Sorteio: evolução de Darwin!

Hoje é Evolution Day! 150 anos atrás, Darwin publicava o seu Origem das espécies! Viva!
Não vou conseguir escrever algo à altura das séries escritas pelo Reinaldo e Takata (e não se esqueça de olhar os posts do colegas de ScienceBlogs Brasil) mas vou organizar um sorteio, o primeiro dos dois que preparei para este ano.
Se você comentar este post até 27 de novembro, 18:00, estará concorrendo a um kit de bonequinhos de plástico representando vários possíveis ancestrais meus, seus e de Darwin! É possível ter uma ideia do tamanho dos bonequinhos na Figura abaixo:

Atenção! Livro não incluído!
Algo fantástico é que cada bonequinho tem as feições de Darwin… dá ideia errada de evolução? Pode ser mas fenomenal mesmo assim!

Cada país tem o Feynman que merece…
Em 1986, o mundo viu horrorizado a explosão do ônibus espacial Challenger, evento que foi chamado por aqui de o “apagão da NASA”. A comissão formada para investigar o desastre continha o físico Richard Feynman que, na audiência do congresso, tirou um componente do ônibus espacial, um anel de borracha, da água gelada e mostrou que ele perdia suas características no frio, o que teria desencadeado a explosão (para mais detalhes).
Semana passada, parte do país sofreu um apagão. As causas ainda não estão claras: há oscilogramas apontando três curtos-circuitos em menos de 120 mili segundos (as chances de serem três raios existem, mesmo remotas), ao mesmo tempo em que o INPE diz que os raios mais próximos caíram a 2 km da região e com intensidade fraca. Enquanto o governo não chega a uma conclusão, a oposição organizou uma comissão para investigar o ocorrido. Desta forma, o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), pediu pra que a Fundação Cacique Cobra Coral (FCCC) fosse consultada para descobrir as causas do apagão. Segundo ele: “Dizem que foi raio, que foi tempestade. Ninguém sabe. Já que ninguém sabe, vamos chamar a Fundação Cacique Cobra Coral para dar uma opinião de vidência já que a ciência a administração pública não respondem às nossas dúvidas” (fonte, grifo meu).
A FCCC (saiba mais aqui) é uma entidade que presta serviços metereológicos para governantes de todas as esferas. De acordo com o site (grifos meus):
A Fundação Cacique Cobra Coral foi criada para intervir nos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza. Fundada por Ângelo Scritori e tendo a frente sua filha Adelaide Scritori também médium que incorpora o espírito e mentor Cacique Cobra Coral que também já teria sido de Galileu Galilei e Abraham Lincoln.
O site da FCCC não deixa claro a natureza dos serviços metereológicos prestados aos governantes. No entanto, uma reportagem da revista Isto É revela que a presidente da FCCC, a Adelaide Scritori, recebe o cacique Cobra Coral e pede para que ele efetue mudanças climáticas.
O interessante é que um os eventos mais “desconcertantes” efetuados por Adelaide Scritori foi a elevação de 29 graus celsius em Londres no inverno de 1986 (o mesmo ano o desastre da Challenger), quando as temperaturas chegaram a 30 graus abaixo de zero. Segundo a revista, os feitos do Cacique teriam impressionado até a primeira ministra Margaret Thatcher.
Impressionante se não fosse um detalhe: não há registros de temperaturas abaixo de -27 graus celsius na Inglaterra inteira em dois séculos de medidas. Em Londres, 1986 foi marcado por um Fevereiro bem frio com uma média de -0.5 graus celsius e uma mínima de -9.6 graus celsius. Além disso não há menção alguma na Internet a temperaturas especialmente baixas em Londres em 1986, o que não pode se falar o mesmo de 1963, The Big Freeze. Ou seja: nenhum inglês parece se lembrar do impressionante feito da Adelaide Scritori (o The Guardian, no entanto, realmente publicou uma reportagem anunciando a chegada da Adelaide na Inglaterra em Janeiro de 1987 – temperatura mínima de -9.1 graus celsius, 1.3 graus na média).
Não vou dar a minha opinião sobre a FCCC. Acho que o leitor tem a capacidade de tirar suas próprias conclusões. Só gostaria que a oposição do nosso país fosse mais esperta e procurasse um Feynman e não uma médium para denunciar as incompetências de nosso governo.

