A Múmia

Se tem algo no meu trabalho no laboratório de que gosto é não precisar fazer experimentos com seres vivos: ratos, pessoas, mesmo células estão (bem) fora da minha área de atuação (e interesse). Antes que você pergunte: não, também não faço experimentos com alunos de IC.

Quem tem que fazer pesquisa nesses campos, como alguns dos meus vizinhos aqui no SBBr, usualmente precisa ter autorização de algum comitê de ética e seguir protocolos rígidos e bem definidos. Há, para todos os efeitos, uma série de regulamentações. Normalmente, essas regras servem para evitar abusos com seres vivos, respeito com seus cadáveres e/ou procedimentos indolores na indução da morte, no caso de animais. Igualmente, dados das pessoas envolvidas, identidades e afins são mantidos em sigilo e não-correlacionados com os dados experimentais obtidos, a fim de proteger sua privacidade ao máximo. Tudo muito bem, tudo muito bom.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aí, outro dia, estive num museu grande, que tem essa múmia aí da foto exposta. Aquilo me acendeu uma angústia e uma dúvida grande: pode isso? É óbvio que é permitido, afinal o museu não estaria fazendo algo contra a lei mas… aquele é o corpo de um ser humano… ou foi. Às vezes, se penso no assunto, vejo muitos motivos que me dizem não haver problema nenhum e, até por isso, aqui está a foto da múmia…

Mas por outro lado… não sei… me parece um disparate sem tamanho expor um corpo humano de verdade, mesmo morto a uns 3k anos… Se fosse sua tia (mãe, sobrinho, filho, amigo, conhecido, primo,…) morta a algumas semanas e propriamente embalsamada, você toparia deixá-la exposta no museu? Pois é… Nessas horas, eu acho que está errado expor uma múmia num museu, por mais que ninguém saiba sua identidade, não haja nenhum parente vivo, etc e tal.

No final das contas, continuo na dúvida: não sei se acho certo ou errado e, na prática, nem tenho muita base pra argumentar a favor ou contra. Sei que tenho dúvidas. E queria ouvir sua opinião sobre o assunto, seja você um especialista em ética biológica ou apenas um palpiteiro de plantão.

P.S.: Para ser justo: a dúvida só apareceu DEPOIS que eu cheguei na exposição da múmia e estava ali, olhando pra ela e pensando. Antes, devo admitir, fui até lá querendo ir e sabendo o que ia fazer. Eu gosto muito de história antiga e sabia que naquele museu haveria bastante, inclusive a múmia. Eu a encontrei porque quis e não por acaso.

 

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Discussão - 10 comentários

  1. “Se fosse sua tia (mãe, sobrinho, filho, amigo, conhecido, primo,…) morta a algumas semanas e propriamente embalsamada, você toparia deixá-la exposta no museu?”

    Sim. Não vejo problema algum nisso. Mas eu tenho uma visão um pouco diferente. Um corpo morto é só um corpo morto, não é a pessoa. Aquilo que estaria ali não seria minha tia ou mãe, mas uma parte do que ela já foi um dia.

    • Emanuel Henn disse:

      Oi Daniel. Sim, um corpo morto não é mais a pessoa. Também vejo assim. Mas ainda assim, tenho problemas em colocá-lo para exposição pública… Obrigado por passar por aqui! 🙂

  2. Monica Campiteli disse:

    Eu tb não teria problema algum com a exposição de um cadáver, mesmo que fosse de um ente querido. Como disse o Daniel, o cadáver não é mais uma pessoa. Mas acho que apenas uma minoria pensa assim – minoria desapegada.
    No entanto, creio que a ética, neste caso, está ligada não ao indivíduo que morreu, mas às pessoas que poderiam sofrer algum tipo de constrangimento se deparando com o cadáver de uma tia, mãe, sobrinho, conhecido. Como vc mesmo falou, esta pessoa que virou múmia não tem mais nenhum parente ou conhecido vivo. Nem mesmo se sabe quem ela foi. Assim, acredito que não está errado, do ponto de vista ético, exibir uma múmia.

