Primatofobia e questões existenciais…
por Guilherme Garbino
Foi na primeira metade século XVI que Copérnico retirou a terra do centro do universo, trocando-a pelo Sol. Após correr um sério risco de ser queimado vivo, o cientista retirou suas alegações. Anos depois, Galileu Galilei, considerado um dos pais do método científico, fez a mesma afirmação e foi condenado a prisão domiciliar.
Incrivelmente, só dois séculos depois de Galileu ter jogado o planeta Terra para escanteio é que surgiram os primeiros indícios de um outro reposicionamento universal, o do lugar do ser humano no universo, assumindo nossa espécie a posição de “apenas outro grande símio”. Mais estranho ainda é pensar que o “Príncipe dos Botânicos”, Carl Linnaeus, o grande classificador do século XVIII e indubitavelmente um não-evolucionista, colocou o Homo sapiens dentro da ordem Primates.
Na décima edição de seu Systema Naturae, Linnaeus criou o gênero Homo. Originalmente, o gênero incluía duas espécies: Homo sapiens e Homo troglodytes. Como de praxe, o autor oferece uma diagnose de suas espécies. A descrição de H. sapiens são apenas três palavras: Nosce te ipsum (Conheça a ti mesmo). A segunda espécie de Homo, entretanto, claramente refere-se a uma criatura mitológica que, pelas fontes citadas por Linnaeus, seriam seres albinos habitantes de cavernas. Há também um relato do viajante holandês Jakob de Bondt que se refere a uma criatura que pode ser uma orangotango fêmea ou uma mulher com hipertricose. O Homo troglodytes de Linnaeus não tem nada a ver com o Simia troglodytes de Blumenbach, este último o nome científico do chimpanzé (hoje Pan troglodytes). O sistema binomial de nomenclatura admite o mesmo epíteto específico em gêneros diferentes.

Figura de Jacob de Bondt, uma das fontes de Linnaeus, retratando um dos humanóides por ele observado durante duas viagens às colônias holandesas nas ilhas do sudeste asiático.
A última espécie de Homo descrita por Linnaeus, o Homo Lar, também é uma criatura real, nesse caso gibão de lar (hoje Hylobates lar), que foi descrito, assim como outros primatas, em seu Mantissa Plantarum, embora, até onde sei, não se trate de uma espécie de planta. Três novas espécies de “símios” foram ainda posteriormente descritas por Linnaeus, em 1760, na dissertação de seu aluno, Hoppius, entitulada Anthropomorpha (até meados do século XIX era costume na Suécia que o professor escrevesse a tese e o aluno apenas arcasse com os custos!): Simia Satyrus, Simia Lucifer e Simia Pygmaeus; Todas baseadas em ilustrações das quais a única que se refere a uma criatura real é Simia Pygmaeus, o orangotango de Bornéu que o classificador sueco nomeou pygmaeus por pensar ser esse um membro da raça de pigmeus mencionada por Homero.

