Clima: transparência é preciso, cientistas não são precisos
O aquecimento global causado pela ação humana é um consenso entre cientistas. As evidências que indicam isso não são poucas, vêm de inúmeros centros de pesquisa e utilizam-se múltiplas metodologias. Mesmo assim, como visto nos casos dos e-mail roubados, cientistas são seres humanos e são tão capazes e cometer erros quanto o cidadão comum. Agora precisamos avisar o cidadão comum disso.
Uma das maiores dificuldades ao se divulgar Ciência é mostrar aos civis que um consenso científico não é igual a certeza científica. A tendência dos cientistas é dar a impressão de que sabemos tudo sobre aquecimento global. Isso acontece porque os céticos do clima usam as incertezas atuais para dar a ideia de que não se sabe bulhufas sobre o assunto. Da mesma forma, os céticos utilizam dados contraditórios para dizer que o “castelo de cartas” do aquecimento desmoronou. Obviamente é um tanto vil utilizar a má percepção da Ciência pelo público para sustentar a sua ideia, no entanto esta foi uma brecha criada por nós. A solução? Transparência.
Um bom começo é o IPCC admitir que nunca deveria ter publicado uma informação – que as geleiras do Himalaia iriam desaparecer em algumas décadas – sem ter checado suas fontes. Agora que sabemos que o dado veio de uma entrevista dada por um cientista para o magazine New Scientist e replicada em um relatório da WWF, ou seja, não passou por peer-review. Para o público parece ser um sinal que todas informações do relatório do IPCC tiveram origens em fontes não-confiáveis – o que está longe de ser verdade. Se fôssemos claros com o público que as informações no relatório mostram o que sabemos sobre o aquecimento global e suas consequências e que algumas destas informações podem ser revisadas, creio que a reação aos dados do Himalaia fossem menos exagerada. A propósito, a própria informação de que o Himalaia está perdendo gelo é verdadeira, como pode ser visto na foto abaixo.

Mostrar que o consenso científico não é completo e infalível pode trazer problemas na hora de enfrentar as certezas dos céticos do clima, no entanto a transparência nos protege de situações como os emails roubados ou erros encontrados no relatório. Custava mostrar que os dados dos anéis de árvores mostrava um decréscimo nas temperaturas da última década ao mesmo tempo que todas as demais reconstruções mostram um aquecimento? Custa divulgar a lista de mais de 300 itens de incertezas que temos sobre o clima? É pano para manga para os céticos do clima? Talvez, mas mostrar que há um consenso sobre o aquecimento global, apesar de todas as imperfeições em nosso conhecimento é mais vantajoso ao longo prazo. Não só para o caso do aquecimento global mas para a Ciência como um todo.
PS: a revista Nature da semana passada deu um grande passo na direção da transparência ao selecionar quatro grandes incertezas que temos atualmente – como a dinâmica das chuvas, a influência dos aerosóis no clima, o clima escalas territoriais pequenas e as reconstruções de temperatura baseados em dados paleoclimáticos.
PS2: a foto veio do Real Climate



Discussão - 10 comentários
Hotta você acredita mesmo que existe um conseso cientifico sobre essa questão?…só faltam dizer agora que o filme do al gore ta falando a verdade sobre o tema
Em primeiro lugar, já aviso: não sou da área de meteorologia ou o que valha; sou físico de partículas.
Dito isso, opino (e é opinião, discorde, por favor): há duas situações muito diferentes e que precisam ser encaradas com seriedade: a) temos dados, mas com que nível de confidência pra afirmar tão categoricamente sobre fim de geleiras e quanto esses dados podem efetivamente ligar a ação do homem com o que vem acontecendo com a natureza – isso precisa ficar claro pra comunidade de um modo geral, pra não virar falácia -?, porque b) foi montado um tabuleiro político onde o clima e os dados não tem tanta importância quanto o que se pode ganhar e isso, infelizmente, é motivo mais que suficiente pra que a informação coletada e a liberada (pra quem quer que seja) sejam diferentes, como você bem citou.
Acaba tudo virando neblina de fumaça, com brasileiro cobrando norte-americano por medidas quando não temos a menor vergonha e nem tentamos esconder que precisamos resolver nossa crise de desmatamento; o que significa que o teatro feito é mais pra discutir crescimento de países que pra discutir meio-ambiente.
