Alex Mischenko

Este é um texto que quero escrever desde que lancei este blog. Ele nunca saiu porque nunca consegui força emocional para concretizá-lo. No entanto, diante tantas discussões no Twitter sobre suicídio, decidi finalmente escrevê-lo.

Eu fiz poucos amigos no período que estive em Cambridge. Muito poucos. Eu fui para lá com o objetivo claro de me matar de trabalhar e, certo ou errado, foi o que fiz. Poucas pessoas que conheci compartilhavam com este meu objetivo, preferindo jantares formais e firulas acadêmicas a trabalhar. Alex Mischenko era como eu.
 
Eu compartilhei uma casa com Alex, Sasha, por dois anos. No meu primeiro ano, com mais 14 pessoas, e no meu terceiro ano, com mais 4. Tanto ele quanto eu fazíamos parte de uma classe de pesquisadores-de-países-em-desenvolvimento-que-não-tinham-dinheiro que não combina muito com a alta sociedade de Cambridge. Trabalhávamos muito e geralmente conversávamos na cozinha, na hora da janta. Ele, físico russo, sempre me enchia dizendo que Seleção Natural era uma mentira gerada pelos capitalistas americanos ou que havia evidências de que o HIV não causava AIDS e que aquecimento global era uma fantasia. Como ele semrpe foi brincaçhão, ainda não sei se ele acreditava ou não no que dizia.

Alex Mischenko conseguiu publicar um paper na Science no final de 2006 como primeiro autor. Seu trabalho trazia a prova conceitual de que era possível construir um sistema de refrigeração baseado em um sistema elétrico. Basicamente, ele provou que seria possível fazer um refrigerador em um chip, o que eliminaria os problemas com refrigeração de computadores. Coisa quentíssima que bolou praticamnete sozinho. Este trabalho teve tanta repercussão que ele deu muitas entrevistas na mídia, abriu uma empresa promissora com as patentes geradas, ganhou o prêmio de pós-graduado do ano pela L´Oreal e ainda foi contratado pelo Trinity College, o mesmo de Isaac Newton. Ele era, merecidamente, uma estrela em ascensão e tudo parecia perfeito.
 
Sasha se matou em março de 2007. Foi encontrado enforcado em uma floresta de Cambridge com sua tese encardenada ao seu lado, sem nenhuma mensagem de explicação.

Até hoje não sei o motivo de sua morte. O que faria uma pessoa abandonar mãe, namorada, amigos, uma carreira brilhante para trás? Com certeza era algo grande. Algo grande que ele nunca nos contou.

Veja bem, Alex era uma figura alegre e nunca demonstrou sinais de depressão. Um dia antes ele estava comentando alegremente um filme no Trinity College. Fiquei sabendo depois que ele havia tirado um doutorado na Universidade de Moscou – em paralelo com Cambridge – em um assunto completamente diferente. Como alguém assim pode ter se matado?

Na verdade não importa. Importa é que foi a forma que ele escolheu para aplacar a sua dor. Uma escolha pessoal e final que tomou. O que importa depois de um evento traumático como esse é quem fica. É nesses que a dor está.

A morte do Alex mexeu muito comigo, me fez reavaliar o que era realmente importante nesta vida. Paper na Science, emprego glamouroso, cientista famoso? Sim, por favor, mas não pense que isso vai ser o suficiente. Sem cuidar do resto, tudo isso não vale nada.

Aos que hoje sentem a dor que senti dois anos atrás, minhas simpatias. Não tentem achar que era possível ter evitado o que aconteceu, que tinha como saber que isso ia acontecer ou mesmo entender a decisão. É um esforço que só traz mais dor. Melhor mesmo é buscar a paz entre os que ficaram e deixar em paz os que partiram.

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Discussão - 24 comentários

  1. Ulisses Adirt disse:

    Lindo, Carlos.
    Um dos textos mais doídos e difícil que já tive de escrever para o meu blog foi sobre uma aluna que foi assassinada (http://incautosdoontem.opsblog.org/2008/06/06/ex-sonhadores/). Tive, também, um amigo que se matou, mas sobre ele eu nunca consegui escrever.
    Obrigado, cara.

