Túnel do tempo: os fósseis de Cambridge
O texto do Breno sobre fosfato me fez lembrar um texto de um tempão atrás (2003!)), que escrevi para as colunas do extinto site do Centro Acadêmico da Biologia. Tudo graças ao Wayback Machine! É engraçado notar que meu estilo de escrever era um tanto diferente do de hoje, muito menos fluido.
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Quinta-feira passada (6 de novembro de 2003), fui para uma palestra no Departamento de Geologia. O título era algo como “A procura por fósseis em Cambridge no século XIX”. Antes de entrar na palestra, pude conhecer o museu de geologia daqui. Devo confessar que passei reto pela seção de mineralogia e fui direto para a de fósseis que, para o meu prazer, era enorme. Nesta seção pude ver fósseis de cavalinhas neanderthais da espessura de um CD, diversas conchas, um plesiossauro e uma aranha fóssil do diâmetro de uma bola de basquete! Apesar de poder ficar por lá o resto da tarde e sair satisfeito, consegui chegar ao auditório onde a palestra seria ministrada.
Basicamente, a região de Cambridge possui uma riquíssima variedade de fósseis. Estes fósseis, inclusive, estão em camadas superficiais o que, nos séculos que nos precederam, foi um grande problema para os agricultores da região enquanto tentavam – literalmente – plantar batatas. Em sua maioria, os fósseis estavam longe de lembrar répteis gigantes: eram considerados de coprólitos, merda solidificada. O problema é que os fósseis de Cambridge não eram coprólitos, mas sim uma mistura que incluía dentes e vértebras de dinossauros aquáticos, além de restos de amocetes.
A coisa comecou a mudar quando o nosso herói John Henslow, professor titular da cadeira de Geologia de Cambridge (e, como já sabemos, orientador do Darwin) recebeu algumas amostras de tais coprólitos. Multidisciplinar como era, logo descobriu que estes fósseis não eram carbonáceos, como os normalmente encontrados, mas sim fosfatados (se vcs se lembram das aulas do Anelli, o fosfato pode substituir o carbonato durante o processo de fossilização).
Tal descoberta causou um enorme furor no Henslow que, excitado, falou para o seu aluno: “Voce acabou de descobrir uma mina de ouro! Não de ouro propriamente dito, mas de igual riqueza” (ou algo parecido). Até onde eu sei, o processo de substituição pelo qual os fósseis passaram é raro mas isso não explicava a reação do renomado cientista. Mas ele explicou para o aluno: “Com esta descoberta a Inglaterra poderá se tornar independente na produção de fertilizantes e pólvora, o que poderá nos garantir em caso de guerra!” O Henslow estava excitado porque eles poderiam MOER os fósseis, registros da vida que passou pelo nosso planeta, para fazer adubo!!!!! ADUBO!!!
A indústria de mineiração de fósseis iniciou-se por volta de 1840 e foi até a primeira guerra mundial! A Inglaterra, naquela época, já retirava fosfato de suas colônias para usar como fertilizante: eles usavam, por exemplo, fósseis da Argentina e montanhas de guano fossilizados do Chile.
A atitude do Henslow foi condizente com o contexto da Inglaterra Vitoriana em plena Revolução Industrial. A produção era uma grande preocupação na época, seja na indústria, seja na agricultura. Não é à toa que saiu em um periódico da época, sobre as minas de fósseis -que ainda empregavam adolescentes e criancas: “os restos das vidas passadas estão sendo utlizados para trazer a vida ao presente e ao futuro!”.
Durante toda a duração da palestra eu fiquei meio que horrorizado com a attitude dos ingleses. Imaginem as preciosidades geológicas que viraram batatas e rabanetes (e, por fim, ingleses)! Foram extraídos milhares de toneladas de fósseis que poderiam ajudar a explicar muitas coisas de nossa historia!!!! “Bárbaros!” eu pensava. Soh aí que eu me liguei: e o petróleo e o carvão mineral que usamos? Quanta informação preciosa sobre a história geológica do planeta perdemos?
Foto: Northsight Images





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