A Calvaria e o Dodô
Cientistas usam o método científico como lentes para enxergar o funcionamento do mundo. Muitos tentam construir modelos elegantes para explicar o que observam. A busca da beleza no universo tem seus perigos: uma hipótese bonita de nada vale se fatos não a sustentarem. O problema é que todo cientista é um tanto narcisista e muitos acham que suas histórias valem mais do que a realidade.
Um clássico exemplo disso pode ser observado em um artigo publicado por Stanley Temple em 1977, na prestigiosa revista Science. No artigo, Temple descreve a desesperadora situação da árvore Calvaria major, cuja população nas ilahs Maurício era de apenas 13 indivíduos. As ilhas Maurício são famosas por ter sido o habitat do Dodô, extinto em 1680.
Temple diz, em seu artigo, que os poucos indivíduos restantes da Calvaria têm mais de 300 anos, ou seja, neste período nenhum indivíduo de Calvaria se estabeleceu na ilha. A explicação estaria no fato da semente do fruto ter uma casca muito grossa, de mais de 1.5 cm, que não estaria permitindo a germinação de novas Calvaria. De acordo com Temple, a semente era ingerida por ninguém menos que o Dodô, cuja poderosa moela desgastaria a sua casca, permitindo a germinação da Calvaria junto com suas fezes. Assim, Temple hipotetizou que a extinção do Dodô, impediu a germinação de novas sementes da Calvaria, condenando mais uma espécie à extinção.

Um experimento de Temple até mostrou que a ingestão de 17 sementes por perus resultava em três sementes que se germinavam após a ação do sistema digestório da grande ave. As primeiras, segundo Temple, a germinar em 300 anos.
A interação da Calvaria com o Dodô mostrava como o destino de duas espécies pode estar intimamente ligado e como deveríamos ter muito cuidado ao alterar o nosso ambiente. Esta história foi contada inúmeras vezes por ambientalistas tentando educar crianças e adultos pelo mundo.
*pausa dramática*
Só que os fatos não sustentam a bela hipótese de Temple…
… para começar, trabalhos publicados em 1941 e 1946 mostraram que as sementes da Calvaria conseguem germinar mesmo sem nenhuma abrasão na sua casca pois ela simplesmente racha após um tempo no solo. Sem contar que censos populacionais feitos em 1991 revelaram que há centenas de Calvaria de todas as idades nas ilhas Maurício. Para ser justo, a população é ainda bastante reduzida, principalmente por causa do desmatamento e a introdução de espécies como porcos e veados nas ilhas.
Mais: Temple alimentou perus com 17 sementes e viu que 3 germinaram depois. Só que ele não pegou 17 sementes e as colocou no solo para ver quantas germinavam sozinhas. Ou seja, não é possível saber se o sistema digestório dos perus realmente ajudaram a germinação das sementes! Temple nem tentou medir o quanto da casca das sementes era retirada após a passagem pelos perus. A propósito, não sabemos se dodôs comiam sementes da Calvaria. Como estão extintos faz séculos, os hábitos alimentares do galinhão são um mistério. Sem contar que perus esmagaram cerca de 40% das sementes mas dodôs eram de três vezes maiores!
Temple era um ornitólogo que elaborou uma hipótese maravilhosa onde uma árvore era tão dependente de uma ave que, quando ela foi extinta, a árvore começou a desaparecer. A hipótese mostrava de forma indiscutível a interrelação de duas espécies, algo já na moda em 1977. Temple provavelmente sabia que os fatos não confirmavam a sua hipótese e tentou publicá-la assim mesmo, sendo muito bem sucedido. Se ele teve sucesso na época, a história não foi tão gentil e hoje sabemos que, mesmo bela, a hipótese não se sutenta.
A história de Temple mostra que nem sempre devemos nos apaixonar por nossas hipóteses: ao tentar alcançá-las, nem percebemos quando a dura realidade acaba nos afogando.
Fontes:
Temple SA (1977). Plant-Animal Mutualism: Coevolution with Dodo Leads to Near Extinction of Plant. Science (New York, N.Y.), 197 (4306), 885-886 PMID: 17730171
The Widespread Misconception that the Tambalacoque or Calvaria Tree Absolutely Required the Dodo Bird for its Seeds to Germinate. David R. Herhey.
O esqualeno nas vacinas da gripe é tóxico?
O esqualeno presente nas vacinas não é tóxico.
