Não se engane: o Bóson de Higgs não é a “partícula de Deus”

Por causa do anúncio do Prêmio Nobel de hoje para os dois cientistas que propuseram a existência do Bóson de Higgs, finalmente descoberto no ano passado pelo CERN, você vai ver na mídia incontáveis vezes a expressão “Partícula de Deus”. A cada vez que um jornalista escreve isso, uma fada morre na terra do nunca.

Esqueça isso: NÃO HÁ PARTÍCULA DE DEUS.

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A menos, claro, que você seja religioso: nesse caso todas as partículas são “pertencentes” a Deus… 😉

A expressão em português é uma péssima tradução mal-feita da expressão em inglês: God Particle ou, numa tradução melhorzinha a “Partícula Deus”. E porque esse nome?

A expressão original foi usada em um livro sobre o Bóson de Higgs (A Partícula Deus: Se o Universo é a resposta, qual é a pergunta?) em 1993, onde o autor, Leon Lederman, escreve algo como: “o modelo padrão reduz o entendimento do Universo a um conjunto pequeno de partículas e interações. Mas ele é incompleto, e este Bóson de Higgs tem um papel tão central nessa teoria e, ainda assim, tem se mostrado tão difícil de se comprovar experimentalmente que pode-se apelidá-lo de Partícula-Deus” (tradução livre-livríssima).

Na prática, o autor ainda diz que gostaria de apelidar o Bóson de Higgs de “Goddamn Particle” ou “A partícula maldita” por toda a frustração e gastos que ela causou a gerações de cientistas em busca de si, mas foi convencido do contrário pelo editor do livro…

Então é isso: uma partícula fundamental para tudo o que os cientistas acreditam ser a “explicação do Universo” e ainda assim difícilima de se provar a existência experimentalmente, na qual se precisou ter fé ao longo de anos e anos até finalmente termos sido capazes de achá-la. Tem cara mesmo de partícula Deus… 😉

 

P.S.: Não, eu ainda não voltei de vez pro blog. Mas aos poucos… 😀

Nobel de Física 2013

Essa bola estava mais do que cantada… François Englert e Peter Higgs acabam de ser anunciados como vencedores do Prêmio Nobel de Física 2013. Se você estava em coma ano passado, talvez não saiba o que aconteceu: o CERN colocou em operação a maior máquina já construída pelo homem para testar as predições dos dois vencedores deste ano. E as confirmou! Esta é a razão do Prêmio deste ano.

Veja mais informações em: http://www.nobelprize.org (em inglês).

P.S.: Não, eu ainda não voltei de vez… Mas quase. 😉

Entre aspas (e um comentário)

penguins

O contexto:

Pinguim-chefe (ele deve ter um nome) do filme Madagascar 3, ao ser informado que um avião de ouro maciço não poderia nunca voar.

A frase:

“Nós seremos ricos, as leis da Física não se aplicam a nós!”

O comentário:

Aqui e acolá temos a impressão de que há alguns (muito) ricos sobre os quais as leis não se aplicam da mesma forma que se aplicam às pessoas comuns. Mas, às Leis da Física, não há dinheiro, poder ou influência que faça alguém passar incólume.

P.S.: No filme, o avião voou.

Procurando emprego?

Eu sei que a situação do emprego no nosso país nem anda tão ruim assim se comparado aos nossos amigos espanhóis e italianos e em outras praças por aí.

Mas é óbvio que ainda há muitos que procuram um emprego, um emprego novo, o emprego dos seus sonhos ou ainda só um bico pra reforçar o orçamento. É esse o seu caso? Então este post pode te interessar.

emprego

Continue lendo…

O blog está de mudança

Antes que você pense algo errado: não! eu não estou de saída do Science Blogs! De doido, afinal, eu só tenho a cara! E a profissão. E alguns comportamentos. E… deixa pra lá. Mas eu não sou doido! “My mother had me tested!”

Na prática, quem se muda sou eu, o blog permanece onde está. Estou voltando pro Brasil nos próximos dias e, por isso, o blog vai ficar meio mambembe até eu me estabelecer minimamente.

A repatriação de cientistas ainda é, a meu ver, um dos maiores problemas que enfrentamos na ciência brasileira. Não que seja meu caso, mas é isso que vejo aqui e ali: cientistas jovens e com potencial trocando a chance de sair para uma experiência enriquecedora no exterior por um emprego seguro onde quer que ele exista, simplesmente pelo fato de não saberem se este existirá em alguns anos. Ou pesquisadores muito bons se estabelecendo permanentemente no exterior pela falta de oportunidades claras no nosso país. Adicione a tudo isso o fato de que, se você decidiu ir pro exterior, provavelmente está resolvido a seguir carreira acadêmica e o “plano B” de abandonar a Academia e seguir para fazer pesquisa na indústria é essencialmente inviável no nosso país.

