Para entender o que acontece em Fukushima

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Este texto foi escrito para clarear o que aconteceu em Fukushima. No entanto muita coisa ainda está aconetcendo, o que tem dificultado o trabalho. Vou atualizando o texto conforme as coisas acontecem.
Lembrem-se: não sou especialista, dependo dos relatos alheios. Por favor corrijam qualquer coisa.
Como funciona a usina nuclear de Fukushima?
Por incrível que pareça, a eletricidade na usina nuclear de Fukushima é gerada por vapor de água. A energia liberada pelo combustível nuclear, o radioativo óxido de urânio, ferve a água e o vapor gerado move turbinas, que geram a eletricidade.
O óxido de urânio está na forma de cerâmica, em pequenos cilindros. Estes cilindros não estão em contato com a água, evitando desta forma que a água fique radioativa. Eles são colocados em tubos de Zircaloy. Centenas de tubos de Zircaloy formam o reator nuclear. Os átomos de urânio se quebram em átomos menores, liberando calor e nêutrons. O calor aquece a água, que só está em contato com o Zincaloy, os nêutrons podem atingir outros átomos de urânio, ocasionando novas fissões (quebras). O ciclo da água líquida entrando e vapor saindo retira o calor do reator. Um detalhe que vai ser importante depois: os tubos de Zircaloy se oxidam a 1200oC e o óxido de urânio se derrete a 2800oC.
O reator é mantido encapsulado sob pressão em uma estrutura com paredes grossas de aço que servem para resistir a explosões. Esta estrutura está fechada hermeticamente em uma segunda estrutura, esta de aço e concreto. Uma terceira camada de concreto cobre tudo. Tudo isso atuando como uma proteção contra vazamento do combustível radiotivo para o ambiente (muito, muito ruim). Por fim, há o prédio da usina, que protege todo o aparato das intempéries.
É necessário notar que o design de um reator nuclear é compleatmente diferente de uma bomba nuclear. Por isso qualquer explosão que tenha acontecido ou venha a acontecer na usina de Fukushima NÃO vai ser uma explosão nuclear!
O que deu errado?
Quando há uma emergência, a usina nuclear pode diminuir a taxa de fissão de urânio mesclando-se cilindros de bóro – que absorve nêutrons – entre os cilindros de Zincaloy. Desta forma consegue-se reduzir a taxa de fissão do urânio em mais de 90% mas calor ainda é produzido. Por isso ainda é necessário continuar a resfriar o reator com água. Veja bem, se o reator ficar sem água, sua temperatura interna pode levar à oxidaçaõ dos cilindros e ao derretimento do urânio (o tal de meltdown). Quando ocorre o meltdown, o risco de haver vazamento de combustível radioativo aumenta consideravelmente, pricipalmente por se tornar mais difícil o controle das reações que ocorrem no reator.
Bem, a usina de Fukushima foi criada para aguentar terremotos de um certo grau: 1) o prédio não desabou; 2) quando foi detectado o terremoto, o maior da história do Japão (que tem um currículo considerável neste sentido), os cilindros de bóro foram ativados automaticamente, 3) o terremoto destruiu o acesso da usina à fotnes externas de eletricidade, necessária para o sistema de refrigeração, mas a usina possuía muitos geradores de eletricidade de reserva.
A usina possuía, inclusive, altas paredes que a protegiam da maré, caso houvesse um tsunami. A confiança nestas paredes era tanta que os geradores de emergência foram colocados no subsolo, protegidos de desabamentos. Os geradores funcionaram perfeitamente por cerca de uma hora quando veio um tsunami com uma intensidade muito maior do que a imaginada pelos engenheiros da usina. A água logo sobrepujou os muros da usina e chegou aos geradores, parando-os. A usina ainda contava com baterias de backup mas suas 8 horas de duração foram insuficientes para retornar a energia elétrica para os geradores. Quando a energia das baterias acabou a temperatura dentro do reator começou a subir. Eventualmente, geradores foram levados ao local: o grande desafio era, então, fazer a temperatura do reator diminuir.
O aumento da temperatura dentro dos reatores aumenta a sua pressão interna, o que pode danificar os sistemas de contenção de radiação. A solução é soltar parte dos vapores na atmosfera. Quando a temperatura dos reatores chega a 1200oC, o Zincaloy começa a oxidar, liberando o gás hidrogênio – altamente combustível. O problema é que não era possível estimar a quantidade de gás de hidrogênio que estava sendo liberado junto com o vapor o que ocasional as explosões vistas pela televisão (nota: neste momento houve uma terceira explosão cujas causas ainda estão incertas). Estas explosões destruíram o prédio da usina mas, até onde se sabe, não afetou as estruturas de contenção dos reatores. A degradação do Zincaloy também permite que alguns elementos radioativos saiam junto com os vapores, césio e iodo. Este material é o suficiente para aumentar a radioatividade da região mas não para ser letal a seres vivos.