E tudo vira um grande circo. Os romanos já sabiam das coisas…
Hotta, qualquer divulgador de Ciências ficaria honrado de escrever um artigo assim. Belo trabalho.
O problema é que os cientistas gostam da aura de clérigos dominadores de uma verdade intangível que eles ganham quando agem com obscuridade.
Quando o leigo não tem informações suficientes para entender o que está sendo dito, ele não tem poder de contra-argumentação e aceita o cientista como senhor de verdade inquestionável.
Como os cientistas lidam tão bem com opiniões divergentes quanto bispos, eles optam pela obscuridade.
Mas o tiro às vezes sai pela culatra, não?
A Ciência só deixará de ser Religião pra tornar-se Saber quando a transparência for dominante.
[]’s
Cacilhas, La Batalema
É bom que percebamos que é a divulgação deliberada de informação que sustenta tantas controvérsias. Também concordo com o Tiago, os interesses dos mais poderosos forçam os pesquisadores a emitir resultados sem confirmação ou demasiadamente exagerados. Ainda bem que hoje contamos com fontes cada vez mais confiáveis, sinal claro do amadurecimento do público.
Fernando, usei o termo cético do aquecimento global porque as pessoas ficam ofendidas se usar outros, como negacionistas. Concordo que as fotos não provam nada mas este não era o meu objetivo, meu objetivo era ilustrar o que dizem os artigos científicos, que podem ser achados seguindo o link que coloquei. Esta é a diferença entre um lado e outro: um (quase sempre) consegue sustentar suas afirmações com referências.
Carlos, preciso discordar do modo como você usou a palavra “cético”. Aliás, discordo do modo como o mundo usa a palavra cético.
Ceticismo é bom para a ciência. É não aceitar um fato sem provas, sem fortes evidências. Questionar provas, então, é excelente para o desenvolvimento. Ser cético não quer dizer não acreditar em nada.
E uma coisa muito diferente disso é ser chato. O que você coloca no seu texto como “céticos” na verdade são os chatos, que mesmo com provas contundentes, às quais eles nem conseguem mais questionar, continuam bitolados em idéias que não funcionam.
Uma coisa é eu dizer que as duas fotos que você mostrou não constituem uma prova satisfatória; afinal, como vou saber se a variação na camada de gelo não é natural sem ter um histórico melhor para me basear? Outra coisa completamente oposta é eu afirmar, por exemplo, que a segunda foto pode ter sido tirada no verão, quando a camada de gelo é mesmo menor, logo sua afirmação é uma fraude, logo o aquecimento global é uma fraude, politicagem, etc…
Minha primeira afirmação é cética: não nego o fato, mas questiono a prova apresentando uma possibilidade diferente. A segunda afirmação é ser um pentelho mesmo: nego a evidência com uma acusação infundada e uma conclusão ilógica.
O problema é que nós temos um compromisso com a verdade e ficamos restritos a apresentar dados, enquanto os negacionistas não têm esse empecilho e podem inventar qualquer mentira, o que faz de qualquer deslize da comunidade científica um “não disse?” para eles.
Não ter caráter deve ser muito bom.
Tiago, o consenso atual é bastante forte e poucas das vozes discordantes tem argumentos contra ele. Muitos dos cientistas sérios que permanecem céticos não trabalham na área e seus argumentos muitas vezes são parecidos com os de torcedores de futebol.
O que é necessário ressaltar é que há falhas em nosso conhecimento sim e é necessário procurá-las e divulgá-las para tornar as teorias ainda mais robustas.
Ótimo post.
Para ser sincero, sempre tive um pé atrás com relação a esse alarde todo sobre o Clima. Simplesmente porque, aos meus olhos, tudo parecia não passar de uma grande politicagem. Claro que não saí por aí falando o que pensava sobre o assunto (acho que brasileiro tem mania de opinar sobre o que não conhece), mas depois descobri que haviam cientistas sérios que não engoliam isso tudo também.
Ora, muito estranho: um “consenso” que não é consenso. Algo estava errado.
No fim, penso que todo esse “constrangimento” poderia ser evitado se existisse mais transparência por parte dos cientistas, dos órgãos governamentais e da mídia. Mas, se pensarmos no tanto de dinheiro e interesses políticos que estão em jogo com os acordos ambientais, a tal da “transparência” fica pra escanteio.