O vírus da bactéria do pulgão da vespa

ResearchBlogging.orgAcho que, diante de toda esta mixórdia da gripe suína, podemos concluir que nada de bom pode vir de um vírus, certo? O mesmo vale para bactérias, coisas que só servem para infectar-nos, certo?

Pois senta que lá vem a história.

Existe um pulgão, Acyrthosiphon pisum, que é atacado por vespas parasitóies (Aphidius ervi). Vespas parasitóides, animais preiletos do Atila (prova 1, 2 e 3), colocam ovos em outros animais para que suas larvas cresçam alimentando-se de seus corpos. Coisa de filme de terror mesmo.

No entanto, se o pulgão Acyrthosiphon possuir a bactéria Hamiltonella defensa em seu organismo, as larvas da vespa não se desenvolvem bem e acabam morrendo. Por isso, em locais onde os pulgões convivem com as vespas, o índice de infecção pela Hamiltonella (belíssimo nome) é bastante alto (40 a 70%). Sem a pressão evolutiva as vespas, o índice de infecção cai rapidamente.
 
Só que a história ainda conta com um plot twist: somente as bactérias que forem infectadas por um vírus conseguem proteger o pulgão. Dentro do material genético do vírus está o segredo: a sequência de uma proteína que provavelmente é tóxica para as larvas da vespa. Repito: o vírus que infecta uma bactéria protege o pulgão!

Para se testar esta hipótese, os pesquisadores colocaram pulgões não infectados por bactérias (cinza claro, abaixo), pulgões infectados pela Hamiltonella sem o vírus (cinza escuro, abaixo) e pulgões infectados por bactérias infectadas pelo vírus (preto, abaixo) em contato com os vespas. O resultao é que 80% dos pulgões dos dois primeiros grupos foram parasitados pelas vespas enquanto somente 20% dos pulgões com pacote completo foram vítimas da vespa.

O interessante é que, em locais onde a vespa não está presente, a bactéria perde rapidamente o vírus, ou seja, sua existência está condicionada à pressão evolutiva as vespas. Isto sugere que deve haver custos envolvidos na infecção da bactéria pelo vírus. Se a vespa for reintroduzida depois, os pulgões não terão mais sua proteção e deverão virar papa de neném de vespa. A evolução, ao contrário do que pregam alguns, não planeja para o futuro.

Oliver, K., Degnan, P., Hunter, M., & Moran, N. (2009). Bacteriophages Encode Factors Required for Protection in a Symbiotic Mutualism Science, 325 (5943), 992-994 DOI: 10.1126/science.1174463

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Discussão - 7 comentários

  1. Maria do Rosario Silva disse:

    Gostaria de receber informações no meu email si possil,sou professora de cincia, me intereço pelo o assunto, onde cada informação com certesa irá me ajudar bastante no mei dia-adia. Abraços Rosario

  2. Carlos Hotta disse:

    No experimento, os pesquisadores cresceram pulgões sem o contato com as vespas. Estes pulgões perdiam a resistência à vespa e, se eles eram postos em contato com o inseto, tornavam-se vítimas das suas larvas.

  3. Carlos Minhoca disse:

    Hotta, não entendi a parte:
    “Se a vespa for reintroduzida depois, os pulgões não terão mais sua proteção e deverão virar papa de neném de vespa.”
    Como assim se a vespa for reintroduzida depois?

  4. Lucia Maria disse:

    Temporão, ha algo errado com o seu protocolo…
    Só o Paraná conta com 2.853 casos confirmados de gripe A e 154 óbitos. Enquanto á Europa tem 43152 casos e 93 óbitos. Será a falta do medicamento Tamiflue nas primeiras 48 hora para todos os casos, como é feito na Europa, Japão e USA?
    Dados atualizados PR (http://www.novagripe.pr.gov.br/)

  5. Tatiana disse:

    Carlos, adorei!
    Coincidentemente estou escrevendo um material pro ensino médio sobre relações ecológicas, o Luiz Bento até me passou alguns exemplos lá do Discutindo ecologia, mas não tive como deixar esse aqui de fora.
    Bem legal mesmo!
    Abração,
    Tatiana

  6. maria disse:

    adorei, sensacional! e bem contado também.

  7. l.felipe b disse:

    E que história, de tirar o folego! sempre tem um “mas isso não é tudo” hehe.Excelente!
    abraços

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