A progressão da gripe suína no Brasil
O número de casos de gripe suína no Brasil aumentou de forma alarmante nesta semana. O número dado pelo Ministério da Saúde é de 591 casos. Uma semana atrás, este número era de 180. O aumento do número de casos parece estar associado ao feriado de Corpus Christi (entre os dias 11 a 14 de julho), quando muitas famílias viajaram para locais como a Argentina e o Chile (1587 e 6211 casos, respectivamente). Para se ter uma ideia, cerca de 140 dos novos casos têm origem provável na Argentina, 17 do Chile e 26 dos EUA. Curiosamente, somente 6 casos vieram do México desde o começo da pandemia.
A principal preocupação atual é o início da infecção sustentada no país. Para adiar o que é inevitável, os procedimentos de cotenção do contágio devem ser feitos de forma coordenada, informando-se a população de risco, tomando-se decisões rápidas e evitando o pânico. O adiantamento das férias e cancelamento de festas por parte de escolas cujos alunos contraíram a doença pode ajudar. A parte preocupante é ler relatos como o levantado pela Maria Guimarães. Até agora foram pelo menos 117 casos de infecção dentro do país (26%). Semana passada eram apenas 24.
Após a fase de contenção, entramos na fase de mitigação onde a ação dos agentes de saúde e do resto do governo devem garantir que a população possua centros médicos preparados para receber os doentes e o progresso da epidemia seja retardado. Quando a gripe chegar forte no país, quantos casos poderemos esperar?
O Osame, usando um modelo exponencial, estimou 1 milhão de casos em 38 dias. Não acredito que seja tanto. Em dois meses de epidemia, os EUA e o México têm cerca de 7,1 casos por 100 mil habitantes. O Canadá, que está sendo seriamente afetado, está com 20 casos por 100 mil habitantes e, a Austrália, 13 casos por 100 mil habitantes. Isso quer dizer que seria razoável estimar um número entre 13.500 a 38.500 casos confirmados de gripe em dois meses (usando uma população de 193 milhões de habitantes). Contra estes números, tem o fator inverno. A favor deste número, tem as férias escolares. Considerando a taxa de hospitalização de 5% usada pelo Osame, precisaríamos de mil a dois mil leitos nos hospitais em dois meses.
O mais preocupante vai ser se a gripe não for contida em locais de demografia alta e baixo acesso a centros médicos, como em favelas. Nos locais mais afetados pela gripe, o número de casos chegou a 60 casos por 100 mil habitantes. Creio que podem acontecer desastres de saúde pública se não houver um acompanhamento especial destas áreas. Até onde eu acompanhei, dois tipos de pessoas morrem de gripe suína: as que já são vulneráveis a doenças respiratórias (seja por sistema imune debilitado ou infecções cardio-respiratórias) e as que não procuram atendimento médico a tempo (demorar mais de 5 dias depois do início da doença depois da piora dos sintomas). Portanto: se os sintomas piorarem, procure um hospital. Recomendação que funciona para qualquer tipo de gripe (e há várias circulando, eu e a Paula já pegamos umas 3 neste ano).
Falando em piora de sintomas, quais são os principais sintomas apresenatdos por quem tem gripe suína? De acordo com o Ministério da Saúde, temos 94% dos infectados com febre (e, se não me engano, acima de 38oC); 89% com tosse, 51% com dores musculares, 47% com coriza e 38% com dor de garganta. É importante se lembrar que gripe é uma doença comum nesta época seca e fria, portanto fique de olho nestes sintomas. Evite contaminar-se com a gripe e transmiti-la depois.
Espero que o progresso da gripe se assemelhe muito mais com o México, EUA e Japão do que no Canadá, particularmente Manitoba e Saskatchewan. A progressão dos casos no Chile, Argentina e Austrália também não estão muito animadoras. Ainda mais para mim, que tenho um congresso na Austrália voando pela Argentina, no começo de Agosto…
UPDATE (28/06/09): de acordo com a BBC, o CDC anunciou que tem 27.717 casos confirmados nos EUA e cerca de 3 mil hospitalizações e 127 mortos. Eles estão trabalhando com um número de um milhão de infectados. Os meus números e do Osamme podem estar igualmente errados/certos. A propósitos, a Argentina tem 26 mortos em 1.587 casos. Preocupante.



Discussão - 14 comentários
Não, a ministra anterior é que fez isso (aparentemente por imposição da presidenta) e acabou se demitindo. Este é um cara corajoso, afirmou que já existem mais de 100.000 casos na Argentina e está brigando com a presidenta…
Entretanto, mesmo que o governo quisesse distribuir mais Tamiflu, ele não poderia, por ter apenas um estoque de 10.000 tratamentos. Então, tanto a história da compra de 800.000 tratamentos (que não se concretizou) como a de materia prima para 9 milhoes de tratamentos (cuja produção não pode ser feita porque a tecnologia de sintese (complicadissima) e as patentes não foram liberadas pela Roche para o Brasil) foram apenas conversas para boi dormir…
Se o governo não tem como fornecer Tamiflu (o que já está causando reclamações das secretarias de saúde no Rio Grande do Sul), então não tem sentido ele dizer que o motivo é para evitar o surgimento de cepas resistentes, não é mesmo? O verdadeiro motivo é que o estoque é limitado: ponto.