Ilustrações dos “Anthropomorpha” de Linnaeus, presentes no livro de Hoppius. Da esquerda para a direita: Simia Troglodyta, Símia Lúcifer, Símia Satyrus e Simia Pygmaeus.
Embora essa primeira classificação tenha um teor otimista e de justiça filogenética (ao menos para mim, que leio isso em 2012), colocando os humanos firmemente na Ordem que incluía os outros macacos, lêmures, társios, colugos e morcegos, a classificação de Linnaeus, vale lembrar, tinha um caráter prático e artificial, agrupando os seres vivos, por vezes, com base em um único caráter similar compartilhado (no caso de Primates, o número de incisivos). Para termos alguma noção de como essa classificação do homem foi recebida numa Europa antropocêntria, o alemão Blumenbach, em 1775, apontou que o grande erro de Linnaeus foi misturar atributos dos símios com os do homem.
A escola francesa pós-revolução e os alemães, no entanto, insistiram em dar um lugar especial ao homem; nesse sentido, nomes muito conhecidos como Georges Cuvier, Étienne Geoffroy Saint-Hilaire e Johann Blumenbach separaram o Homo sapiens em uma ordem exclusiva de mamíferos, Bimana (“duas mãos”), e os outros primatas na ordem Quadrumana (“quatro mãos”). Sir Richard Owen, diretor do Museu Britânico, foi além e classificou o homem como único representante de Archencephala (ou cérebros dominantes) uma de suas quatro subclasses de Mammalia, com base em características supostamente únicas de nosso encéfalo. Na época essa idéia foi veementemente contestada, principalmente por Thomas H. Huxley.
O extremo talvez tenha sido atingido, em pleno século XX, por Julian Huxley, neto de T. H. Huxley, que em 1942 propôs separar o homem em um Reino a parte, o “Psicozoa”, argumentando que possuímos o caráter único de cultura e “domínio do mundo” (o que quer que isso queira dizer). Os homens, principalmente os do sexo masculino da Europa e dos EUA, simplesmente se recusavam a aceitar nosso passado simiesco.
Somente um século após Linnaeus outros naturalistas voltaram a incluir o homem em Primates. Ninguém menos que Charles Darwin, em seu livro de 1871, “The Descent of Man and selection in relation to Sex” (A Descendência do Homem e Seleção em Relação ao Sexo), propôs, depois desse enorme hiato, que “o homem, sob um ponto de vista genealógico, pertence aos Catarhini (sic)”. Ao saber disso, a mulher do bispo de Worcester exclamou a famosa frase: “descendente de símios! Querido, vamos rezar para que isso não seja verdade, mas se for rezemos para que isso não se espalhe!”.

Charge do século XIX, onde o gorila diz “Aquele homem quer meu pedigree. Ele diz que é um de meus descendentes”. Sr. Bergh (um dos fundadores da sociedade protetora dos animais) responde “Sr. Darwin, como você pôde insulta-lo dessa maneira?”. (Fonte: http://claesjohnsonmathscience.wordpress.com/2011/12/15/scientists-and-science-in-cartoons/)
Essa aversão ao “rebaixamento” do homem fez com que mesmo os anatomistas mais experientes do ocidente ignorassem a evidência diante dos seus olhos. De fato, W.K. Gregory, em artigo publicado na Science, criou o termo “pitecofobia”, que fica perfeitamente definido nas próprias palavras do autor (em tradução livre minha): “Esse novo tipo de fobia pode, portanto, ser chamada de pitecofobia, ou o medo de símios, especialmente o medo de símios como parentes próximos ou ancestrais”. E depois adiciona, com sarcasmo: “Durante os últimos anos essa fobia se tornou quase pandêmica; especialmente nas comunidades rurais”.

William King Gregory (1876-1970), mastozoólogo e antropólogo do American Museum of Natural History em Nova Iorque.
Hoje o homem é classificado (pela maioria dos autores) como membro da famíla Hominidae, que também inclui os chimpanzés e bonobos (gênero Pan), gorilas (gênero Gorilla) e os orangotangos (Pongo), sendo que nosso gênero teria se separado de Pan há mais ou menos 6 milhões de anos. Existe ainda o que seria impensável pelos vitorianos do século XIX: a proposta da criação de um “direito dos grandes-símios”, de maneira similar aos Direitos Humanos, mas distinta dos Direitos Animais, o “Great Ape Project”.

Filogenia dos Hominoidea vivente, com alguns fósseis-chave incluídos (Fonte: Scientific American, 16:4-13. Junho de 2006)
Esse exemplo serve para nos mostrar como preconcepções errôneas e fortemente enviesadas fazem com que um corpo enorme de evidência seja ignorado, ou que haja uma “forçada de barra” para garantir nossa exclusividade, como fez J. Huxley. Como responsável por tantas outras mudanças de paradigma na biologia, a evolução de Darwin e Wallace cimentou o pedestal humano junto aos outros grandes símios e de lambuja respondeu duas das grandes perguntas existenciais que sempre acompanharam a humanidade: “quem somos e de onde viemos”. Para saber para onde vamos “ligue djá” para o seu vidente de confiança…
Resgates de fauna e suas verdades ocultas
por Rafael Marcondes, Luciano Moreira Lima & Guilherme Garbino
Recentemente foi amplamente noticiado a morte em massa de animais silvestres afogados devido ao enchimento da represa da Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, que está sendo construída no Rio Madeira, próximo à cidade de Porto Velho – RO. De acordo com uma pessoa que trabalhou nas atividades de resgate de fauna durante o enchimento do lago da usina, o resgate foi ineficaz e houve um verdadeiro extermínio de animais na região. Antas, tatus, pacas, cotias e diversos outros bichos se afogaram, morreram e apodreceram nas águas do Madeira. O consórcio Santo Antônio Energia, responsável pela construção da usina respondeu que realmente ocorreram mortes, mas elas teriam sido míseros “1,8%” do total de animais resgatados, 25.517, e que desses, 97,7% haviam sido devolvidos “saudáveis” a natureza.

