Declaração de voto
Depois de muito pensar, resolvi abrir aqui no blog a minha opção de voto. A minha intenção é que ter uma discussão saudável sobre o assunto no blog, portanto não aprovarei comentários que façam ataques pessoais ou não tenham argumentos.
Nestas eleições votarei na Dilma. Votarei porque concordo com a maior parte das políticas públicas atuais e acredito que o ciclo iniciado pelo governo Lula ainda não acabou. É uma argumentação curta sim, algo mais detalhado e que concordo praticamente 100% está aqui.
Abaixo, algumas ponderações:

1. Admiro muito a pessoa da Marina. A sua opção religiosa não me incomoda em nada, ao contrário do que foi dito por aí. Inclusive discordo veementemente em quem crê que ela seria uma governante pior por causa de sua religião. Não voto na Marina por causa do PV, um partido pequeno e fisiológico que poucas condições teria de governar. Vejo que a Marina tem a grande oportunidade de fundar uma nova oposição nos próximos 4 ou 8 anos, uma oposição mais moderna e construtiva. Comparo seu momento atual com o do Lula em 89: seria interessantíssimo vê-la no Palácio do Planalto mas ainda soa precipitado. Espero fortemente que a Marina use os próximos anos para transformar o PV no partido que ela vislumbra. Ela certamente tem capacidade de agregar quadros interessantes, demonstrada pela atração de empresários preocupados com a questão da sustentabilidade mas que nunca participaram da política de forma ativa. Quem sabe o PV não emerge como um grande partido com a Marina na sua liderança?
2. Não tenho a menor simpatia com o Serra. Acho-o autoritário, centralizador e pouco inspirador. O Serra é conhecido por isolar seus secretários e depois se apropriar de seus feitos. As suas administrações no governo do Estado e na prefeitura de sua capital foram apagadas e focadas em obras eleitoreiras (rodoanel, metrô, nova marginal, etc.). Odeio suas políticas educacionais, em particular. O Serra teve 8 anos para unificar a oposição contra o governo Lula e arrebatar a sua faixa presidencial. Fez o contrário. A sua campanha está sendo um desastre, muito pela sua incapacidade e delegar e unir pessoas em torno de um objetivo comum. Seus aliados nos estados simplesmente tendem ignorá-lo. O vice é pior que a Sarah Palin. Um dia já quis ver o que ele faria como presidente (antes ele do que outro oposicinista), agora torço para que isso nunca aconteça.
3. Acho que o governo FHC foi muito bom, ainda mais se considerarmos a série histórica. Houve inúmeros avanços mas também houve o escândalo da reeleição, houve as privatizações apressadas, houve o uso do dinheiro das privatizações para manter o real valorizado (e garantir a reeleição), houve o sucateamento das universidades federais e o surgimento de universidades particulares de baixíssima qualidade. Meu padastro ficou anos sem aumento como pesquisador federal e ainda acabou aposentando-se antecipadamente com medo das mudanças na aposentadoria que o FHC estava implementabdo.
4. Dizer que o governo Lula apenas continuou o governo FHC é de uma desonestidade intelectual sem tamanho. O Lula certamente continuou, e ainda apertou mais, a política econômica do FHC (que foi – lembrem-se – a continuação da política econômica do Itamar). A decisão de continuar uma política do governo anterior foi algo fora do comum no cenário brasileiro. Ponto pro Lula. Só que o governo Lula foi muito diferente do governo FHC em outros aspectos: as suas políticas sociais atingiram uma extensão e uma grandeza impensáveis em um governo tucano. O FHC investiu no crescimento das universidades particulares em detrimento das universidades federais. O Lula recuperou as federais e ainda criou o ProUni. A política externa brasileira tem outra cara. E estes três aspectos diferentes entre os governos FHC e Lula, são apenas o começo.
5. Uma vez conversei com um dono de uma empresa que faz equipamentos básicos de laboratório (pHmetros, etc.). Ele me contou que, no governo FHC, ele vendia equipamentos apenas para faculdades particulares e algumas estaduais. No governo Lula, suas vendas cresceram muito, atingindo todo o país. Suas vendas aumentram por causa das universidades federais. Este é só um exemplo de como o governo Lula fez bem para o ensino superior e, provavelmente, para a Ciência brasileira.
6. Há a questão da associação do PT com o PMDB (e o PSDB com o DEM). A Marina propõe um jeito diferente de governar, com alianças que evitem partidos fisiológicos. Eu acredito que ela não seria bem sucedida. Não se acaba com o poder dos partidos fisiológicos de cima para baixo. O poder destes partidos está fora dos grandes centros urbanos. Está nas prefeituras do interior, está no controle regional. Está no legislativo estadual e federal. Os partidos fisiológicos só acabarão quando seu poder local acabar. E ninguém conseguirá ganhar uma eleição ou governar sem eles. Me dói muito, no entanto, ver o Lula apoinado o Collor. Era para tanto?
7. Me corrijam se estiver errado mas tenho a impressão de que o PSDB rifou as economias do país por duas vezes por motivos eleitoreiros: em 1998 ele detonou as reservas do país (que estavam gordas) mantendo o real valorizado até se reeleger. Em 2002 fez todo aquele terrorismo por causa da possibilidade do companheiro Lula se eleger, o que fez os investimentos externos no país sumir e a nossa economia balançar.
8. Há evidências de que a Dilma é ateia (mas se diz agnóstica) e nerd. Não ganha meu voto por causa disso mas tem minhas simpatias
Brontossauros na 27a. Semana da Química
Nesta semana (16 a 20 de agosto) estará acontecendo a 27a. Semana da Química da USP no Instituto de Química da USP (campus São Paulo).
O evento é organizado todo ano por estudantes e custa R$10,00 para participar.
Por quê participar?
Uma das razões é a palestra do Reinaldo J. Lopes, editor de Ciências da Folha de São Paulo e do Carbono14, que vai apresentar a palestra “Mistério tremendo: o que ainda não sabemos sobre as bases químicas da origem da vida”, terça-feira às 9h00.
No mesmo dia ainda tem eu, apresentando “Blogs de Ciência: como, onde e porquê” às 13h30.
Já na quinta-feira tem Atila Iamarino, do Rainha Vermelha, apresentando “Antivirais podem evitar grandes epidemias?” às 13h30.
Fora as nossas palestras, ainda tem nanotecnologia, química forense, astrobiologia e muito mais.
Veja aqui a programação completa.
Tricerátops existem?