E dada a politica de distribuição massiva na Argentina, se for para surgirem novas cepas no continente, elas se darão em nosso vizinho (e virão para cá), de modo que essa racionalização é também inútil na prática…
Se este é o mesmo cara que não brigou até as últimas pelo adiamento das eleições, que tem mascarado os dados da Argentina e tem demonstardo uma certa falta de preparo para combater a doença, eu continuo com a minha opinião.
Carlos, neste caso então alguém deveria avisar o ministro da saude da Argentina. Do La Nacion de hoje:
Manzur dijo ayer que en lo que va del año se calcula que los infectados por influenza en el país son 320.000 y de éstos unos 100.000 serían por el nuevo virus. “Estamos infiriendo en base a datos epidemiológicos que nosotros tenemos, ya que no hay 100 mil casos confirmados por laboratorio porque eso es imposible de confirmar”, dijo el ministro y reiteró que la tasa de mortalidad debe calcularse sobre los casos reales.
“En el día de ayer empezamos a distribuir la droga (antiviral) en forma masiva en todas las provincias argentinas, ayer 300 mil dosis, entre el martes y miércoles estaremos en condiciones de (distribuir) 500 mil dosis más”, expresó hoy Manzur en declaraciones a radio Mitre.
Osame,
contanção é impossível mas necessário para retardar o início da epidemia autóctone. Por que fazer isso? Para diminuir o tempode epidemia durante o inverno e para adiar uma possível saturação o sistema de saúde, por exemplo. Não ter esquemas de contenção é que nem aquelas mães que levam filhos para pegar catapora! Por que não etntar adiar um pouco o trauma de uma epidemia?
Repito mais uma vez: não é para dar tamiflu para todo mundo que pegar gripe suína! Vc já leu sobre os efeitos colaterais do remédio? Sobre o apareciemnto de cepas resistentes?
Carlos,
Na fase 6 da OMS e na fase 6 do plano de emergência do Ministério da Saúde, a ação recomendada é mitigar os danos (dar tratamento as pessoas) e não tentar evitar a disseminação da doença.
Querer evitar a disseminação do virus é identico a querer evitar a disseminação da gripe sazonal. Todo mundo sabe que isso é impossível.
Agora, parece que a negociação não foi para frente, a noticia sumiu dos noticiários. As negociações com a Roche para ceder patentes e tecnologia e fabricação do Tamiflu também não foram bem sucedidas.
A síntese do Tamiflu é altamente complexa, dê uma olhada. Isso valeria um post…
http://en.wikipedia.org/wiki/Oseltamivir_total_synthesis
Estimo que o Brasil tenha no máximo 11.000 caixas de Tamiflu (das 12.000 iniciais). O recomendável é usar duas caixas por pessoa. Então temos 6 mil tratamentos. O número atual de casos confirmados é 694 (mas o Ministério está soltando esses números muito lentamente) e o de casos suspeitos é mais de 1000.
Ou seja, o estoque do governo termina em duas semanas…
Então o Ministério da Saúde estava negociando a compra de mais doses apesar de ter os princípios ativos? Essa notícia havia me escapado. A Fernanda havia me alertado do estoque de princípios ativos mas não falou anda de remédios extra.
No entanto ainda mantenho que o Tamiflu não pode ser pensado como fundamental na luta contra a doença. O melhor mesmo é manter o povo informado e evitar a transmissão da doença.
Eu me referia a esta notícia:
Da Agencia Estado:
O Brasil está negociando a compra de 800 mil tratamentos prontos de Tamiflu, medicamento que pode ser usado para tratar pacientes com a Influenza A (H1NI), a gripe suína. A compra faz parte da estratégia brasileira de preservar ao máximo a abertura de um lote do medicamento adquirido em 2006, em forma de pó, suficiente para fabricar 9 milhões de doses. “Se permanecerem fechados, os estoques duram até 2016″, disse o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Gerson Penna. Foi ofertado ao Brasil um volume maior, mas o governo achou que o encomendado seria suficiente.
http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL1117013-5598,00-BRASIL+NEGOCIA+COMPRA+DE+MIL+TRATAMENTOS+DE+TAMIFLU.html
Os grupos de risco são as pessoas imunocomprometidas, crianças e idosos. O Tamiflu diminui a carga viral no organismo, podendo ajudar estes grupos a sobreviver. Pessoas que já têm o sintomas faz algum tempo não se beneficiam tanto pelo medicamento mas, de novo, a diminuição da carga viral pode ser fundamental.
Até onde eu sei, o governo tirou o Tamiflu do mercado para evitar leilões na sua venda, essas coisas.
