Deixando a Ciência

Um artigo indicado pelo Ricardo Vêncio, e que chegou a mim por duas vias independentes, me fez lembrar algo que aconteceu quando eu estava no começo de meu terceiro ano de meu doutorado.
Quando você entra em Cambridge, você não entra como um doutorando: o seu status fica em aberto por um ano, quando sua produção é avaliada. Na época, uma alemã estava sendo avaliada pela banca, composta de dois professores do departamento, e não foi aceita como aluna de doutorado. Eles alegaram que ela não tinha as habilidades necessárias para se tornar uma cientista e sugeriram fortemente que ela ficasse mais alguns meses e saísse com um Mestrado (a alternativa era ela sair e pronto).
Lembro ter ficado muito chocado com a frieza com que tudo aconteceu: os avaliadores tomavam chá conosco todos os dias e sempre conversavam com a alemã. Como eles poderiam chegar um dia e falar que alguém não era competente o suficiente para conseguir um doutorado? Ainda mais com outros exemplos que eu havia conhecido?
O meu orientador explicou a política deles: deixá-la terminar o curso seria perda de tempo dela e do Departamento. Ela nunca iria tornar-se uma cientista pois não tinha as habilidades necessárias para isso. Ela saindo antes, a ajudaria a encontrar uma carreira mais adequada para o seu temperamento. Ele ainda falou: “Veja o caso de tal pessoa (que era ruim com um projeto pior): ela está terminando o doutorado dela e vai fazer o quê? Ninguém quer aceitá-la como pesquisadora e não sabe o qeu vai afzer da vida. Se ela tivesse saídontes, poderia ter conseguido um emprego fora da Ciência antes ao invés de empatar a vida dela aqui.”
No fim a alemã saiu com um Mestrado e entrou em um curso para tornar-se professora. Um tempo depois ela apareceu na cidade e parecia feliz: na Ciência, ela se achava inapta e precisava se esforçar demais para conseguir fazer coisas simples, o que a deixava triste e ansiosa. Como professora, ela estava mais confiante e feliz com o trabalho, que se encaixava mais com as habilidades que possuía.
Eu ainda estou no começo de minha carreira e posso dizer que muitas pessoas não servem para ser cientistas. É uma carreira difícil e nem pessoas com as habilidades certas conseguem ser bem sucedidas no final (serei bem sucedido no final? terei as habilidades necessárias). Depois do que aconteceu com a alemã sou mais favorável em ser duro com os aprendizes de Ciência no início para evitar que eles percam seu tempo no fim. Ficar passando a mão na cabeça deles “para incentivá-los” somente cria falsas expectativas.
Abro a discussão: incentivar pessoas que não servem para a Ciência a sair da área é correto?
PS: Eu tomei uma dura na minha avaliação de primeiro ano e ela me ajudou a me tornar um cientista melhor. Gostaria que fizessem isso com mais pessoas.