Não sei qual a melhor forma de resolver esse problema, mas, definitivamente, um “censo” permanente de quem está no exterior, fazendo o quê e onde, de forma a mapear e manter contato com esses profissionais, apresentando-lhes oportunidades e/ou mesmo atraindo-os explicitamente de volta já seria um bom começo. De fato, se tivéssemos nas Universidades brasileiras algumas vagas, mesmo que apenas quase-permanentes, que pudessem ser preenchidas sem grandes burocracias por pesquisadores de ponta, a fim de repatriá-los, já seria um ótimo passo. Um sistema parecido existe aqui na Alemanha a fim de manter/trazer pessoas que sejam de interesse dos institutos de pesquisa. Hoje, se você não tiver bons contatos antes de sair, voltar pode ser (se tornar) bem complicado.

Daqui da Alemanha, levo uma experiência maravilhosa: cientifica e culturalmente, a estada aqui valeu cada segundo. Se você é jovem, pensa em seguir carreira científica e quer sair do Brasil para um tempo no exterior, eu só posso recomendar fortemente que você o faça. Mesmo que não valha a pena cientificamente, o crescimento cultural é incomparável.

A Alemanha, em especial, foi certamente uma boa escolha para mim: um país de economia e cultura fortes, muito diferente da nossa, centro (geográfico e político) da Europa e um lugar bacana pra se viver. Como físico, foi igualmente uma experiência especial: viver e trabalhar no país que nos deu tantos grandes cientistas é inspirador. Pois veja só, são alemães, de nascimento ou culturalmente: Planck, Einstein, Schrödinger, Heisenberg, Hertz, Hänsch, Hund (o das regras), Sommerfeld, Stern e Gerlach, Beth, Born, Drude, Fahrenheit, Gauss, Röntgen, Helmholtz, …. . E ainda temos, fora da física, Kant, Goethe, Humboldt, Bach, Beethoven, Haydn, Mozart, Wagner, Strauss, Händel, Marx, Nietzsche (aquele que chorou), Kafka, Benz e Daimler (os inventores do carro), … e (ufa!) muitos e muitos outros que contribuíram decisivamente de alguma forma para o mundo moderno. É pouco ou quer mais?

À Alemanha só posso dizer “até mais, e obrigado pelos peixes!” 😉

Vejo vocês no Brasil. Até logo.

Super Quântico – parte 2

Bem vindo à segunda parte da nossa conversa sobre os superfenômenos da Física. Se você não leu a primeira, pode fazê-lo neste link aqui. Se está com preguiça, eu resumo o que há de importante nessa história:

  • Fenômenos quânticos ganham o nome de “super” quando o mecanismo por trás deles é dito um comportamento coletivo
  • Os mais conhecidos são a superfluidez, a supercondutividade, os super-átomos e os supersólidos
  • Superfluidos, em especial, carregam duas características importantes para a discussão a seguir: os átomos de um superfluido são delocalizados, ou seja, não é possível assinalar uma posição no espaço para cada um deles e um superfluido é irrotacional: se você tentar rodá-lo, ele ficará paradinho.

Tudo isso pra dizer que neste post vamos nos focar num único assunto, bem recente e bem quente (e que motivou toda a discussão): a des-descoberta da existência de uma fase super-sólida em Hélio. É isso mesmo: alguns anos atrás, um pesquisador mostrou que Hélio sólido, sob certas condições transformava-se em um super-sólido. Neste ano, ele mesmo mostrou que estava errado. Sem mais delongas, vamos cair de cabeça no tópico.

O que é um sólido?

Via de regra, um sólido é um arranjo periódico e bem definido de átomos, igualmente espaçados, formando uma rede, muitas vezes chamada rede cristalina. Esse tipo de arranjo é fácil de visualizar, mas eu ajudo você e coloco uma versão simplificada na imagem abaixo.

Um sólido real, obviamente, é tridimensional, e o arranjo dos átomos pode tomar diferentes formas e não apenas a triangular (você vê que a unidade básica é um triângulo nesse caso?) que é mostrada na figura. Mas a ideia é essa.

Tem algo sobre sólidos reais que falta dizer e que é importante: eles não são arranjos perfeitos. Sabe os pontinhos pretos da figura? Num sólido real alguns desses falham, são vazio, chamados de vacâncias ou “defeitos” mesmo. Eles não precisam nem ser vazios da rede cristalina, mas preenchidos por outro átomos, espécies, etc. Essas vacâncias terão um papel essencial no que é um supersólido. Mas, afinal…

O que é um supersólido?

