Morcegos contra mariposas

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Morcegos são criaturas fascinantes. Não só são os únicos mamíferos voadores (há outros mamíferos planadores) mas algumas espécies do grupo são capazes de usar ecolocalização para se localizar na penumbra noturna. A ecolocalização é tão perfeita, que centenas de morcegos podem voar à sua volta em uma apertada e escura caverna e dificilmente um vai colidir-se com você (mas acontece).
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Apenas três espécies de morcego são vampiras, a grande maioria é insetívora. Não é de se espantar que os morcegos usam seus radares para localizar suas presas, principalmente as mariposas. É de se imaginar que as mariposas sejam presas fáceis para os morcegos, dado o seu tamanho. Não é de se espantar, que estes insetos apresentam um verdadeiro arsenal para evitar ser capturados.
Uma das principais armas das mariposas contra os morcegos é a capacidade de ouvir os cliques ultra-sônicos que eles emitem. Assim que as mariposas ouvem estes cliques, elas iniciam manobras evasivas. Ouvir em ultrasom não é exatamente fácil: nós geralmente escutamos nas frequências entre 20 Hz e 15 kHz. As mariposas podem detectar sons acima de 100 kHz!

Outra estratégia que mariposas possuem para evitar ser atacadas é ser impalatável. Muitos insetos anunciam seu gosto ruim com cores berrantes. Isto funciona bem de dia. De noite, todos os lepdópteros são pardos. A solução é mudar de mídia: ao invés de alarmes visuais, mariposas de gosto ruim fazem barulhos as identificam. Esse é o caso da Cycbia tenera, que morcegos até tentam comê-la na primeira vez, mas passam a evitá-la após o primeiro encontro.
Os cientistas de um artigo interessante an Science quiseram descobrir como a Bertholdia trigona usa sons em seu arsenal anti-morcegos. Os pesquisadores levantaram três possíveis formas de usos dos sons: 1) como um aviso de que são impalatáveis, 2) como forma de se assutar o morceo e 3) como interferência do sonar do morcego.
Para testar as três hipóteses, os pesquisadores pegaram morcegos que nunca tiveram contato com mariposas e ofereceram-as como petisco. Eles fizeram isso ao longo de nove dias, enquanto o comportamento dos morcegos era monitorado por duas câmeras e um microfone colocado perto da mariposa, gravava os sons feitos tanto pela mariposa e quanto pelo morcego. Como efeito de comparação, algumas mariposas tinham seus órgãos de som destruídos.
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De acordo com os cientistas, espera-se que os morcegos sempre consigam capturar mariposas silenciadas (control, acima). Se os sons servirem como aviso contra gosto ruim, os morcegos vão capturar as mariposas nas primeiras noites e vão aprender a associar o som com o gosto ruim, passando a evitá-las nas noites seguintes (warning). Se os sons servirem para assustar os morcegos, eles vão fugir das mariposas nas primeiras noites mas vão começar a capturá-las nas noites seguintes, quando se acostumarem com os sons (startle). Finalmente, se as mariposas usassem os sons para interferir com o sonar, os morcegos nunca iriam conseguir uma taxa alta de captura de mariposas.
Os resultados não poderiam ser mais interessantes. Primeiro vamos ver o vídeo de um morcego capturando uma mariposa silenciada. Note os cliques utilizados pelo sistema de sonar do animal:

Agora vamos ver o morcego contra uma mariposa clicante. Note os mesmos cliques vindos do morcego mas também cliques diferentes, vindos da mariposa:

Como dá para notar no vídeo, os morcegos erram a mariposa mesmo com ela imóvel. Imaginem a taxa de sucesso quando as mariposas ainda fazem manobras evasivas? O interessante é que os cliques protegiam as mariposas em mais do que 75% dos ataques dos morcegos durante todas as noites (abaixo, em preto), indicando que estes cliques devem influenciar diretamente na capacidade dos morcegos de localizar as mariposas com precisão. Os pontos brancos mostram a taxa de sucesso dos morcegos atacando mariposas silenciadas.
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Os morcego ainda tentavam capturar as mariposas por muitas vezes, indicando que os cliques não serviam para espantavar os animais.
Para efeito de comparação, a mariposa Cycnia tenera (abaixo) é bastante capturada nos primeiros dias mas é evitada nos seguites, indicando que ela se encaixa na hipótese 1, a da impalatabilidade.
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Esta é a primeira prova de que mariposas consigam usar sons para interferir com os sonares dos morcegos, uma ideia antiga mas nunca comprovada. Além da decoberta, este trabalho ilustra bem como na Ciência testamos nossas hipóteses fazendo previsões e depois as testamos. Se todos fizessem o mesmo com suas hipóteses mirabolantes, teríamos menos defensores do Design Inteligente por aí.
Corcoran, A., Barber, J., & Conner, W. (2009). Tiger Moth Jams Bat Sonar Science, 325 (5938), 325-327 DOI: 10.1126/science.1174096
Foto: 80beats

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Discussão - 5 comentários

  1. Japinha disse:

    Excelente post.
    Isso mostra como a ciência se baseia
    em fatos e não em superstições.

  2. Carlos Hotta disse:

    Obrigado Maria, receber elogios seus é bom pro ego.

  3. maria disse:

    carlos, que bom que você contou essa história tão bem contada. é maravilhoso!

  4. Rui disse:

    Muito massa.
    Morcegos são muito interessantes.
    Tá, e mariposas também….

  5. pipetador disse:

    Primeira vez que entro no seu blog parabéns, muito interressante. Com certeza vou acessar mais vezes. Abraços!

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