Em defesa do jornalismo científico
Após publicar dois editoriais sobre blogs de Ciência, a revista Nature da semana passada publicou uma detalhada reportagem sobre o declínio do jornalismo de Ciências e a ascensão de outras formas de se divulgar Ciência, principalmente os blogs escritos por cientistas.
Se você é um leitor frequente deste blog, você deve ter visto algumas reclamações minhas sobre jornalistas falando de Ciências. Você deve pensar, portanto, que eu, como cientista que bloga, deveria estar feliz com a morte da “velha mídia”. Não estou.
Sim, eu critico o jornalismo científico preguiçoso encontrado em diversas empresas de notícias. Aquele jornalismo que apenas replica press releases sem um pingo de senso crítico. No entanto, eu morro de admiração dos jornalistas que fazem bem o seu trabalho: aqueles que cavam histórias, buscam fontes, checam dados e escrevem uma boa história. Creio que o jornalismo investigativo, um ideal longíguo nestes tempos de cut-and-paste e “feche quatro pautas para hoje”, é essencial para a divulgação da Ciência e blog nenhum vai conseguir substituí-lo.
O jornalismo investigativo que idealizo manda os repórters para acompanhar cientistas em suas expedições de onde eles podem escrever lindas peças sob a perspectivas do homem comum. Ele também pode ir atrás de matérias que exigem o levantamento de muitos dados e a entrevista de muitas pessoas. Os repórters podem conversar com suas fontes sem se preocupar se está perdendo tempo de bancada. Com isso, o bom jornalismo pode trazer notícias inusitadas, perspectivas novas, conceitos inéditos e imagens poéticas. Tudo isso dificilmente pode ser alcançado por um cientista que bloga sobre artigos científicos nas suas horas de folga! Eu não vou ficar madrugada adentro tentando entrevistar um prêmio Nobel, ou passar três semanas no Ártico para escrever sobre como estudar ursos polares, muito menos vou ficar horas e horas conversando com um especialista para entender uma nova descoberta: é necessário que alguém seja pago para isso.
Infelizmente sei que esta minha visão de jornalismo é praticamente inexistente hoje em dia. Redações ficam cada vez menores e as exigências sobre os jornalistas, cada vez desumanas. De repente, papagaiar um press relase é questão de sobrevivência. O repórter não é mais pago para investigar mas sim para produzir letras em colunas que serão publicadas na edição seguinte ou para preencher o espaço online que não foi vendido aos anunciantes.
E o que me preocupa é que enquanto nós, blogueiros, celebramos nossa “vitória” sobre as velhas mídias, não percebemos o vácuo deixado pelo grande jornalismo, aquele que traz histórias humanas que serão lidas por milhões de pessoas com diversos interesses e não alguns entusiastas leitores de blogs.
Por isso, dois dias após destilar meu desdém por um certo tipo de jornalismo, venho expressar minha admiração pelos jornalistas científicos que lutam contra seus superiores para nos trazer histórias que não estão nos press releases. Um brinde!



Discussão - 10 comentários
JBC = Journal of Biological Chemistry, conhecido pelo jargão hermético em seus artigos.
)
(Eu nitidamente não estou treinada para meu primeiro ponto do comentário acima, como pode perceber, Carlos.
Dois pontos:
1) Será q, já q estamos (infelizmente) na era dos press releases, não seria a hora dos cientistas tb fazerem sua parte e se esforçarem a escrever um pouco melhor/mais entendível seus press releases? Ou pelo menos revisar o terceiro q faz este trabalho…? (Daí puxa outra discussão: somos treinados para tal?) Digo isso pq já tive alguns press releases na mão e sinceramente, muitos deles, parecem abstracts de artigos pro JBC, de tão cheio de siglas indecifráveis e jargão q só o pesquisador da área específica entende. Ao ver um press release desses, sinceramente, fiquei com pena do jornalista q iria ter q fazer limonada daquele limão seco.
2) Este apenas um fato do mercado de “vida selvagem” que a crise exacerbou (mas q já era um trend há algum tempo no ramo): até mesmo as grandes sociedades fomentadoras de “pesquisa”/divulgação não relacionadas ao governo (tipo National Geographic, WWF, etc. q são o grosso da “divulgação” para o público geral) estão cada vez mais comprando vídeos já feitos por alguém (via agências de estoque de imagens tipo Getty). Pois não têm mai$$ condiçõe$$$ de investir num jornalista para ir a campo fazer o trabalho investigativo de dado assunto relacionado à ciência. Há um boom neste momento no mercado para videógrafos. Mas há um downsizing preocupante para os jornalistas q trabalham na área, q se limitam cada vez mais à redação.
Food for thought.
