Sobre plágio e outras fraudes

Semana passada recebi um email de um colega de Cambridge. Em anexo havia o manuscrito do artigo que sua tese gerou. Meu colega pegou grande parte dos meus dados do doutorado e fez um modelo matemático que mostra que o relógio biológico das plantas tem algumas carcterísticas inetressantes. Eu saí do laboratório inglês faz 2 anos mas os dados e as ideias que deixei para trás me garantiram um tranquilo terceiro lugar na ordem de autoria, que deve ter uns sete autores no total.

O propósito do email era um pedido para eu ler o artigo, sugerir mudanças, ver se tudo faz sentido e se não há erros crassos encondidos em algum lugar. Li o artigo cuidadosamente e achei alguns erros de legenda, algumas farses sem sentido, algumas referências a figuras esquecidas em rascunhos anteriores. Esse trabalho me tomou uma tarde inteira, tempo que definitivamente não tenho.

O fato é: em nenhum momento passou pela minha cabeça colocar o texto no Google – ou usar uma ferramenta mais especializada – para ver se o texto contém partes plagiadas. Se não fiz com o texto, tampouco chequei se as figuras são inéditas. São dois os motivos disso: não tenho tempo, que dispendi procurando erros lógicos e pensando na estrutura geral do trabalho, e não tenho motivos para desconfiar dos autores do trabalho.

Confiança, aliás, é uma palavra-chave na Ciência. Quando lemos um artigo científico temos que partir do princípio que ele foi escrito de forma honesta e que o autor se preocupou em retratar exatamente o que ele observou. A priori, não há motivos para acreditar que o autor não tenha repetido seu experimento todas as vezes que está escrito no trabalho. Se é para achar que os autores foram desonestos, talvez nem valha a pena ler o artigo. O mesmo vale para colaborações, artigos produzidos por colegas, etc. Sem algum grau de confiança não há como seguir trabalhando em conjunto. Podemos duvidar das conclusões de um trabalho ou podemos notar contradições que revelam que os autores não foram tão… rigorosos ma hora de escrever seu trabalho mas a confiança inicial sempre acaba existindo.

Isso me remete ao caso da quase ex-reitora da USP (veja detalhes aqui, aqui e aqui). Sinceramente acho que a reitora não teve culpa alguma no caso nem teria como ter evitado o plágio. Ela colaborou em algum aspecto de um trabalho que foi escrito por alguém, conferiu o resultado final e aprovou. Ela confiou que seus colaboradores foram idôneos. Os revisores do trabalho fizeram o mesmo. A reitora e todos os envolvidos foram negligentes ao confiar? Eu acho que não pois acho que a confiança é essencial para qualquer trabalho científico e isso, às vezes, é um problema.

É fato que o ser humano falha e nem sempre é ético. Sou da opinião que ninguém consegue ser totalmente ético sempre (ou mesmo, fugindo do assunto, sempre coerente). Faz parte da nossa natureza. Soma-se este fato a um sistema baseado na confiança e temos os inúmeros casos de fraudes científicas por aí. No entanto estes casos são uma minoria em um sistema que tem funcionado relativamente bem. Obviamente que, sabendo destas falhas inerentes do sistema, precauções devem ser tomadas mas não faz sentido adotar procedimentos que acabem impossibiliatndo o trabalho científico.

Assim voltamos ao trabalho de meu colega. Se descobrirem daqui a dez anos que o meu colega copiou os algoritmos de análise dos dados de alguém ou que introduziu vieses em seu software de análise para encaixar os resultados em nossa teoria, serei culpado? Alguns dirão que sim mas garanto que minha consciência estará tranquila. Argumentarei que não havia motivos para não confiar em meu colega e que minha contribuição ao trabalho foi a mais honesta possível.

Só espero não ser reitor se isto acontecer.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Discussão - 11 comentários

  1. Não acredito que a responsabilidade do orientador em uma possível fraude, ocorra de forma direta. Entretanto, não pode deixar de existir e, a confiabilidade necessária, necessita de aprimoramentos. Se o orientador possui motivos para não confiar, deve sim, buscar formas de descobrir possíveis plágios. O que percebo é que diante carga excessiva de trabalho, muitos orientadores extrapolam a confiança aceitando tudo o que foi escrito ou que supostamente é fruto de pesquisa.Assim, o orientador possui culpa diante o plágio, pois não deve apenas aceitar. Além disso, supostamente conhece a temática que orienta, o que exige maior responsabilidade diante o que foi analisado.