  3. Igor Santos disse:

    Emanuel, se fosse um fóssil de um hominídeo qualquer, você teria problemas com a exposição?

    • Emanuel Henn disse:

      Boa pergunta Igor. Traduzindo grosseiramente “hominídeo” por macaco, eu diria que nenhum problema. Mas eu acho que você coloca num contexto mais geral, certo? E nesse sentido, eu não sei… Na prática, faz parte da dúvida que tenho no post. No fundo, acho que o problema cai em até onde a gente se identifica como espécie. Olhando mais amplamente, por que expor um homem seria tão diferente de expor qualquer animal? Abraços.

  4. Igor Santos disse:

    Em que ponto um corpo deixa de ter importância como ex-ser humano e se torna, digamos, arte?
    Uma pintura ultrarrealista de um massacre, por exemplo. Pessoas realmente morreram e foram retratadas mas não são seus corpos que estão expostos, apenas uma pintura.

    Expor uma fatia de um coração humano preservado por plastinação conta como o quê? E se essa fatia for de outra espécie? E se for um coração inteiro em formal, como existe no museu da medicina daqui?

    Essa múmia da foto foi “manufaturada”. Mas as múmias naturais do deserto chileno? Você tem uma objeção pela exposição por causa de algum ponto de vista particular mas e se o casulo que você viu estiver vazio e você achar que tem um cadáver ali dentro? Qual seria a diferença? A objeção continua subjetivamente, apesar de objetivamente não existir nada, só um caixote de madeira em forma de egípicio.

    Eu entendo o desconforto que o “vale estranho” pode produzir em algumas pessoas, mas não consigo enxergar uma exposição como algo além de “arte”. Esse seu ponto de vista é interessante.

    • Emanuel Henn disse:

      Igor, eu acredito, mesmo, que um corpo não é um ser humano. Foi um dia, mas não é mais. Eu fui lá ver a múmia. Procurei ostensivamente. Tenho um interesse em história de um modo geral e acho que múmias contam muito da história e cultura antigas, em especial essas “manufaturadas”. E acho que por esse lado, vale e muito ser retratada, colocada em exposição. No fundo, é semelhante a irmos visitar Lênin, preservado/mumificado. Tem história ali. E história com nome e sobrenome, coisa que a múmia não tem. O desconforto surgiu quando eu parei pra pensar o que aquilo significava em outros termos, no que aquela peça da exposição foi um dia. No fundo, talvez seja apenas a influência que a morte tem psicologicamente. Um casulo vazio talvez fizesse o mesmo efeito. Mas eu realmente não sei a razão. De qualquer forma, eu acho que tudo o que tiver um interesse científico, cultural, histórico e seja útil para disseminar esse conhecimento, pode e deve ser exposto. No fundo, criar “desconforto” em quem vê uma exposição é uma forma bastante efetiva de fazer as pessoas pararem pra pensar, e isso é bom. Obrigado por passar por aqui e fomentar a discussão.

  5. Olá Emanuel!

    Me fiz a mesma pergunta ao visitar a exposição “The Human Bodies” (aquela em que expõe corpos humanos conservados pela técnica da plastinação) que está aqui na minha cidade. Acredito que, mesmo sendo um cadáver, ele deve ser respeitado. Tudo bem que, pelo caráter científico ou, nesse caso, histórico, há um propósito nobre de promoção do conhecimento, mas não sei bem se isso seria ético…

    Enfim, acho que ainda tenho que ler mais sobre o assunto para formar uma opinião melhor.

    Abraço e parabéns pelo ótimo blog!

    • Emanuel Henn disse:

      Oi Marcos. Obrigado por passar por aqui! Eu escrevi mais sobre isso, por coincidência, justamente quando seu comentário chegou. Acho que é uma questão difícil e envolve muitos fatores, inclusive pessoais.

  6. […] Este post é uma reflexão que surgiu da discussão com o Igor Santos, meu vizinho aqui do 42, no post sobre a Múmia, aí embaixo. Avisado […]

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