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Discussão - 25 comentários

  1. Considero o tema totalmente relevante. Quem conhece o mundo acadêmico brasileiro sabe que ele é quase tudo, mas muito pouco meritocrático. Da seleção e aprovação de alunos na pós-graduação às bancas que selecionam professores, boa parte do processo é personalista e fundamentado na politicagem – que não é o mesmo que ser político, porque isso toda ação humana o é.
    Usa-se o espaço público como se privado fosse. os cientistas brasileiros não são tão diferentes dos políticos – dos vendedores, dos operários, dos artistas, etc., – brasileiros. No Brasil, é comum acharmos que o Estado é uma grande vaca na qual todos podemos mamar “de graça”. Usa-se os recursos fornecidos pelo contribuinte como se não pertencessem a ninguém. Uma folheada básica na história da nação nos mostra a forma torta como nossa ética e moral foi construída.
    Entendo que uma praxis ética e de boa moral não implica em “passar a mão na cabeça” de ninguém. Acredito, mesmo, que sinceridade e critério contribuem para a qualidade das relações produtivas. Méritocracia é, exatamente, ocupar os espaços em função da capacidade para fazê-lo, e isso é bom: nos permite realizar nossas potencialidades como indivíduos, garantindo a todos o direito de ser aquilo que querem e podem ser.
    Quando conhecemos nossas possibilidades – leia-se habilidades e capacidades – e nossas limitações, sabemos o que podemos fazer e, por isso mesmo, queremos aquilo que está de acordo com o que somos. É importante saber que algumas limitações podem ser superadas, que algumas capacidades e habilidades podem ser aprimoradas; mas, é igualmente importante saber que outras não são! Além disso, ser limitado em uma coisa não significa ser limitado na vida!
    Por isso, sou favorável à sinceridade na condução dos processos de orientação, à seleção criteriosa de pessoas para qualquer coisa. Contudo, esse processo implica, sim, como diz o Ulisses, saber quando e onde fazer o que precisa ser feito, e a melhor forma para fazê-lo. Infelizmente, uma parte considerável dos nossos professores mal sabe dar aula, quanto mais orientar seus estudantes. Afinal, eles, os professores, são fruto desse sistema torto de seleção de pessoal que graça no Brasil.
    No mais, entendo que há cientistas e Cientistas. Como em qualquer área de atuação, há os que são medíocres, os bons, os excelentes e os geniais. Na ciência não é diferente. Mesmo no primeiro mundo, com toda a rigidez acadêmica, há cientistas medíocres, com produção inexpressiva. Aliás, um percentual muito pequeno da produção científica mundial atual tem alguma relevância, e todos sabemos disso. O critério da quantidade suplantou há muito o da qualidade e, infelizmente, isso não ocorre apenas no Brasil.
    Manter certa quantidade de alunos na pós-graduação, publicar o maior número de artigos possível, superar o número de mestres e doutores formados…são práticas universais na Academia hoje. Mesmo em Instituições celebradas do primeiro mundo há programas de pós-graduação que são mero “caça-níquel”, se pagar faz! A lógica dos números é um mal contemporâneo, permeia tudo: da produção artística à ciência, do contador de visitantes num blog à justificativa política para opiniões estapafúrdias…ninguém escapa!
    Gostemos disso ou não, no Brasil e no mundo, alguns mestrandos e doutorandos só servem para engrossar estatística, e ponto! Alguns servem para “servir” seus orientadores; outros para “cumprir tabela”…poucos servirão para a produção de algo relevante em suas áreas, e menos ainda para fazer um trabalho significativo na sala de aula. Para mudar isso tem que se mudar os critérios de avaliação das instituições, os processos de seleção de alunos e professores e de distribuição de recursos como bolsas, equipamentos, prêmios, pessoal, etc. Ou seja, tem que mudar a formação acadêmica, tem que mudar o sistema de ensino, tem que mudar os parâmetros que definem a qualidade de uma publicação científica, tem que mudar a forma dicotômica com que encaramos a relação teoria e prática…tem que mudar a visão predominante do que é a ciência e a produção de conhecimento. Enquanto mais, e não melhor, for sinônimo de qualidade em ciência, continuaremos a ter muitos maus cientistas.

  2. roger disse:

    Concordo com Osame Kinouchi. Não se deve operar por extremos. O caminho é tortuoso. Na minha opinião, deve-se extrair o que há de melhor em alguém e minimizar o pior. O resto fica pra “seleção natural”…. sorry!
    Conheço um professor de cursinho pra concursos que era extremamente pobre e fanfarrão na infância. Queria ser professor quando crescesse. Sua professora, na época, ficou sabendo e fez a vez na frente de todo mundo: “Rá! Vc? Té parece! Jamais conseguirá!!”.
    Isso gerou um trauma no então guri. Cresce. Sim, estudou! Fez que fez. Virou fiscal de rendas do estado de são paulo (ganha em um ano o que demoramos como bolsistas 4 anos para ganhar). E há muito passou a dar aulas em N cursos de preparação para concursos públicos. Ele é bastante famoso, talvez vocês o conheçam.
    Em uma aula, havia uma menina de uns 7 anos, negra. Queria ser juiza federal (era feriado e o pai levou ela junto pois nao tinha onde a deixar). Após nos contar essa história, imaginem o que fez o professor com a menina???
    Falou BEM ALTO na frente de todos: VC NUNCA VAI SER JUIZA FEDERAL!
    Tomara que dê certo!n=1, por enquanto… e contando.