Um dos milhões de animais afogados pelo enchimento do lago da Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, Rio Madeira, Rondônia. Fonte - aqui -
Um pequeno exercício matemático revela uma verdade oculta e macabra por traz são desses números. Vamos raciocinar um pouco… Uma espécie típica de ave passeriforme possui uma densidade populacional de 1 casal a cada 5 hectares, ou 1 indivíduo a cada 2,5 hectares (Terborgh et al. 1990). Segundo a própria Santo Antônio Energia, a área a ser alagada é de 16.400 hectares. Essa área comporta, portanto, cerca de 6.560 indivíduos de uma espécie típica de pássaro. Numa estimativa, conservadora, 200 espécies de passeriformes ocorrem na região do alto Rio Madeira. Multiplicando 6.560 por 200, chegamos a outra estimativa, também conservadora, de mais de 1 milhão de pássaros na área a ser inundada! Apenas de aves passeriformes! Não estamos contando as demais aves, nem répteis, anfíbios, mamíferos, borboletas e a míriade de outros invertebrados. Se os contássemos, facilmente a conta chegaria a bilhões de animais. Nesse contexto, a afirmação da empresa de que teriam sido 459, ou melhor, 459,306 para ser mais exato, os animais mortos pelo alagamento dispensa mais comentários.

Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, Rio Madeira, Rondônia, ainda em fase de construção. Com as obras completamente concluídas mais de 16.000 hectares de florestas estarão para sempre submersos.
Vamos deixar um pouco de lado os infortunados que não conseguiram embarcar na Arca de Noé e nos concentrar em analisar o destino desses quase 25 mil animais resgatados e devolvidos “saudáveis” a natureza. Um ótimo ponto de partida para nos enveredarmos nessa questão é um elucidativo artigo do Professor Marcos Rodrigues, da UFMG, publicado em 2006 na revista Natureza & Conservação. Nessa publicação o autor levanta uma série de questões sobre o destino dos animais realocados, compartilhadas abaixo.
O objetivo declarado dos resgates de fauna é salvar animais que de outra maneira se afogariam. Para isso, equipes de biólogos e veterinários capturam animais, principalmente vertebrados, durante o enchimento da represa. Os animais capturados passam um breve período em centros de reabilitação e em seguida são liberados em áreas que, teoricamente, possuem características semelhantes àquelas de onde foram retirados, mas onde, obviamente, não haverá alagamento.
Embora lógico a primeira vista, esse procedimento parece ignorar o fato que muitas das espécies incluídas nesse bolo são territorialistas. Nesses casos, cada indivíduo, casal ou bando, dependendo da espécie, defende uma área da floresta (ou cerrado, caatinga, etc.), mantendo um território geralmente com fronteiras muito bem delimitadas. As vantagens do animal manter um território estão relacionadas principalmente com competição por recursos, incluindo alimento, abrigo e parceiros reprodutivos. Por isso, muitas espécies defendem exaustivamente seus territórios, não tolerando indivíduos da mesma, ou, por vezes, até de outras espécies. Em um ecossistema em equilíbrio, geralmente a maior parte do espaço está ocupada por territórios de uma dada espécie, imediatamente onde termina o território de um indivíduo, já começa o de outro. Áreas “desocupadas” geralmente não apresentam recursos necessários para aquela espécie.
