A polêmica do arsênio

Acho que todos os meus leitores em potencial já leram sobre o anúncio da NASA na quinta-feira passada. Sim, a tal bactéria que supostamente pode substituir fosfato por arsenato em seu metabolismo. Se não leram, por favor visite os textos que alguns colegas blogueiros escreveram sobre o assunto: Quiprona, Gene Repórter e Geófagos.

Acho que o uso da hype machine da NASA para fazer o anúncio já foi bem discutido: as bactérias do lago Mono não são extraterrestres, não correspondem a uma linhagem evolutiva completamente nova e nem vão reescrever o modo no qual definimos vida. O que quase não vi discutido (no Brasil) é que as tais bactérias talvez nem usem arsenato em seu metabolismo.

A primeira coisa que quis fazer antes de escrever um texto sobre as arseno-bactérias foi ver o artigo científico da Science. Ler o artigo original é essencial para entender o que realmente foi descoberto pelos cientistas da NASA e, principalmente, como isto foi descoberto. Por quê isto é importante? Veja só:

1) os cientistas queriam verificar a hipótese de que arsenato poderia substituir o fosfato no metabolismo de alguns seres vivos. É importante saber isso para perceber como a equipe direcionou os seus experimentos para fazer esta descoberta. Um dos problemas deste tipo de abordagem – totalmente válida – é você fazer somente os testes que comprovam o que você quer comprovar ou, pior, vc acabar gerando sem querer os resultados que você quer. No caso da NASA, os cientistas estavam atrás de vida que sobrevivesse com arsênico, então eles foram em um local com ambiente hostil - o Lago Mono é hipersalino e alcalino – e que possuía concentrações altas de arsênico, pegaram o sedimento do lago e tentaram crescer em meio contendo arsenato. Desta forma, somente as bactérias que conseguiam sobreviver nestas condições sobreviveriam. Eles fizeram isso com concentrações cada vez mais altas de arsenato e cada vez mais baixas de fosfato, efetivamente selecionando bactérias que sobreviviam nas conições. Primeiro erro: as bactérias obtida no final podem ser significantemente diferente das bactérias encontradas no lago.

2) Os cientistas comentam no artigo que não foi possível eliminar totalmente o fosfato no meio. Isto acontece porque os componentes do meio de cultura dado às bactérias possuem contaminantes, entre eles o fosfato. O problema é que bactérias conseguem viver em locais com quantidades ínfimas de fosfato e as quantidades encontradas no meio de cultura poderiam ser o suficiente para fazer as bactérias sobreviverem sem precisar usar arsenato como substituto.

3) Os cientistas dizem que o arsenato foi incorporado ao DNA, RNA, proteína e lipídeos das bactérias – esta sim uma descoberta excitante. Para chegar à esta conclusão, eles destruíram um monte de bactérias e depois tentaram separar seus componentes. Parece difícil mas é algo rotineiro em laboratório. O problema é que o processo de separação não gera somente DNA, por exemplo, mas sim DNA e um monte de contaminantes. O mesmo acontece para RNA, proteínas e lipídeos. Além disso, não houve uma preocupação de se tentar limpar as amostras destes contaminantes – algo também rotineiro. Ou seja: o arsenato detectado no DNA pode não estar incorporado à esta molécula. Para mostrar que o DNA possuía arsenato, seria necessário usar espectrometria de massa, que fragmenta o DNA e mede o peso molecular dos fragmentos. A diferença de peso entre o fósforo e o arsênio é mais do que o suficiente para ser detectada pelo aparelho. [UPDATE: o Takata bem notou que eles usaram sim um tipo de espectrometria de massa, o NanoSIMS. Porém o NanoSIMS não dá o peso dos fragmentos, só a composição elemental. Para fazer o que sugeri eles precisariam de um MALDI-TOF, por exemplo.]   

4) Esta eu não sabia, mas dizem os químicos que o arsenato presente no DNA seria rapidamente hidrolisado em água, ou seja, se o DNA extraído pelos cientitas contivesse arsenato, ele se quebraria em água e nem seria medido pela técnica usada pelos cientistas. 