Os engenheiros ainda começaram a bombear água do mar com ácido bórico nos reatores para ajudar no resfriamento do reator. Esta decisão acelera a oxidação do Zincaloy mas a prioridade era abaixar a temperatura. O ácido bórico também captura nêutrons, de forma a evitar que os reatores tornem-se ativo noavmente. Uma vantagem extra do ácido bórico é capturar parte do iodo radioativo gerado. A água do mar inutiliza os reatores por isso só é usada como último recurso. Parte da dificuldade em se resfriar os reatores é a pressão. Um dos especialistas coemntou que é o equivalente a tentar colocar água em uma bexiga cheia de ar.
Qual é a situação atual?
É difícil saber ao certo a situação atual dos reatores. Há muito boato e muita análise falsa rolando por aí. Apesar dos reatores estarem inativos faz muitas horas, ainda há uma certa dificuldade de se controlar a temperatura de alguns deles. Não é possível ter certeza mas acredita-se que dois dos reatores da usina ficaram sem água por um período de tempo devido a falhas nas válvulas de liberação da pressão. Este tempo pode ter sido o suficiente para que tenha ocorrido um meltdown. Se isto aconteceu, é necessário torcer para que os demais sistemas de contenção ainda estejam intactos. Certamente o Zincaloy de pelo menos um reator foi danificado, uma vez que foram detectadas pequenas quantidades de césio e iodo ao redor da usina.
A situação ainda é um tanto tensa, ainda mais porque não sabemos a extensão dos estragos nos reatores. O que se sabe é que não teremos um acidente do nível de Chernobyl. Os russos subestimaram o estrago que o gás hidrogênio poderia causar, não possuíam estruturas de contenção do reator e ocorreu uma explosão enorme causada pelo acúmulo de hidrogênio que levou junto o reator nuclear, espalhando o urânio na atmosfera. Os diversos níveis de contenção ao redor dos reatores servem exatamente para evitar que isso aconteça.
Nota: no momento em que escrevo há sinais de fogo em um dos reatores da usina e há indícios que a terceira explosão atingiu um das estruturas de contenção de um outro reator. Há relatos de que grandes quantidades de radioatividade estão sendo liberadas (a verificar). Há ainda boatos de que estão evacuando a usina, sinal péssimo que levaria ao o meltdown de pelo menos três reatores. No momento é impossível saber ao certo o que está acontecendo e a magnitude do problema.
A mídia adora falar em níveis de radiação X vezes acima do normal ou Y vezes a quantidade que permitida pela regulação ambiental. Quando ouvirem isso considerem que: 1) os níveis de radiação no ambiente são baixíssimos, 2) os níveis perimitidos por lei são baixíssimos e 3) a radiação letal para seres vivos tanto no curto quanto no longo prazo é muito mais alta!
A usina de Fukushima tem quase 40 anos. Nas usinas modernas, por exemplo, não é necessário energia elétrica para bombear água para os reatores. Ainda sim a usina resistiu a um mega-terremoto e um super-tsunami. Para se ter uma ideia dos “perigos das usinas nucleares”: as usinas termoelétricas de carvão geram mais radiotividade que as usinas nucleares e usinas nucleares mataram menos por terawatt que qualquer outra fonte de energia, incluindo energia solar e eólica.
UPDATE1 (01:05 am 15/03): o fogo no reator 4 se extinguiu. Este reator estava desativado mas continha células de combustível nuclear usadas. O fogo pode ter espalhado radioatividade destas células. Os trabalhadores foram evacuados porque os níveis de radiação subiram demais, tornando-se danosos a seres vivos. O sistema de bombeamento de água do mar para os reatores 1, 2 e 3 continua ativo.
UPDATE2 (08:01 am 15/03): A atenção dada aos reatores 1, 2, 3 fez com que o reator 4 fosse negligenciado. Isto levou à evaporação da água dos contâiners de combustível radioativo usado, provocando o acúmulo de gás hidrogênio e o fogo. Durante o incêndio houve um pico de liberação de radioatividade que chegou (em baixos níveis) até Tóquio. Os reatores 5 e 6, também desligados, também apresentam altas temperaturas.

