Carta ao Instituto de Biociências da USP


Abaixo se encontra uma carta que mandei para o diretor do IBUSP, os membros da congregação, o chefe de Departamento de Botânica e os membros do conselho de Departamento de Botânica. Se for de seu interesse, divulgue a carta (carta_concurso_final.pdf), se quiser discutir o seu conteúdo, coloco-me à disposição no e-mail carlos.hotta ARROBA gmail.com
.
Ilmo. membro da congregação do IBUSP,
Venho formalizar meu protesto contra a banca escolhida para o concurso para professor doutor do Departamento de Botânica, área Fisiologia Vegetal (processo 2009.1.1237.41.1). A meu ver alguns membros da banca nunca poderiam ter sido escolhidos por possuírem inúmeras colaborações com candidatos do concurso, lesando assim os princípios de igualdade entre os candidatos na realização do concurso.
A desculpa de que não há docentes sem vínculo com candidatos é falaciosa uma vez que o cargo é para o Departamento de Botânica e há muitos docentes altamentes qualificados para avaliar as condições dos candidatos de entrar no Departamento. É preferível escolher um docente que não trabalhe na mesma área específica do concurso a escolher um que tenha relações estreitas com candidatos.
Como exemplo, destaco o Dr. Gilberto Barbante Kerbauy que teve 26 co-autorias em resumos publicados em congressos com o Dr. Luciano Freschi, cujo total de resumos apresentados é 55 (segundo o currículo Lattes do Dr. Freschi). Além disso, o Dr. Freschi publicou recentemente (2010) um de seus artigos com um segundo membro da banca, o Dr. Antonio Vargas de Oliveira Figueira (Axillary bud development in pineapple nodal segments correlates with changes on cell cycle gene expression, hormone level, and sucrose and glutamate contents; doi 10.1007/s11627-009-9276-9). Finalmente, o Dr. Luciano Freschi – de acordo com o CNPq – é membro do grupo de pesquisa “Sinalização de Processos Organogênicos e Metabólicos em Orquídeas e Bromélias: Interações Hormonais, Óxido Nítrico e Compostos Nitrogenados” que também é composto pelos Dr. Kerbauy (líder do grupo), Dr. Lázaro Eustáquio Pereira Peres (também membro da banca do concurso) e Dr. Figueira.
Não se trata, portanto, de colaborações antigas ou pontuais.
É necessário ressaltar que o Dr. Freschi não é um caso isolado de conexões da banca com outros candidatos. O Dr. Rogério Mamoru Suzuki foi aluno de iniciação científica, mestrado e doutorado com o Dr. Kerbauy – além de ter publicado 6 de seus 7 artigos em colaboração com o Dr. Kerbauy e um com o Dr. Peres. O Dr. Susuki teve 5 painéis apresentados emc ongresso com a Dra. Eny Iochevet Segal Floh em 1997.
Esta carta não vem questionar os resultados da banca pois creio que foi coerente com os seus critérios. O Dr. Kerbauy sugeriu em minha arguição do memorial que era da opinião do Departamento que o melhor seria contratar pessoas que já estivessem presentes no Departamento pois elas se integrariam melhor aos laboratórios já existentes. Acredito que este tenha sido um dos critérios utilizado pelo Dr. Kerbauy, Dr. Peres e o Dr. Figueira para indicarem o Dr. Freschi. Vejo que o Dr. Freschi é um pesquisador que tem muito potencial, apesar dos poucos trabalhos publicados e um número mínimo de citações por outros artigos (2, segundo o Web of Science, sendo que 1 é auto-citação).
Reafirmo que o problema do concurso está na forma vergonhosa na qual aconteceu a escolha dos membros da banca que, a meu ver, ferem os princípios éticos que eu esperava que o Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo deveria defender. O IBUSP é uma instituição com um histórico importantíssimo para o desenvolvimento das Ciências Biológicas no Brasil e é com muita tristeza que vejo que seus docentes foram incapazes de montar uma banca examinadora cuja neutralidade fosse inquestionável. Espero que este erro nunca mais se repita pois o Instituto de Biociências deixará de atrair os melhores pesquisadores para o seu quadro, o que comprometerá a sua posição de liderança na área.
Dr. Carlos Takeshi Hotta

