Causos de laboratório I
Vou começar a série com o evento fundador da minha vida acadêmica. De quando eu fui marcado, à la Harry Potter, pelo destino (rs) para tornar-me cientista.
Quando eu tinha uns 10 anos de idade (ou menos, sei lá), meus pais me deram um kit de Química da Grow – ironicamente chamado Pequeno Alquimista ou Alquimia. Após ter feito o experimento de sangue para água para leite diversas vezes, esgotar os reagentes para se fazer aquela tinta vermelha que some e testar mil misturas nas lesmas de casa, fui em busca de experimentos mais sofisticados. Foi aí que entrou o tubo em U.
O tubo em U é um tubo de vidro com cerca de 0.5 cm de diâmetro e conecta dois tubos de ensaios, fechados por rolhas. Teoricamente, o tubo em U passa por dentro das rolhas para gases que saem de um tubo reajam com as substâncias presentes no outro tubo. Só que eu nunca vi o experimento na prática: enquanto eu empurrava uma das rolhas para o tubo passar por ela, o vidro quebrou, fazendo com que eu enfiasse um bastão de vidro quebrado na palma da minha mão. Esta foi a primeira vez que perdi sangue pela Ciência (infelizmente não foi a única).
O resultado foi muito sangue espalhado pela casa e uma cicatriz na palma da minha mão esquerda. Esta cicatriz, que ainda carrego e uso para distinguir entre direita e esquerda, acabou por selar meu destino: eu acabaria me tornando um cientista, provavelmente o Escolhido, pois eu carrego A MARCA.

Nãose esqueçam de me mandar os seus causos de laboratórios!
Causos de laboratório!
Depois de ler um post cheio de histórias de acidentes de laboratório, resolvi compilar causos engraçados, curiosos ou trágicos de laboratório. Qualquer um já teve um equipamento que pirou, um colega que quebrou, e vice-versa. Se você tiver uma história boa de laboratório, ou qualquer outra atividade científica, ou qualquer atividade relacionada, conte para mim, que depois compartilharei as melhores histórias!
Paramécios se comunicam por luz!

Protozoários são seres pouco conhecidos. Um dos mais famosos é o Paramecium, ser unicelular ciliado que muitos já viram sob a luz do microscópio. Ironicamente, a luz que nos permite ver tal ser também pode ser usado por ele para se comunicar com seus pares. É o que sugere um curioso artigo que saiu na PLoS ONE.
Na verdade, o artigo é bastante simples e gera mais questões do que resolve. O único autor cresceu populações diferentes de paramécios em recipientes de vidro ou de quartzo dentro de outro recipiente. O quartzo deixa passar todos os comprimentos de onda entre 250 e 450 nm enquanto o vidro filtra os comprimentos de onda abaixo de 350 nm.
De todos os seus resultados, acho que o mais contundente é o do experimento abaixo. O pesquisador colocou 5 paramécios no recipiente interior e mediu o seu crescimento populacional na presença (quadrados da direita) e na ausência de 25 paramécios no recipiente exterior (quadrados esquerda).

Curiosamente, ele observou uma queda na taxa de crescimento de paramécios quando eles estavam rodeados de outros paramécios separados por quartzo (quadrados brancos) mas não por vidro (quadrados pretos). Isso sugere que alguma informação é passada da população de 25 paramécios no recipiente exterior para a população no recipiente interior, fazendo com que sua taxa de reprodução diminua. Este sinal não é molecular, pois nem o vidro nem o quartzo permitem troca de moléculas e, se for eletromagnético (e deve ser) está na faixa filtrada pelo vidro, ou seja, é abaixo de 350 nm!
Bem, nenhuma céula é uma ilha e não é novidade o fato de paramécios conseguirem se comunicar, o que espanta é a possibilidade dessas células usarem ondas eletrormagnéticas, e não somente moléculas, como carregadores de informações.
Mesmo após do artigo publicado, ainda sabemos pouco sobre os mecanismos envolvidos nesta comunicação, prinicpalmente porque a tecnologia atual, ou a existente nos laboratórios de biologia, não permite a detecção de ondas eletromagnéticas tão fracas. O jeito é esperar para ver!
Fels, D. (2009). Cellular Communication through Light PLoS ONE, 4 (4) DOI: 10.1371/journal.pone.0005086
Foto: Proyecto agua
Vertebrados podem vivem sem hemoglobina?