Estas objeções. e muito mais, foram levantadas em posts de blogs e têm minado a descoberta anunciada pelo time da NASA. Até que provem o contrário, os cientistas apenas possuem uma bactéria de laboratório que consegue sobreviver em concentrações altas de arsênio e baixas de fósforo. Fascinante mas nem de perto revolucionário.

O mais interessante é que os pesquisadores da NASA, associada à tecnologias de ponta, de canetas à travesseiros, não parecem ter entendido como funciona a internet. Quando foram perguntados sobre as críticas feitas em blogs e artigos de jornais, eles se recusaram a comentar, dizendo que o fórum para debater Ciência é na seção de cartas do periódico em que o artigo foi publicado. Estes pesquisadores, que souberam aproveitar a rede na hora de engraxar seu hype, não são capazes de perceber uma das características mais fascinantes da Ciência 2.0: a possibilidade de se agilizar discussões relevantes de assuntos científicos controversos. Como mencionou alguém no Twitter: é a nova cara da avaliação feitas pelos pares (peer review).

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Discussão - 16 comentários

  1. maria disse:

    carlos, belo resumo da controvérsia. o guardian fez um podcast legal sobre isso, talvez te interesse ouvir: http://www.guardian.co.uk/science/blog/audio/2010/dec/13/science-weekly-podcast-arsenic-bacteria-backlash
    você sabe de alguém que estude direito essa coisa de organismos com químicas alternativas?
    beijo e sempre agradecida pelos teus textos!

  2. João Ota disse:

    Olá Hotta,
    muito bom o seu post. Diferente dos outros posts linkados no início do texto, você procurou entrar em uma questão mais profunda, que diz respeito ao próprio conteúdo do artigo: a metodologia, os resultados e interpretação dos mesmos.
    Lendo os outros links, deu para ver a fuzarca que está sendo criada, e os motivos são vários: o ‘hype’ exagerado da imprensa e da NASA; as declarações iniciais dos autores e da NASA, desqualificando as mídias não “credenciadas” que criticaram e levantaram questões sobre o artigo (acho que é importante ressaltar que a autora principal fez uma declaração no site dela, e se propõe a discutir, embora sem citar pontos em específicos); e também os resultados “duvidosos” apresentados no artigo.
    Porém toda essa discussão traz vários assuntos à tona… e um deles, creio eu, é como a própria pesquisa é realizada e idealizada pelos cientistas. As entrevistas realizadas por Carl Zimmer no link que você colocou foram publicadas em http://blogs.discovermagazine.com/loom/2010/12/08/of-arsenic-and-aliens-what-the-critics-said/ e uma das entrevistadas, Hazel Barton, fala sobre algo que acho que vc já deve ter falado por aqui antes… :
    “To me, the paper represents something that all graduate students are told to think about – develop experiments that are aimed to reject your hypothesis, not support it. If you cannot reject it, then you must accept it. These experiments in most cases were shown to ’support’, not test the central hypothesis. It’s a newbie mistake and the mentors, reviewers and editors are as much at fault for not catching that as anyone.”
    Boa noite! Obrigado pela(s) boa(s) leitura(s)!

  3. L. Felipe B disse:

    Excelente post! vc trouxe os detalhes das tecnicas utilizadas e o porque de as mesmas não suportarem evidencias suficientes à favor da hipotese do grupo de pesquisa…
    Sim, a NASA exagerou, mas a midia exagerou MAIS ainda com todo o buzz… o processo cientifico é isso ai, talvez seria melhor nao ter havido a coletiva com a imprensa sem dados mais convincentes…mas outros testes estao, e estarao sendo feitos para comprovar se de fato isto ocorreu…
    no texto do meu blog, (n sei se voce o leu) escrevi de forma apaixonada, como sempre, mas em nenhum lugar deixei de fora o fato que (de acordo como eu vi o estudo) as evidencias sugerem a subst. do P pelo As, hipoteticamente sim é possivel, em condições ideais, que nao sao as que encntramos em qualquer lago…
    mas é isso ai, estamos de olho ;)
    grande abraço! muito bom ler sempre os posts do seu Jardim de brontossauros!