Em muitos emails que contraindicam o uso da vacina contra H1N1, há o argumento de que substâncias presentes na vacina: thimerosal e esqualenos, são tóxicos. O thimerosal é usado para evitar que as vacinas se contaminem com bactérias. Não há evidências de que a quantidade de mercúrio na vacina é tóxica. O Atila ainda nos lembra que uma porção de cação pescado em São Paulo tem mais mercúrio que na vacina (não comam cações pois é uma espécie ameaçada!).
O esqualeno é utilizado para estimular o sistema imune e aumentar a eficiência da vacina. Nosso corpo produz esqualeno como parte de seu funcionamento e há esqualeno no seu sangue neste momento. O óleo que cobre o seu corpo também possui esqualeno. A quantidade de esqualeno deixada em nossas impressões digitais é tanta que é fácil quantificar a concentração de esqualeno no seu mouse. Não é de se espantar que comidas de origem animal contenham esqualeno. Esqualeno também é utlizado em cosméticos como cremes e batons.
A história de que o esqualeno nas vacinas é tóxico tem data de início. Entre 2000 e 2002, um grupo de pesquisadores publicou dois artigos (1 e 2) mostrando que soldados que apresentavam a Síndrome da Guerra do Golfo possuíam anticorpos anti-esqualeno. A hipótese do grupo era de que o esqualeno presente nas vacinas contra o antrax dadas aos soldados estaria provocando a formação de anticorpos anti-esqualeno nos soldados, o que provocaria a Síndrome da Guerra do Golfo. No entanto, pesquisas posteriores mostraram que a pesquisa tem sérios problemas experimentais.
Alguns esclarecimentos:
1) a vacina contra o antrax não usa esqualeno como adjuvante! – análises da vacina anti-antrax mostraram que o adjuvante utilizado para aumentar a eficácia da vacina era o hidróxido de alumínio. No entanto, algumas vacinas anti-antrax contém esqualeno… em quantidades minúsculas associadas à contaminação causada pelo contato da nossa pele com algum instrumento usado na fabricação da vacina (3). Para se ter uma ideia, o esqualeno contido nas vacinas anti-antrax possui esqualeno em uma concentração menor do que possuímos no nosso sangue. Eu chegaria a dizer, usando estes critérios, que tudo que injetamos no corpo possui esqualeno.
2) O grupo não demonstrou que seu método detecta anticorpos anti-esqualeno – quem trabalha com ensaios de detecção de anticorpos sabe que é fácil se enganar usando estes métodos. Para evitar isso, é preciso fazer experimentos de controle para garantir a eficácia do método. O grupo responsável pela pesquisa associando vacinas com a Síndrome da Guerra do Golfo nunca publicou dados mostrando que seu método funciona!
3) O esqualeno não é capaz de induzir anticorpos anti-esqualeno – a hipótese do grupo era de que o esqualeno faria o corpo “voltar-se contra si” através de anticorpos anti-esqualeno. Pesquisas posteriores mostraram que o esqualeno NÃO induz a produção de anticorpos anti-esqualeno, mesmo se injetado em quantidades altas (4). Outros estudos utlizando métodos confiáveis de detecção o anticorpo anti-esqualeno mostrou que uma boa parcela da população possui estes anticorpos naturalmente e que a porcentagem de soldados que foram à Guerra do Golfo que tinham anticorpos anti-esqualeno é a mesma da população (5)!
4) O esqualeno pode induzir doenças auto-imunes, se você for um camundongo – se injetarmos altíssimas doses diretamente nas juntas de ratos, eles poderão ter artrite. Não deixem injetarem vacinas nas suas juntas! Além disso, uma das formas do esqualeno, o MF59, induziu sintomas parecidos com lúpus em camundongos. No entanto, testes com altas quantidades de MF59 em humanos não provocaram o mesmo efeito. Lembro que as quantidades de esqualeno nas vacinas é baixa.
5) O esqualeno é usado em vacinas anti-gripe desde 1997 – o esqualeno é usado na Europa desde 1997 e não há indícios epiemiológicos de problemas associados ao seu uso. Desde 1997, milhões de pessoas são vacinadas todo ano com vacinas que contém esqualeno.
Os emails que dizem que o esqualeno é tóxico, enfim, só estão gerando pânico e paranóia. Estes emails se baseiam em um estudo já desacreditado por inúmeros outros estudos. As evidências apontam que o esqualeno é uma substância segura nas vacinas.
Fontes:
Recomendo a leitura de um relatório o FDA (Food and Drugs Adminstration) sobre o esqualeno e as vacinas.