  3. Daniel Lucena disse:

    Olá!
    Seu texto vai exatamente ao encontro de algumas coisas pelas quais passei. Ao sair da graduação fui para o Mestrado, como muitos biólogos, no entanto, fui suficiente maduro para decidir que não sirvo para o trabalho com ciência, simplesmente não tenho prazer. Concluí o mestrado, sou professor de ensino médio e cursinhos, realizado pessoalmente e profissionalmente.
    Os membros da academia deveriam ter mais respeito por àqueles que decidem sair da “igreja”, pois durante toda a minha graduação, quase todos os professores passavam a ideia de que não haveria vida fora da academia, e o mais triste é que muitos colegas acreditam nisso e acabam com um diploma de doutorado na não e nenhum emprego e experiência na outra. Por isso, o que fizeram com sua amiga alemã foi corretíssimo!

  4. Ulisses Adirt disse:

    Como professor, eu diria que tudo depende da hora. Em um doutorado, provavelmente até já passou da hora de incentivar a pessoa a mudar de área. Em uma graduação, por outro lado, talvez ainda dê para (talvez ainda seja bom) passar a mão na cabeça e tentar ajudar a pessoa a encontrar seu caminho por lá.

  5. Eu proponho que os orientadores durões sejam chamados de “House”, fica mais simpático.
    Acho que a questão é um problema de otimização: minimizar tanto os falso positivos (incentivar quem nao tem talento cientifico) como os falsos negativos (desincentivar quem tem talento). Uma parte dos comentários enfatiza a primeira situação, a outra parte enfatiza a segunda. O problema é que as duas coisas tem que ser evitadas ao mesmo tempo. Alguém já ouviu falar de curva ROC?
    http://en.wikipedia.org/wiki/Receiver_operating_characteristic

  6. Igor Santos disse:

    Puxando uma coisa que o Rafael disse: nós temos muitos “professores” e pouquíssimos “educadores”.

  7. Igor Santos disse:

    (Alguém esqueceu de tomar seu gardenal vespertino.)
    Carlos, excelente artigo.
    Certa vez, quando ainda estudava Engenharia Química, levei uma patada de uma arquiteta, que estava sendo minha professora de desenho industrial, porque eu não conseguia desenhar uma cadeira que ela havia colocado em cima da mesa.
    Mas minha estória não tem muito a ver com a sua, porque o que essa mulher fez foi grosseria pura e simples. Ainda hoje não vejo motivo para um engenheiro químico saber desenhar detalhes tridimensionais.

  8. Gabriel Cunha disse:

    Falar para um Biólogo que ele tem que assistir GATTACA é como dizer para um mafioso “veja O Poderoso Chefão”.
    O post é altamente relevante, e, SIM, as bancas examinadoras têm por obrigação apontar as qualidades e os defeitos dos candidator. Sem isso não há evolução de quem está estudando, e, pior, não há um auto-questionamento de quem está dedicado à Ciência (lembre-se que aceitação completa ou pouco questionamento nunca são bons em Ciência, e em outros tantos ramos da nossa vida).
    A banca falar que fulano não tem aptidão para Ciência não quer dizer que a pessoa tem OBRIGAÇÃO de largar tudo. Se uma avaliação ruim fizer com que a mesma abandone e vá procurar outros caminhos, ficou evidente que a banca estava certa. O que impede alguém mal-avaliado num lugar X tentar novamente no lugar Y? Eu sou prova disso.
    Me dei muito mal num probatório para Doutorado Direto na USP, conversei com meu orientador que não estava funcionando direito naquela linha de pesquisa. Ele concordou, e sugeriu que eu desse um tempo.
    Fiz isso, e pouco tempo depois estava começando o Mestrado na UNIFESP, num dos laboratórios de maior prestígio no mundo dentro da minha área. E as coisas vão muito bem, obrigado.
    Ele destruiu meus sonhos e minha motivação concordando com quem falou que eu não prestava? Não, ele me motivos para pensar em minha motivações, e reorganizar minhas prioridades. O resultado foi um amadurecimento muito grande da minha parte, como pesquisador.
    Apesar de termos brigado MUITO no meu tempo em seu laboratório, não tenho como não olhar para trás e não pensar que, pelo mal ou pelo bem, ele me fez crescer mais que todos os meus orientadores até aquele momento.