  2. Oi, espero nao ter sido indelicado fazendo este post:
    http://comciencias.blogspot.com/2009/08/pessoas-inteligentes-se-matam-mais.html
    Qualquer coisa, me escreva…

  3. carlos
    seu relato é tão verdadeiro e emocionante, nossa!
    nao consigo escrever mais nada vc disse tudo mesmo.
    bjss

  4. Daniel disse:

    @Hotta, o grande problema é que dependendo do programa de pós-graduação ao qual você está vinculado, a pressão por publicação é grande… e em alguns casos vem do próprio orientador.
    Além disso, motivados pela “ditadura do Qualis”, essa pressão não é apenas por “publicação”, mas por “publicação boa”. Não sei como é na sua área, mas na computação o pessoal já desvirtuou o Qualis, que deveria ser usado para avaliar o programa, e agora o tem usado para avaliar pessoas individualmente: se você não tem uma publicação em periódico Internacional-A1, você é um zero.
    Só de discutir isso eu já me estresso… Cadê meu bromazepan? ;)

  5. Carlos Hotta disse:

    Exato @Daniel.
    Como diria o meu orientaor: “No children have died” (Nenhuma criança morreu) porque vc não publicou ou foi rejeitado por uma revista.

  6. Daniel disse:

    Vivi uma situação parecida com a @Giqqs… Histórico de depressão na família, final de doutorado, depressão e algumas sentadas na janela. Diferente dela, ainda não acabei o meu: espero terminar no início do ano que vem.
    Hoje, alguns remedinhos, tai chi chuan e uma vida com um componente “docemente irresponsável”, como dizia um amigo, me deixam melhor.
    Conclui que publicações e outras coisas não são — de forma alguma — razão para ficar estressado. Se der deu, se não der, não deu e f*da-se :)

  7. Andre disse:

    belo relato, Carlos.
    Observeialgo norelato daGiqqs…Acho q alguns q ja ficaram na beira d abismo e não pularam (eu inclusive) tlvz concordem..Já ntaram q, hj em dia, é tão obrigatório “ser feliz” q não existe mais o “direito de ficar triste”, nem q seja por alguns minutos?
    É uma pena, pq tristeza serve pra rever e mudar rumos…

  8. Realmente uma história triste. Mas talvez seja apenas um exemplo da correlação entre QI e suicídio:
    http://www.timesonline.co.uk/tol/life_and_style/health/features/article996719.ece

  9. Carlos Hotta disse:

    @Giqqs
    que relato bonito! Depressão tem sim um forte componente genético. Felizmente não é algo finalista e, como vc prova, tem como contornar. Continue a sua luta e seja feliz!

  10. pati rabelo disse:

    carlos, parabéns pelo belo e sensível texto.

  11. Giqqs disse:

    No fim do meu doutorado, eu entrei em depressão profunda. Estive a beira de me suicidar muitas vezes. Nenhuma das pessoas que conviviam comigo diariamente perceberam que eu estava deprimida porque eu continuava a rir, brincar. Eu sempre achei que se eu tivesse realmente me matado, elas se perguntariam: “como?”. Eu nunca tive nenhum motivo para ficar deprimida. Sempre tive amigos, família, dinheiro, amor. E acho que isso era o que mais me incomodava. Eu tinha tudo e não tinha o direito de ficar triste! A ùnica coisa que eu tinha era que minha mãe biológica se suicidou quando eu era criança. Não a conhecí, fui adotada ainda na maternidade. Ao contrário da minha mãe, eu amava muita gente que me amava. E foi isso que me segurou aqui. Acabar com o meu sofrimento era criar sofrimento para pessoas que eu amava e que eu sabia que me amava. E isso seria um sofrimento ainda maior. Se não fosse por isso… Nem preciso dizer que este vínculo falta a muita gente. A única explicação a qual eu consigo chegar para a minha depressão é completamente biológica. Genes, meu filho. Devo ter herdado uns alelos bons pra coisa. Mas como não há determinismo genético, o meio ambiente segura as pontas. E estou aí, tese defendida, concurso público, terapia uma vez por semana e ginástica todos os dias (endorfinas, santo remédido, hahahahah).