O leitor provavelmente já entendeu onde acabaremos chegando. Ora pois, os animais resgatados são soltos em áreas onde geralmente não há territórios vagos, o que, consequentemente, resultará em uma superpopulação local da espécie. O que acontecerá então com esses indivíduos? As opções não são muitas e, possivelmente, eles tentarão tomar o território de um indivíduo já estabelecido. No entanto, as chances de sucesso são baixas, pois o recém-chegado, além de não conhecer o novo local, provavelmente estará em má-forma e estressado, após fugir da inundação, ser mantido em gaiolas, transportado etc., diminuindo ainda mais suas chances.
Caso não morra por motivos resultantes de disputas territoriais, o “invasor” poderá tornar-se um “satélite”: indivíduos que vagam em busca de um território desocupado. As chances de sobrevivência de um satélite, no entanto, são baixas, pois ele tem menor acesso a recursos e constantemente tem que se envolver em disputas com indivíduos cujos territórios ele invade. Além disso, quanto maior o número de satélites, mais tempo os indivíduos territoriais tem que passar se defendendo, diminuindo assim o tempo dedicado a atividades como alimentação e reprodução. Ou seja, a introdução dos indivíduos translocados pode impactar seriamente as populações naturais já estabelecidas
Assim, fica claro que resgates de fauna são muito pouco efetivos frente ao número de animais afetados no alagamento causado por uma usina hidrelétrica de grandes proporções, ou pior, podem funcionar como um “tiro no pé”. No entanto, é uma atividade com grande repercussão na mídia (quem nunca viu na televisão cenas de animais sendo resgatados por helicópteros e depois saindo de gaiolas para a “liberdade” da floresta?) e popular frente à opinião pública, que acredita que os animais estão realmente sendo “salvos” e ignoram que outros centenas de milhões foram, literalmente, por água abaixo ou sentenciados a vagar sem rumo nem direção pela floresta tal qual refugiados de um verdadeiro massacre. Problema? Nenhum… Afinal, o que os olhos não veem o coração não sente.
Post scriptum: Reproduzo aqui um pertinente comentário sobre o texto acima feito no FaceBook por Vitor de Queiroz Piacentini, o qual lança luz sobre mais um grave problema associado a resgates de fauna e não abordado diretamente no nosso texto.
O texto tá muito bom, e poderia ir até mais longe: os resgates em rios divisores de fauna (= espécies ou subespécies aparentadas substituindo-se em margens opostas dos rios) simplesmente ignoram o papel biogeográfico desses rios. O bicho-preguiça da margem direita tá há 694.750 anos sem contato com a população da margem esquerda? Não faz mal, solta tudo no mesmo buraco! Danem-se os padrões filogeográficos que a evolução levou anos construindo (os números do exemplo são hipotéticos, mas sei de fonte segura que mais de 200 preguiças de uma margem foram soltas na outra!)