  9. Ana Arantes disse:

    Oi Carlos e pessoas comentadoras acima!!
    Esse post é uma pérola! Quero meter a colher nessa discussão, porque ela me interessa muito.
    Quem pesquisa processos de ensino e aprendizagem de maneira séria e científica sabe que tudo é possível dentro de certos limites. Qualquer organismo, com o método certo e o devido esforço por parte do programador de ensino, é capaz de aprender qualquer coisa, dentro de suas limitações individuais. Por exemplo, por mais que eu tente, jamais conseguirei fazer um porco voar, nem que ele seja esférico e esteja no vácuo. Mas há experimentos relatando a aprendizagem de novas tarefas até por aplísias, que são bichinhos bem incapazes, do ponto de vista neurológico. Ok, dirão os céticos, mas gente é diferente! É diferente em alguns aspectos, mas segue os mesmos princípios básicos.
    O ponto aqui é o seguinte: é claro que você pode transformar uma pessoa completamente incapaz de demonstrar as habilidades necessárias ao fazer científico em um bom cientista. Mas essa pessoa quer? Ela está disposta? Ela realmente precisa dispender tanto tempo e esforço nessa tarefa? Ela não seria mais produtiva, eficiente e bem sucedida em outra atividade mais próxima de suas aptidões já selecionadas? (Lembre-se, um cara que chegou à pós graduação já tem idade pra ter um repertório mais ou menos imenso de habilidades aprendidas ao longo da vida, às quais a gente costuma denominar “aptidões”.)
    Respondendo ao George aí em cima, há tecnologia disponível e pessoas qualificadas para dizer quais as habilidades que uma pessoa possui, e quais as probabilidades de que esta pessoa seja capaz ou não de realizar determinada tarefa. Essa descrição de “capacidades” não é uma fatalidade, serve apenas para traçar uma meta realista e ser um ponto de partida para um programa de ensino, p. ex. Mas há, sim, uma série de habilidades específicas que um bom cientista deve ter: ser capaz de se concentrar em uma tarefa repetitiva, ser organizado, ter boa compreensão de texto, conseguir relacionar conhecimentos provenientes de diferentes fontes, ser eficaz em traçar metas a curto e longo prazo, ter agilidade para refazer procedimentos que não dão certo, ter habilidade de comunicar seus procedimentos e descobertas de forma adequada, entre outras tantas. Cito até algumas bem prosaicas como ler e entender bem a língua inglesa, escrever um texto de maneira objetiva, ter conhecimentos básicos de informática e de matemática, e assim por diante. Algumas dicas interessantes sobre o tema podem ser encontradas em Bazzo e Carvalho Neto (2003) [http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/psicologia/article/viewFile/3227/2589].
    O que eu queria deixar claro é que, apesar de muito “bonito” o falatório sobre as aspirações e necessidades humanas e a liberdade de ser aquilo que se deseja ser na vida, esse tipo de discurso não resiste a uma análise minimamente racional. Ótimo: meu sonho na vida é ser uma top model. Eu tenho direito de sonhar e de fazer o meu destino! Yes, we can!!! Ôw! Eu tenho um metro e meio, sou gordinha e uso óculos! Nem todo o dinheiro do mundo e nem todo o esforço do universo vão fazer com que eu alcance meu objetivo! O sonho do Astolfinho (*personagem fictício, ok?) era ser um grande administrador: nem com as melhores faculdades, os cursos mais caros, e os MBAs mais famosos, o coitado não conseguia tocar nem uma carrocinha de cachorro-quente. E daí? Pra mim e pro Astolfinho, a tal da aspiração e do desejo-de-ser-aquilo-que-nós-queremos-ser-na-vida só nos trouxe problemas, angústias e muita frustração, num foi? E não me venham citar o caso de Einstein! Pelamordedeus, lei dos grandes números!!! Quantos alunos ineptos tiveram que existir para que UM Einstein vingasse?!? (Apesar de já se ter provas suficientes de que essa historinha que o Einstein era mau aluno é lenda, parece que muita gente se apega com carinho excessivo a esse exemplo…)
    Agora, transponha a lógica para o sistema de treinamento acadêmico do Brasil, faz favor. Além de todos os problemas que os colegas citaram aí pra cima (orientadores incapazes, PPGs viciados, sistema de avaliação inadequado que produz PPGs viciados, etc e talz), quem paga pela formação de um cientista de merda é o seu bolso, caro contribuinte. Durante dois anos de mestrado e mais quatro anos de doutorado um cidadão que poderia ser um bom qualquer-outra-coisa ocupou uma vaga disputada em um PPG que lhe custeou a pesquisa, a orientação e a formação acadêmica. Sem contar a agência de fomento que lhe pagou uma bolsa. E depois disso ele resolveu abrir uma oficina de aeromodelos, porque o que ele queria “muito mesmo” era ter um título de doutor. A razão de existir uma instituição chamada Academia é a produção de conhecimentos! Os PPGs servem para, além de produzir conhecimento, formar profissionais que continuarão a produzir conhecimento, produzir tecnologia e formar outros acadêmicos. Não faz o mínimo sentido esse papo de que o que importa é o título, isso é uma distorção imensa da função acadêmica!
    Se uma pessoa está muito disposta a fazer todos os esforços para se tornar um bom acadêmico e um ótimo cientista, para que no futuro ela possa contribuir sendo um profissional talentoso e eficiente, acho ótimo. Mas não dá pra engolir essa de que o sistema educacional deste país tenha que arcar com os custos de formar pessoas que não irão retornar em bons profissionais de ciência!
    Mas, com uma coisa eu tenho que concordar: não há a mínima necessidade de se descobrir que fulano não tem jeito pra coisa quando ele já está pra defender sua dissertação. Há maneiras muito mais adequadas de selecionar pessoas com as habilidades necessárias ao fazer científico, e só depende dos coordenadores dos PPGs se informarem um pouquinho sobre isso. E depende também das graduações darem essa oportunidade de formação aos alunos: metodologia e epistemologia da ciência, método experimental e iniciação científica sempre foram as melhores maneiras de se formar alunos com pré requisitos suficientes para encarar o perrengue de uma pós graduação. Né!?