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Discussão - 25 comentários

  1. Luiz disse:

    Caro Hotta,
    provavelmente vc não me conhece (eu sim te conheço do IB), mas saiba que sou visitante assíduo do blog.
    Aqui na UFSM onde trabalho vivo de perto essa questão toda da formação das bancas. Tento (junto com outros colegas) primar pela imparcialidade e qualidade (juntas) das bancas, mas nem sempre isso é possível… Não por ‘contaminações’ ou privilégios, mas pq estamos em crise, sem dinheiro para trazer avaliadores externos! E mais, são poucos os que querem trabalhar fora de um grande centro, de uma capital de estado. Isso gera um embaraço enorme: abrir concurso para não preencher vaga? É muito caro à Universidade (nos dois sentidos, o de custo e o de apreço).A questão é mais complexa do que parece!
    Encontrei na Revista da Biologia (do mesmo IB que nos formou) um texto da profa. Eleonora Trajano (AMIGOS, AMIGOS, BANCAS À PARTE) bem interessante. Vale a leitura
    (http://www.ib.usp.br/revista/node/21).
    Grande abraço e parabéns pelo blog!
    Luiz Caldeira

  2. “Vejo que o Dr. Freschi é um pesquisador que tem muito potencial, apesar dos poucos trabalhos publicados e um número mínimo de citações por outros artigos (2, segundo o Web of Science, sendo que 1 é auto-citação). ”
    Fatality

  3. Ronaldo Angelini disse:

    Carlos, concordo com o comentário do Fernando aí em cima. Quer mudar a USP? Faça o questionamento do resultado no Ministério Público. I’m sorry, mas sua carta é de uma ingenuidade irritante: “…espero que este erro nunca mais se repita…”. Você já descobriu tanta coisa no seu ramo de pesquisa, precisa estar mais atento para com o comportamento da espécie humana e em especial dos cientistas que se acham sempre éticos e corretos em seus julgamentos. Boa sorte no próximo concurso.

  4. Carlos Hotta disse:

    Ricardo, eu não questionei o resultado da banca, tentei deixar isto claro. No entanto, sei q é quase impossível provar favorecimento quando ele acontece, por isso temos q evitar este tipo de situação.
    Na minha opinião, ter colaboração com um dos candidatos sempre irá alterar o seu julgamento dele, mesmo q aconteça de modo inconsciente. Pode até acontecer q o candidato seja prejudicado caso o high moral standard tente compensar negativamente o favorecimento inconsciente q ele possa ter.
    Em suma: é um prato cheio para problema e, por isso, nunca deveria acontecer.

  5. rvencio disse:

    Apesar de concordar com a maioria do que foi dito, devo lembrar também que tomas uma atitude um pouco contrária ao “inocente até que se prove o contrário”. Se as pessoas tem high moral standards, ter tido colaborações com alguém prestando o concurso não é o fim-do-mundo né? Estamos assumindo que os caras terem colaborações implica, quase que necessariamente, que favorecerão este ou aquele. Prof. Dr. Vêncio FMRP-USP.

  6. Elias disse:

    Por isso depois de formado e Doutorado em biologia optei em ser Pastor porque entendi o que Jesus disse: Eu sou o caminho a verdade e a vida. O mundo dos homens é corrupto e maligno. Só Jesus Cristo Salva!!! o homem da ambição, é nescessário que tomemos consciência que existe uma parte podre em nós e essa mudança só pode ocorrer mediante ao conhecimento e reconhecimento do sacrificio que Cristo jesus fez por nós. (ele disse eu vim para que tenham Vida e Vida em abundância!!). Busque-mos então!! se sabemos o que é certo porque continuar no errado?.

  7. Jorge Almeida disse:

    Caro Dr. Hotta.
    Infelizmente, “fatos estranhos” continuam a ocorrer no IBUSP. Na semana passada, houve um no departamento de fisiologia, quando o resultado do concurso foi contra todas as análises de currículum e desempenho dos candidatos feitas pelas pessoas que acompanhavam o processo. Na próxima semana vamos saber mais detalhes.
    Como fazer para tornar esses concursos mais transparentes e isentos, evitando essas “surpresas”? Extinguir as tais “bancas” ? Fazer seleções em plenárias ? Terceirizar o processo ?

  8. Guilherme Brito disse:

    Oi Carlos…
    Só lamento o ocorrido, e tenho agora uma curiosidade!!
    Vc teve alguma resposta de alguém? Professor isoladamente, grupo de professores, ou da própria congregação?
    Imagino que não, certo? Por que uma das coisas que também aprendi em mais de 10 anos de USP é que o corporativismo é muito mais forte do que qquer questão moral ou ética lá dentro!!
    Abraços
    Lama

