O paper e a bomba

Um tempo atrás eu comentei que estávamos escrevendo um paper aqui e que o processo observado lembrava o que acontecia na detonação de uma bomba atômica. Pra não deixar ninguém ser pego “no meio da conversa”, antes de discutir meu ponto, deixa eu lembrar o que acontece, em um e no outro.

A Física:

Eu tenho um gás, separado em diversos pedacinhos e assim eles vivem “felizes e contentes”. Eu então tiro as repartições que mantém esses pedaços de gás separados. Quando eles expandem uns por cima dos outros e se juntam acontece o que a gente denomina um “colapso” da nuvem. O colapso pode ser entendido como uma explosão: o sistema não suporta as novas condições em que você o colocou e expele violentamente partículas e energia de forma a ficar apenas do tamanho que ele suporta. Essa reação “violenta” é o colapso. A novidade do paper, no fim das contas, não é o colapso em si (isso é assunto velho), mas a forma como o colapso é induzido e, principalmente, o fato de ele acontecer em condições não observadas anteriormente. Essa é a física dentro do paper que vamos publicar.

A Bomba:

Como funciona uma bomba atômica? De uma forma bem simples: você arranja várias amostras pequenas de um material radioativo e que, sozinhas, são estáveis. Estável nesse caso quer dizer o seguinte: quando um núcleo dentro da amostra libera nêutrons, não há um número/densidade suficiente de outros átomos ao redor que possam absorver esses nêutrons, se quebrar (liberando energia) e liberar outros nêutrons, encadeando e amplificando o processo. Na bomba, essas amostras individuais são então empurradas umas em direção às outras comprimindo todo mundo junto e… Bom você entendeu. Há um “colapso” do sistema quando as partes (estáveis) formam um todo (instável), já que agora há número/densidade suficiente de núcleos atômicos para sustentar uma reação em cadeia.

O Paper

No paper a gente discute a física do processo, resultados, análises, simulações e etc e havia/há (ainda não decidimos) um parágrafo sobre essa analogia entre o nosso resultado e o que acontece em uma bomba atômica. A analogia era puramente retórica, afinal a física por trás dos processos é totalmente diferente. De fato, a gente nem fala de bomba explicitamente, mas do fato de que enquanto as partes são estáveis, o todo não é. A bomba é a conseqüência? É. Mas não estava lá, pelo menos não explicitamente.

Bom, agora eu cheguei no ponto desse post. Eu sou totalmente a favor de incluir a analogia. Mas alguns dos meus colegas (incluindo o chefe) não pensam assim. Como eu, todos concordam que a analogia funciona pra ilustrar a física a ser discutida e ajuda a não-especialistas visualizarem o processo.

Mas alguns sentem-se “incomodados” com a analogia. E por quê? Porque acham que bombas atômicas são um assunto delicado demais pra colocar num paper. Eu não sei se eu que sou muito ingênuo, pouco afeito a armas e que tais, mas eu realmente acredito que a gente não pode “fechar os olhos” e fingir que não sabe que a analogia é boa. Pra mim isso é prejudicar a experiência do leitor. Por mais que seja apenas uma analogia, eu realmente acho que ajuda.

O argumento dos que são contra é de que processos nucleares foram e são usados para fabricar armas e que mataram gente e foram por muito tempo, até hoje, ferramenta de medo e intimidação para muito mais gente. E que fazer “apologia” a isso não é legal.

Mas aí eu pergunto: colocar a analogia no paper muda o que aconteceu? Muda o que vai acontecer? Vai fazer os EUA, Israel, a Rússia, a Coréia do Norte, o Irã, o Brasil, enfim, qualquer um com acesso a armas e/ou processos nucleares deixar estas de lado? Eu acho que não. Vai fazer menos gente conhecer como funciona uma bomba atômica? Também acho que não. Então vale a pena tirar do paper, fingindo que a gente não sabe que a analogia é boa? Você sabe o que eu acho.

Agora eu te pergunto: o que você faria? Colocaria no paper ou não? E se você estivesse fazendo isso na Alemanha, um país com o passado que tem, isso mudaria sua opinião?

P.S.: Em tempo: as escalas de energia, como você pode imaginar, são extraordinariamente diferentes entre a minha “explosão” no laboratório e a de qualquer processo nuclear.

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Discussão - 3 comentários

  1. DAMAZIO disse:

    ÓTIMO COMENTÁRIO….PARABÉNS….

  2. Alison Chaves disse:

    É realmente um pensamento tolo eliminar a metáfora da bomba para ser “politicamente correto.” Na realidade, nem há nada de politicamente correto neste atitude. É mais provável que quem não queira mencionar a comparação no artigo não tenha gostado da comparação. Muita gente acha que este tipo de explicação não é apropriada para a linguagem de um paper. Acho mesmo que esta última opção seja mais provável.

    • Emanuel Henn disse:

      Felipe, obrigado pelo comentário. Na verdade, a questão atômica é lavada extremamente a sério na Alemanha, por razões óbvias. Eles têm um passado belicoso: ninguém quer ter seu nome associado a armas em potencial. É um ponto delicado. Um abraço.

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