  10. George disse:

    Lembrei de mais uma coisa bem interessante:
    Você PRECISA assisitr o filme GATTACA:
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Gattaca
    Talvez entenda que esse post tem idéias totalmente absurdas.
    P.S.: É péssimo ver os comentários em ordem inversa, o correto seriam mais recentes no topo da lista e os os mais antigos no fim.

  11. George disse:

    Carlos,
    Isso que você diz é segregação.
    Ninguém, absolutamente NINGUÉM pode dizer quais as capacidades do outro.
    Mesmo que nós não vejamos nessa pessoa qualidades que são ditas “melhores”, também não podemos desencorajar seus sonhos.
    O que você acharia se alguém dissesse para você em sua infância: Isso é inútil, você não pode estudar dinossauros porque eles já morreram.
    Bastante desencorajador, certo?
    Pois é a mesma coisa com qualquer outra pessoa.
    Você acredita em seus sonhos e desejos e quer alcançá-los, assim como qualquer um.
    Cada pessoa tem o direito de trilhar o caminho que escolheu para si, como ele chegará em seu destino é algo que somente ela pode determinar.
    Eu sou Lider de uma equipe de desenvolvimento de softwarese, claro, já encontrei pessoas com poucas aptidões para o trabalho. Porém sempre procuro observar cada um e mostrar outros caminhos dentro daquilo que elas anseiam. Mas jamais vou dizer a alguém que ela é inapta para alcançar seu sonho.