O que os olhos não veem...
Fontes:
Rodrigues, M. 2006. Hidrelétricas, Ecologia Comportamental, Resgate de Fauna: uma Falácia. Natureza & Conservação, vol. 4, n. 1, p. 29-38. (A maior parte das informações, raciocínio e conclusões desse post foi adaptada deste excelente artigo.)
Terborgh, J. et al. 1990. Structure and organization of an Amazonian forest bird community. Ecological Monographs, vol. 60, p. 213-238.
Novas reflexões sobre o caso da ex-invisível e atual fedida Lagoa da Turfeira.
por Luciano Moreira Lima
NOTA IMPORTANTE: para quem está acompanhando o caso a partir de agora é bom ler o texto anterior também publicado aqui no Caapora (scienceblogs.com.br/caapora) para se situar melhor.
Sexta-feira está aí, é hora de recapitular os fatos…
Brejos, pântanos, manguezais e ecossistemas correlatos sempre foram alvo de um certo preconceito por parte da população geral. Além do Shrek, que -embora simpático- não deixa de ser um ogro, outras coisas não muito desejáveis são comumente associadas às área úmidas, mesmo que injustamente. A malária, por exemplo, tem origem no expressão “mal are”, pois se acreditava que só do sujeito respirar o “mal ar” dos brejos era tiro e queda pra tombar na cama.
Ogros pantanosos, doenças olfativas e outras injustiças cometidas contra as áreas úmidas à parte, é difícil deixar de lado uma característica que faz com que certas pessoas “torçam o nariz” para esses ecossistemas, e que acomete principalmente os manguezais, um característico cheirinho de enxofre. Quem já desbravou áreas de mangue sabe bem do que eu estou falando. É só afundar um pouco na lama que logo sobe aquele cheirinho mais forte. Não adianta olhar com cara feia para o amigo que vai caminhando na frente, a real causa cheiro é a decomposição intensa de matéria orgânica por uma miríade de bactérias que durante o processo acabam liberando enxofre.
Da Ilha de Marajó, no PA, à região de Guaraqueçaba, no PR, já percorri muitas áreas úmidas no encalço da passarada, mas nem os manguezais dos fundos da Baía de Guanabara superam o “mal are” que está exalando das áreas úmidas aterradas nas imediações da Lagoa da Turfeira. Dessa vez, no entanto, a culpa não é das bactérias, o mau cheiro é “daquilo mesmo que vocês estão pensando” que fizeram ali. Cheguei à conclusão que o “mal ar” está tão forte que tem levado a uma desbaratinização completa de algumas pessoas que visitaram a área a ponto destas afirmarem veementemente que havia sim sido detectado uma redução do espelho d’água e depois tentarem justificar o injustificável argumentando coisas do tipo: ”não não, não matamos ninguém só amputamos um braço e uma perna, mas agora vamos monitorar o estado do paciente, vai morrer não, pode ficar tranquilo”.
Oooooh catinga!!!
Não vou entrar em detalhes sobre o disse-me-disse, mas muito tem se falado e algumas perguntas importantes ainda não foram respondidas:
Afinal, há ou não há um estudo de impacto ambiental sobre a malfadada obra? Se há, cadê?
Se não há, por que não há? Só estão dispensadas de apresentarem tal relatório empreendimentos considerados de baixo impacto, o que nos leva a outra pergunta importante: obras às margens de uma lagoa de quase 70 hectares são de baixo impacto?
Uma outra questão básica pode ser levantada aqui: se não houve estudo de impacto ambiental, não houve uma caracterização da lagoa, se não houve caracterização da lagoa como se sabe o nível que ela atinge durante a época da cheia. Sem saber isso, como estipular então onde começa o limite de proximidade a que a obra pode chegar (sendo ela 0,1 ou 1000 metros)? Essa fedeu muito, não?
Tem também a questão da licença de instalação, mas primeiro vamos esperar a resposta a essas perguntas mais básicas.
Desde a minha ida na lagoa na fatídica tarde do último sábado (21/04) fiquei imaginando que uma foto aérea atual seria perfeita para demonstrar o estrago. E não é que ontem a foto apareceu? Aproveito para agradecer ao Celso Dutra que gentilmente postou a imagem no meu FaceBook, e também ao André Pol que produziu o esquema abaixo mostrando que de fato houve sim o aterro de áreas alagas, pelo menos 5, também de acordo com o André. Na foto é possível ver ainda o quão colado na lagoa está o empreendimento, pelo visto as capivaras vão ter que se adaptar e passar a pastar as algas do fundo do espelho d’água.

Vista aérea do estrago. Repare nos diversos espelhos d'água aterrados pela obra e na proximidade com a lagoa, especialmente no canto superior direito da obra. Foto gentimente encaminhada por Celso Dutra.

Detalhe da foto aérea mostrando o aterramento de diversas áreas úmidas junto a Lagoa da Turfeira. Esquema gentilmente encaminhado por André Poll.
A única dúvida que faz tempo já deixou de existir é sobre a importância conservacionista da Lagoa da Turfeira e áreas úmidas adjacentes, fato apontado diversas vezes até mesmo por aqueles que querem destruir a área. Paradoxal não? Fica mais uma pergunta: se já estava todo mundo careca de saber que a área é importante, por que não criaram a reserva antes? Mas tudo bem, pensemos no “antes tarde do que nunca”. Já que a reserva será criada, que tal ser tranformada em uma opção de lazer, com visitação controlada, que vai completamente ao encontro da vocação ambiental do município de Resende?
Abaixo seguem duas fotos para servirem como exemplo de parques em áreas úmidas que além de conservarem a biodiversidade, promovem a eduacão ambiental e geram recursos. Qualquer um que admire a natureza e tenha tido a chance de passear um pouco fora do país sabe que mundo afora, especialmente em paises como o Japão da Nissan, existem inúmeras reservas como essas da foto, grande parte delas inclusive como uma diversidade de aves muito MENOR que a da Lagoa da Turfeira.

