Felicidade é… sujar-se de terra

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ResearchBlogging.orgQuem nunca ouviu dos pais que felizes eram eles – que brincavam na terra e estavam imundos no fim do dia – enquanto nós vivemos em nossos quartos limpos jogando videogames? Bem, é possível que eles tivessem razão.
Nesta semana Dorothy Matthews e Susan Jenks da Sage Colleges (Nova Iorque) mostraram, no 110th General Meeting of the American Society for Microbiology, que camundongos que ingeriram a bactéria Mycobacterium vaccae junto com a comida resolviam os labirintos duas vezes mais rápido e demonstrando menos ansiedade que camundongos que não entraram em contato com a bactéria na comida.
A Mycobacterium vaccae é uma bactéria facilmente encontrada no solo. Logo, não é difícil imaginar cenários onde crianças brincando no solo possam ingerir copiosas quantidades da bactéria sem querer (ou de propósito, sabe como é… crianças).
Não posso entrar em maiores detalhes sobre o estudo anunciado no congresso, uma vez que ele ainda não foi publicado, mas ele faz sentido sob a luz de um estudo de 2007, publicado na revista Neuroscience. Neste estudo, pesquisadores da Universidade de Bristol mostraram que o contato com a Mycobacterium vaccae ativava o sistema imune que, curiosamente, ativava um conjunto específico de neurônios produtores de serotonina. A serotonina é um neurotransmissor cujos altos níveis estão associados à felicidade e os baixos nívels, à depressão e ansiedade e o conjunto de neurônios ativados são exatamente os mesmos ativados por antidepressivos.
A ação da Mycobacterium vaccae sobre o nosso humor, também foi comprovada em um estudo onde extratos da bactéria foi dada junto com os remédios da quimioterapia para pacientes com câncer do pulmão. O extrato de bactéria não aumentou a sobrevida dos pacientes mas aumentou a sua qualidade de vida, medida pela manutenção da vitalidade e status cognitivo dos pacientes, presença de efeitos adversos da quimioterapia e de sintomas associados ao câncer.
É curioso perceber que a Mycobacterium vaccae age, na verdade, sobre nosso sistema imune e ele é quem age sobre o nosso humor. A bactéria é apenas uma maneira de controlar o funcionamento do sistema imune. A primeira utilização terapêutica da Mycobacterium vaccae, inclusive,foi no controle de respostas alérgicas e auto-imunes.
Especulando-se muito, será que a diminuição da exposição de nossa geração (e das próximas) à terra e à sujeira poderia muito bem explicar o aumento dos casos de asma e – porque não – de depressão? Quanto tempo até inventarem uma cápsula de Mycobacterium vaccae para não termos que mexer na terra?
Foto: lanier67
Fontes:
Lowry, C., Hollis, J., de Vries, A., Pan, B., Brunet, L., Hunt, J., Paton, J., van Kampen, E., Knight, D., & Evans, A. (2007). Identification of an immune-responsive mesolimbocortical serotonergic system: Potential role in regulation of emotional behavior Neuroscience, 146 (2), 756-772 DOI: 10.1016/j.neuroscience.2007.01.067
O’Brien, M. (2004). SRL172 (killed Mycobacterium vaccae) in addition to standard chemotherapy improves quality of life without affecting survival, in patients with advanced non-small-cell lung cancer: phase III results Annals of Oncology, 15 (6), 906-914 DOI: 10.1093/annonc/mdh220
Discover Magazine

Por que pesquiso? (II)

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Roberto Takata escreveu um belíssimo texto em resposta à pergunta: “Por que pesquiso?”. Seu texto me fez querer dar a minha própria resposta. Resposta que me servirá de bóia quando a tempestade adiante chegar.
Uma das coisas que sempre gostei de fazer é aprender. Gosto de ler sobre o mundo ao nosso redor, saber como ele funciona, saber como descobrimos como ele funciona. Gosto de aprender porque cada pedaço de conhecimento adquirido funciona como uma lente que muda a minha percepção da realidade à minha volta. Saber que o mundo é mais complexo e mais bonito do que eu imaginava me enche de alegria e vontade de saber mais.
No entanto, existe algo que me excita mais do que aprender. Acho que sempre senti isso mas tudo só ficou mais claro quando eu assisti uma palestra do Nobel Dr. Yuan T. Lee. Dr. Yuan disse algo como: “Eu gostava de aprender mas vi que gostava mais de descobrir”. Nenhuma outra frase na palestra ressoou tão forte.
Eu pesquiso para descobrir.
Descobrir um pouco mais sobre o mundo, mapear um pouco mais o seu funcionamento. Em outras épocas talvez fosse um explorador, desbravando terrenos desconhecidos e trazendo novidades para o novo mundo. Hoje desbravo o desconhecido do aconchego de meu laboratório, explorando questões científicas. A cada descoberta científica, cada pergunta respondida, um coquetel de hormônios varre o meu corpo e me faz sentir exultante. E vou atrás da minha próxima dose.
Sou viciado em descobrir.
É o vício pela descoberta que torna tantos cientistas compulsivos e apaixonados pelo seu trabalho. O interessante é que o valor da descoberta não está exatamente em ser reconhecido por ela. É esse vício que torna a nossa comunidade tão coesa. Todos compartilham este vício por desvendar o desconhecido através das lentes da Ciência. Claro que há exceções. Há os que usam seu ofício para buscar fama, poder ou estabilidade no emprego: estes se esqueceram – ou nunca souberam – do porquê pesquisar. Olho estes com pena e um certo desdém. A carreira de cientista é difícil demais e massacrante demais para se enfrentá-la a alegria da descoberta. Se vc quer fama ou poder escreva um blog.
Enfim pesquiso porque sou dependente do descobrir. Dependência que confundo com amor. Sou perdidamente apaixonado pela Ciência. E é por isso que divulgo Ciência e luto contra os que agem contra os interesses da Ciência. Faço isso para sustentar o meu vício.

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