  12. Aline disse:

    Eu concordo que pessoas que não tem aptidão para a ciência não devem ser iludidas.. Muitas vezes os orientadores incentivam esse tipo de pessoa a continuar por puro egoísmo, para conseguir número e mão-de-obra para seu laboratório. Na realidade, eles estão incentivando o gasto de materiais e recursos (muitas vezes públicos) e fazendo com que essas pessoas percam tempo de suas vidas que poderiam estar aplicando para algo mais promissor.
    Concordo que é difícil julgar quem tem e quem não tem a capacidade científica, mas um bom pesquisador desenvolve ao longo do tempo um “olho clínico” que sabe diferenciar os muito ruins dos bons.

  13. maria disse:

    eu não dou pra cientista. soube disso no meio do doutorado e quase optei por sair com um mestrado. só fui até o fim por insistência da minha orientadora – mesmo sabendo que eu não seguiria carreira acadêmica e que estava muito mais interessada em virar jornalista de ciência.
    não sei dizer se desperdicei o tempo alheio, mas minha orientadora não demonstrou isso. ao contrário, festejou minha opção que condizia mais com minhas aptidões e temperamento.
    para mim, ter terminado o doutorado em biologia me torna uma melhor jornalista de ciência.

  14. Fino disse:

    Acredito que a função de um professor é avaliar os alunos criticamente e apontar caminhos para que melhorem. Isso pode incluir dissuadi-los da carreira científica.
    Ser cientista requer sim um conjunto de habilidades e interesses que nem todas as pessoas têm. As pessoas que não as possuem, mas que por algum motivo desejam seguir a carreira, sem dúvida precisarão ralar mais e muitas vezes não atingirão o mesmo patamar que as outras. E isso vale para qualquer carreira: pense nas habilidades que se precisa ter para ser vendedor, advogado ou mecânico.
    A coisa mais triste que assisti durante a minha pós-graduação foram colegas sendo empurrados pelos avaliadores, que claramente percebiam suas falhas, mas não as apontavam. Em parte para manter os laboratórios rodando (com mão de obra barata, os alunos), em parte com pena, esses colegas foram sempre aprovados. O que me deixou triste foi o fato de que nunca ninguém os avisou de suas enormes deficiências. E que alguém não estava me avisando das minhas.
    E aí aparecem outros filtros (bolsas, publicações, concursos e a própria satisfação profissional), gerando uma enorme frustração. Muito maior que teria sido se alguém tivesse avisado: “Olha, para fazer isso, é preciso ser assim, ter tal atitude. Se você não tem, busque desenvolver ou tente fazer outra coisa”.
    Isso não é, como pode soar para alguns, uma espécie de racismo, “ciência não é pra qualquer um”. Vender também não é pra qualquer um, advogar não é pra qualquer um, consertar carro não é pra qualquer um.
    Descobrir se você tem as habilidades requeridas pra um trabalho ou outro é difícil, mas na ciência isso poderia ser facilitado pela presença dos orientadores e avaliadores, que a meu ver teriam o papel de evitar esse sofrimento.
    É claro que é difícil definir critérios, mas a minha percepção é que tendemos a valorizar mais o ESFORÇO que o DESEMPENHO. Concordo sinceramente que cada um deve decidir o que é melhor para si, e que o esforço deve sim ser valorizado, mas as instituições (na pessoa de orientadores e avaliadores) também têm um papel em traçar patamares mínimos que devem ser atingidos. É principalmente esse aspecto que é negligenciado.