  9. Fernando disse:

    Carlos,
    Acho sua carta pertinente. No entanto, considero o caso mais grave do que a forma que apresenta seus argumentos. Tanto seu relato, bem como a sugestão do Dr. Kerbauy de que “seria contratar pessoas que já estivessem presentes no Departamento pois elas se integrariam melhor aos laboratórios já existentes” são evidências claras (assumindo que o conteúdo da carta é verídico) de violação dos princípios constitucionais que regem concursos públicos.
    O artigo 37o. de nossa constituição reza que “[a] administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência (…)”. No princípio de impessoalidade “se traduz a idéia de que a Administração tem que tratar a todos os administrados sem discriminações, benécias ou detrimentosas. Nem favoritismo nem perseguições são toleráveis. Simpatias ou animosidades pessoais, políticas ou ideológicas não podem interferir na atuação administrativa e muito menos interesses sectários, de facções ou grupos de qualquer espécies” (Mello, 1996:68). Aplicações concretas deste princípio estão expressas ainda no mesmo artigo, no seu parágrafo II, ao exigir que o ingresso em cargo, função ou emprego público depende de concurso público, exatamente para que todos possam disputar-lhes o acesso em plena igualdade.
    A presença de ex-orientadores e/ou colaboradores em bancas de contratação não permite manter a “plena igualdade” entre os candidatos pelo simples fato de que, pelo menos, um membro desta banca conhece um candidato muito melhor que os demais – o que confere discriminação, benécia ou detrimentosa. Se esta observação não é suficiente para impugnar concursos no qual o preceito de impessoalidade foi violado – como ocorreu recentemente no MZUSP –, considere a dinâmica de colaborações científicas que regem nossa prática profissional. Na maioria das vezes, a incorporação de um ex-orientado ou colaborador ativo junto ao quadro de docentes de um determinado departamento fortalece determinado grupo de pesquisa. Esta observação evidencia a dificuldade em evitar “interesses sectários, de facções ou grupos de qualquer espécies”, mesmo que inconscientemente, e configura claro conflito de interesse.
    Sinto muito pelo que aconteceu com você, mas acho que você deveria questionar este concurso, seja intra corpus ou na justiça comum. Qualquer outra opção, não contribuirá para que as coisas mudem!

  10. Tati Nahas disse:

    Carlos,
    muito boa sua carta! Sinto muito pelo ocorrido e parabéns por expor sua indignação de forma tão educada e sincera!

  11. Antonio Guimarães disse:

    Escrevi uma mensagem sobre este assunto no Stoa:
    Conflitos de interesse em concursos na USP
    http://stoa.usp.br/usp/forum/78261.html#cmt18848

  12. ana claudia disse:

    Lamento muito vc ter participado da seleção acreditando ser uma oportunidade real e terminar com tamanha frustração, sei do esforço e do desgaste envolvido em tamanha empreitada. Não desanime (mesmo que pareça impossível)!
    abraços,
    ana claudia

  13. Maria disse:

    Estou antevendo que estamos prestes a passar pela mesma situação aqui na Química da UFRGS. Espero estar enganada, mas devemos ficar atentos para isso, afinal, são os impostos do cidadão que estão em jogo nessas escolhas egoístas de certos grupos. Será que essa endogenia acadêmica é saudável para a ciência? Me parece que há uma linha sucessória em progresso nesse meio, isso é extremamente aborrecedor.

  14. Anônimo disse:

    Hotta, vou falar uma coisa que certa vez ou vi de um professor de uma universidade federal que, de tão grave, não me arrisco a dizer seu nome, o nome da instituição e nem a me identificar. É meio complicado falar coisas assim anonimamente mas irei fazê-lo. De acordo com o tal professor, “em seu departamento todos foram contratados porque foram orientandos de algum professor de departamento” e começou a citar nomes, “João foi aprovado porque foi orientado por Maria, Antônio passou porque foi era do lab de José…”. Foi quando um colega interrompeu: “mas Francisco foi diferente, ele passou porque…” e o professor falou: “Francisco? No tempo dele nós fizemos o concurso para ele”.
    Eu era um aluno calouro na universidade nesse tempo. Fiquei preocupado com isso.
    Sinceramente, não acho mesmo que as coisas nesses departamento foram ou são dessa forma, esse professro falou lorota. Mas ao que parece algo semelhante pode por vezes ocorrer nas universidades.
    Por fim, parabéns pela iniciativa do protesto Hotta.

  15. Fernanda disse:

    Infelizmente, esse não é um fato isolado na USP. Algo semelhante pode ser acompanhado nesta reportagem da Folha Online do dia 2 de março deste ano como pode ser verificado pelo link (http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u17083.shtml).
    Somente por intermédio de bancas avaliadoras isentas poderemos manter ou, preferencialmente, melhorar a qualidade da universidade.
    Cada vez que uma ação destas ocorre, corre-se o risco de que profissionais menos qualificados sejam contratados por razões pessoais de grupos, em detrimento do que deveria ser realmente levado em consideração, como a qualificação do candidato em relação à produção científica, por exemplo.
    Provavelmente, se esse tipo de ação não ocorresse, a USP estaria em uma posição no hanking internacional muito mais prestigiada do que a atual, e teria menos denúncias à falta de ética aplicada em seus concursos.