Cientistas, blogs e a profissão mais antiga do mundo
Antes de Bruna Surfistinha havia a Belle de Jour, uma call girl que relatava suas histórias no blog Belle de Jour: diary of a London call girl, que até foi selecionado como o melhor blog de 2003, pelo The Guardian.
Assim como a nossa versão tupiniquim, Belle começou a ter muito sucesso por causa de seu blog que gerou três livros e uma série de TV. Apesar da soma gigantesca de dinheiro que Belle ganhou, ninguém sabia de sua verdadeira identidade – nem mesmo seu agente. A qualidade de seus textos, no entanto, sugeria que fosse alguém já familiar com a arte de escrever.
Hoje Belle de Jour resolveu desmascarar seu pseudônimo: ela é uma cientista! A Dra. Brooke Magnanti tem PhD em neurotoxicologia do desenvolvimento e epidemiologia do câncer no Departamento de Patologia Forense da Universidade de Sheffield. O seu PhD, aliás, foi a razão de ter entrado no mundo da prostituição: enquanto escrevia sua tese, Dra. Magnanti mudou-se para Londres para procurar emprego. Como sua tese demorou para ser finalizada e suas economias minguavam-se, ela decidiu registrar-se em uma agência de call girls onde chegava a ganhar até 300 libras por hora. O resto pode ser lido em seu blog e livros.
Uma curiosidade: aparentemente Belle de Jour se deu tão bem com o blog dela porque ela já estava familiarizada com a ferramenta: ela possuía um blog de Ciências antes de começar a se prostituir!
Algumas coisas podem ser concluídas a partir desta história: 1) cientistas podem ser interessantes; 2) cada país tem a Bruna Surfistinha que merece; 3) blogs de Ciência servem para alguma coisa e podem abrir caminho para grana e sucesso e 4) o período cinzento que engloba o fim da tese e seus meses posteriores existe em todos os países, até os mais desenvolvidos.
Fontes: Mind the Gap, The Times, The Guardian e Daily Mail

Serra escolhe 2o. lugar na lista tríplice
Ontem o governador José Serra escolheu o professor João Grandino Rodas, da São Francisco, para o cargo de reitor da USP. O detalhe é que Rodas foi o segundo lugar na votação feita dentro da Universidade. O que Serra fez está dentro da lei: os três primeiros lugares na votação interna formam uma lista, que é mandada para o goverandor do Estado. Artefatos da ditadura que não fazem sentido algum (tenho a mesma opinião sobre a polícia no campus ou da “imunidade” que a área dos CAs têm). Se a decisão de Serra tem o amparo da lei, isso não quer dizer que ela tenha sido correta. Não respeitar a decisão da Universidade, mesmo sendo resultado de um processo falho de votação, é um gesto autoritário e antigo, nada a ver com a imagem de bom moço moderno que o governador quer passar no Twitter.
De acordo com a Folha, de um total de 274 eleitores que compareceram na votação, 161 votaram no Glaucius Oliva enquanto 104 votaram no João Grandino Rodas, lembrando-se que cada eleitor pode votar em até três candidatos.
Até o momento, não vi nenhuma justificativa do governador para a sua escolha. A Folha já havia cantado a bola ontem (perdi o link) dizendo que o governdor provavelmente não iria indicar o primeiro nem o terceiro lugar da lista pois foram apoiados indiretamente pela atual reitora. Ao mesmo tempo, vi que o nome escolhido já foi indicado para o Conselho Estadual de Educação pelo vice-governador Alberto Goldman. É razoável concluir que a decisão foi política.
ADENDO: já que estou no modo “mau humor”, mais uma: se alguém usa uma ferramenta “muderna” como o Twitter para fazer propaganda, falar de amenidades e não responder perguntas incômodas feitas para ele, ele realmente está aproveitando a ferramenta ou está fingindo que está usando a ferramenta? Sinceramente, acho isso tão tosco quanto um blog sem área para comentários. A vantagem do Twitter é que é vc pode ignorar as mensagens incômodas sem ficar óbvio, como no caso dos blogs.