  15. “Incentivar pessoas que não servem para a Ciência a sair da área é correto?”
    Cada indivíduo é quem deve decidir o que fazer de sua vida, em última instância, baseado no que ele sabe de si próprio e na avaliação que os outros fazem dele. Eu posso imaginar a frustração do jovem Einstein quando não conseguia emprego na academia; mas ele gostava de ciência e continuou a praticá-la mesmo trabalhando em outra coisa (ele virou burocrata por um tempo). A minha opinião sobre as qualidades de uma outra pessoa é apenas a minha opinião: quem deve saber para que serve uma pessoa é a própria pessoa… É papel do orientador ajudar nessa descoberta, e não impor a sua visão pessoal.
    Um abraço!

  16. Davi disse:

    OPA! Peraê!
    Sinto muito Carlos mas tenho que discordar, ou pelo menos acreditar que interpretei mal teu texto.
    No caso de um Doutorando, sim, eu concordo que as vezes é um desperdício até mesmo paro o individuo que não DESENVOLVEU habilidades e competências necessarias para se lidar a trabalhar com a ciencia, continuar investindo em uma carreira que não terá futuro.
    Agora, dizer que isso deveria começar a ser “selecionado” mais cedo, já é acreitar que fazer ciencia é um dom, uma dádiva (ou se preferir uma atribuição genética, rsrs) o que sinceramente discordo. Qualquer habilidade ou competência se for bem trabalhada e bem estimulada, principalmente no ensino básico e de formação provavelmente renderá bons frutos.
    São caracteristicas, digamos, básicas de um bom cientista, que podem ser estimuladas, como por exemplo o questionamento, a capacidade de resolver problemas, o trabalho em grupo, o estudo, entre outras.
    Creio, que o problema não são as pessoas, mas sim o sistema educacional que se nega a entender que os seres humanos são diferentes, têm vontades diferentes e desenvolvem diferentes apitidões de acordo com a vida.
    Não estou dizendo que qualquer um pode ser um excelente cientista. Obviamente como em qualquer outra áerea de atuação existirão aqueles que iram se destacar, mas nunca sem esforço e dedicação.

  17. MHL disse:

    abre aspas:
    incentivar pessoas que não servem para a Ciência a sair da área é correto?
    Carlos
    eu acho que é. Ciência-de-verdade não é uma atividade para qualquer um. Não é para o povão, nem com o novo programa “bolsa para todos” da Capes

  18. disse:

    Duro, porém realmente é necessária uma visão realista nesses casos. Adoro ciência, mas definitivamente não me vejo fazendo da ciência uma opção de vida.
    Percebi isso vendo meu chefe. Ele é bem-sucedido e respeitado, mas respira ciência 24h por dia, e faz isso com prazer. Embora goste de planejar um experimento, descobrir coisas novas e estudar, fazer ciência envolve mais que isso, e, na minha visão, uma dedicação que não estou disposto a dispensar.
    Perceber isso me fez tomar uma decisão importante. Vou fazer meu mestrado e pararei por aí. Um doutorado é um investimento de tempo muito grande, praticamente um caminho sem volta. De nada me adiantaria um título e ter uma carreira de mediana a medíocre porque estaria fazendo algo para o que eu não estou preparado pra ser.
    Acho que essa discussão deveria ser mais levada à academia.

  19. Rafael disse:

    Isso de passar a mão na cabeça tem um nome por aqui [MA]: Educação Chambinho, só coração!
    Tenho um professor que é alemão também e não é nada chambinho, tem uma mania que irrita muito a maioria dos brasileiros: sinceridade.
    Veja: “Você é um bom aluno, mas se não fosse tão preguiçoso seria melhor…” ou melhor ainda, durante as apresentações: “Se você vai apresentar lendo o que está no powerpoint não precisar apresentar, eu sei ler português…”
    O que acontece muito por aqui e que vejo nas aulas de licenciatura é que os educadores devem incentivar ao máximo os alunos sem pensar nas consequências, jamais devem critica-los ou perguntar diretamente a eles para que não fiquem inibidos e assim por diante. É esse tipo de educação que valorizamos no Brasil. Alguns acham esse professor arrogante ou grosseiro, mas eu o acho alguém muito afável e gosto do estilo dele, tive muitos professores assim e isso me ajudou a crescer. A verdade é que muitos professores que evitam criticar o trabalho dos alunos na verdade estão evitando se envolver no trabalho e com isso, se abstêm de sua função.