Uma das muitas reservas mundo afora que unem conservação, educação ambiental e geração de recursos. Será que em um ano conseguimos ver a Lagoa da Turfeira assim?

Uma das muitas reservas mundo afora que unem conservação, educação ambiental e geração de recursos. Será que em um ano conseguimos ver a Lagoa da Turfeira assim?

Uma das muitas reservas mundo afora que unem conservação, educação ambiental e geração de recursos. Será que em um ano conseguimos ver a Lagoa da Turfeira assim?
Falando em Nissan e Japão, o famoso jornalista Ricardo Boechat (que literalmente mandou a prefeitura de Resende pra PQP – duvida?! eu também duvidei… ouça aqui) fez mais uma excelente e mal cheirosa pergunta: Será que o governo japonês autorizaria a construção de uma fábrica da Nissan em um local equivalente à nossa Lagoa da Turfeira? Será? Será? Não precisa assistir Globo Repórter e ouvir o Sérgio Chapellin falando “depois do intervalo, os segredos da longevidade dos japoneses” para saber que a resposta para a pergunta do Boechat. Afinal não é à toa que no Japão se vive mais, se sabe mais e trapalhadas políticas são motivo de comoção nacional, e isso tudo passa claramente pela relação do povo japonês com a natureza.
Fica então a pergunta final endereçada para a Nissan e seu presidente no Brasil Sr. Carlos Goshn: com tanta área de pasto abandonada Resende afora vocês vão mesmo querer construir a fábrica em um local que a coloca como uma séria ameaça a última grande área úmida remanescente da região Sul Fluminense? Pois se for o caso e essa importante empresa multinacional não der a mínima para um termo tão em moda quanto responsabilidade sócio-ambiental, é bom vocês irem se acostumando com o cheiro, porque com certeza, vez ou outra o negócio vai feder.
Depois da vergonha do Código Florestal, mais uma vez a sanidade ambiental do governo brasileiro está sendo colocada à prova. Agora é esperar e ver o que o que o laudo oriundo da visita do INEA irá concluir.
Aproveito para agradecer em meu nome e em nome da Lagoa da Turfeira e sua biodiversidade a todos que de alguma forma estão acompanhando, compartilhando, e lutando, especialmente o vereador Dr. Gláucio Julianelli e a jornalista Ana Lúcia Corrêa de Souza que assumiram posições no pelotão de frente.

A invisível Lagoa da Turfeira, uma tragédia ambiental anunciada…
por Luciano Moreira Lima
Uma das últimas grandes áreas úmidas da região sul fluminense corre sério risco de desaparecer
Das milhares de pessoas que diariamente passam pelo km 299 da Rod. Presidente Dutra (BR 116), poucas devem notar que contornada a oeste por uma abrupta curva do rio Paraíba do Sul está uma das últimas grandes áreas úmidas naturais da região sul fluminense, a Lagoa da Turfeira (também conhecida como Lagoa da Kodak devido a proximidade com uma antiga fábrica da referida empresa). Essa situação, no entanto, causa pouco espanto já que a grande lagoa parece não ser invisível apenas para os motoristas concentrados na estrada. Não adianta procurar pelos seus cerca de 700.000 metros2 em um detalhado mapa hidrográfico do município de Resende produzido em parceria com a prefeitura municipal -disponível aqui –. Você não verá a indicação de nem um pingo d’água em seu local. Fato no mínimo inusitado, uma vez que lagoas até 10 vezes menores são corretamente indicadas no mapa e se dos dermos conta que a Lagoa da Turfeira pode ser claramente observada a mais de 10.000 metros de altitude via Google Earth.