Sobre plágio e outras fraudes
Semana passada recebi um email de um colega de Cambridge. Em anexo havia o manuscrito do artigo que sua tese gerou. Meu colega pegou grande parte dos meus dados do doutorado e fez um modelo matemático que mostra que o relógio biológico das plantas tem algumas carcterísticas inetressantes. Eu saí do laboratório inglês faz 2 anos mas os dados e as ideias que deixei para trás me garantiram um tranquilo terceiro lugar na ordem de autoria, que deve ter uns sete autores no total.
O propósito do email era um pedido para eu ler o artigo, sugerir mudanças, ver se tudo faz sentido e se não há erros crassos encondidos em algum lugar. Li o artigo cuidadosamente e achei alguns erros de legenda, algumas farses sem sentido, algumas referências a figuras esquecidas em rascunhos anteriores. Esse trabalho me tomou uma tarde inteira, tempo que definitivamente não tenho.
O fato é: em nenhum momento passou pela minha cabeça colocar o texto no Google – ou usar uma ferramenta mais especializada – para ver se o texto contém partes plagiadas. Se não fiz com o texto, tampouco chequei se as figuras são inéditas. São dois os motivos disso: não tenho tempo, que dispendi procurando erros lógicos e pensando na estrutura geral do trabalho, e não tenho motivos para desconfiar dos autores do trabalho.
Confiança, aliás, é uma palavra-chave na Ciência. Quando lemos um artigo científico temos que partir do princípio que ele foi escrito de forma honesta e que o autor se preocupou em retratar exatamente o que ele observou. A priori, não há motivos para acreditar que o autor não tenha repetido seu experimento todas as vezes que está escrito no trabalho. Se é para achar que os autores foram desonestos, talvez nem valha a pena ler o artigo. O mesmo vale para colaborações, artigos produzidos por colegas, etc. Sem algum grau de confiança não há como seguir trabalhando em conjunto. Podemos duvidar das conclusões de um trabalho ou podemos notar contradições que revelam que os autores não foram tão… rigorosos ma hora de escrever seu trabalho mas a confiança inicial sempre acaba existindo.
Isso me remete ao caso da quase ex-reitora da USP (veja detalhes aqui, aqui e aqui). Sinceramente acho que a reitora não teve culpa alguma no caso nem teria como ter evitado o plágio. Ela colaborou em algum aspecto de um trabalho que foi escrito por alguém, conferiu o resultado final e aprovou. Ela confiou que seus colaboradores foram idôneos. Os revisores do trabalho fizeram o mesmo. A reitora e todos os envolvidos foram negligentes ao confiar? Eu acho que não pois acho que a confiança é essencial para qualquer trabalho científico e isso, às vezes, é um problema.
É fato que o ser humano falha e nem sempre é ético. Sou da opinião que ninguém consegue ser totalmente ético sempre (ou mesmo, fugindo do assunto, sempre coerente). Faz parte da nossa natureza. Soma-se este fato a um sistema baseado na confiança e temos os inúmeros casos de fraudes científicas por aí. No entanto estes casos são uma minoria em um sistema que tem funcionado relativamente bem. Obviamente que, sabendo destas falhas inerentes do sistema, precauções devem ser tomadas mas não faz sentido adotar procedimentos que acabem impossibiliatndo o trabalho científico.
Assim voltamos ao trabalho de meu colega. Se descobrirem daqui a dez anos que o meu colega copiou os algoritmos de análise dos dados de alguém ou que introduziu vieses em seu software de análise para encaixar os resultados em nossa teoria, serei culpado? Alguns dirão que sim mas garanto que minha consciência estará tranquila. Argumentarei que não havia motivos para não confiar em meu colega e que minha contribuição ao trabalho foi a mais honesta possível.
Só espero não ser reitor se isto acontecer.

