Algo de podre na gripe suína…
Ontem foi um dia engraçado, o post onde eu dava as informações que achava relevante sobre gripe suína teve duas reclamações: uma me acusando de ser conservador e cauteloso demais e outra me acusando de ser sensacionalista e superficial. Não vou dar bola para nenhum, uma vez que estes posts servem só para repassar a minha visão dos acontecimentos, visão esta que carece do conhecimento de quem trabalha com vírus, medicina ou epidemiologia. No entanto eu presto atenção no que está acontecendo e digo uma coisa: algo não cheira bem.
O quadro oficial da Organização Mundial de Saúde é que houve apenas 7 mortes confirmadas de gripe suína no México a partir de 26 casos, 64 casos nos EUA, 6 no Canadá, 3 na Nova Zelândia, 2 no Reino Unido, 2 em Israel e 2 na Espanha.
28 April 2009–The situation continues to evolve rapidly. As of 19:15 GMT, 28 April 2009, seven countries have officially reported cases of swine influenza A/H1N1 infection. The United States Government has reported 64 laboratory confirmed human cases, with no deaths. Mexico has reported 26 confirmed human cases of infection including seven deaths.
The following countries have reported laboratory confirmed cases with no deaths – Canada (6), New Zealand (3), the United Kingdom (2), Israel (2) and Spain (2).
Este número contrasta em muito com os dados oficiosos, de mais de 1500 infectados no México, com 70 mortes e possivelmente mais de 100 infectados em Nova Iorque.
A diferença é que a OMS considera apenas os dados identificados molecularmente enquanto os dados oficiosos conta todo mundo que parece estar com a gripe suína.
Sinceramente não acredito em ambos.
Os dados da OMS dão a impressão que a organização anda com os olhos vedados. Que variedade de vírus é essa que infecta pessoas de 7 países diferentes a partir de apenas 26 pessoas no México? Só se o porco espirrou no meio do refeitório dos atletas nas Olimpíadas. Obviamente a OMS quer considerar apenas os casos oficiais mais soltar um relatório dizendo que só esses que valem, sugerindo que o resto deve ser desconsiderado, só diminui a credibilidade de uma instituição constantemente atacada. Eles deveriam, ao menos, reconhecer que o número de casos pode ser muito maior mas não: são irredutíveis quanto ao número final.
Agora vamos tratar dos números oficiosos de 150 mortes e 1600 infectados. Como disse ontem, estes dados também não batem: ou a gripe está matando demais ou o número de infectados é muito maior. O problema é que a gripe matou uma criança fora do México: uma criança, o que foge do perfil da doença. Sem contar que o número de casos suspeitos e confirmados progride mais lentamente do que eu esperaria de uma epidemia que cresceu rapidamente. Nos EUA, os casos confirmados sobem cerca de 20 por dia: ou está tudo sob controle ou este é o número de amostras que eles conseguem processar por dia.
O resultado final da minha análise é: não dá para saber o que está realmente acontecendo usando apenas dados oficiais ou apenas dados oficiosos. Nenhum deles condiz com o quadro geral. Na minha opinião, vamos ter mais alguns casos aparecendo pelo mundo mas não muitos e este vai acabar sendo mais um susto. É possível que esta variedade apareça mais forte depois, particularmente nos invernos de cada hemisfério, mas não dá para prever isto no momento. A única coisa que me preocupa é Nova Iorque…
Qual é a opinião de vocês?



Discussão - 7 comentários
“…Não vou dar bola para nenhum…” Maneira interessante de aceitar uma crítica. Ignorar!! as vezes funciona!
Abraços
Frank
É um grande problema não ter números em que se possa confiar. Mas acho que a histeria da população não deve interferir tanto nas pesquisas. Quer dizer, talvez inferfira sim, mas positivamente, liberando mais verbas para pesquisadores.
Importante mesmo é não ficar achando que o fim dos tempos está chegando e manter a cabeça fria.
Penso que a estatística ainda não ajuda a determinar até onde vai isso. Acho que os governos devem preparar o terreno para o pior, e rezar para que nada aconteça.
A minha opinião é que se ferraram todos aqueles que saíram correndo comprar anti-gripais e anti-virais para estocar em casa…
Ou não, já que vão servir para aliviar qualquer gripe.
Carlos, definitivamente não dá para acreditar nem em um, nem em outro. Enquanto os órgãos oficiais têm uma tendência a omitir fatos e/ou dados para evitar o caos, a imprensa faz de tudo para chamar a atenção. Com isso, muitas informações incoerentes são divulgadas e, geralmente, sem respaldo científico. Como já foi comentado, sempre quando a política e/ou a economia não estão bem, aparecem notícias catastróficas para desviar a atenção da massa. Infelizmente, essa é uma massa leiga. E, naturalmente, se nem os cientistas sabem exatamente o que está acontecendo, imagina a população? Não acho que você tenha sido conservador nem sensacionalista, afinal, esse assunto é polêmico mesmo. Nesse tipo de situação, só nos resta ser prudentes, nem “eufemizar” a situação, nem entrar em pânico. Acho que os blogueiros do scienceblogs estão fazendo um bom trabalho a respeito da notícia do momento. Na próxima crise, vai aparecer outra notícia…
concordo, no entanto uma situação como uma pandemia não permite esperar por mais números: é necessário interpretar os dados que existem e reinterpretá-los com novos dados. A questão não é estar certo mas sim saber o mais provável com os dados disponíveis.
pouca amostragem produz péssima estatística. Acho mais inteligente esperar por mais números.