Comentário sobre “aprendendo a voar”
Comentário bastante interessante deixado pelo Daniel Doro, que participa do Ars Physica.
Carlos,
Veja, é preciso se abstrair a história particular do SB_US daquilo que constitui um “Grupo Criativo”, uma “Comunidade Científica Orgânica”.
A idéia de se utilizar blogs pra se fazer divulgação científica, ou melhor, pra se criar uma penetração social para a ciência, não passa do uso duma nova ferramenta atacar para um velho problema: é usar a ‘Net pra se tentar melhorar a alfabetização científica.
Acho que é claro que isso é algo positivo e desejável. Porém, é uma visão “simplória” da sociedade: é preciso buscarmos algo mais *robusto*!
O que eu quero dizer com isso é o seguinte (e algo que eu já disse no “Roda de Ciência”, há muUuito tempo atrás): o *real valor* dessa empreitada não está na divulgação científica propriamente dita (nem da melhora no nível de alfabetização científica da sociedade), mas sim na criação dum *grupo criativo*, na criação duma “comunidade científica orgânica”. Ou seja, o *valor* se encontra na *comunidade*, e não em resultados mais pragmáticos (que claramente têm seu valor também).
Com o desenvolvimento duma comunidade é possível realmente a gente falar em “fator multiplicador”, i.e., em “escala”: quando há uma noção de comunidade, o trabalho sendo feito tem a possibilidade de ser “escalado”, de se multiplicar e sofrer um efeito de propagação muito forte.
E há várias ferramentas que procuram atingir tal efeito multiplicador: blogs, fóruns, Orkut, Facebook, Twitter, YouTube, etc… Aliás, dum modo bem claro, esse é o objetivo central da chamada “Web2.0″.
Portanto, uma ferramenta que procure agregar um maior número desses “serviços multimídia” certamente vai poder maximizar sua chance de sucesso.
Mas, meu ponto principal, nesse comentário, não é esse. É o seguinte: o objetivo central dessa empreitada não deve se resumir a um “serviço de utilidade pública” (e.g., divulgação científica, alfabetização científica, etc), mas sim deve focar na construção dum “Grupo Criativo”!
Veja o seguinte post, Comunidades e Grupos Criativos dentro da Ciência 2.0.
Então, o trabalho está em tentar introduzir um grau de racionalidade cada vez maior no nosso dia-a-dia, de modo que as pessoas se sintam agentes participantes desse processo.
Por exemplo, a Comunidade Moderada de Física no Orkut tem uma dinâmica bastante interessante: é comum aparecerem tópicos de gente que viu algo na TV/jornal/conversa e ficou curiosa e veio perguntar.
Ou seja, resumindo, o *valor* está na *Comunidade*, no *Grupo Criativo*, e não nos seus detalhes implementacionais.
O valor real do SB_US não está na plataforma nem no PepsiGate nem em nada do gênero. Mas sim no fato de que eles conseguiram de um modo bem concreto criar uma ressonância com a comunidade. O resto é xurumela…
O mesmo vale para o SB_Br: é a geração e manutenção duma comunidade que vai realmente carregar significado.
O que eu falei no “Roda de Ciência” há uns bons 4 anos atrás continua sendo verdade hoje: comunidades naturalmente nascem, crescem, se expandem… e, se “reporduzem”… em geral, via meiose… ou seja, o processo de fracionamento de um grupo que “cresceu demais” é algo absolutamente natural (como bem ilustrado em HOW TO: Manage a Sustainable Online Community).
O problema não é esse fracionamento por si próprio, mas sim o poder agregador da comunidade: ele melhora ou piora?
Pra fechar: tanto aqui (USA) quanto aí (Br), o foco da discussão ainda tem se mantido muito dentro das ferramentas propriamente ditas… e nada sobre a criação e manutenção de grupos criativos e de comunidades científicas orgânicas. É por isso que esse fracionamento é tão “disturbing”… no momento em que a comunidade for o foco, isso tudo vai mudar.
[]‘s!



Discussão - 9 comentários
@Daniel,
Mas é vc quem está *assumindo* que não lemos. Até li suas postagens – os links aparentemente mais relevantes estavam quebrados.
A definição dada por De Masi para grupo criativo é: “um sistema coletivo em que operam sinergicamente personalidades imaginativas concretas, cada uma contribuindo com o melhor de si, num clima entusiástico, graças a um líder carismático e a missão compartilhada”. Não tem nada de diferente da definição usada.
A minha crítica é em relação à missão (compartilhada). Para vc, o objetivo é em si criar um grupo (criativo). Veja que a definição não implica que a missão de tal grupo seja a divulgação científica (ou alfabetização ou disseminação ou aculturamento).
Efetivamente pode-se criar grupos (criativos) com uma missão qualquer.