Vista panorâmica da Lagoa da Turfeira onde é possível ver o Rio Paraíba do Sul a direita. Resende, RJ. Fonte: GoogleEarth
Se uma área equivalente a mais de 70 campos de futebol pode passar desapercebida, imagine aqueles que a habitam, como o diminuto tricolino (Pseudocolopteryx sclateri) de topete invocado e míseros 9,5 cms. Não bastasse o tamanho, esse bonito passarinho vive apenas no meio de densas moitas de taboa (Typha domingensis), uma das plantas mais características de áreas alagadas no Brasil. Ornitólogos e observadores de aves sabem que para poder observá-lo não basta apenas vontade é preciso se embrenhar-se no taboal, muitas vezes afundar com água acima do joelho e ficar de ouvidos atentos ao seu discretíssimo canto – ouça aqui – .
Mais de 11 anos de visitas regulares a Lagoa da Turfeira e seu entorno imediato realizadas em parceria com o amigo e também ornitólogo Bruno Rennó, resultaram no registro não apenas do discreto tricolino mas também de pelo menos outras 169 espécies de aves silvestres no local. Nesse total, que representa cerca de 20% das aves do Estado do Rio de Janeiro, estão incluídas espécies ameaçadas de extinção em âmbito estadual e diversas aves migratórias paras quais a lagoa representa um importante refúgio.
Os resultados desse estudo – parcialmente apresentados no XVI Congresso Brasileiro de Ornitologia – tornaram evidente a importância da Lagoa da Turfeira para conservação da biodiversidade fluminense e auxiliaram na sensibilização do poder público municipal para que algo fosse feito em prol da sua preservação . Dessa forma, em 2010 a Agência do Meio Ambiente do Município de Resende elaborou o documento “Estudo Técnico Preliminar para Constituição de Área Protegida no Banhado da Kodak”, e entre as principais conclusões estavam:
“A criação e implantação de unidade de conservação no Banhado da Kodak alinha-se aos compromissos internacionais do Brasil de proteger o ambiente, conforme metas estabelecidas pela ONU, em se tratando do Ano Internacional da Biodiversidade.
A criação e implantação da unidade acarretará ainda um aumento do ICMS do município, conforme prevê a Lei no 5.100 de 04 de outubro de 2007 e o Decreto no 41.101 de 27 de dezembro de 2007.
Constata-se, portanto, que a unidade trará grandes benefícios para o município […]”
Dois anos se passaram após finalização desse documento e aos poucos a Lagoa foi novamente caindo no esquecimento dos órgão governamentais, até a semana passada. Na última quinta-feira (19/04), alertado por amigos, descobri que a prefeitura Municipal de Resende havia orgulhosamente publicado uma imagem da Lagoa invisível em sua página do Facebook acompanhada de alguns parágrafos de notícia. No entanto, ao invés do título fazer qualquer menção a alguma ação visando a conservação da área lá estava: “As obras da Nissan”. Meio sem rumo e sem querer acreditar no que eu havia lido me dei conta que não apenas não seria feito nada para conservar a Lagoa como também estava sendo orgulhosamente anunciada o que poderia se tornar em uma das maiores tragédias ambientais recentes da região sul fluminense. Esperei o final de semana chegar e fui para casa em Resende ver com meus próprios olhos a situação da área.
Era por volta de 14:00 do último sábado (21/04). Da Dutra já era possível ver uma gigantesca área de terra exposta meio enevoada pela poeira levantada pelo ir e vir constante de uma verdadeira frota de máquinas escavadeiras e caminhões. Segui pela estrada de chão paralela a lagoa e encarado pelo olhar apreensivo das pessoas que lá trabalhavam fui desviando das escavadeira e caminhões. O barulho constante dos motores e a poeira contribuíam deixando o cenário de destruição ainda mais desolado e logo me dei conta que eu não era o único perdido por ali, uma garça-branca-grande (Ardea alba) e duas garças-brancas-pequenas (Egretta thula) voavam sem rumo entre duas poças já lamacentas sendo repetidamente espantadas pelas máquinas.
Procurei em vão pela área onde em 2001 havia feito o primeiro registro documentado da triste-pia (Dolichonyx oryzivorus) no Estado do Rio de Janeiro – veja a publicação científica aqui – e onde também observávamos com frequência o ameaçado coleiro-do-brejo (Sporophila collaris). Tarde demais, a passarada havia simplesmente virado terra nua. Um pouco mais para frente em uma área que ainda mantinha um pouco de vegetação uma concentração impressionante de aves, onde chamava atenção o colorido dos chopim-do-brejo (Pseudoleistes guirahuro) e da polícia-inglesa-do-sul (Leistes superciliaris), lembravam refugiados aglomerando-se as centenas e fugindo de um verdadeiro massacre.

