Em defesa do doutorado no exterior

Existe uma discussão ganhando força sobre a validade do Brasil mandar alunos para fazer o doutorado no exterior. Existem muitos argumentos pró mandar jovens cientistas para o exterior assim como existem muitos argumentos contra. Neste texto, vou falar um pouco sobre a minha experiência no exterior e por que acho que ela valeu muito mais do que o dinheiro gasto pelo governo.
Eu fui aluno de doutorado na Universidade de Cambridge (Inglaterra) de outubro/2003 a setembro/2007. Nestes 4 anos, me especializei em ritmos circadianos de plantas, tópico de pesquisa praticamente inexistente no Brasil. Além disso, publiquei um artigo na Science, um na Plant Cell, uma carta na Nature além de mais três revisões e dois capítulos de livros. Me considero, pois, um caso de sucesso.
Obviamente não posso usar uma experiência pessoal para justificar um programa inteiro de fomento ao doutorado no exterior. A combinação de fatores que explica minha trajetória lá fora dificilmente podereia ser replicada repetititvamente. No entanto tenho que dizer enfaticamente que o que mais aproveitei da minha estadia no exterior não foi o engordamento do meu currículo: foi a mudança de visão de mundo resultante da minha exposição um mundo acadêmico diferente do brasileiro.
Durante meus anos na Inglaterra, pude ver laboratórios funcionando de forma totalmente diferente dos laboratórios brasileiros. Vi Departamentos organizados de formas novas, muitas mais eficientes. Lá de longe, tive a oportunidade de discutir Ciência com cientistas de culturas diferentes e com filosofias distintas da minha: de longe, também é mais fácil fazer uma auto-crítica de nossa Ciência. Este tipo de experiência, que não pode ser medida, me fez um profissional mais maduro, mais consciente do lugar da Ciência brasileira, de seus problemas e de suas possíveis soluções. Posso dizer com certeza que esse tipo de mudança nunca teria acontecido se continuasse no Brasil. Também não aconteceria se eu passasse apenas um ano lá fora.
Alunos de bolsa doutorado sanduíche, que passam um ano no exterior mas fazem o doutorado predominantemente no Brasil, não fazem parte da estrutura das Universidades que participam. Na minha experiência, eles fazem sua pesquisa mas não têm a oportunidade de ver com detalhe o funcionamento das insituições que visitam. A interação com os alunos também é diferente: você é alguém de fora e não um deles. Bolsas-sanduíches, na minha opinião, podem trazer os artigos científicos mas não são tão boas para trazer novas visões de mundo.
E por que novas visões de mundo são importantes? Porque elas diversificam o pensamento acadêmico no país. Elas trazem novas idéias, novos ideais. As Universidades sobrevivem disso! Uma Universidade que não busca se inovar, que se fecha para novas idéias, caduca, se degrada e perde o seu sentido na comunidade! Para evitar isso é necessário mandar jovens pesquisadores para todos os locais do mundo e para todos os locais do país.
Outro fator de uma miopia incrível é a exigência de se voltar ao país após o doutorado. Veja só: após o Brasil me financiar por quatro anos, pagando pelo meu aperfeiçoamento, a Inglaterra estava disposta a me manter por mais três anos. Uma maneira é pensar que eu produzia artigos científicos para a Inglaterra e não para o Brasil por mais três anos (cabeça de planilhas). Outra maneira é pensar que minha formação, como jovem pesquisador brasileiro, seria paga por estrangeiros!
Muitos devem ter pensado: mas daí você nunca mais iria voltar! Será? E se eu não voltasse, seria “um desperdício do dinheiro investido em mim”? Dificilmente. Se eu não voltasse, isso significaria que eu estaria fazendo sucesso no exterior. Isso abre portas para a pesquisa brasileira lá fora. Um colega que precisasse de uma colaboração no exterior teria um ponto de contato para acertá-la. Meu orientador disse que o departamento teve receio de me aceitar porque não sabiam da qualidade dos pesquisadores brasileiros mas que, depois da experiência que tiveram, estariam mais abertos para trazer mais jovens cientistas do Barsil, inclusive usando dinheiro deles. Achar que só pesquisa feita por brasileiros no Brasil valoriza o país é míope e revela um provincianismo danoso para as pesquisas no país. E não é necessário citar o caso do Dr. Nicolelis para dizer que muitos cientistas brasileiros no exterior buscam formas de ajudar pesquisadores no Brasil.
Outra desculpa usada para se cortar as pesquisas no Brasil é a tal fuga de cérebros. O que estas pessoas não percebem é que a pior fuga de cérebros que acontece atualmente é a dos jovens pesquisadores brasileiros desistirem da Academia! Quantos cientistas excelentes deixam de fazer pesquisa por falta de emprego ou falta de bolsas? Aposto um braço que este número é muito maior e muito mais assustador do que os cientistas que se refugiam no exterior. Mas é muito mais fácil dizer que é caro demais mandar gente para fora, é muito fácil dizer que somos auto-suficiente nas pesquisas. Balela! Ciência não é uma atividade regional. É uma atividade internacional! Temos que formar gente aqui E lá fora. Temos que fazer pesquisas relevantes para o país E para o mundo!
Eu voltei para o Brasil para realizar o meu pós-doutorado. Eu voltei e não me arrependo de tê-lo feito, principalmente porque vi o abismo que existe entre a pesquisa feita no exterior e a feita no Brasil (digo, em média). E digo que grande parte deste abismo não vem da carência de dinheiro (falta de dinheiro sim é um problema mas não nos tornaríamos uma potência científica se tivéssemos mais) mas sim da visão de mundo míope de muitos de nossos cientistas que, por diversos motivos, ainda tentam fechar as portas da Ciência do Brasil para o resto do mundo.
UPDATE: me esqueci de linkar, mas essa discussão foi provocada por uma cutucada do MHL

