Notas sobre: “Deixando a Ciência”
O número de comentários deixados no post anterior foi inédito. Nem preciso comentar da qualidade. Certamente me fizeram pensar mutio nos últimos dias. ALgumas notas:
- havia me esquecido que já me disseram que eu não servia para a Ciência e que deveria buscar uma carreira na Educação. Foi no final do meu Mestrado que, ironia, tinha a intenção de se tornar um Doutorado. Acho que sou prova de que, se Ciência é mesmo o que vc quer, não importa o que vão falar de vc.
- ao mesmo tempo, muitas pessoas têm aptidão para Ciência mas decidem não seguir carreira acadêmica. Acho que é o caso da Maria Guimarães e outros. O caso da minha amiga alemã era extremo: ela havia produzido muito pouco durante o ano por pura falta de afinidade com a Ciência.
- na minha avaliação de primeiro ano levei várias broncas do meu orientador sobre o meu inglês. Broncas duríssimas a ponto de eu questionar se conseguiria fechar uma tese. A minha banca avaliadora me estraçalhou em conhecimentos de Botânica, uma vez que não sabia muito sobre o assunto. Foram puxões de orelha essenciais para a minha fomação.
- quando é possível perceber que uma pessoa não serve para Ciência? Acho que um grande sinal é a falta de iniciativa. Outro sinal enorme é a incapacidade de integrar informações díspares. Quantos colegas meus viam Ecologia, Zoologia, Genética, bioquímica, etc. como coisas separadas? Quantos não percebiam que o músculo estudado por uma matéria era o mesmo das outras? Sinais menores: sempre seguir protocolos à risca ou nunca seguí-los. Incapacidade de concentrar-se em tarefas repetitivas. Preguiça de ler. Impossibilidade de planejar as coisas no longo prazo. Falta de pensamento estratégico. Capacidade analítica reduzida. A lista vai longe…
- não acho que a tarefa de se avaliar se alguém é apto para a Ciência deve ser de apenas uma pessoa. No caso que relatei houve a avaliação do trabalho de um ano por dois membros do Departamento, além da opinião do orientador, houve muitas reuniões para tentar auxiliar a aluna e ainda havia o serviço de aconselhamento da Universidade.
- é segregação dizer que alguém não tem aptidão para ser cientista? Me respondam: se eu quisesse ter me tornado jogador de futebol profissional (mesmo de um time de quinta divisão) eu conseguiria? E se eu treinasse 14 horas por dia? E ser cantor profissional? Se vc me conhece sabe que a resposta é NÃO!
- falar para alguém que o seu sonho é inalcançável dói mas deixar a pessoa seguir sem o conselho é irresponsabilidade. Falsas esperanças é melhor do que nenhuma? No mínimo o conselho vai fazer a pessoa questionar se seu sonho é mesmo verdadeiro. Muitas vezes as pessoas seguem em frente porque estão no “automático”.
- muitas pessoas conseguem se superar mas, para isso é necessário que elas saibam onde está o seu limite.
- continuo achando que um Doutorado bem feito te treina para muitas coisas além da carreira científica. Apoio quem quer pegar o diploma e sair da Academia. Não acho que foi perda de tempo de ninguém desde que tudo esteja claro o tempo inteiro. Aliás, esse negócio de acadêmico achar que quem saiu da Academia é um LOSER não está com nada!
- muitos falam de Einstein mas, se Einstein tivesse se formado na academia, será que ele teria sido o revolucionário que foi? Ele era péssimo como aluno, talvez ter trilhado vias alternativas tenha sido o mais benéfico para ele…



Discussão - 14 comentários
Cara Giqqs,
Me identifiquei muito com o que escreveste. Estou no segundo ano do doutorado em bioquímica, e em crise!!! Sempre tive certeza que gostaria de seguir a carreira acadêmica, mas atualmente tenho repensado… Gosto de pesquisar, fazer experimentos, mas estou cansando da rotina “experimento, bancada, leitura e redigir papers”… No fundo, acredito que não tenha a disposição e vontade necessária para ser professora e pesquisadora!! até pq, no Brasil para seguirnos na pesquisa temos que fazer essa dobradinha!!! Assim, me imagino seguindo o teu caminho: aproveitarei o doutorado ao máximo (inclusive pretendo fazer sanduiche no próximo ano) e quem sabe no último ano, eu consiga seguir a carreira como servidora pública… Mas admito que tenho medo dessa mudança de paradigma, medo do novo…
Bom, só o tempo dirá!!!!