Vertebrados são conhecidos por possuírem metabolismo alto que exige, entre outras coisas, um sistema eficiente de transporte de oxigênio para suas células. Este sistema, além de contar com um sistema de bombeamento e distribuição supimpa, conta com transportadores de oxigênio, como a hemoglobina, que garantem que este gás precioso chegue em quantidades suficientes à ponta do seu dedo mindinho de seu pé.
Por essa razão, é praticamente impossível imaginar um vertebrado que sobreviva sem transportadores de oxigênio… a não ser pelo fato de que existe sim um peixe, um grupo inteiro de peixes, que não possuem hemoglobina, ou mesmo mioglobina (ó Biologia, mãe das exceções). Estes peixes, da família Channichthyidae, são praticamente transparentes, razão pela qual também são ótimos para se estudar o desenvolvimento dos ossos. Mas como estes peixes sobrevivem?
Para começar, estes peixes vivem no aceano antártico, ou seja, sob águas que estão sempre abaixo de zero. Em águas tão frias, organismo nenhum consegue amnter um metabolismo muito alto, além disso, quanto mais fria a água, mais gases ela pode carregar. Ou seja, além do peixe usar pouco oxigênio, as águas antárticas possuem um teor mais alto de oxigênio.
E não é só isso: como o sangue não possuem aqueles sacos de hemoglobina chamados eritrócitos (ou células vermelhas), ele é bem menos viscoso que o sangue dos depois vertebrados, fluindo mais facilmente pelo corpo do peixe. Além disso, há trocas gasosas pelo pelo do peixe, um aumento no volume de sangue e, para completar, o coração consgeuem bombea mais sangue. Ou seja: como o sangue deste peixe carrega menos oxigênio do que um sangue que possui hemoglobina, este défict é compensado passando-se mais sangue pelo corpo.
O interessante é que todas estas adaptações sugerem que a perda da hemoglobina por este grupo foi uma perda mal-adaptativa ou seja, os primeiros peixes a perderem a hemoglobina provavelmente tiveram seu fitness reduzidos por esta mutação (mesmo assim deixaram descendentes). Seria interessante saber que adaptações neste peixe ancentral permitiram a sua sobrevivência e reprodução.
Near, T. (2006). A Genomic Fossil Reveals Key Steps in Hemoglobin Loss by the Antarctic Icefishes Molecular Biology and Evolution, 23 (11), 2008-2016 DOI: 10.1093/molbev/msl071
Fonte: Evolving Ideas
Como conheci os novos blogueiros
Hoje é dia de festa! Começamos a trazer a terceira (segunda?) leva de blogs para a nossa família.
O povo do Discutindo Ecologia me impressionou assim que ele voltou a blogar. O texto que primeiro me chamou atenção foi o de uma interação fungo-bactéria-besouro, um assunto sobre o qual eu ia escrever mas eles chegaram primeiro. Daqui a um tempo tento voltar ao assunto, pois é uma história lindíssima.
Conheci o Luiz Bento no I EWCLiPo onde percebi que seu gosto por uma boa discussão também existe cara-a-cara.
Também conheci o Mauro, do Você que é Biólogo, no I EWCLiPo. Já conhecia o blog faz tempo e só não recebeu um convite na estréia do Lablogatórios porque não tinha frequência alta de posts (e, na época, isso nos preocupava mais doq ue hoje).
Por fim temos o Reinaldo, grande jornalista nerd que vai escrever o Chapéu, Chicote e Carbono-14, sobre arqueologia. Conheci o Reinaldo quando fui apresentar o projeto do Lablogatórios (cerca de um ano atrás!) para um colega de escola, o Salvador. Eu pegava ônibus para voltar do Bandeirantes com o Salvador, que é editor da parte de Ciências do G1. Curiosamente, nunca conversamos muito sobre Ciências…
Sendo piegas mesmo, acho que o melhor desta viagem toda do Lablogatórios ao ScienceBlogs Brasil são as pessoas que atraímos às nossas voltas. Mal posso esperar para contar dos outros blogueiros que vão entrar nas próximas semanas…
Explicando a lagosta duas-caras