Eu queria que houvesse uma resposta fácil, mas não tem, então lá vai: um supersólido é um sólido, como o descrito acima, mas que também é superfluido. Pronto falei. Você percebe quão bizarra é essa definição? Sim? Não? Vamos lá: num sólido, os átomos estão localizados em posições fixas no espaço, numa rede ordenada. Num superfluido, eles estão delocalizados espacialmente, estão aqui, ali e em todo lugar ao mesmo tempo, sem um ordem cristalina. Pois um supersólido é exatamente a coexistência dessas duas propriedades aparentemente antagônicas: a ordem de um sólido com a delocalização de um superfluido. Repete aí comigo, vai: “Ah! Como é linda a mecânica quântica e os nós que ela dá na nossa cabeça!”

Como um sólido pode ser superfluido?

Pois é. Eu também me pergunto isso. Mas os teóricos dizem que pode e abaixo eu tento traduzir o que eu entendi pra vocês. Lembra das vacâncias? Os defeitos da rede cristalina? São eles que fazem parte da mágica aqui. Lembre-se que aqui estamos falando de mecânica quântica, então em uma determinada posição do espaço, não há apenas uma vacância ou um átomo mas uma superposição dos dois, uma vacância E um átomo. Além disso, se uma vacância efetivamente se move pra esquerda, isso é equivalente a termos átomos se movendo para a direita. Agora, num supersólido, as vacâncias são superfluidas: elas estão delocalizadas por toda a rede cristalina e se movem livremente. Logo, a rede cristalina, formada pelos átomos, também se move sem qualquer resistência, como um superfluido, mas mantém seu ordenamento espacial intacto. Bizarro, não? Mas a ideia é por aí.

Como tudo o que envolve superfluidez começa de alguma forma com o estudo de Hélio, também este é o caso para supersólidos. A proposta é que quando Hélio se solidifica, um sólido normal, a princípio, mesmo em temperaturas muito baixas, ele tem uma quantidade apreciável de vacâncias, defeitos que não aparecem em outros sólidos convencionais quando a temperatura se aproxima do zero absoluto. Quando se resfria esta sólido, as vacâncias tornam-se um superfluido e aí, bingo: temos um supersólido.

E aí, como efetivamente observar esse fenômeno tão bizarro? Bom, coube a Kim e Chan em 2004 a “descoberta” de supersolidez em Hélio sólido, tendo descrito seus trabalhos aqui: E. Kim and M. H. W. Chan, “Probable Observation of a Supersolid Helium Phase,” Nature 427, 225 (2004); E. Kim, “Observation of Superflow in Solid Helium,” Science305, 1941 (2004). Vamos ver como isso funciona.

A (incorreta) observação de Hélio supersólido

Lembra que eu falei pra você lembrar que uma das principais características de um superfluido é a sua resistância a girar? Pois agora vamos usar esse fato. O que Kim e Chan fizeram foi colocar Hélio em um “recipiente” de Vycor, um tipo de vidro. Colocado sob pressão, Hélio se torna um sólido dentro deste recipiente. Esse conjunto, na forma de uma pizza (de massa grossa) é colocado pra rodar num “pêndulo de torção” que é o sisteminha simples que você vê na figura abaixo.

 O experimento é razoavelmente simples de se entender: a freqüência com que o pêndulo oscila depende da massa dentro do prato, através de uma quantidade chamada momento de inércia. Quando o prato é resfriado, uma mudança nessa frequência de oscilação indica que alguma fração da massa presente “se desacoplou” do pêndulo. Alguém aí leu “se desacoplou” como “parou de girar”? Pois os autores do trabalho fizeram essa mesma interpretação: a freqüência mudou ao se resfriar o prato (abaixo de 200 mK) porque parte do Hélio sólido tornou-se superfluido, ou seja, um supersólido, e, como todo bom superfluido, recusa-se a girar.

O fato é que os autores fizeram a “tarefa de casa” e realizaram inúmeros experimentos de controle, sempre com resultados apontando qua a única solução possível para a mudança na oscilação do pêndulo era a existência de uma fração supersólida lá dentro. Jackpot!

De fato, ao longo dos meses e anos seguintes, diversos outros experimentos observaram o mesmo comportamento. No entanto, havia discrepâncias sérias na magnitude da mudança da freqüência de oscilação. A coisa ficou ainda mais séria quando, ao realizarem experimentos controlando a quantidade de vacâncias presentes, ou seja, a quantidade de Hélio que poderia se tornar supersólido, foram observados alguns resultados contraditórios. Em outras palavras: quando se esperava mais super-sólido presente, ou seja, uma mudança maior na freqüência de oscilação, o efeito observado era contrário. E vice-versa.