Fontes:

MIT Department of Nuclear Science and Engineering
Slate – Nuclear Overreactors
The Market Ticker – On The Japanese Quake and Tsunami
Boing Boing – Nuclear energy 101: Inside the “black box” of power plants
BBC News – Uncertainty surrounds Japan’s nuclear picture

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Discussão - 22 comentários

  1. Flaviane Dias disse:

    Nossa ! Muito Bacana :D
    Tinha Que Fazer Um Trabalho Em Cima Disso e Consegui Entender Certinho…
    Parabens ^^

  2. Ana disse:

    Legal, finalmente consegui entender o que REALMENTE ACONTECEU, mas você tem certeza de que os impactos da energia solar e eólica ao meio ambiente são nas mesmas proporções que os causados pelas hidrelétricas??

  3. bella_guilhermino disse:

    finalmente consegui achar alguém que me explique a situação. Se formos acreditar td que vemos na TV, não conseguiríamos criar metade da sua linha de raciocínio. Obrigada. Ajudou MT no meu trabalho de ciências tb.

  4. Chicopinto disse:

    Estava lendo sobre o problema do Fuk-D em Dynamics of cats e o autor levantou um problema não comentado aqui.
    Os cilindros corroídos de zircaloy podem não suportar o seu próprio peso e se quebrar, fazendo com que o material fissível se acumule no fundo do reator, longe dos moderadores de boro, e, caso haja massa suficiente, reinicie a reação de fissão nuclear.
    O que vocês acham? Será que esse cenário procede?

  5. Excelente o artigo, fazia tempo que alguém não parava para analisar os fatos antes de bravejar “catastrofe nuclear” pela midia.
    Carlos, se isso lhe interesse, existe um reator nuclear de pesquisa no IPEN que é possivel de ser visitado, o reator IEA-R1: https://www.ipen.br/sitio/?idc=263
    As explosões que podem ocorrer nas instalações de um reator nuclear são relativas à sobrepressão do vapor gerado, que, em geral, está confinado em um sistema à parte do reator propriamente dito. O isolamento de cada um tem objetivos diferentes: do reator nuclear, é para evitar o vazamento de radiação, para isolar o combustivel em caso de acidentes, etc; na “caldeira”, o objetivo é resistir às altas pressões que podem ocorrer na operação normal ou em circunstâncias anormais.

  6. Igor disse:

    Uma tabelinha com os níveis de radiação para exemplificar melhor.
    http://blog.xkcd.com/2011/03/19/radiation-chart/

  7. Thiago disse:

    Muito bom o texto. Estou divulgando ele no Orkut e no Tumblr.

  8. Carlos Hotta disse:

    Tanto a energia eólica quanto a energia solar produzem energia de forma inconstante, o que é o suficiente se forem modos secundários de se gerar energia mas se tornam inadequadas como fontes primárias de energia. Não consumimos eletricidade somente quando tem Sol, por exemplo.
    Uma coisa que as pessoas esquecem é o material necessário e o espaço ocupado pelas usinas eólicas e solares gerarem a mesma quantidade de energia que uma hidrelétrica ou uma nuclear. É uma quantidade absurda que dificilmente é sustentável.

  9. Carlos Hotta disse:

    Evaldo, o zircônio reage com o oxigênio da água (por isso dizemos que oxidou) deixando os átomos de hidrogênio para se combinarem no gás hidrogênio (H2).

  10. Carlos Hotta disse:

    Ogino,
    até onde eu sei a reação continua por muito tempo pois o combustível radioativo continua a decair. Por isso é necessário controlar a temperatura mesmo depois de desligar o reator. O problema do meltdown é que a reação fica ainda mais descontrolada e pode demorar semanas até ficar sob controle novamente.

  11. Evaldo disse:

    Além da minha dúvida, que eu me lembre, tenho que a água do circuito primário em contato com as barras de combustível fissil de zircaloy (bainhas) têm níveis de radiação significativos e ficam confinadas sem contacto com o ambiente. Se esse reator for como o brasileiro, um PWR. (não precisa publicar esse, é um comentário para vc)
    Parabéns pelo blog!