  2. Miguel Angelo disse:

    Esse problema é realmente muito sério mesmo.
    Na mesma época em que vi algumas denuncias de plágio, inclusive no departamento de física da USP.
    Comecei a ver de perto o trabalho que dava examinar artigos científicos (minha namorada acabou de terminar o mestrado em fisiopatologia), saber se está tudo devidamente referenciado e etc.
    E descobri, surpreso, que não há nada realmente viável e difundido que automatize parte das tarefas de verificação de originalidade.
    Dai me surgiu uma ideia e comecei a implementar um software de comparação de artigos científicos, dando o grau de semelhança de cada trecho de um artigo com outros de bases como pubmed ou google Google Acadêmico.
    Comecei um trabalho grande de mineração de textos, processamento de linguagem natural, análise semântica e estatística e o trabalho já está bem adiantado.
    Acho que diante da montanha de trabalho e informações que os pesquisadores tem que lidar, esse é o único caminho pra poder manter a confiança e ao mesmo tempo diminuir a possibilidade de um plágio que manche essa confiança.
    Creio que isso daria mais tranquilidade aos revisores em colocar o seu nome num trabalho sem precisar sem amparar apenas na confiança de que o autor agiu eticamente.

  3. Carlos Hotta disse:

    Concordo com a parte da responsabilidade: o orientador tem que assumir a responsabilidade do caso mas não deve ser considerado como um fraudador.

  4. maria disse:

    os alunos podem surtar, mentir pro orientador, enganar. não sei se foi esse o caso. talvez não tenha como impedir nem como sacar antes (a não ser que o orientador seja presente ao longo do trabalho, acompanhe os resultados passo a passo – o que suponho ser cada vez mais raro).
    mas ter seu nome em último no artigo não pode ser só para glória. é uma posição de responsabilidade, que ele tem que assumir.

  5. Carlos Hotta disse:

    Osame, é difícil identificar células a partir de imagens de microscopia eletrônica. Tudo o que vc vê tem que ser interpretado a partir do contexto. Não sou um especialista nem analisei as imagens com cuidado mas não me surpreenderia se fosse impossível fazer a distinção.

  6. Mas um dos autores, que também estava na banca de doutorado da aluna, é especialista em Tripanossoma Cruzi e não viu que a foto era de outro bicho… Que estranho!

  7. Carlos Hotta disse:

    Maria,
    a culpabilidade do orientador é um ponto interessante… será que ele deveria ter exigido ver as fotos originais? Provavelmente. Não por desconfiar da aluna mas para garantir que aquela foto em particular era a mais representativa para se usar ou se não havia nenhum viés.
    A pergunta fica: será que ele foi um mau orientador ou pessoas surtam e é impossível evitar?

  8. Já eu acho que a frase deveria ser: “Só espero que isso não aconteça *quando* eu for reitor”. (Na verdade ninguém espera em época nenhuma.)
    []s,
    Roberto Takata

  9. maria disse:

    carlos, concordo com você.
    mas continuo achando que o orientador também tem culpa. no mínimo por não ter orientado.

  10. Excelente post Carlos, finalmente alguém trouxe à tona a rotina científica em relação à dinâmica de uma publicação.
    Vi muitas críticas a respeito do caso da reitora da USP e, parando para pensar cuidadosamente em todo o trâmite que existe ao se elaborar/escrever/publicar um artigo (principalmente quando há vários autores que tenham ou não participado realmente do trabalho), é humanamente impossível que todos os co-autores estejam cientes de absolutamente tudo que é apresentado no trabalho.
    Ainda assim, há coisas que precisam ser averiguadas em relação aos “meios” acadêmicos, e esse caso pode prestar um serviço importante nesse ponto. Por exemplo: é coincidência a produtividade científica da pesquisadora ter aumentado em 400% desde que passou a ser pesquisadora/reitora? (dados que saíram na Folha)
    Vale a discussão, não acha? O sistema de pares funciona relativamente bem, concordo, e o “sistema de confiança” nos seus colaboradores também. Mesmo assim, há comportamentos no meio acadêmico que precisam ser revistos ASAP.
    Um abraço!

  11. Atila disse:

    Acho que a ordem da frase final deveria ser: só espero que isso não aconteça se for reitor.

Envie seu comentário

Seu e-mail não será divulgado. (*) Campos obrigatórios.

*

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Política de Privacidade | Termos e Condições | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM