A notícia é meio velha e as fotos do "peixe com cabeça transparente" já dominaram a rede. Eu pensei em postá-las mas vou confessar uma coisa: eu não conseguia entender nada nas fotos. Se você também não entedeu o peixe de "olhos tubulares" mas gostaria de entender, este é o seu post.
Primeiro vamos tentar entender o que é o que no peixe, que eu não tinha conseguido entender até hoje de manhã. O Macropinna microstoma já é conhecido desde 1939. Ironicamente, a capa protetora do peixe nunca havia sido descrita, uma vez que ele sempre era destruída ou se colapsava nas redes de pesca. Veja abaixo uma ilustração feita em 1995:
A ilustração ajuda a entender os tais olhos tubulares do peixe. Por mais estranho que seja, olhos tubulares não são considerados grandes novidades: muitos outros peixes possuem tal característica. Os olhos tubulares ajudam a captar mais luz sem aumentar muito o tamanho do órgão. Eles também permitem uma melhor percepção de profundidade, apesar de diminuir bastante o campo de visão.
Na foto abaixo, obtida a aprtir de um video produzido pelo Monterey Bay Aquarium Research Institute, é possível ver duas esferas verdes debaixo da capa transparente do peixe: estes são os tais olhos apontados para cima (e não as grandes narinas logo acima da boca que eu achei que eram os olhos...). Estes olhos possibilitariam o peixe a ver presas que nadam acima de seu corpo. No entanto resta a grande dúvida: se os olhos estão voltados para cima, como é que eles vêem o que estão comendo?
Daí que vem o pulo do gato, que você lê no press release mas não é mostrado! Os olhos verdes e tubulares do peixe podem se mover e ficar para frente, na direção da boca! No artigo publicado no periódico Copeia, podemos ver os olhos mudando de posição:
Os pesquisadores acreditam que esta é uma forma de se aproximar da presa por baixo sem tirar os olhos dela. No vídeo do peixe é possível ver como ele usa suas imensas nadadeiras para se manter quase imóvel no mar e para manobrar.
E olhos verdes e tubulares, escudo transparentes, boca pequena, nadadeiras grandes servem para quê mesmo? Simples: comer águas-vivas! O Macropinna microstoma vive em uma profundidade onde chega pouca luz solar. Nestas profundidades existem zilhares de organismos bioluminescentes, inclusive certas águas-vivas. Os pigmentos amarelos do peixão, que deixam seus olhos verdes, filtram o que chega de luz solar e acabam ressaltando a bioluminescência dos organismos. Daí o peixe fica lá, olhando pro céu até ele ver uma água-viva bioluminescente fluturar por cima de sua cabeça. Quando isso acontece, ele começa a usar as suas nadadeiras para direcionar a sua boca para cima, sem tirar os olhos do prêmio. Ao se aproximar, os tentáculos venenosos da água-viva podem até tocar o peixe mas a seu escudo transparente protege seus olhos. Todos os exemplares capturados possuíam cnidários em seus estômagos.
O vídeo abaixo, que ajudou a resolver muitos os mistérios do Macropinna microstoma, foi feito a cerca de 1500 m de profundidade:
B. H. Robison and K. R. Reisenbichler. Macropinna microstoma and the paradox of its tubular eyes. Copeia. 2008, No. 4, December 18, 2008. doi: 10.1643/CG-07-082
Fontes: MBARI News e Copeia
Fotos (em ordem): Fish Base. MBARI News, Copeia
Quando criança, eu sonhava estudar dinossauros. Hoje em dia tenho
outros sonhos mas ainda tenho brontossauros no meu jardim. Por 



Commentários (18)
Parabéns pelo artigo, esse peixo é muito interessante!
Escrito por: Max | fevereiro 25, 2009 6:27 PM