Dedalus, como dizia uma propaganda da Folha (ou será Estadão?) um jornal são vários jornais. Política, opinião, cultura, economia, cotidiano, televisão, ciência (ou tecnologia), internacional e por aí vai. É a visão supermercadológica do mundo, com os fatos distribuídos em gôndolas. Esta categorização dos fenômenos (que o Karl, do Ecce Medicus, não me critique por falar em essências) é de uma ingenuidade epistemológica alucinante. Mas é simples, intuitiva e consagrada. É um exemplo de como a mídia impressa está essencialmente defasada. E de como a mudança deverá ser difícil e radical.
Mas não é tudo uma questão de visão e de nicho? Os jornais de hoje são direcionados não a informar pura e simplesmente a qualquer um, mas são sim direcionados para um determinado público, para um mercado bem específico. Pegue, por exemplo, o Agora e a Folha, que são do mesmo grupo: num há sempre uma “linda” foto na segunda página, no outro há opiniões chatésimas e parciais (são opiniões)… Para quem publica os jornais hoje, ciência não é atraente para o público que eles querem atingir, portanto é perda de tempo e papel publicar algo mais profundo sobre ciência. Já publicar textos de Slavoj Zizek é mais interessante, pois passa a imagem de que o jornal é sofisticado. Além disso, os jornalistas são educados para crerem que “falta à ciência novidade e relevância”, e não são só eles. A elite da nossa sociedade, de uma forma geral, vê os cientistas como “analfabetos funcionais” (eu li isso recentemente) ou técnicos de jaleco, meros empregados que só fazem algo interessante quando produzem alguma traquitana que vai facilitar/modernizar a vida das pessoas; logo, eles, cientistas, e seu trabalho, a ciência, são, para essa elite, tão interessantes quanto o encanador e a hidráulica.
Um abraço!
Simplesmente sensacional!
Às vezes, algumas pessoas acham que criticar um tipo de jornalismo é igual ser contra ele – mas muitas vezes só estamos cobrando qualidade.
Excelente.
“Redações ficam cada vez menores e as exigências sobre os jornalistas, cada vez desumanas.”
Isso define muito bem o que está acontecendo, de maneira generalizada, no mundo de hoje em todos os setores. Estamos matando talentos, oportunidades, possibilidades, enfim, inumeras coisas em troca de uma produção em massa e cada vez mais pausterizada.
Mas devemos aproveitar veiculos como blogs, para gerar mais e mais uma massa critica, a fim de resgatar a qualidade do potencial humano.
Concordo com você. Os jornais como existem hoje devem mudar a forma de lidar com a notícia. Eles não conseguem competir com a Internet em termos de agilidade. Talvez se eles investissem em profundidade…
Eu acho, sinceramente, que o tipo de jornalismo que você propõe precisa de outra mídia. Talvez o livro ou o documentário, mas não o jornal impresso diário.
É uma questão de relevância. Para a sociedade – e o critério de noticiabilidade envolve sempre o “para quem” – a medida da ciência é seu resultado e não seu processo. Ensinam isso na primeira disciplina de redação da Faculdade: a notícia não é a pesquisa, mas seu resultado. Tomemos, como exemplo, as surveys do Datafolha. O título e o lead são sempre algo como “Aprovação de Lula cai X ou sobe Y”. E nunca “Aplicação correta da metodologia garante confiabilidade das pesquisas”.
A ciência, qua ciência, não tem o mesmo interesse da econômia ou da política ou mesmo do direito – já reparou que há sempre uma coluna jurídica no mais chinfrin dos jornais? Ademais, o espaço é limitado e varia de acordo com os acontecimentos (a novidade é outro critério de noticiabilidade).
Falta à ciência novidade e relevância para tornar-se um tema cotidiano no jornalismo. Curiosamente acontece o mesmo com as artes plásticas. Nos cadernos de cultura ninguém mais faz grandes reportagens sobre este tema. Ele desapareceu (a última grande onda foi durantes os anos 80) porque ninguém mais se importava com ela e suas “novidades” não mobilizavam mais.
Os blogs – de cientistas e jornalistas – fazem uma cobertura mais consistente e são orientados para um nicho. Por isso podem funcionar. Se o nicho deixar de ser nicho e tornar-se algo mais, aí, talvez, os jornais acompanhem. A Ruth de Aquino é só um sintoma desse estado de coisas.
Muito pertinente sua reflexão. Eu sou jornalista e concordo contigo.
Amo ciências, principalmente as biológicas, e amava jornalismo. Digo amava porque a realidade de uma redação é esmagadoramente frustrante. Não pense que não há jornalistas nessas redações simplórias dos releases loucos de vontade de fazer o jornalismo real, sair, pesquisar, acompanhar estudos e histórias… Mas são essas mesmas redações que fazem de tudo para matar o espírito nobre que nos alimenta
Não é à toa que cansei da profissão e hoje estudo quiropraxia.