Tensão em Porto de Galinhas

Alguns de vocês já devem ter notado que ainda não escrevi sobre as minhas experiências em Porto de Galinhas (cortesia Porto cai na Rede). Estou pronto para revelar a razão:

Ser atacado por um cardume de Sargentinhos me fez arrepender de visitar Porto de Galinhas…. NOT!

Cortesia da Clarinha Gomes, do Bichinhos de Jardim.

Sexo Animal: sexo oral em morcegos


ResearchBlogging.orgO morcego frugívero Cynopterus sphinx tem um comportamento sexual pouco observado em não-humanos: felação. Sim, sexo oral já foi observado em primatas como bonobos, orangotangos e até em outros morcegos mas este é o primeiro relato de felação durante a cópula. Sim, a morcega lambe o pênis do macho sem que a cópula seja interompida )posição do Kama Sutra 42). Veja o sex-tape abaixo:
 

O time de cientistas que observou o comportamento acompanhou 20 cópulas diferentes e observou a ocorrência de sexo oral em 14. Não satisfeitos em apenas observar, eles resolveram medir a frequência na qual a fêmea lambia o macho. Na figura abaixo, é possível observar uma representação das 20 cópulas. As faixas pretas representam as vezes em que as lambidinhas no falo aconteceram. O interessante é que isso mostra que a fêmea desta espécie de morcego não é passiva durante o sexo, como muitos outros animais (inclusive alguns humanos), e que ela tem como controlar o tempo total da cópula

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O gráfico acima ainda permite notar uma correlação entre o tempo gasto com o estímulo oral e o tempo total da cópula! Duvida? Abaixo tem um gráfico do tempo que a fêmea passava lambendo o pênis do macho contra a duração da cópula.



Os cientistas levantaram algumas hipóteses para o comportamento: 1) a lubrificação e o estímulo peniano levam a um maior tempo de cópula que podem ajudar o esperma a chegar ao oviduto ou estimular a liberação de hormônios que favorecem a fertilização. 2) um maior tempo de cópula pode fazer o macho ficar mais tempo protegendo a fêmea, inclusive em períodos não-férteis, 3) a saliva pode ajudar a combater doenças sexualmente transmissíveis, servindo como agente antimicrobiano. Essa hipótese é corroborada pelo fato dos machos lamberem seu próprio pênis após a performance sexual e 4) o processo de lambimento (lambeção?) é parte do processo de escolha do parceiro.



O artigo ainda fecha com uma lição de vida:

É concebível que a fêmea manipule o macho através do aumento do estímulo sexual de modo que ela se beneficie no fim.

Fonte:

Tan, M., Jones, G., Zhu, G., Ye, J., Hong, T., Zhou, S., Zhang, S., & Zhang, L. (2009). Fellatio by Fruit Bats Prolongs Copulation Time PLoS ONE, 4 (10) DOI: 10.1371/journal.pone.0007595

Foto: rlsatslp (FLICKR)

Feliz Aniversário Brontossauros!

Este blog completou 2 anos em 15 de outubro! Obrigado a todos por todas as experiências diferentes que este blog me proporcionou.
Foto daqui.

Wildlife Photographer of the Year 2009 – minhas escolhas


UPDATE: eu deveria ter dito que a ideia de escolher 5 fotos vem da Lucia Malla, coisa que ela já faz há 3 anos. Veja as escolhas dela. A Maria Guimarães tb publicou as 5 favoritas dela assim como no ano passado.

Saiu o resultado do Wildlife Photographer of the year 2009. Como no ano passado, escolhi minhas 5 fotos prediletas. Convoco a todos fazerem o mesmo! Lembrem-se que o site permite a reprodução de 5 imagens sem permissão.


Raposas têm um significado especial nas lendas japonesas. Esta foto, apesar da Finlândia, lembra um dos muitos contos nipônicos que li e ouvi por aí. 


Uma foto diferente do interior de uma ascídia. As estruturas aboriformes são os filtros do proto-animal, que ainda possui microosganismos fotossintetizantes para complementar o seu orçamento energético.


Como extraterrestres enxergam o mundo? Um pouco do mundo subaquático. 


Não sei por quê, mas gostei desta foto de um urso polar atacando dois cisnes na Suécia. 