  12. Evaldo disse:

    Carlos, parabéns pelo seu blog. A mais completa explicação que eu lí até agora sobre essa catástrofe! Tenho uma dúvida, se vc puder esclarecer: a explosão de hidrogênio! Como a liga metáliza de zircaloy (zircônio e outros metais como, pasmém, o nióbio brasileiro) gera hidrogênio ao fundir em quantidade suficiente para uma explosão? Se vc souber, por favor me esclareça.
    Obrigado e parabéns pelo texto bem escrito e elucidador.

  13. Ogino disse:

    Cara ótimo texto, bastante didático.
    Pra mim só ficou faltando uma informação: o reator depois de desligado, por quanto tempo ainda ocorre reação e calor a ponto de causar o meltdown? De sábado até hoje já se vão 5 dias.

  14. Ali disse:

    Excelente artigo. Obrigada pelas informações!

  15. Rogerio disse:

    Boa, noite!
    Realmente, sua explicação é direta e muito didática. Ainda assim, continuo achando que energia atômica é uma porcaria que deveria ser banida do mundo, como outros tipos de energia e combustíveis contaminantes. Com tanto vento que há no Japão, com tanto mar bravo (vide a costa do pacífico), os imperiais do Sol Nascentes veriam investir em geração de energia eólica e também marítima. O mesmo para o Brasil e para a Argentina. O que mais sobra aqui é vento; no entanto continuam gerando energia a carvão e também com essas porcarias atômicas.
    No site do green peace também há um longo artigo muito interessante acerca da energia atômica, seja para fins pacíficos ou não.

  16. Celina Uemura disse:

    Bacana o artigo, li muita coisa já a respeito, inclusive nos sites de notícias internacionais, e é um dos que melhor explica de forma sucinta e simples o que está acontecendo. Parabéns.

  17. ANDRE COSTA NUNES disse:

    Excelente o artigo do poster, apenas não ‘pode haver paralelo com o que é produzido pela mídia, apressada, ou não. Normalmente repórteres, bons repórteres, não têm sequer intimidade com o sistema métrico decimal. Tonelada sempre soa maior que mil quilos. Foi até preciso criar uma nova medida agrária, o campo de futebol, para que se tivesse a noção de hectare.
    Quanto ao comentarista número cinco, é de todo pertinente sua observaçao sobre ocupação do solo e respeito mínimo pela mata ciliar de rios, lagos e mares, mas que o deputado Aldo Rabelo, novo teórico da UDR, e seu Código Florestal não o ouça.
    Obrigado,
    andre costa nunes

  18. br disse:

    Tsunami é um fenômeno de pouquíssima frequência. Cheia nos rios e deslizamento acontecem todos os anos no período de chuvas. Se fosse para equiparar os fenômenos boa parte do mundo não poderia ser habitada já que há risco de terremotos, vulcões, furacões, etc.
    A dica é que cheia dos rios/desmoronamento é de certa forma previsível e as medidas para evitar são de baixo custo: construir 50/100 metros longe do local. Não parece ser uma medida radical dada a extensão do nosso território. Não precisamos nos amontoar em volta de rios ficando a 10 metros de sua margem, e nem construir perto/em cima de morros. Isso é pura burrice.

  19. Anderson disse:

    Parabens pelo texto, que explica o que a midia não explica, da maneira simples e objetiva

  20. rafael disse:

    Cara, animal sua explicação, agora sim estou entendendo oq esta acontecendo de verdade

  21. João Carlos disse:

    Apesar de gostar da simplicidade e elegância de seu texto, Carlos, eu acredito que você está malhando em ferro frio…
    Eu estou surpreso que, até agora, ainda não apareceu um “bem pensante” para “lamentar” a “ocupação desordenada do solo” das vilas varridas pelo tsunami (como fizeram quanto à região serrana do RJ).

  22. Maximus Gambiarra disse:

    Cara, é a primeira vez que eu consigo entender a situação.
    Agora estou mais tranquilo por duas razões:
    - 2012 foi adiado para o ano que vem.
    - Ainda há gente no Brasil capaz para explicar um fato tecnicamente sem sensacionalismo.
    Parabéns!

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