A negociação com a Roche foi a de comprar lotes do princípio ativo do Tamiflu, que daria para se produzir muitas doses. De novo, até onde eu sei, o governo passaria a produzir os remédios quando fosse necessário.
Carlos, 87% das mortes nos EUA são de pessoas entre 5 e 50 anos. Quem são os grupos de risco?
Não estou entendendo algumas coisas na questão do Tamiflu. Você teria alguma idéia?
1. O Tamiflu só é eficaz se administrado até 48 horas após a contaminação. Mas o governo pretende usá-lo apenas nos casos graves. Mas para um caso se configurar grave, imagino que isso só acontece depois de 48 hs. Ou não?
2. Tamiflu é remédio tarja preta? Porque o governo tirou o mesmo do mercado? A explicação de que é para prevenir o surgimento de cepas resistentes ao Tamiflu parece mais uma racionalização: é verdade, mas não toda a verdade. Será que a verdadeira razão é que os estoques do governo estão muito baixos?
3. A notícia dada pelos jornais de que o governo teria comprado 800.000 caixas de Tamiflu é aparentemente falsa. O custo no mercado de uma caixa é de R$ 160. Se o governo comprasse com um super desconto, por R$ 100, seria necessária uma verba de R$ 80 milhões para comprar as 800.000 caixas. A única notícia sobre verba extra para a gripe suína foi a de R$ 140 milhoes aplicados na politica de contenção em aeroportos e fronteiras, e folhetos de propaganda.
Existe como checar isso? A Fernanda do Ministerio da Saúde aparentemente saiu fora do ar…
Eu ainda acho que estamos naquela fase onde o número de casos está bem próximo do número de infectados. O problema é que isso pode mudar de um dia para o outro. Esse é o problema dos dados oficiais, eles sempre dão “impressões” que pdoem estar bem erradas.
Os hospitais deveriam uar o Tamiflu com muita parcimônia: somente em pessoas pertencentes a grupos de risco para evitar o aparecimento de cepas resistentes como as descritas. Mesmo assim não acho que isso vai impactar significamente as taxas de mortalidade, visto que em muitos casos o Tamiflu não é tão importante assim (pois os pacientes procuram o hospital tarde demais, como no nosso caso fatal).
Carlos,
Como estamos no inicio da epidemia, acredito que o numero de casos confirmados reflete o numero total de casos. Ou seja, o número total deve ser menor que 2000.
Temos 627 casos confirmados e acredito que 100 deles precisaram de hospitalização (ou pelo menos de tratamento com Tamiflu). Isso dá os 5% que usei no post.
Agora, se o numero verdadeiro de casos estiver muito subestimado, então você estará correto. Você acredita que o número atual hoje seja dez vezes maior? Será que já estamos na fase de propagação autócne (ao contrário da propagação limitada enfatizada pelo Ministério da Saúde?)
O G1 acaba de anunciar a deteçao de uma cepa do novo virus que é resistente ao Tamiflu. Então, imagino que no futuro o que será importante será a taxa de mortalidade na ausencia de tratamento com antivirais, ou pelo menos, sem o Tamiflu.
http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL1211560-5603,00-EMPRESA+FARMACEUTICA+INFORMA+PRIMEIRO+CASO+DE+RESISTENCIA+DO+HN+A+REMEDIO.html
Osame, a taxa é 11 % dos dados confirmados e não dos hipotéticos 1 milhão, a mesma coisa vale para o número de mortos. Por isso o número de vagas nos hospitais deve ser menor do que o predito por vc e o número de mortos tb não é tão alto quanto vc mencionou.
Eu fico me perguntando sobre a eficácia de algumas medidas… Essa de antecipar férias escolares, por exemplo. É muito mais um “tirar da reta”, do que uma medida de contenção. A garotada de férias vai se reunir em shoppings, clubes, etc, e quem estiver contaminado vai continuar espalhando a doença…
Carlos,
É uma pena que não dá para cadastrar os blogs do Science Blogs individualmente no Technorati.
Como eu disse naquele post, a projeção de 1 milhão de casos é para casos estimados, não os confirmados, uma vez que a confirmação laboratorial não é possivel para grandes numeros (alem dos casos leves não comunicados etc).
O que eu fiz é acreditar que nessa fase inicial, o numero de casos confirmados equivale ao numero de casos reais, e projetar isso. A saturação (exponencial para curva logistica) só ocorre depois de 1 milhão de casos, imagino.)
Note que os EUA atingiram 1 milhão de casos estimados em cerca de 2 meses de epidemia, no período de primavera, e minha estimativa é similar a esse dado.
Note que 3000 hospitalizações por 27700 casos dá quase 11 por cento de taxa de hospitalização. Eu usei a taxa conservadora de 5 por cento de hospitalização.
Dado que 0,5% de mortalidade (cinco vezes maior que a gripe normal) e uma taxa de hospitalização dez vezes maior, eu não entendo as declarações dos jornais e do ministro Temporão de que esta é “praticamente” uma gripe comum. Uma ordem de grandeza não é “praticamente igual” nem para físicos…