[]s,
Roberto Takata
Eu acho super importante este tipo de comunidade!
@Takata,

No sentido que vc escreveu acima, i.e., do ponto-de-vista que vc apresentou, eu também concordo com vc.
Entretanto, existe uma razão pra eu ter usado referências e citado livros e links. E essa razão é a mesma que aquela que justifica o uso de referências em artigos científicos: ampliar o diálogo via conhecimento já pré-adquirido.
Por exemplo, se vc ler o livro do Domenico de Masi que eu citei, “Criatividade e Grupos Criativos”, vc vai ver que a definição Sociológica (embasada nos diversos exemplos lá citados) dum ‘grupo criativo’ é bem diferente daquela implícita nos seus comentários (assim como no do Érico). Na verdade, a definição Sociológica que o Domenico de Masi usa inclui as características de “Grupos/Sociedades Cívicas”, que são grupos que agem ativamente para a obtenção de algum fim em comum.
Portanto, não adianta a gente ‘assumir’ um significado ou outro, principalmente quando esse significado é simplório demais pra atacar o problema em mãos. É preciso fazer mais… e melhor. Como se diz em Inglês, “when you ‘assume’ you make an ‘ass’ of ‘u’ and ‘me’.”
Eu, pessoalmente, não sou a favor de “Clubes do Bolinha” nem afins, assim como também sou a favor de se ter o máximo de transparância possível. Assim sendo, eu jamais apoiaria nem divulgaria algo que, assim como vc e o Érico apontaram, tem tantas falhas em ambos esses quesitos.
Então, eu fecho parafraseando Pierre de Bourdieu: “Ciência é um esporte de contato.”
[]‘s.
Daniel,
Fiquei impressionado com a sua cifra de 45000 membros no Orkut. Mas imagino que nem todos sejam membros ativos da comunidade. Em todo caso, isso sugere que uma comunidade no Orkut pode ser mais eficiente que um portal de blogs, por exemplo.
Nao sei se vc notou mas as nossas atividades no ABC sao bastante timidas. O motivo principal é falta de gente para trabalhar no ABC, mas o segundo motivo é o receio de perturbar em demasiado a blogosfera (por exemplo, um hub tipo ABC poderia danificar a rede de links das barras laterais dos blogs). Bom, mas dado que o Twitter já perturbou bem mais os blogs de ciencia, acho que isso é de somenos importancia.
Submeti ao CNPq um projeto de uma revista, a BLOG_Ciência (uma idéia original do Takata), com material produzido pelos blogueiros do ABC e com peer review (ou algo parecido). Assim, ser associado ao ABC envolverá quatro direitos “civicos”: 1. Votar e ser votado no Premio Anual ABC para Blogs de Ciencia; 2. Submeter material para a BLOG_Ciência; 3. Ser convidado para o corpo de pareceristas da BLOG Ciência; 4. Ter um desconto na taxa de incricao do EWCLiPo.
Ou seja, dado que nao existe ou é prematuro criar uma Sociedade Brasileira de Blogs de Ciência (SBBC), por enquanto o ABC faz algumas das tarefas que um dia seriam assumidas por tal entidade.
Pergunto se vc teria sugestoes para tornar o ABC e outras iniciativas similares (Divulgar Ciencia, SBBr, HAAAN etc.) em uma comunidade criativa como vc definiu. E em que tal comunidade virtual difere das antigas Sociedades Científicas como a Royal Society ou a Academia de Ciencias dos USA. Apenas na agilidade das ferramentas WEB 2.0?
@Daniel,
Eu vejo a questão assim: é perfeitamente possível se criar uma comunidade criativa que não tenha compromisso algum com a divulgação, alfabetização, engajamento, etc. – um clubinho fechado, p.e. Tal grupo seria inútil – e na verdade já existem aos montes: a própria comunidade científica acadêmica é uma comunidade criativa – e o problema diagnosticado é exatamente a falta de diálogo com a sociedade.
Uma comunidade criativa pode ser um bom meio, mas por si só não vejo como um objetivo a ser alcançado.
[]s,
Roberto Takata
@Érico,
Como, logo no seu primeiro parágrafo, o pronome “ele” ficou indefinido, eu não sei se vc está se referindo a mim ou ao Takata ou a sei lá quem. Dado que seu comentário veio em seguida do meu, só posso assumir que vc esteja se referindo a mim.
Isso posto, posso te assegurar alguns fatos: não sou sociólogo, muito menos subscrevo ao pós-modernismo.
Mais ainda, acredito que o fato de vc não ter entendido alguns termos, como vc mesmo disse, pode (e deve) ter prejudicado a sua compreensão do meu texto.
Eu não falei nada de novo… entretanto, para muitos o que eu disse ainda é novidade. Portanto, vou tentar ser mais sintético.