Que saudades de nosso símbolo antigo…

Túnel do tempo: os fósseis de Cambridge

O texto do Breno sobre fosfato me fez lembrar um texto de um tempão atrás (2003!)), que escrevi para as colunas do extinto site do Centro Acadêmico da Biologia. Tudo graças ao Wayback Machine! É engraçado notar que meu estilo de escrever era um tanto diferente do de hoje, muito menos fluido.
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Quinta-feira passada (6 de novembro de 2003), fui para uma palestra no Departamento de Geologia. O título era algo como “A procura por fósseis em Cambridge no século XIX”. Antes de entrar na palestra, pude conhecer o museu de geologia daqui. Devo confessar que passei reto pela seção de mineralogia e fui direto para a de fósseis que, para o meu prazer, era enorme. Nesta seção pude ver fósseis de cavalinhas neanderthais da espessura de um CD, diversas conchas, um plesiossauro e uma aranha fóssil do diâmetro de uma bola de basquete!  Apesar de poder ficar por lá o resto da tarde e sair satisfeito, consegui chegar ao auditório onde a palestra seria ministrada.
Basicamente, a região de Cambridge possui uma riquíssima variedade de fósseis. Estes fósseis, inclusive, estão em camadas superficiais o que, nos séculos que nos precederam, foi um grande problema para os agricultores da região enquanto tentavam – literalmente – plantar batatas. Em sua maioria, os fósseis estavam longe de lembrar répteis gigantes: eram considerados de coprólitos, merda solidificada.  O problema é que os fósseis de Cambridge não eram coprólitos, mas sim uma mistura que incluía dentes e vértebras de dinossauros aquáticos, além de restos de amocetes.
A coisa comecou a mudar quando o nosso herói John Henslow, professor titular da cadeira de Geologia de Cambridge (e, como já sabemos, orientador do Darwin) recebeu algumas amostras de tais coprólitos. Multidisciplinar como era, logo descobriu que estes fósseis não eram carbonáceos, como os normalmente encontrados, mas sim fosfatados (se vcs se lembram das aulas do Anelli, o fosfato pode substituir o carbonato durante o processo de fossilização).
Tal descoberta causou um enorme furor no Henslow que, excitado, falou para o seu aluno: “Voce acabou de descobrir uma mina de ouro! Não de ouro propriamente dito, mas de igual riqueza” (ou algo parecido). Até onde eu sei, o processo de substituição pelo qual os fósseis passaram é raro mas isso não explicava a reação do renomado cientista. Mas ele explicou para o aluno: “Com esta descoberta a Inglaterra poderá se tornar independente na produção de fertilizantes e pólvora, o que poderá nos garantir em caso de guerra!” O Henslow estava excitado porque eles poderiam MOER os fósseis, registros da vida que passou pelo nosso planeta, para fazer adubo!!!!! ADUBO!!!
A indústria de mineiração de fósseis iniciou-se por volta de 1840 e foi até a primeira guerra mundial! A Inglaterra, naquela época, já retirava fosfato de suas colônias para usar como fertilizante: eles usavam, por exemplo, fósseis da Argentina e montanhas de guano fossilizados do Chile.
A atitude do Henslow foi condizente com o contexto da Inglaterra Vitoriana em plena Revolução Industrial. A produção era uma grande preocupação na época, seja na indústria, seja na agricultura. Não é à toa que saiu em um periódico da época, sobre as minas de fósseis -que ainda empregavam adolescentes e criancas: “os restos das vidas passadas estão sendo utlizados para trazer a vida ao presente e ao futuro!”.
Durante toda a duração da palestra eu fiquei meio que horrorizado com a attitude dos ingleses. Imaginem as preciosidades geológicas que viraram batatas e rabanetes (e, por fim, ingleses)! Foram extraídos milhares de toneladas de fósseis que poderiam ajudar a explicar muitas coisas de nossa historia!!!! “Bárbaros!” eu pensava. Soh aí que eu me liguei: e o petróleo e o carvão mineral que usamos? Quanta informação preciosa sobre a história geológica do planeta perdemos?
Foto: Northsight Images

Vem pro SB.br vc também!

Estamos selecionando blogs novos para entrar no ScienceBlogs Brasil. Tem vagas para blogs já existentes e tem vagas para blogueiros novos. Veja no Raio-X como fazer!