  4. Aureo Andre Karolczak disse:

    A boa ciência deve resistir as críticas, descrença, preconceitos e dogmas. Se desmoronar como um castelo de cartas então não é boa ciência. Torço para que a jovem cientista realmente nos traga uma comprovação para a hipotese do arsênico, mas infelizmente o caso me reporta antigas histórias sobre fusão a frio e outras mais ou menos escabrosas.
    Parabens pelo blog, descobri agora e já está nos meus favoritos.
    Abraço
    Aureo

  5. Renato da Veiga Torres disse:

    Curto muito qdo alguem descobre qdo tem uma dose exagerada de marketing nas coisas.
    Conclusão: A NASA não é a mesma de antigamente (deve estar pagando menos!).
    Parabens ao Hotta e nossa ciencia que sempre foi bem competitiva. Agora com a Internet tem poder (e voz) para questionar ‘marketagem cientifica’.

  6. Luís Brudna disse:

    Será que a Nasa planejou ter um Hype e confusão em torno do assunto?
    Pode ser um daqueles exemplos de ´quem conta um conto aumenta um ponto´.

  7. Carlos Hotta disse:

    Vc está certo Takata, o que deveria ter dito é que eles deveriam ter usado outra técnica de espectrometria de massa, uma que dê o tamanho dos fragmentos e não a composição de elementos. Além disso faltou uma comparação entre os espectros do DNA de fosfato com o DNA de arsenato.

  8. Muito boa postagem.
    Mas eles usaram espectrometria de massa: análise de NanoSIMS.
    []s,
    Roberto Takata

  9. Carlos Hotta disse:

    Obrigado pessoal. Muitas das críticas que expus foram detalhadas pelo povo que linkei. Não sei se as faria sem o aval destes blogueiros.

  10. Érico disse:

    Acho que todo mundo que foi ler o artigo original não se sentiu muito convencido. Dá pra desconfiar legal. Mas acredito que essa controvérsia vai ser resolvida rapidinho.
    O fato é que vai ser um papelão pra NASA se o arsênico não substitua o fosfato coisa nenhuma…
    Achei o hype de fazer o anúncio desse jeito muito precipitado. No caso de uma retratação vai ficar muito, muito mal. E isso num momento que a agência precisa de credibilidade, visto os vários cortes recentes por lá.

  11. Mauro Rebelo disse:

    Excelente Hotta. Desde que eu vi o anuncio eu sabia que era caô, mas você fez uma descrição perfeita. Parabéns.

  12. Erik Amazonas disse:

    Ciência = senso crítico!
    Parabéns pela crítica excelente!
    Descoberta (ou achado) fascinante realmente, mas não revolucionário! Muito menos Extraterrestre… (sic)
    Parabéns, Hotta!

  13. Michele disse:

    Ótimas levantações, Hotta! Ainda bem que existem blogs como o seu para ajudar a ver de uma forma crítica tais notícias. Afinal, só de dizer que a equipe de pesquisadores é da NASA e que o artigo saiu na Science, já se impõem que seja algo irrefutável. Chega disso, ciência não combina com absolutismos!
    Abraço.

  14. Caro Hotta,
    Mais uma postagem muito esclarecedora sobre o assunto. Não só sobre a questão das bactérias em si, mas também sobre a postura de cientistas que se recusam a discutir críticas a seus trabalhos em fóruns que estão se tornando cada vez mais importantes.
    Recentemente o editor da prestigiosa revista “Analytical Chemistry” criticou blogs e bloggers de ciência. Coitado. Foi literalmente bombardeado de críticas. Teria sido melhor não dizer nada.
    Vejam aqui, por exemplo: http://blog.chembark.com/2010/10/14/editor-in-chief-of-anal-chem-dislikes-bloggers/
    abraço,
    Roberto

  15. Gabriel Cunha disse:

    Até que enfim um post brasileiro tratando da metodologia do assunto. Estou relendo o artigo original e o material complementar, mas a princípio concordo com você em gênero, número e grau.
    Existem inúmeros experimentos ridículos de serem feitos, baratos, rápidos, muito mais elegantes do que o show-off tecnológico usado pela NASA, e que comprovariam se o As está ou não incorporado às biomoléculas.
    Ridícula, também, a postura dos pesquisadores (ou dos responsáveis pela comunicação, como assessores e etc) em relação ao buzz que ELES MESMO CRIARAM.
    Muito fácil criar o hype e sumir quando as coisas “dão errado”.
    Excelente post, recomendarei já!

  16. O resumo que precisava pra entender essa querela!

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