Abraço a todos.
Concordo com quem disse acima que não devemos achar que o cara que não continuou na academia é um looser. Eu mesma, pouco tempo antes de terminar o doutorado passei num concurso para trabalhar com outra coisa. Ainda trabalho com ciência, leio vários artigos científicos, ajudo a reidigir legislações que afetam os cientistas diretamente… E me encontrei. Cheguei à conclusão que encarava cada experimento na bancada como um sacrifício necessário para a parte da ciência que eu gostava que era o resultado. Adoro não precisar mais repetir experimento que deu errado. E eles davam muito errado comigo (suspeito que o problema era exatamente eu e minha falta de paciência).
Agora, pouco me importa se os meus antigos professores do meu curso CAPES 7 acham que eu sou uma looser. Eu estou muito feliz com o meu trabalho. Me sinto muito útil. E ganho o dobro do salário deles, com a metade da idade. E ainda fui convidada para dar palestra na universidade semana que vem sobre uma legislação que eles precisam conhecer…
Caros,
Tenho que adminitr que eu não sou cientista, não trabalho como acadêmico, mea culpa.
Porém tenho visto em todos cometários que (desculpe se faço mau juízo) nenhum de você lidera uma equipe.
Ana quando citei Gattaca não fiz menção a nenhuma pobre criança sofredora e humilhada… pelo menos até onde li :/
Vai ver que meu monitor está estragado e não mostra o mesmo texto que você leu…
O que defendi e continuo defendendo é que acho incorreto alguém (seja um grupo de ilustres ou não) dizer que um outro é inapto para qualquer coisa.
Alguém aqui pode de maneira definitiva e direta dizer quais as caracteristicas de definiriam um cientista, um jogador de futebol ou até mesmo um carpinteiro eficiente?
O que podemos é dizer quais as características desejáveis para que o sujeito tenho algum sucesso no que pretende realizar.
Por exemplo: quem dos ilustres colegas daria emprego a um jovem de 20 e poucos anos usuário declarado de LSD, que não produziu nada enquanto fazia faculdade e não gostava de trabalhar?
Pois é… eu também não :/
Esse sujeito aí em cima é o Steve Jobs. Aposto que os senhores já tiveram (ou têm) algum dos equipamentos idealizados por ele.
Ana, concordo com você sobre a necessidade de produção científica e da capacidade de uma pessoa adulta.
Eu mesmo não contrataria em minha empresa um senhor de 45 anos que estivesse em início de carreira.
Sobre a liderança de equipes, é necessário entender que pessoas são diferentes. Não podemos determinar paramêtros para dizer que alguém faz algo melhor que outro só porque uma das tarefas não foi executada com sucesso.
Cada um é um universo de variáveis, cada pessoa tem seu leque de capacitações e deficiências.
Quando lideramos devemos procurar entendê-las e ajudar a desenvolver.
Vendo o exemplo da banca se o examinado não se saiu a contento isso não significa que ele é inapto. Significa que o que ele fez não teve qualidade sufuciente para o que desejavam.
Repito: não estou defendendo que alguém pode repetir os mesmos erros eternamente. Claro que se esperamos um acadêmico inteligente, e ele deve aprender e evoluir.
Só para deixar uma pergunta:
Se sei que nada sei, como posso determinar o que o outro sabe?
Para elucidar as discussões recomendo a leitura de dois livros: “O quadrante de Pasteur” de Donald Stokes – para um discussão mais elucidada sobre que tipo de ciência queremos fazer. E também o de filosofia/história da ciência “A estrututa das Revoluções Científicas” de Thomas Kuhn.
Concordo com o comentário do Igor. “Ciência (…) não deveria exigir diploma, mas sim competência”. O diploma nos aponta para que tipo de ciência (linha de pesquisa) queremos fazer.
Oi Stephen!
Concordo – em parte – com seu argumento. Algumas formalidades engessam o aprendizado e tolhem a criatividade. Também estaria na minha listinha de ‘habilidades necessárias ao cientista’ a de saber contornar algumas formalidades de maneira criativa, mas eficaz. Vamos aos exemplos: pra fazer uma boa apresentação do seu trabalho em um congresso, você pode perceber que é melhor pular a introdução e explicar o método de forma mais detalhada, e isso pode tornar seu trabalho muito mais compreensível ao público. Vi uma apresentação, uma vez, em que a guria foi direto para os resultados e foi destrinchando a coisa toda de modo que, no final, ela tinha dado todos os pressupostos, comparado com os dados dela, explicitado o método e feito conclusões incríveis. O mesmo se aplica na hora de fazer um relatório, ou escrever um artigo… etc, e talz.