A imagem acima é espetacular. Uma lagosta que é metade esverdeada e metade vermelha. Muitos acreditaram que isso é coisa de espertinhos que tinham a intenção de pregar uma peça. Não é. Esta lagosta é natural, o que torna a precisão na qual ela é dividida muito mais espantosa. Tão legal quanto a imagem são os conceitos biológicos envolvidos na sua explicação.
Um pouco sobre as cores das lagostas
Antes de mais nada, acho legal tentar entender a tal lagosta. As cores das lagostas são o resultado da interação de três pigmentos: amarelo, vermelho e azul. A lagosta acima não produz o pigmento azul em seu lado esquerdo, provavelmente por não possuir um gene importante na sua produção. É possível encontrar lagostas totalmente azuis que não possuem pigmentos amarelos ou vermelhos.
O importante é notar que as cores de uma lagosta são determinadas pelos seus genes. Portanto, o lado direito e esquerdo da lagosta são geneticamente distintos! Chamamos os indivíduos que possuem células com genótipos diferentes de quimeras. A pergunta é: por que as células do lado direito da lagosta têm um gene que as permite fazer pigmentos azuis e as células do lado esquerdo não?
Um pouco sobre o desenvolvimento das lagostas
As lagostas, assim como outros artrópodos, têm o que chamamos de desenvolvimento embrionário determinado. Desta forma, quando o zigoto da lagosta se divide pela primeira vez, formando duas células, o lado direito e esquerdo são determinados, ou seja, todas as células do lado esquerdo da lagosta serão descendentes de uma das células e todas as células do lado direito serão descendentes da outra. Na próxima divisão, o lado de cima e de baixo são determinados e assim por diante. Portanto, se houver alguma alteração genética nestas primeiras células, somente uma parte do animal vai possuí-la.
O caso da lagosta bicolor mostra exatamente isso que expliquei acima: alguma alteração genética logo depois (ou durante) a primeira divisão celular da lagosta fez com que um dos lados da lagosta não produzisse pigmentos azuis, deixando-a vermelha. Falta apenas uma única peça: que alteração genética poderia ser?
Animais ginandromorfos e companhia
Uma possível alteração genética que levaria à condição da lagosta acima é a chamada não disjunção. Uma não-disjunção ocorre quando ocorre um erro na divisão celular e uma célula recebe duas cópias de um cromossomo enquanto a outra recebe nenhuma.
No caso da lagosta, a não-disjunção aconteceu na primeira divisão celular (a que estabelece o eixo direito-esquerdo) com um cromossomo que possui um gene essencial para fazer o pigmento azul. Neste caso, o lado vermelho da lagosta ficou sem este cromossomo.
Muitas vezes não notamos quando acontece uma não-disjunção em um artrópode porque ela não resulta em um fenótipo observável. Os casos mais sensacionais são quando uma espécie de artrópode tem machos e fêmeas diferentes e a não-disjunção acontece em cromossomos sexuais. Temos casos de insetos com metade das partes sexuais machos e metade fêmeas! Chamamos estes casos, que podem ser observados abaixo, de ginandromorfismo.

É claro que é possível que tenha acontecido uma mutação no gene do pigmento azul bem entre a primeira e segunda divisão celular mas a hipótese da não-disjunção é a mais provável.
Pouca gente sabe mas pode acontecer exemplos de não-disjunção em humanos. Os casos mais famosos são a trissomia do cromossomo 21, que causa a síndrome de Down. Ela aconetece quando um óvulo ou um espermatozóide sofre não-disjunção e duas cópias do cromossomo 21 se unem a mais uma cópia do cromossomo para formar o ovo. Ainda existem casos de pessoas XXX, XXY e todas as outras possibilidades.
Fotos: borboleta, Heteropteryx, mariposa e siri
Adeus Prof. Pavan!
Acabei de saber que o Prof. Crodoaldo Pavan, um dos pioneiros da genetica brasileira, faleceu hoje a tarde.
Eh uma perda enorme para a Ciencia brasileira.
Desafio do Beakman: um banho de agua fervente
Ficarei fora ate depois do domingo, ate la, sem resposta ao desafio. rs
Alguns comentarios:
- a lagosta nao sofreu modificacoes antropicas, ou seja, nao foi coisa de cozinheiros meticulosos ou produtos magicos
- nao sei o time da arteria pulsante da lagosta
- algumas pessoas comentaram que a lagosta eh uma quimera. Estas pessoas estao certas mas isso nao explica por que ela eh metade de uma cor e metade de outra. Quero mais detalhes!
- sim, eu nao sei a resposta completa, soh uma ideia do que aconteceu.