Polícia-inglesa-do-sul (Sturnella superciliaris), fotografado na Lagoa da Turfeira. Foto: Luiz Ribenboim
Um pouco mais pra frente na estrada dirigi até o alto de uma colina e de lá pude avaliar melhor o estrago. A extensão da área aterrada era impressionante e embora até aquele momento tenha sido poupado o espelho d’água principal diversas áreas úmidas existentes ao seu redor foram completamente aterradas. De lá também pude rever também algo que sempre me causou especial presságio. Um antigo canal localizado no canto nordeste ligando-a ao Rio Paraíba do Sul, embora hoje esteja parcialmente assoreado já funcionou como sangradouro de suas águas podendo novamente ser utilizado para extinguí-la. No caminho de volta, entrei por uma estrada que acabava de ser aberta e estranhamente terminava no espelho d’ água, fiquei ainda mais apreensivo me perguntando a função daquele caminho.
Por conta do mestrado sou obrigado a morar em São Paulo e aos poucos vou me acostumando com os engarrafamentos, poluição e violência urbana. Por isso, nada contra a montadora de carros, tampouco contra o dito progresso que prevê que a população de Resende aumente cerca de 50.000 pessoas nos próximos 5 anos. Mas, vale lembrar que lagoas são caracterizadas como áreas de preservação permanente, por isso são áreas intocáveis.
Além disso, certamente deve ter sido produzido um estudo de impacto ambiental para uma obra dessa magnitude, o qual certamente também deve ter identificado que qualquer atividade que afete a lagoa poderá resultar em uma tragédia irreversível para biodiversidade da região. Sendo assim, gostaria também de ter tido a oportunidade de participar de alguma audiência pública onde o destino da Lagoa da Turfeira pudesse ser seriamente debatido.
Embora seu entorno já tenha sido bastante impactado ainda há tempo de salvar o que restou da última grande área úmida natural da região meridional do vale do Rio Paraíba do Sul. A implementação de uma unidade de conservação no local, em âmbito municipal ou estadual, seria não apenas uma forma de garantir a existência a longo prazo da Lagoa da Turfeira e sua rica biodiversidade, mas também a oportunidade de criação de um espaço onde através de trilhas interpretativas e um centro de visitação a população resendense conquistasse uma nova opção de lazer que vai totalmente de encontro a vocação ambiental do município. Vale lembrar o grande potencial da área para prática de uma das atividades ao ar livre que mais crescem no país a observação de aves. Não por acaso, a Lagoa da Turfeira ocupa três páginas do livro “A Birdwatching guide to South-East Brazil”, o qual traz informações detalhadas sobre alguns dos principais locais para observação de aves no sudeste do país. Sem contar nas inúmeras fotos clicadas no local e disponíveis no site WikiAves – veja aqui – e que demonstram que os ambientes da lagoa são frequentemente procurados por observadores de aves.
Por volta das 16:30 o céu nublado evolui para uma chuva fraca que ajudou a esconder os olhos cheios. De fato a ignorância é o melhor caminho para felicidade. Minha tristeza maior não era por ser testemunha ocular de tamanha agressão a natureza, mas principalmente por saber a importância daquele lugar para a vida e conhecer pelo nome e sobrenome todos aqueles fadados a buscar em vão um novo lar. Voltei para casa desolado mas disposto a fazer todo o possível para mostrar que as cores e os sons das milhares de vida que dependem da Lagoa da Turfeira fazem que ela seja considerada qualquer coisa, menos invisível. Cientes que a tragédia estava anunciada depende de nós deixar ou não que ela aconteça.