  20. augusto disse:

    Ótimo e interessante post, Carlos.
    Coloco mais pontos para discussão: quais são os programas no Brasil que de fato reprovam alunos? Poucos, decerto. Na maioria, ser aprovado no exame de seleção já significa ter o título, sendo necessário apenas cumprir um certo ritual e aguardar alguns anos.
    O que adianta ter um título de doutor que na prática não significa nada?
    Esses esquemas de programas de países de primeiro mundo parecem cruéis, é claro. Mas, no fundo, sabemos que ciência é difícil e não é todo mundo que tem as habilidades necessárias.

  21. P.S.: Eu sei que a discussão não é essa, mas cabe mencionar:
    também é preciso afastar muitos orientadores (muito) fracos dos programas de pós-graduação. Eis um desafio político para os coordenadores dos nossos PPG.

  22. Se não estiver enganado, chegaram a sugerir algo do tipo (falta de capacidade pras ciências) a um, então desconhecido, físico de nome Albert Einstein.

  23. André Souza disse:

    Então, Hotta…Quais seriam as habilidades necessárias (e desnecessárias) para ser um cientista, na sua opinião?

  24. Fernanda disse:

    Olá, Carlos,
    Pois é, concordo que muita gente não serve para a academia, e já presenciei uma situação com desfecho parecido com o que você contou sobre a alemã, mas lembrei também de um fato ocorrido com uma pessoa conhecida (não poderei dar detalhes porque não recebi autorização para contar essa história).
    Essa pessoa conhecida queria muito fazer iniciação científica com um renomado professor da faculdade, que simplesmente a mandou voltar aos seus cosméticos (ela fazia cosméticos para ganhar um extra)porque ela não tinha jeito para a coisa.
    Hoje, ela é pesquisadora renomada na sua área, com uma produção científica respeitável e crescente, e ganha projetos de montante muitíssimo superior àqueles do nosso renomado professor. Interessante, né? Obviamente essa história aconteceu há mais de 15 anos.
    Eu concordo muito com o ponto de vista levantado por você, mas fico na dúvida se quem tem a autoridade para tomar essa decisão a fará com bom-senso. Não é algo para qualquer um.
    Abraço,
    Fernanda

  25. Daniduc disse:

    Bem, aconteceu comigo. Eu comecei a fazer biologia, depois fui trabalhar como administrador de sistemas. Parei a faculdade. Tentei voltar um tempo depois, para ao menos terminar. Suspirei fundo, me matriculei na aula de Genética (que nonovo curriculum era com os bichos! Na minha época era terceiro ano). Estava eu em uma aula de laboratório, em um grupo formado por outros veteranos mais ou menos na minha situação: começaram, foram fazer outras coisas, voltaram pra terminar. Enquanto fazia o experimento, eu conversava. Disse:
    - Essa é minha última tentativa. Se não der certo este semestre, largo a biologia.
    Nisso passava uma professora, que já me conhecia do começo da faculdade, e me ouviu. Ela me disse:
    - E não será nenhuma perda para a biologia.
    Fiquei chocado. Mas pensei que era verdade. Larguei e nunca mais voltei. No fim, a “patada” me ajudou.
    O problema é quando há erros de avaliação – ou pura má fé (como no caso de preconceito, por exemplo). Quanta academia não barrou artista excelente, por exemplo, alegando que ele “não tinha talento”? É uma questão complexa. E um excelente post. Me fez pensar.
    Abraço

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