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Discussão - 22 comentários

  1. Josi Paz disse:

    devidamente favoritado.

  2. Oi Carlos,
    Em tempo: esta é a primeira de tuas “melhores postagens” de 2009 que eu li. Excelente. Concordo com você em todos os pontos. Fiz meu doutorado no exterior, na Bélgica. Fui contratado na USP em decorrência de um programa especial, na época criado pelo então pró-reitor de pesquisas, Dr. Erney Plessman de Camargo, no qual seriam contratados como professores candidatos que tivessem pelo menos doutorado sanduíche no exterior.
    A experiência no exterior é excelente para a formação acadêmica, cultural e pessoal. Recomendo a todos que queiram seguir carreira acadêmica, nem que seja na forma de um pós-doutorado.
    abraços,
    Roberto

  3. Excelente artigo. Os programas de intercâmbio universitário patrocinados pela Comissão Europeia receberam um aumento orçamentário de 56 %. A segunda fase do Erasmus Mundus está sendo lançada esta semana pela CE em Bruxelas. Com esta medida, a porta para estudar na Uniao Europeia continua aberta para os estudantes de paises não europeus, apesar da crise financeira na esfera europeia e mundial. Foram reservados 950 milhões de euros para bolsas de estudos dentro do programa de intercâmbio universitário. O ERASMUS MUNDUS esta com editais aberto para a seleçao de consorcios universitarios para realizar a gestao das bolsas que possibilitam a ida de brasileiros para estudar, pesquisar na Europa e a vinda de europeus para o Brasil.

  4. Gepeto disse:

    Carlos,
    Acho que no meu caso, serei o cérebro que vai fugir da pesquisa, ao passo que a minha noiva vai ser o cérebro que vai sair daqui e ir prá Londres fazer doutorado.
    Concordo com você em tudo o que foi dito…
    E, de lá, continuarei na Ciência, com o blog e novas idéias :D

  5. Sem falar, meu caro Carlos (ou amigo Carlão), que se o pesquisador não tem esse convívio com as realidades do mundo científico desenvolvido como ele pode ser inovador no aspecto business, por exemplo? Isso atravanca a própria absorção do contingente de doutores e cria, por exemplo, uma situação de falta de pesquisa pesada na Amazônia e abre brecha para a bio-pirataria. Para você ver como essa faltra de visão na direção da Ciência brasileira influencia em diversas áreasda nossa sociedade.