  16. Aqui no IC/Unicamp as bancas são bem montadas. Pelo menos posso falar bem de todas as que eu vi. Acredito que desde que cheguei acompanhei todos os concursos que aconteceram aqui. Não assisti todos, mas acompanhei pelo menos quem eram os candidatos, os membros da banca e também os resultados. Tirando um caso suspeito, mas com certeza muito menor que o citado no seu relato, nada que me pareça fora do normal.
    É realmente vergonhoso isso. Fere tudo o que se espera de uma instituição de pesquisa.
    Me impressionaria muito se acontecesse na Unicamp. E me chocou por ter acontecido na USP. Realmente não esperava nada tão baixo de uma das melhores universidades do Brasil.
    Parabéns pela carta. Esse é o tipo de coisa que não podemos deixar de lado na academia.

  17. Rafael S. Calsaverini disse:

    A USP, e escrevo essa critica como uspiano orgulhoso, é uma instituição velha, com práticas velhas, com esquemas velhos e estrutura administrativa velha. Essas práticas são comuns e não vão mudar, porque fazem parte do ethos da USP. É assim que ela funciona.
    Talvez tenha sido bom para você não ser contratado pela USP. Há dezenas de outras institutos de pesquisa mais jovens, construídos sobre princípios novos e com interesses novos. A velha USP vai está deixando de ser o centro absoluto da pesquisa brasileira e em algumas décadas seus velhos institutos de pesquisa, com poucas exceções, estarão ultrapassados.
    E quando o problema for percebido e se começar a correr atrás do prejuízo – o que só infelizmente vai acontecer quando os atuais membros da gerontocracia falecerem e a pŕoxima geração assumir – vai ser tarde demais.

  18. Ola Hotta,
    Como já me expressei no twitter, não vou ficar me alongando a respeito dos candidatos e da banca, pois tenho relacionamento científico e, até de certa forma, pessoal com muitos dos envolvidos, então acredito não estar isento o suficiente da situação para ficar discutindo.
    Mas não tenho dúvidas que manifestações como a sua são fundamentais para colocar em xeque como e quando contratar na Universidade. Parabéns!
    abraços…

  19. Thanuci Silva disse:

    Vou até perguntar para o @panaggio como andam sendo os concursos para professor do IC aqui na Unicamp.
    Agora os pesquisadores vão ter que “examinar” a banca examinadora antes de prestar um concurso?
    Ah vá…

  20. Claudia Chow disse:

    Carlos, Parabéns!
    Sao poucas as pessoas que tem coragem de manifestar sua indignacao e a maneira como vc o fez foi perfeita! Voce foi educado, sutil e muito respeitoso.
    Esse clubinho que algumas universidades brasileiras formam dando plenos poderes a poucos de decidir quem entra tem q acabar.

  21. Renan disse:

    Onde fiz graduação, um concurso foi adiado em mais de mês para que um dos candidatos, nem preciso falar que foi o contratado, pudesse defender o Doutorado a tempo.

  22. Marcela disse:

    Infelizmente, isso é muito comum! Sei de vários casos de cacursos abertos em federais para contratar um professor já escolhido. Aconteceu isso com meu orientador, abriram concurso em uma federal pra contratar ele, mas ele recusou, preferiu ficar na que está.
    É uma pena isso.

  23. Caro Hotta,
    Na instituição em que eu trabalho, a enorme maioria das bancas é montada só depois de uma avaliação da lista de inscritos, para se cortar qualquer possibilidade de vínculos entre os candidatos e a banca. Além disso, em geral nossas bancas são majoritariamente compostas de membros externos, vindos de outras instituições. Ou seja, dá para ser diferente…
    Parabéns pelo desabafo.
    Um abraço!

  24. Leonardo disse:

    Infelizmente, bancas como estas tem sido praxe no concursos de universidade federais.
    É lamentavel que se vigore este corporativismo tacanho na Academia.

  25. Otávio disse:

    Sensacional, o texto. São os incorformados que mudam o mundo.
    É interessante notar que muitas instituições fora do país se orgulham de ter seu corpo docente composto por pessoas formadas em outros lugares. Isso dá força à instituição, refresca o pensamento.
    Todo conformismo é pouco, na nossa Academia.

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