Gripe suína: cadê?

A gripe suína demorou para chegar no Brasil, chegou, criou um princípio de pânico, matou mais de 1000 pessoas e… sumiu? Sério, qual foi a última vez que você leu algo sobre a gripe suína no Brasil? Será que ela simplesmente sumiu?

A resposta mais provável é: desapareceram com a gripe! Se esta gripe se comportar no Brasil como no resto do mundo, e não há motivos para isso para desconfiarmos do contrário, ainda temos milhares de pessoas contaminadas por aí, contaminando outras milhares (umas e outras até sendo internadas e morrendo). Uma das cosass que aprendemos é que um vírus da gripe continua causando mini-epidemias durante o verão. A diferença é que ninguém parece estar prestando atenção.

O Ministério da Saúde está publicando seus boletins com estatísticas da doença a cada mês, os boletins estaduais saem com peridiocidades diferentes e a soma de todos dá um número muito diferente do oficial pro país. O que está acontecendo? Alguém sabe?

O problema de não estarmos vigiando corretamente a progressão da epidemia é que diferentes regiões do país devem estar em um estágio diferente da epidemia. Estas regiões, portanto, deveriam estar tomando precauções diferentes para evitar que a gripe tome proporções indevidas. Além disso, na próxima estação da gripe a epidemia suína deve voltar. Se não sabemos onde estão os focos, como poderemos combatê-la?

Outro fator é a temida mutação no vírus da gripe: e se ele começar a infectar ou matar mais gente do que a variedade atual, quanto tempo vai demorar até notarmos? Quanto antes esse tipo de coisa é detectada, mais chances temos de evitar um caos na saúde pública.

Mas até lá teremos vacinas… será? Para todo mundo?

Não estou querendo ser profeta do apocalipse mas me incomoda muito a falta de informações sobre a gripe no país.

Não é bem Ciência mas…

…não deu para resistir. Certas excitações devem ser comaprtilhadas, como hoje, que vi um tricerátops-robô que piscava, mexia a cabeça e fazia sons. Vendo o vídeo abaixo, vejo que ele fazia muito mais… vou ter que voltar no Eldorado…

Fantástico mundo das coisas incrivelmente pequenas: Nelas!!!


Um pesquisador brasileiro – meu bixo – ganhou o quinto lugar no Nikon Small World. Nelas ainda conseguiu uma menção honrosa com outra foto. A foto premiada é de uma estrela-do-mar jovenzinha e a outra é de uma larva de bolacha-do-mar. O Nelas também fez um vídeo fantástico de seu trabalho de mestrado:

Vida de Bolacha from Bruno Vellutini on Vimeo.

Mais Nelas em OrgaNelas e Cooptando.