  6. Alékos disse:

    O conhecimento não pertence a uma nação ,e sim de toda humanindade,e busca desse conhecimento é uma categoria muito diferente do poder.

  7. david disse:

    Estou fazendo um pos-doc no exterior no momento. Pra corroborar com os argumentos a favor, minha chefe atual é brasileira, fez mestrado e doutorado nos EUA, com bolsa americana, e agora esta na França. E ela sempre esta disponivel para receber novos doutorandos e pos-doutores, vindo com bolsa brasileira é muito mais facil ainda, e a estrutura multidisciplinar do laboratorio que me encontro nao existe no Brasil. Se eu nao estivesse aqui no pos-doc provavelmente estaria fazendo concurso (nao necessariamente pra minha area, o q dessa forma jogaria fora muito do dinheiro investido na minha formaçao) ou dando aula em faculdade particular…

  8. E ae Carlos!
    Parabéns pelo artigo, ficou muito legal mesmo, passei alguns meses na Cornell University em Nova York e mesmo tendo ficado por aluguns meses quem já têm uma visão crítica de ciência percebe muitas das diferenças que você falou, mesmo que em uma profundidade menor, mas mesmo assim não deixa de ser “iluminador” eu diria.
    Com relação ao post, tem uma materia que saiu na Veja há algum tempo já, http://veja.abril.com.br/160708/p_070.shtml recomendo a todos!
    Abracos e parabens pelo blog! e pelo prêmio no Campus Party, os desertores votaram em você em massa!
    Foca

  9. maria disse:

    isis, depois de certo patamar profissional talvez a educação básica seja menos importante do que a que vem depois. não acha?

  10. Isis disse:

    Pois é. Eu tenho muita vontade de me especializar lá fora, mas minha área é ainda pior. Os casos que conheço de jornalistas brasileiros com mestrado ou doutorado em outros países aconteceram por convite das instituições estrangeiras. E voltar seria interessante? No Brasil não valorizam nem a educação básica!

  11. Sim! Tem mandar mais gente pra fora, principalmente aqueles que querem seguir linhas de pesquisa que ainda não existem no país.
    Seria maldade demais pensar que os que são contra isso estariam protegendo suas próprias linhas de pesquisas com medo de concorrer por recursos com aqueles “jovens arrogantes que voltam dos EUA e da Europa se achando”?

  12. Lukas Darien disse:

    Eu acho que o texto aborda questões bastante complicadas. Concordo que a ida ao exterior é necessária e benéfica à ciência Brasileira (como a vinda de extrangeiros para cá idem). Estou em processo de seleção para uma pós-graduação na espanha, em Educação. Existem núcleos de estudo em educação no Brasil que são referência nacional, mas acredito que essa experiência será interessante por outros aspectos.
    Contudo, eu não acho que seja mesquinharia que o governo, ao financiar o formação de qualquer um, exija uma contrapartida – seja em pesquisa, seja em fomento de cursos, seja no fornecimento de bolsas para estudar fora do país. Concordo que o ‘cérebro’ não deve ser nacionalizado, mas ai existe uma relação de colaboração que deve ser respeitada.

  13. Julio Lorenzi disse:

    Muito interessante o post. Estou exatemente nessa fase, entre o mestrado e o doc e cada vez mais penso em sair do Brasil. Pois sei que ao terminar o doutorado terei 2 opções: Concurso (poucas chances sem pós-doc) e Pos-doc, única opção aos recém doutores. Por isso ao mesmo tempo que procuro orientadores para o doutorado, também procuro emprego. Portanto o doutorado fora do pais poderia ser mais fomentado para que a desistência da ciência não fosse uma opção

  14. Daniduc disse:

    Artigo sensacional!
    (sidenote: É tão difícil explicar a mudança de visão de mundo pra quem não tem a experiência…)

  15. Carlos Hotta disse:

    Tem isso também! Eu ia mencionar isso mas acabei achando que ia entrar em outra área vasta… nem todo mundo que sai da academia sai da Ciência e isso também aprendi lá fora.
    Inclusive acho improtante que um país possua muitos doutores trabalhando com Ciência fora das universidades.