O tamanho das coisas
Foi na faculdade que parei para pensar no tamanho relativos das células e suas estruturas. Se eu pedir para você imaginar uma célula, com suas organelas e tudo mais, a figura que você vai imaginar provavelmente será bidimensional (ou com uma tridimensionalidade falsa) e as escalas das organelas estarão todas erradas. Veja bem, desenhas centenas ou milhares de mitocôndrias não é para qualquer um.
Uma iniciativa interessante para melhorar nossa perspectiva do fantástico mundo das coisas incrivelmente pequenas é este programinha da Universidade do Utah: ele começa com uma ilustração de um grão de café, de 1.2 cm (10^-2 m) e vai até um átomo de carbono, a 140 picômetros (10^-10 m).

Coloquei a tradução e a explicação de cada elemento no programa:
coffe bean (grão de café) – semente torrada que tem efeitos neurológicos em animais.
grain of rice (grão de arroz) – endosperma cheio de amido de gramínea.
sesame seed (semente de gergelim) – aquelas coisas toscas que colocam no pão de hambúrgueres.
grain of salt (grão de sal) – use com moderação.
amoeba proteus (ameba) – tem o QI de algumas pessoas na internet.
paramecium (paramécio) – ciliado famoso em aulas de laboratório, tem vacúolo contrátil!
human egg (óvulo) – uma das maiores células humanas, e só tem metade do genoma!
photoreceptor (fotorreceptor) – célula presente na nossa retina capaz de detectar luz.
skin cell (célula da pele) – célula da pele
perdemos um monte todos os dias, para a felicidade de nossos ácaros.
sperm (espermatozóide) – uma das menores células humanas, e só tem metade do genoma!
red blood cell (glóbulo vermelho) - carrega oxigênio para as demais células do corpo. Nada de genoma.
baker´s yeast (levedura de pão) – fermento biológico, fungo e modelo científico.
X cromossome (cromossomo X) – mulheres tem dois, homens um (geralmente). Como bem notou o @cardoso, compare o tamanho do cromossomo X em metáfase e tamanho do espermatozóide! O tchans é que tem mais 22 desses dentro dele. A diferença está nas proteínas no qual o DNA está enrolado e seu empacotamento.
E. coli bacterium (bactéria E. coli) – vive no nosso intestino e nas placas de Petri do cientista. uma das feramentas mais poderosas na engenharia genética!
mitochondrion (mitocôndia) – ex-bactéria, agora organela. Vive distrubuindo energia de moléculas como glicose em moléculas como o ATP.
lysosome (lisossomo) – organela cheia de enzimas hidrolíticas responsável por degradar outras coisas, como paramécios e amebas.
measles virus (virus da rubéola) – pequenas máquinas de replicação. Esta causa rubéola. Vírus precisam infectar céluals para se replicar.
HIV (HIV) – causa AIDS ao destruir, lentamente, linfócitos T CD4+.
influenza virus (vírus da influenza) – CORRÃO! Vamos todos morreeeeeer!!!!!
phage (fago) – um vírus que infecta bactéria! Vê se pode! Pior que isso só vírus que infecta vírus.
coated vesicule (vesícula revestida) – pequenos officeboys das nossas células.
hepatite vírus (vírus da hepatite) – note que vírus conseguem ser mínimos em comparaçaõ a uma célula! Prticamente um agente terrorista!
rhinovirus (rinovírus) – não é um vírus que infecta rinocerontes mas sim o causador de resfriados comuns.
ribossome (ribossomo) – conjunto de proteínas e RNA que consegue ler moléculas de RNAm para traduzir em proteínas.
antibody (anticorpo) – Um conjunto de proteínas que faz parte de nosso sistema imune. Geralmente reconhecem, de forma específica, corpos estranhos ao nosso.
phospholipid (fosfolipídeo) – faz parte das membranas celuares.
adenine (adenina) – um nucleotídeo que faz parte do DNA e é base para o ATP
methionine (metionina) – o mais simples de nossos aminoácidos
glucose (glicose) – sim, por favor
water molecule (molécula de água) – se vc chegou até aqui, parabéns! É um leitor fiel!
carbon atom (átomo de carbono) – não é uma bolinha
Dica do Kentaro Mori