O objetivo das ferramentas da Web2.0 é a de agregar sociedades civis, i.e., formar “grupos orgânicos“. (Wikipedia is your friend…) No caso dum “Grassroots Movement” centrado ao redor de temas científicos, vc pode falar em termos dum “Grupo Criativo”.
Isso deve ser suficiente pra esclarecer alguns dos termos que podem ter te soado estranho. Senão, por favor, pergunte: eu terei o maior prazer em esclarecer ainda mais.
Agora, já dá pra entender claramente que aquilo que vc chamou de “audiência” *já* está incluindo na minha definição. Ou seja, no seu primeiro parágrafo vc diz não ter entendido corretamente, soa como se discordasse, e procede para re-definir o mesmo que eu fiz.
Continuando… é verdade que não é necessário um grupo como o SB_{US,Br} para se catalizar a formação e manutenção dum “Grassroots Movement”. Entretanto, essa formação dum grupo serve como semente para cristalização de tal grupo/movimento.
Isso é tão típico que achei desnecessário comentar: via de regra, em todo tipo de atividade social coletiva, sempre aparece um “agente catalizador”, que serve de semente (pontapé inicial) para a cristalização de todo o processo.
É claro que há benefícios extra dessa função, vc mesmo mencionou a “visibilidade”. Mas não é esse o ponto, afinal de contas, existem toneladas de tentativas que somente visam “visibilidade” e sempre morrem na praia. Ou seja, servir de ‘agente catalizador’ é algo maior do que apenas uma busca por visibilidade.
O resto não é necessário comentar. Acho que já fica claro o suficiente o que se implica.
Espero ter podido esclarecer melhor as suas dúvidas.
Também bão entendi direito o que ele quis dizer. Parece papo de sociólogo pós-moderno! Acho que mesmo sendo estabelecida uma comunidade “criativíssima”, isso não vai ter a menor importância se não for acompanhada de audiência. Acredito que a “criatividade” por si só não seja o objetivo de nenhum blogueiro ou grupo. Também desconheço o significado do termo “comunidade científica ôrganica”.. ahn? Aliás, não precisaria, por exemplo, de uma entidade ScienceBlogs pra existir um grupo criativo, isto pode ser alcançado somente pela comunidade de blogs de ciência em geral por si só.
Acho que, pelo contrário, me parece claro que iniciativas como o ScienceBlogs existem por um outro fator: visibilidade.
Se de fato várias dinâmicas de grupo acabam mesmo ocorrendo (por exemplo o podcast ou as ideias em grupo de listas que o Hotta citou), o impacto de existir um grupo restrito e seletivo numa mesma rede de blogs (por exemplo a SB) acaba sendo o diferencial. Digite por exemplo “blogs de ciência” no Google, em 2 dos 4 primeiros resultados apontam para redes unificadas (Divulgar Ciência e o próprio SB). Isso torna o caminho mais fácil para alguém acessar a partir da Home do SB um blog de interesse (ou até se interessar por um), do que se, por ex., a rede do SB não existisse e cada blog estivesse por “conta própria” na internet. A chance do seu blog ser descoberto seria muito menor e seria mais provável que alguém o encontrasse por especificidade (combinar a relevância da pesquisa que você digitou com algum post) do que por generalidade.
É por isso que a rede se fortalece, porque há sinergia, intercâmbio entre os blogs: SB leva aos blogs; cada blog leva ao SB (mesmo padrão de URL, barra de menu no topo de cada blog); e um blog leva ao outro (como por ex. nos links de um post de um blog para outro, a caixa de navegação com a lista de todos os blogs).
O fato de existir seletividade nas escolhas dos blogs também é importante, porque estabelecendo um padrão, há ressonância, então o acesso de um blog da rede certamente vai levar para um outro, constituindo um mecanismo retroalimentativo. Pelo menos foi assim que conheci muitos blogs bons que não conhecia antes por aqui, pelo próprio sistema do site, por outro lado facilmente deixo de visitar um blog da rede quando considero a qualidade dele duvidosa (e na minha opinião há por aí meia dúzia de blogs ruins mesmo no SBBr).
Agora, a simples entidade virtual de um grupo criativo não colabora em nada.
@Takata:

O objetivo é fazer a comunidade crescer e alçar vôo. E não mantê-la nos mesmos moldes até o fim da eternidade: não é pra se criar um “autômato [celular]“, que só repete aquilo pra que foi programado; é pra se criar uma *comunidade*, onde o potencial para inovar e *criar* é sempre alto.
)
(1) Me chame de “Daniel” — “Doro” e “Ferrante” são meus sobrenomes… o que faz tudo soar muito ‘oficial’…
(2) Respondendo diretamente a sua colocação: “Não, não.” O papel duma Comunidade, dum Grupo Criativo não é só repetir a mesma tarefa que foi semeada originalmente. E é *exatamente* aí que está o “truque” todo!