O nosso passado está em constante mutação. As nossas percepções do presente alteram o que percebíamos do passado. Isto é particularmente marcante na paleontologia: tentamos montar uma história coerente de um passado sem testemunhas a partir de poucas
evidências. Muitas vezes um pedaço de osso é capaz de alterar radicalmente o que pensávamos da vida que não é mais. O velocirraptor do Jurassic Park é um ótimo exemplo: os ferozes lagartos dos filmes eram, na verdade, bem menores do que os mostrados e ainda eram cobertos de penas! A mais recente vítima deste “revisionismo histórico” é o triceratops, aquele que tem três chifres e um escudo na cabeça.
O triceratops é considerado uma das últimas espécies de dinossauros com chifres. Ele e o Torosaurus. O torossauro é bastante parecido com o triceratops mas ele possui duas janelas em seu escudo, que é inteiriço no triceratops. Além isso, os chifres superiores do torossauro se encontram apontados para direções diferentes enquanto os chifres do triceratops são paralelos. Acredita-se que ambas espécies co-existiam no continente norte americano. Agora, um estudo publicado pelos paleontólogos John Scannella e John Horner sugere que elas não só co-existiam como eram a mesma!

Os paleontólogos fizeram uma extensa pesquisa analisando as dimensões e características de 30 crânios de triceratops e nove crânios de torossauros. Os crânios dos triceratops variavam bastante de tamanho – e meio metro a dois metros de extensão – e podiam ser classificadas em formas bebês, juvenis, subadultas e jovens adultas. Já os poucos crânios dos torossauros eram todos enormes, chegando a 3 metros de extensão. Uma análise mais cuidadosa dos crânios de triceratops mostraram que havia regiões que ficavam mais finas ao longo de seu crescimento e essas regiões correspondiam aos buracos no escudo do torosauro. Esta análise sugere fortemente que os torossauros são a forma adulta do triceratops!
Péra aí. Isso quer dizer que os triceratops nunca existiram, como anunciado por aí?

Antes de responder esta pergunta, vamos ver o que aconteceu em um caso semelhante: no começo do século descobriu-se que brontossauros eram a forma adulta do apatossauro. No fim, o termo brontossauros foi descartado e o apatossauros foi adotado. Esta decisão foi tomada porque, segundo as normas de nomenclatura, o nome descrito primeiro tem prioridade e o apatossauro foi descrito alguns meses antes do mais popular brontossauro. Isso quer dizer que o popular termo triceratops também poderia ser descartado em detrimento do torossauro. Felizmente o triceratops foi descrito um ano antes, para o alívio de muitas crianças por aí.
Este estudo mostra a importância de se tentar estudar diversos espécimes antes de se tirar conclusões radicais sobre fósseis. Um crânio diferente de hominídeo pode não ser um novo elo perdido mas sim um indivíduo doente ou distinto do resto da população. Infelizmente fósseis são raros e, muitas vezes, únicos.
Scannella, J., & Horner, J. (2010). Torosaurus Marsh, 1891, is Triceratops Marsh, 1889 (Ceratopsidae: Chasmosaurinae): synonymy through ontogeny Journal of Vertebrate Paleontology, 30 (4), 1157-1168 DOI: 10.1080/02724634.2010.483632