Telômeros: o caminho para o Nobel

ResearchBlogging.orgO prêmio Nobel de Medicina de 2009 foi dado para os pesquisadores Elizabeth H. Blackburn, Carol W. Greider e Jack W. Szostak pelas suas pesquisas com os telômeros e sua enzima formadora, a telomerase. O legal deste prêmio é toda a história de como os telômeros foram descobertos, uma lição para todos os ambiciosos cientistas iniciantes que existe por aí.
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O início
A história dos telômeros se inicia no anos 30s, antes mesmo de entendermos a estrutura do DNA. Na época, dois pesquisadores que ganharam seus prêmios Nobel posteriormente, Hermann Muller (Nobel 1946) e Barbara McClintock (Nobel 1983), descobriram de forma independente, que as pontas dos cromossomos se comportavam de forma diferente do resto. Por exemplo, quando um cromossomo se quebra, ele frequentemente se liga a um cromossomo intacto. No entanto, isso não acontecia quando a quebra se dava na ponta dos cromossomos, na região denominada por Muller de telômeros. A conclusão era simples: os telômeros deveriam proteger estas pontas, “assim como as pontas dos cadarços dos tênis” (analogia que já virou clichê).
O mistério dos telômeros aumentou quando a estrutura do DNA e a enzima que o sintetiza, a DNA polimerase, foram descobertas (ambas pesquisas, a propósito, também ganharam Nobel). Por causa da forma que a DNA polimerase funciona, uma das fitas do DNA replicado não pode ser extendida até o final, gerando um DNA menor do que o original. Na época não se sabia como nossas células resolviam este problema. Foi a pesquisa dos três novos Nobel resolveu estes problemas.
Entram Liz e Jack
Liz Blackburn começou a estudar as sequências dos telômeros em 1975, em seu priemiro pósdoc. Ela trabalhava com o ciliado Tetrahymena, que tem a bizarra característica de gerar inúmeros mini-cromossomos, facilitando a seleção dos telômeros. Utilizando-se de engenhosas técnicas, ela descobriu que os telômeros da Tetrahymena eram compostos de repetições de uma sequência de 6 nucleotídeos: CCCCAA (ou TTGGGG, dependendo do seu ponto de vista). O mais curioso é que quantidade de repetições nos telômeros variava muito: podia ir de 20 a 70!
Enquanto Liz desvendava a estrutura dos telômeros, Jack estudava um problema diferente: a recombinação gênica em leveduras. A estratégia de Jack – a de fazer cromossomos artificiais – não estava funcionando pois os cromossomos artificiais eram degradados, incorporados aos demais cromossomos ou tinham pedaços destruídos.
O grande encontro
Em 1980, Liz e Jack se conheceram em um congresso de Ácidos Nucleicos, em New Hampshire. Os dois conversaram muito no congresso e, de lá, saiu a ideia de se fazer um experimento maluco: o que aconteceria se colocássemos telômeros de um protozoário ciliados em cromossomos artificiais de leveduras? Para a surpresa de ambos, e de toda a comunidade científica, os telômeros da Liuz estabilizaram os cromossomos de Jack! O mecanismo dos telômeros eram comuns a protozoários e fungos! Mais surpreendentemente, os telômeros dos cromossomos artificiais aumentavam ao longo do tempo – e com sequências específicas de leveduras – o que levou Liz e Jack a postular a ação de uma enzima na produção dos telômeros.
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Entra Carol e a telomerase
Uma coisa é postular uma enzima, outra coisa é encontrá-la. Primeiro foi necessário mostrar que o aumento dos telômeros era feito por enzimas e não por outros processos, como recombinação. A responsável por fazer a comprovação foi Carol, que era aluna de Liz, na época (aparentemente ela fez a descoberta no Natal). A cereja do bolo foi conseguir mostrar que uma enzima de Tetrahymena conseguia adicionar sequências de telômeros em cromossomos de leveduras. Os trabalhos de Carol também mostaram que as telomerases utilizavam RNA para adicionar sequências de telômeros.
O conjunto de proteínas que formam a telomerase só foi identificado procurando leveduras mutantes, em um ensaio desenvolvido no laboratório de Jack, por Vicki Lundblad.
Envelhecimento e câncer
Ainda havia o problema do DNA se encurtar a cada rodada de replicação. A consequência deste fato é que você não pode replicar o DNA infinitamente: a cada rodada ele fica mais curto e isso pode levar a instabilidades. Agora sabemos que os telômeros impedem que sequências importantes do DNA sejam perdidas e a telomerase adiciona mais sequências de telômeros depois. O problema é que a telomerase vai perdendo sua eficiência com o tempo, levando o DNA a ser reduzido aos poucos e à instabilidade do cromossomo. Isso explica muitos processos associados ao envelhecimento. Ao memso tempo, céluals do câncer frequentemente possuem altas atividade da telomerase, o que permite a alta taxa de replicação.
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A aplicação do conhecimento sobre telômeros em tecnologias contra o envelhecimento e o câncer é um foco muito utilizado pela mídia para jsutificar o Nobel. No entanto, esta conexão não era clara nos anos 80s, quando estas pesquisas se iniciaram. Os telômeros, na época, eram apenas mais uma destas “pesquisas inúteis” que pesquisadores que se interessam por pesquisas básicas fazem. Isso mostra que nem sempre a pesquisa do momento é a que vai dar mais frutos no futuro. Melhor é apostar em um problema que realmente te empolgue.
Fontes:
Press Release da Fundação Nobel
Blackburn, E., Greider, C., & Szostak, J. (2006). Telomeres and telomerase: the path from maize, Tetrahymena and yeast to human cancer and aging Nature Medicine, 12 (10), 1133-1138 DOI: 10.1038/nm1006-1133

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