Quando uma comunidade naturalmente evoluí para um Grupo Criativo /bona fide/, aparece uma *identidade* própria do grupo, aparecem ingredientes que não existiam antes (“propriedades emergentes” da coletividade do grupo), e assim por diante.
Por exemplo, vc já ouviu a frase “agora as instituições democráticas são sólidas e robustas”, etc?! Pois bem, é nessas linhas o real significado do termo “Grupo Criativo”: ele reflete a robustez e solidez da empreitada inicial, tornando-a uma “instituição”, uma “referência”.
Foi por isso que eu tentei mostrar a necessidade de *desacoplar* o objetivo comunitário dos meios usados para atingí-lo.
Então, pense um pouco mais grandiosamente, em termos duma plataforma à la Reddit/Digg/StackOverflow, onde a Comunidade passa a *se* gerenciar… ela ganha vida própria. Ou, como diria o Dr. Frankenstein: “It’s alive!”
Veja, é preciso começarmos a assimilar de modo mais visceral a noção de “Comunidade Cívica”, aquela onde os membros são *participantes pró-ativos*. Essa coisa de ficar sentado, esperando cair do céu… só vem chuvas e trovoadas (e raios)!
Os grupos de afinidade dentro duma sociedade se espressam por meio de Comunidades Cívicas, onde eles agem de modo a *se* representarem — afinal de contas, é esse o papel da Democracia: dar representatividade às minorias.
Então, um Grupo Científico Orgânico vai fazer mais do que simplesmente divulgação científico: vai fazer alfabetização científica, vai trabalhar pra melhorar a transparência em questões onde a ciência tem algo a dizer, …, vai por a mão na massa!
Ter um blog, um YouTube, um Twitter, um …, não adianta nada se vc não consegue *agregar* sua comunidade.
Ué, não foram vcs que vieram com essa coisa do “Prêmio Bê Neviani: tem que dispersar”?!
O que eu estou falando aqui, e já falo há tempos (!), é só uma noção bem mais robusta dessa coisa de “tem que dispersar”: tem que agregar a comunidade (não basta só prover um serviço).
Divulgação Científica é ótimo, eu gosto, faço desde há muitos anos (~1998), e acho que tem muito ainda a ser feito. Por outro lado, ela não é um fim em si mesma. Afinal de contas, vc divulga pra melhorar o nível de informação disponível à população… para que essa população possa fazer escolhas mais educadas e mais acertadas para sua comunidade e para a sociedade como um todo. (Caso contrário, qualquer Wikipedia dá conta do recado.
O alvoroço em torno do PepsiGate só aconteceu porque o SB_US tem penetração social, porque há agregação duma certa comunidade. Mas a coisa ainda é fraca, porque esse fracionamento do SB_US tem sido visto como um fracionamento da comunidade [que foi agregada por eles]. E isso é muito ruim.
Como eu disse no meu comentário original: Fracionamentos sempre acontecem em comunidades que crescem demais… é o famoso “collapse over one’s own weight”… mas isso não quer dizer que a comunidade agregada deva ser fracionada também: ela pode muito bem passar a *unir* novos objetivos.
E é isso que está faltando: não há solidez e robustez suficientes nessas comunidades pra que elas sobrevivam um fracionamento — e isso é indesejável e negativo.
Vou te dar um exemplo bem claro e simples. A Comunidade Moderada de Física do Orkut, que eu citei no comentário original, tem aproximadamente 45.700 membros. É claro, portanto, que mais cedo ou mais tarde algum tipo de fracionamento iria acontecer. E aconteceu: um grupo minoritário, mais muito vocal, decidiu começar uma comunidade própria, com regras próprias, e com propósitos semelhantes, mas não equivalentes aos originais.
Atualmente, essa nova comunidade tem cerca de 1.300 membros… e já está começando a lidar com problemas de fracionamento.
Ou seja, eles não tiveram a mesma habilidade administrativa em *agregar* a comunidade, assim como se tem na Comunidade Moderada de Física! Isso faz muita diferença, como eu mencionei no comentário original: hoje em dia, as pessoas já sabem: quando aparece qualquer pergunta, eles vêm direto na Comunidade: de biologia à ciência da computação, de engenharia à filosofia… aparece de *tudo* por lá! E a gente tenta sempre manter as discussões num nível bem razoável e racional. Então, mesmo que não se obtenha aquela “resposta de livro”, vc acaba com uma discussão muito proveitosa e positiva, que *agrega* a comunidade.
Bom, chega de escrever por agora… como vc vê, eu não nasci pra “twitter”…
Eu meio que concordo discordando de Doro (ou discordo concordando). Oquei, o valor está na criação de uma comunidade criativa. Mas comunidade criativa pra que mesmo? Pra fazer divulgação oras…
[]s,
Roberto Takata