  12. Carlos Hotta disse:

    @Ari
    a polícia investigou a possibilidade de homicídio, dadas as circunstâncias estranhas. Aparentemente não concluiu nada.
    @Zé
    muitas pessoas são mestres em esconder seus reais sentimentos. Já fui um tanto assim.
    @Manu
    Obrigado.

  13. Carlos Hotta disse:

    @Igor Z, obrigado pelo apoio.
    @maria
    Alguns motivos me parecem prováveis: 1) ele descobriu algo que invalidasse suas descobertas, um erro ou algo que impossibilitasse as aplicações práticas esperadas, 2) ele não aguentou a pressão gerada em torno do artigo que, pelo que sei era revolucionário ou 3) ele estava com problemas financeiros. Ele era muito ruim com dinheiro e andou passando um tempo estranho no Kasaquistão. Quem sabe onde se meteu…

  14. Carlos Hotta disse:

    @Aldrin
    Traição é sim um dos sentimentos que vem à tona. Vem uma raiva de que a pessoa foi egoísta e não pensou nas pessoas que deixava para trás. Na verdade ela pode até ter pensado nelas. Talvez pensasse que estaríamos melhor, sei lá. Não dá para saber.

  15. Carlos Hotta disse:

    @lalai
    Eu demorei um tempão tentando decidir o que sentir. Passei por raiva, perplexidade, depressão, tudo um pouco. às vezes ainda sonho que ele vai bater na porta de casa e dizer que foi tudo uma brincadeira. o que seria típico do russo safado.

  16. lalai disse:

    belo texto. Concordo que cada um faz a escolha que quer. Tentei fazer uma homenagem à minha querida amiga que se foi, mas é difícil. Entendo o porque de vc ter levado tanto tempo para conseguir escrever a sua. Um beijo

  17. Davi disse:

    Linda homenagem..
    Eu já me perguntei muito o que vale a pena nessa vida..
    E as vezes chego a conclusão de que paesar do meu futuro incerto, tenho certeza que serei feliz.. e isso basta!

  18. É que os que ficam, se sentem traídos. Entende? Daí a polêmica sobre o suicídio.
    Abraços

  19. maria disse:

    carlos, linda sua homenagem. e bela reflexão.
    fiquei aqui pensando. será que ele tinha suas metas muito bem estabelecidas, e que elas não incluíam namorada e família? com as metas alcançadas, o melhor a fazer era parar ali para não precisar viver dias inevitavelmente menos gloriosos (artigos rejeitados, dar aulas a alunos nem sempre interessados, dificuldades conjugais, morte de amigos e dos pais etc.)?
    talvez o que nos mantenha vivos seja uma busca incessante por algo mais.

  20. Igor Z disse:

    Estou sem palavras, mas precisava escrever porque fiquei chocado.

  21. Roberto disse:

    Como acadêmico, posso dizer: a viad acadêmica não é divertida. Mas o que é muito bom mesmo é interagir com os estudantes, dar aulas, dar risadas durante as aulas, e, quando da avaliação das provas, ver que 90% da turma entendeu boa parte do que foi explicado.
    Paper na Science é um detalhe dispensável.
    Muito triste esta história, principalmente por você ter perdido um amigo, uma pessoa tão especial.

  22. Manu Drumond disse:

    Nossa! Incrível texto, excelente narrativa. E concordo em td, especialmente qdo vc diz que “Melhor mesmo é buscar a paz entre os que ficaram e deixar em paz os que partiram.” Acrescento ainda, “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.” (Caetano Veloso)

  23. disse:

    Olha, só tenho a dizer o que você concluiu. Por mais que as pessoas aparentem algo, nunca saberemos o que se passa na cabeça do próximo. Também conheço um caso de suicidio onde a pessoa era alegre, com vida estabilizada e tudo. Por vezes uma aparente alegria esconde muita dor e sofrimento interno.

  24. Ari disse:

    Bom dia Carlos
    Incrível esta história.
    Chego a pensar se está descartada toda a possibilidade de homicídio.
    abç
    Ari

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