adaptativas (talvez a dispersão via vôo seja fundamental p/ a sobrevivência dessas espécies). Aliàs, o tamanho pequeno, somado com o sistema respiratório e a adaptação ao vôo talvez sejam boa parte das razões: grande profundidade (ex: 2 metros já, talvez, seja grande profundidade para animais tão pequenos) seria problema, pois elas teria que ter acesso sempre ao ar atmosférico, e, em alto mar seria “difícil” a vida dos adultos (como adultos alados poderiam se alimentar, descansar e realizar postura?). Vou discordar um pouco da Roberta: a adaptação para o vôo é de alto custo metabólico e, portanto, se isso é adpatativo evolutivamente, não faria sentido no mar dispender alto custo em algo não imprecindível como asas: para nadar, para quê asas que são de alto custo e, ainda por cima nenhum inseto aquático (que eu saiba) usa asas p/ nadar? Talvez a resposta para quase não ter insetos no mar, seria que teria que teria que haver grande salto evolutivo como ter que perder asas muito rapidamente (e toda a fisiologia relacionada) para poderem ser competitivos, somado com laguma questão fisiológica.
Carlos, tem 2 gêneros de insetos marinhos, os Halobates e Hermatobates:
http://www.publish.csiro.au/paper/MF9821109.htm
Mas é um “nada” se compararmos com a diversidade insetal terrestre.
Adorei suas elocubrações. Vc podia começar uma série assim…
Bem, em primeiro lugar, gostei muito do post. Talvez os motivos apresentados aqui sejam alguns dos quais podem ter influenciados os insetos a não habitar o mar, mas será difícil chegar a uma conclusão realmente acurada. De qualquer modo, você já deu o primeiro passo, agora é só continuar a caminhada =]
P.S.: Esperando o post sobre as flores marinhas XD
Cara, gostei muito das especulações!!! Entretanto, perdoe-me por meter meu bedelho de entomóloga, mas discordo de algumas afirmações suas (mas é para isso que servem os blogs, não é?! ehauehaue).
Assim, não acho que o vôo atrapalhasse numa possível reconquista do mar pelo simples motivo de que não atrapalhou na conquista da água doce por algumas espécies. Alem disso, as larvas de insetos holometábolos costumam viver em um ambiente completamente diferente dos adultos (pois diminui a competição intraespecífica). Larvas não têm asa, então, segundo esse raciocínio, nada impediria que larvas de insetos pudessem recolonizar o mar…
Alem disso, não cho que a polinização não seja tambem uma explicação. Veja bem, nem todos os insetos visitam flores. Alem disso, não consigo vizualizar um mecanismo em que a polinização impediria essa volta ao mar. Acredito que você esteja caindo num erro comum: confundir visitação floral com polinização. Para o inseto, a curto prazo, pouco importa se aquela flor foi polinizada ou não. O importante é coletar seu recurso. Por isso existem estratégias muito variadas. Se o inseto for especialista em determinada planta então características que favoreçam a polinização daquela espécie de planta serão bem sucedidas, serão evolutivamente estáveis naquela população. Entretanto, se o inseto for generalista, esse tipo de característica não será selecionada, uma vez que ele não depende daquela espécie de flor. Alem disso, nada impede que, em um determinado momento, com o surgimento de características favoráveis, o inseto não mude de fonte de alimento. Ex: existe um grupo de mariposas (africanas, acho) cujos machos simplesmente deixaram de se alimentar de néctar e passaram a se alimentar de sangue!!! E mariposas são classicamente conhecidas como insetos polinizadores e po aí vai… Por isso não vejo como a polinização vá impedir a volta ao mar.
Bem, de alonguei demais. Desculpa aí se meu texto estiver imcompreensível, tô morrendo de sono e posso já ter perdido parte da coerência hehehehehe.
Sensacional, Hotta. Tentar fazer esse caminho para todas e cada uma das doenças é meu sonho de verão.
Parabéns