Mas algumas formalidades, apesar de chatinhas, parecem ser funcionais: publicação de artigos em revistas relevantes não deveria ser o ÚNICO meio de avaliação de um bom acadêmico, mas é um ponto importante sim, senhor! Uai? A função do cientista não é produzir conhecimento? E a prova da produção de conhecimento relevante, interessante e original não é a publicação? Pois?
Agora o diploma: não consigo vislumbrar uma maneira mais eficiente de se preparar pessoas com pré requisitos e habilidades necessárias para a PG que não seja a graduação. “Se a pessoa vai ou não ser boa na profissão” depende, em muito sim, da qualidade da formação que ela recebeu nos anos de graduação (mais um monte de outras variáveis, como já falei no comentário do post anterior). Uai, de novo? Se não, qual a função da graduação? Enfeite? Formalidade? Desculpa, mas não dá pra aceitar esse tipo de argumento, não faz sentido! Agora, se estamos falando em habilidades muito específicas, como exigir diploma de biólogo pra fazer PG em Zoologia, por exemplo; aí eu acho que depende de cada área específica. Mas nesse caso acho que um mínimo de interdisciplinaridade seria bom e necessário. A todos os PPGs, aliás. É a tal da integração de conhecimentos, e é bem bacana. Mas concordo com você que seguir o caminho formal de aprendizado não deveria ser uma exigência petrificada, se uma pessoa, mesmo sem diplomas, demonstra as habilidades requeridas, não vejo motivo pra que ela seja desqualificada em uma seleção de pós, por exemplo.
Quanto a avaliar competências, acho que há maneiras bem eficientes de se fazer isso, testadas, comprovadas e bem utilizadas. Se os orientadores não estão sabendo aplicar é outra história. Mas não se pode simplesmente abandonar a coisa porque os orientadores e coordenadores de PPGs são incompetentes nela… Onde vamos parar? Histórias de pessoas que sofreram na mão de gente desqualificada, infelizmente, são muitas. Mas a solução é qualificar esse pessoal melhor, e não abandonar os métodos de avaliação. Mesmo porquê, sem avaliação não dá pra saber as áreas deficitárias para poder programar estratégias e solucionar problemas.
Só mais dois comentariozinhos:
1. Se você não tem pré requisitos e repertórios e vai se frustrar é problema seu. Se você vai se frustrar gastando o MEU dinheiro é problema meu, sim senhor.
2. Continuo afirmando enfaticamente que repertórios e aptidões são formados ao longo da vida. Não estamos falando aqui de “tolher as esperanças de uma pequena criancinha pobre de um dia se tornar astronauta” (e citar Gattaca foi de uma falta absoluta de senso crítico). Estamos discutindo as competências de uma pessoa adulta, que já deveria demonstrar algumas delas, pelo menos. Ninguém nasce sabendo, e todo mundo vai morrer sem saber de quase nada. A beleza da coisa está em que, quando eu não sei de algo, eu posso perguntar pra alguém que sabe. Se uma banca qualificada e isenta julga uma pessoa ineficiente para uma determinada tarefa e lhe dá uma alternativa mais segura e próspera, não vejo onde se está cometendo uma injustiça.
Caros Igor e Ana,
Deixa eu meter minha colher na discussão: como pesquisador do meio acadêmico é com extrema preocupação que eu vejo as pessoas se preocuparem muito mais com formalidades, tipo diploma e números de artigos publicados, e muito menos com o resto, tipo dedicação e vocação pessoal – afinal, a avaliação é feita em cima das formalidades… No meu ponto de vista, o diploma é apenas uma prova de que a pessoa que o tem seguiu um caminho formal de aprendizado, que pode ter sido mais ou menos árduo; não indica nada além disso, como, por exemplo, se a pessoa vai ou não ser boa na profissão: isso são outros quinhentos.
Quanto a avaliar competências, é algo sempre difícil: acho que meu orientador de mestrado até hoje não me considera alguém realmente competente; no entanto, fui aprovado em todos os concursos para professor do ensino superior que prestei (três vezes, por três bancas completamente distintas, de áreas diferentes) – e tenho minha cota de artigos publicados… Tenho certeza que se meu orientador de mestrado estivesse numa dessas bancas eu seria sumariamente reprovado.
Um abraço!
