Conversão

Escuridão.
“Não… Não agora!”
O cientista olha desoladamente o seu equipamento apagado enquanto raios caem lá fora. Dezesseis horas atrás, quando ele começou a preparar o experimento, o sol raiava forte lá fora. Agora a chuva de verão colocava seu precioso experimento em risco.
Precioso, na verdade, é pouco. Após seis meses tentando fazer o equipamento funcionar – mais seis meses acertando as condições experimentais – o cientista não tinha mais tempo, muito menos dinheiro, para muito mais. Hoje era o dia D, quando ele saberia se o experimento funcionaria. Se tudo desse certo ele escreveria seu relatório e o projeto continuaria a ser financiado. Se o experimento desse errado, ele teria que mandar seu relatório de um ano sem um resultado concreto. E isso geralmente significava o fim. Sem financiamento, sem emprego.
“30 minutos”
Após meia hora sem energia, a câmara onde ele colocou suas sensíveis células já está fria. Sem contar que os nutrientes, entregues por uma bomba de perfusão, já começavam a faltar. Elas estavam morrendo. Mas não há nada a fazer, só lhe resta esperar.
“45 minutos”
O cientista olha mais uma vez para o seu relógio e fica desanimado. Após 45 minutos sem energia, a maior parte das suas células já deveriam estar mortas. Valeria a pena continuar? Mesmo com poucas células ele ainda poderia conseguir algo para o relatório, ele responde rapidamente. E com o relatório aprovado, ele teria mais um ano para conseguir mais resultados. Mas a chuva e os raios continuam fortes.
O cientista fica mais tenso ao pensar que ele pode estar desempregado quando seu filho nascer. Não é só sua carreira que está em jogo. Desesperado, o cientista, ateu militante, grita alto:
“OK, vc venceu! O meu deus é mais fraco que seu Deus!” e começa a fazer o impensável: rezar.
Assim que o cientista termina sua oração, a chuva repentinamente pára e a luz volta. Supreso, o cientista ouve o laboratório voltar à vida e as luzes do equipamento piscarem. Ele comanda seu equipamento checar a condição de suas células. Milagrosamente, estão todas vivas!
O cientista continua seu experimento e as células respondem aos seus estímulos exatamente como suas hipóteses previam. A adrenalina de ver seu experimento dando certo, aliada ao inesperado momento de epifania, lhe fazem sentir bem como nunca.
“Esta é a história mais impressionante que já ouvi nesta comunidade” disse o padre, após o relato de como o novo membro de sua paróquia se converteu. “Fico feliz em saber que a reza fez com que seu experimento desse certo. Quer dizer que você conseguiu os resultados para o seu relatório?”
“Na verdade não, padre” respondeu o cientista, com um sorriso.
“Não?” surpreendeu-se o padre. “Mas você mesmo me disse que foram os melhores resultados que você já teve!”
“Certamente foram! Mas quando eu estava preparando os gráficos para o relatório que eu percebi: eu não havia feito os controles para interferência divina! Estes resultados não servem para nada!”
O cientista pode ter passado a acreditar em Deus, mas ele continua um bom cientista.
Foto: rakustow



Discussão - 11 comentários
Curti o final! Carlos entrou em férias e esqueceu dos fieis leitores do blog… tsc tsc…
Espero que tenha um feliz ano novo!
Sem querer azedar a piada (que é boa demais): ela só faz sentido se “Deus” ali é o “Deus-das-lacunas”
Em um universo teísta a ação divina não acontece nos buracos do inexplicável, mas no ordinário. Temo que o universo do bom cientista tenha continuado tão opaco depois de sua “conversão” quanto o era antes.
Ele pode ter continuado um bom cientista, mas tenho dúvidas sobre o tipo de Deus em que ele passou a acreditar, rsrsrs…
Sensacional conto! Mas, fiquei sem saber qual é o deus do cientista que é mais fraco que o Deus do padre, já que ele era ateu militante, hehe. Parabéns!
Muuuito bom!
Ri demais com o final!!
Ai ai.. pena que se eu contar essa história pros meus amigos ngm vai rir…
Depois de duas semanas com religiosos jogando pedras no meu blog, seu texto foi uma benção, Carlos.
Muito ótimo!
A resposta para aquela pergunta do formsprings deveria ser um link para este conto.
S-E-N-S-A-C-I-O-N-A-L!
[]s,
Roberto Takata
Hahahaha! Ele precisava do dado para o relatório, mostrando que o equipamento funciona e promete resultados bons
Tomei cuidado para não ser um artigo formal.
Acho que esse cientista não era tão bom assim. Não estava preparado para quando um referee pedisse por uma repetição dos experimentos. Parece que não tinha um ´backup´ experimental.
Hehehhee, muito bom! Excelente texto. De qualquer forma, fica a pergunta: conseguiu ele salvar seu emprego mesmo sem os resultados? E o filho do pobre coitado, como ficou? :c)
hahahaha, adorei o texto, muito bom ^^