Isso fez com que muitos teóricos se debrussassem sobre o problema, oferecendo sólidos argumentos contra a existência de um supersólido no experimento original. As propostas estimularam novos experimentos a fim de confirmar e/ou rejeitar solidamente o suposto super-sólido.

Os novos experimentos

A proposta dos teóricos era de que Hélio sólido poderia modificar suas propriedades com a temperatura tão baixa e isso teria uma conseqüência que poderia ser confundida com a existência de um supersólido. Em especial, o módulo de cisalhamento poderia mudar. Apesar do nome feio, essa é apenas a forma de se quantificar a tendência de um sólido a se deformar. E se Hélio sólido ficar mais “duro” com a temperatura, ele pode sim modificar o comportamento do pêndulo de torção.

Pois este ano, Kim e Chan, os mesmos pesquisadores que “observaram” o supersólido, com um experimento similar ao de 2004 mas desenhado para evitar efeitos na mudança deste módulo de cisalhamento, fizeram novas medidas. E a freqüência de oscilação do pêndulo não muda. Ou seja: não há supersólido no sistema deles. A pesquisa foi publicada aqui: Phys. Rev. Lett. 109, 155301 (2012) e talvez seja a primeira vez que eu vejo um resultado “negativo” ser publicado numa revista tão conceituada.

Toda essa história mostra bem como a ciência funciona: observa-se, testa-se, testa-se mais, e mais e mais até que as hipóteses todas são testadas e confirmadas e/ou rejeitadas. E aí testa-se mais um pouco à medida que aprende-se novos aspectos da ciência. A graça aqui está na “dramaticidade” da história, com o mesmo pesquisador observando e des-observando algo que, se fosse verdadeiro, poderia colocá-lo na pista expressa para o prêmio Nobel. Agora, não mais.

E agora, José?

Bom, agora a busca continua. Enquanto alguns pesquisadores não acreditam que um super-sólido, essa fase tão bizarra da matéria possa existir, outros afirmam que, matematicamente, ela tem que existir (não me pergunte os detalhes). Uma opção são gases quânticos com interações dipolares, que deveriam mostrar fases que se parecem com um super-sólido, mas em um gás. A única certeza que se tem é que a  procura continua e a vaga na “pista expressa” na direção de Estocolmo pela observação de supersolidez continua aberta.

Super Quântico – parte 1

Se você tem algum interesse em ciência, por menor que seja, provavelmente já se deparou com expressões do tipo supercondutividade, superfluidez, etc, etc. Talvez você até saiba de onde vem o prefixo super- nessas palavras, mas se você não sabe, então este post é pra você. 😀

Nesta primeira parte, vamos discutir os “super” fenômenos que permeiam a física, e sua origem. Na parte 2 deste post, que verá a luz do dia amanhã, eu vou tocar num assunto bem recente (que motivou esses dois posts, na verdade) e bem quente: a des-descoberta da supersolidez. É isso mesmo: o mesmo cientista que anos atrás observou indícios da existência de um supersólido, agora, em um trabalho recente, mostrou que ele estava errado e ainda não há uma prova definitiva de que exista um supersólido. Sem mais blá-blá-blá, vamos ao que interessa.

Os super fenômenos da física quântica

Há alguns fenômenos, todos exclusivamente dentro do contexto da Física Quântica que carregam o sufixo super. Historicamente, os dois primeiros que foram descobertos/estudados carregam o “super” como uma forma literal de descrever o que foi observado: quando a capacidade um corpo qualquer de conduzir corrente elétrica é exacerbada enormemente, isso se chama supercondutividade. Da mesma forma, a supefluidez: um fluido que flui (será que o prof. Pasquale aprova essa?) sem resistência alguma é chamado de superfluido.

No entanto, se você procurar na literatura, vai ver que há outros “superfenômenos” quânticos nos quais não é fácil de se ver o que está aumentado, exacerbado, exagerado. Dentre eles há, por exemplo, os super-átomos ou um super-sólido. E aí como fica? Mau uso? Presunção de quem batizou essas crianças?  Na verdade nada disso.