  16. maria disse:

    Concordo com você e amplio um pouco mais: não é absolutamente necessário permanecer na vida acadêmica para contribuir para a ciência.
    Eu fiz doutorado fora – em comportamento animal – e desisti da academia. Não por falta de estímulo intelectual, que tive de sobra ao longo do doutorado. Mas porque não era para mim.
    Seja como for, os anos que passei na universidade da Califórnia em Berkeley foram riquíssimos em aprendizado. Ter contato com pesquisadores de primeira linha do mundo todo. Aprender a integrar áreas diferentes do conhecimento, mesmo que fosse em bate-papos no corredor – coisa que vejo muito rara aqui no Brasil. Ver palestras (no mínimo duas por semana) das mais diversas áreas da biologia.
    Os contatos que fiz são para a vida toda. Muitos dos pesquisadores brasileiros na área de zoologia que eu conheço, conheci lá. Porque parece que todo zoólogo (sobretudo de mamíferos) tem que passar por Berkeley em algum momento. E também recorro com freqüência aos pesquisadores estrangeiros que conheci por lá.
    Tudo isso me deu ferramentas inestimáveis para virar jornalista de ciência. Espero ter razão em considerar que o investimento do governo brasileiro valeu a pena.

  17. Claudia Chow disse:

    Mesquinharia mesmo!
    Infelizmente o homem é movido por poder e deixar os “cérebros” “fugirem” seria perder poder…
    Absurdo total, mas a humanidade ainda nao aprendeu a ser assim tao altruista… Infelizmente!

  18. OLá!!
    Tinha tempo que eu não passava por aqui com calma ^^
    Mas tufo bem. Estes eu post me interessou muito, afina, estava eu lá em SP, no congresso brasileiro de meteorologia e um dos assuntos que pude presenciar foi este “grandioso” anuncio que espelhavam por lá, de que nosso doutorado já era auto suficiente e que não necessitaria de “exportar” mais ninguem daqui… achei muito estranho falarem isto, mas deixei passar…
    Agora lendo o seu post, percebo que a coisa tomou rumo… e olha … garantinho a permanencia de “seu braço” eu sou uma ex-aluna universitária que adoraria trabalahr com pesquisa, mas mnão encontro lugar (pelo menos aqui) para que eu trabalhe!
    E muito chato isto… mas é o que nos deparamos… mas torço, para que isto mude e as autoridades tenham mais paciência e olhos para os novos e já existentes pesquisadores.
    Abraços :)

  19. Paula disse:

    UAU!
    Estou impressionada!
    Você consegui colocar em um post todas as milhares de conversas que já tivemos sobre isso. E conseguiu juntar a opinião de várias pessoas, e os pontos mais importantes de cada uma das discussões.
    Impressive!

  20. Marcelo hermes disse:

    A ciencia é uma atividade do ser humano, que não precisa ser nacionalizada ou estatizada !
    Infelizmente o Brasil ainda está a milhões de anos luz atras no 1o mundo em termos de saber para que veio…

  21. João Carlos disse:

    Não me dei ao trabalho de ler as argumentações pró e contra, uma vez que eu tenho opinião formada sobre o assunto.
    “Cérebros” são preciosos demais para a humanidade para que tenham rótulos com bandeirinhas de países. E, pelo que tenho acompanhado no noticiário, a tendência é, justamente, a de internacionalizar o conhecimento, principalmente na área de pesquisa, por meio de colaborações entre as instituições.
    Esse pretenso “nacionalismo” é exatamente o que você diz: “miopia”. E eu vou até mais longe: “mesquinharia”.

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