É um direito não dar oportunidade para alguém sem aptidão se as vagas, as bolsas e tudo mais forem fatores limitantes.
Quando falaram para vc sobre o ramo de informática, ninguém disse que vc não tinha aptidão para isso, disse? Este é o caso analisado! Estou falando de vocação e vocação inclui a vontade de se aperfeiçoar para atingir o seu sonho e inclui a perspicácia para enfrentar desafios! Vc obviamente tinha vocação para a informática e quem te desencorajou não levou isso em conta.
Além disso, preste atenção: a pessoa em questão só estudou em escolas excelentes, fez graduação e um ano de doutorado em uma das melhores Universidades do mundo antes de ser considerada inapta! Quer mais chances do que isso?
Carlos,
Ainda reafirmo minha posição sobre a segregação (que fiz no post anterior).
Se você sonha em ser um jogador de futebol e não possui as qualidades ditas “necessárias” isso é um problema seu.
Se você irá se frustrar ou não, também é um problema seu e ninguém tem o direito de tirar de você.
Para aqueles que acham que temos que abaixar a cabeça para o que nos dizem e desistir vai uma imagem bem interessante:
http://www.brogui.com/2009/07/03/e-voce-ai-reclamando-que-esta-gordo-ou-magro-demais/
Todas as consequências da busca pelo seu ideal, sejam elas boas ou ruins, são o caminho escolhido.
Quando eu era criança me disseram que seguir no ramo da informática não daria pra sobreviver e que era inútil…
Hoje eu tenho minha própria empresa, emprego outras pessoas, sou realizado pelo caminho que segui.
Existiram maus momentos?
Sim.
Pensei em desistir quando as coisas pareciam muito difíceis?
Nunca.
Todos estes momentos são parte da minha vida.
Pra finalizar: é óbvio e hululante que se, seguindo seu ideal, só existem maus momentos ou você não sente que o que realizou te satisfaz, então alguma coisa está errada e é preciso reavaliar.
Igor: sim… deixemos o treinamento de cientistas ao acaso e esperemos que o destino nos dê um novo Einstein!!! Ge-ni-al!
Cientistas não precisam de diploma? De que Ciência estamos falando? Quem de nós bebeu?!!??!
Einstein como exemplo é covardia, né? Ele infelizmente nao é a regra.
Outra coisa: “Outro sinal enorme é a incapacidade de integrar informações díspares. Quantos colegas meus viam Ecologia, Zoologia, Genética, bioquímica, etc. como coisas separadas?” Isso era motivo de discussao constante no meu curso. Pq as pessoas tem dificuldade em integrar as informacoes? Pq elas sao ensinadas separadamente, pelo menos na graduacao (e no meu curso) nao tinha um professor q ajudava os alunos a integrarem as coisas, cabia ao aluno sozinho fazer isso, será q quem nao conseguia fazer isso sozinho nao era apto pra seguir carreira academica? Talvez e se for esse o caso eu me encaixo nele…
Mas será q se o curso fosse melhor “organizado” essa tarefa fosse mais facilitada e tivesse me estimulado a seguir esse caminho?? E se…
Seu artigo anterior foi muito legal, rendeu uma boa discussão com meus amigos durante o almoço.
abraços
Reusando o exemplo de Einstein: quem realmente quer fazer aquilo, vai e faz.
Infelizmente existem poucos Einsteins, mas Ciência é como Jornalismo, não deveria exigir diploma, mas sim competência.
Não sei se usar Einstein como parâmetro é uma boa ideia… Primeiro, porque ele fez carreira acadêmica, sim (obteve um doutorado com uma tese sobre como determinar o tamanho de moléculas).
O que aconteceu foi que ele acabou ficando famoso por descobertas que não foram feitas dentro do rito acadêmico formal. Nesse aspecto, ele acabou criando o estereótipo do gênio que rala de dia para agradar às massas medíocres e, da meia-noite às seis, tem as ideias realmente revolucionárias, numa espécie de esquema Clark Kent/Superman da ciência.
Isso funcionou para ele, naquelas circunstâncias e naquele momento histórico. Não sei se funcionaria hoje, pra ele ou para qualquer outro.
Falando em massacre. Assisti uma defesa de tese na França e percebi que a banca foi *muito* severa nas perguntas. A doutoranda não conseguia responder quase nenhuma das perguntas. Ela era inteligente e foi bem treinada, mas mesmo assim os avaliadores acharam como questionar de forma dura. No fim ela foi aprovada.