(1) Asa, P. (2000). Antibodies to Squalene in Gulf War Syndrome Experimental and Molecular Pathology, 68 (1), 55-64 DOI: 10.1006/exmp.1999.2295
(2) Asa PB, Wilson RB, & Garry RF (2002). Antibodies to squalene in recipients of anthrax vaccine. Experimental and molecular pathology, 73 (1), 19-27 PMID: 12127050
(3) Spanggord RJ, Sun M, Lim P, & Ellis WY (2006). Enhancement of an analytical method for the determination of squalene in anthrax vaccine adsorbed formulations. Journal of pharmaceutical and biomedical analysis, 42 (4), 494-9 PMID: 16762524
(4) Del Giudice G, Fragapane E, Bugarini R, Hora M, Henriksson T, Palla E, O’hagan D, Donnelly J, Rappuoli R, & Podda A (2006). Vaccines with the MF59 adjuvant do not stimulate antibody responses against squalene. Clinical and vaccine immunology : CVI, 13 (9), 1010-3 PMID: 16960112
(5) Phillips CJ, Matyas GR, Hansen CJ, Alving CR, Smith TC, & Ryan MA (2009). Antibodies to squalene in US Navy Persian Gulf War veterans with chronic multisymptom illness. Vaccine, 27 (29), 3921-6 PMID: 19379786
O ataque dos artrópodes assassinos
A scibling GrrlScientist colocou em seu blog um vídeo impressionante de um louva-deus atacando um beija-flor perto de uma destas garrafinhas de água com açúcar.
Como é possível ver no vídeo, o pequeno louva-deus consegue segurar um beija-flor que conseguiu escapar no final. O vídeo tem feito muito sucesso, chegou a ser mencionado no überblog Boing Boing.
Apesar da bizarrice da situação, aparentemente ataques de louva-deuses a beija-flores não é um evento tão raro assim. Só no Google há mais de 6o mil menções a histórias semelhantes. Em algumas delas, o louva-deus é bem sucedido.
Na continuação do texto, há fotos chocantes de um louva-deus comendo um beija-flor além de outros relatos de artrópodes atacando vertebrados.
Spam pela Vacinação!
Tenho recebido emails de correntes e comentários por aí falando das razões para não se vacinar. Coisas que mencionam o “genocídio programado” e as conspirações da Big Pharma.
Eu sou a favor da vacinação contra o H1N1 e, agora que refleti sobre isso, sou a favor da vacinação anual contra a gripe.
Se você concorda comigo e quer informar seus colegas e parentes sobre a vacinação, principalmente os que demonstram ser contra, por favor mande este texto por email:
A origem da Cobra
O conto abaixo foi inspirado pela descoberta de um fóssil de uma cobra atacando um ninho de saurópodes.

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Todo mundo sabe como a Cobra convenceu dois hominídeos a comer o fruto da ciência que lhes deu um telencéfalo desenvolvido, polegares opositores e chakras. No entanto, pouco se fala sobre como a Cobra chegou lá. A razão deste desconhecimento recai sobre a relutância dos religiosos de aceitar o fato incoveniente de que o Cientista fez mais de um Jardim. Todo experimento precisa de réplicas, Ele explicaria com um sorriso lógico.
A verdade é que o Cientista populou cada Jardim com seres diferentes: havia o Jardim Ediacara, o Jardim Burgess Shale, o Jardim Cambriano, etc. E havia seu Jardim predileto, onde ele colocou criaturas feitas à sua imagem e semelhança: os dinossauros. O parque dos dinossauros era espetacular: velociraptors mostravam suas plumas, estegossauros balançavam suas placas e tiranossauros lutavam com macacos gigantes. Sim, no Jardim predileto havia mais do que dinossauros: pterossauros cruzavam o ar, dimetrodons aqueciam suas velas e piratas dançavam com ninjas. Havia também a Cobra.
A Cobra se ressentia do Cientista. Não pela ausência de pernas, isso ela até curtia. O problema foi Ele ter criado a hérnia de disco. O ressentimento da Cobra era tanto que ele se materializava na forma de veneno, que ela usava para capturar as suas presas. A Cobra se alimentava de pequenos animais como sapos, Smurfs e camundongos mas ela queria mais. A Cobra queria vingança.

Um dia, quando o Cientista se virou para lidar com um problema no Jardim dos unicórnios, a Cobra decidiu atacar o ninho dos seres mais iluminados do Jardim: saurópodes. E foi na hora do ataque que o Cientista voltou: sua fúria foi tão grande com tal sacrilégio que o momento ficou marcado em pedra. Como punição, o Cientista baniu a Cobra para o Jarim do Éden e a escultura infame foi escondida em um canto empoeirado do descarte do Cientista.
A sede de vingança da Cobra ainda não havia sido saciada e ela abriu um sorriso quando ficou sabendo da árvore da sabedoria…