O que acontece é que é preciso olhar para os mecanismos por trás desses fenômenos. Cada um dos quatro que eu citei acima, superfluidez, supercondutividade, super-átomos e supersolidez carregam no seu âmago uma característica em comum: eles são fenômenos coletivos (mais sobre isso aí embaixo). Dessa forma, estabelemos um paradigma único para todos os fenômenos que carregam a alcunha de “super”: mais do que exacerbar alguma característica própria, que agora se tornou uma conseqüência e não o foco, os super fenômenos são todos aqueles que carregam algum tipo de comportamento coletivo dos seus constituintes.  Mas o que é um comportamento coletivo?

Comportamento coletivo

Você já foi a uma boate? E a uma festa de São João, com quadrilha? Sim? Então você sabe a diferença entre “entidades independentes” e um “comportamento coletivo”: enquanto na boate é “cada um por si”, numa quadrilha a dança é coreografada, cada um sumindo na sua individualidade para que o todo se sobressaia.

Na boate, cada um dança na sua…

A analogia é razoável, mas vamos fazer ela mais formal: o comportamento coletivo acontece quando as partículas que constituem o sistema perdem sua individualidade e essa perda transforma o seu comportamento individual. O comportamento do grupo é completamente distinto do comportamento das suas partes. Tipicamente, esse comportamento só é encontrado em sistemas quânticos, pois aí as condições existentes (seja a energia baixa, seja a estatística que rege o sistema) permitem que as partículas se associem (não leve isso ao pé da letra) e possam se comportar como um grupo. Quando estamos num regime clássico, as partículas normalmente se comportam individualmente, sem qualquer relação entre si.

Numa outra analogia, acho que os psicólogos chamam isso de “efeito manada”. Se algum psicólogo chegar até esse ponto do texto, favor se manisfestar. 🙂

Numa quadrilha, o conjunto é que é importante…

E como isso se traduz nos sistemas super, especificamente? É isso que discutimos brevemente a seguir.

Superfluidez

Pegue um potinho de mel e um potinho de água e vire eles de cabeça pra baixo. A água flui melhor que o mel ou, em outras palavras, o mel é mais viscoso que a água. Viscosidade é essa resistência que algo tem a fluir. Asfalto, por exemplo, é super viscoso. Mesmo sendo bem fluida, ainda assim, algumas gotinhas de água ficam agarradas às paredes do copo e nesse hora você nota que mesmo um bom fluido possui algum tipo de viscosidade, especialmete quando encontra as paredes de um recipiente.

Um superfluido é a negação de tudo isso. Ele flui sem resistência alguma, não se importa com paredes e nem mesmo com tubos bem fininhos: ele simplesmente flui. Há diversos vídeos que mostram isso acontecendo com Hélio líquido superfluido. Você pode vê-los (em inglês) aqui, aqui e aqui (este com explicações em português). Você verá o líquido literalmente “subir pelas paredes” dos recipientes. É bem bonito.

Um vórtice num fluido comum…

A explicação pro fenômeno é um pouco mais difícil e envolve alguma matemática. Essencialmente, uma característica associada a superfluidos é a “delocalização” dos átomos ao longo da amostra. Trocando em miúdos: não é possível associar um átomo a uma posição dentro do fluido, pois cada um deles está “espalhado” pela amostra inteira e “todos estão em todo lugar”. Talvez a explicação seja meio simplista, mas a linha de pensamento é por aí. Uma conseqüência da superfluidez é que um superfluido não gira. Isso mesmo: se você pegar um balde cheio de supefluido e colocar ele pra rodar, o balde roda e o fluido fica quietinho. Mas tudo tem um limite, como você bem sabe. Se você rodar muito rápido o superfluido desenvolve vórtices, mais ou menos como os que a gente vê quando enche um pia e depois deixa a água escorrer pelo ralo. Um vórtice é equivalente a um redemoinho ou, se você preferir, um ciclone, um furacão…

Bom, então, só pra reforçar dois pontos que serão importantes pra entender supersólidos: os átomos em um superfluido estão delocalizados no espaço e um superfluido se recusa a girar. Guarde isso com você, voltaremos a eles.

Supercondutividade

Que alguns materiais conduzem energia elétrica você sabe, especialmente se já tomou um choque. No processo de condução, o material esquenta e isso caracteriza uma perda de energia no processo. Mas alguns materiais, quando resfriados a temperaturas muito baixas simplesmente conduzem eletricidade sem perda nenhuma, como se um superfluido de elétrons fluísse pelo condutor sem viscosidade nenhuma. É essa a supercondutividade.

Na prática, este é um negócio complicado e que ainda guarda muitas questões em aberto. De um modo geral, a teoria básica de supercondutividade diz que os elétrons juntam-se em pares, chamados pares de Cooper e estes são quem conduz eletricidade sem perdas. Mas, mais recentemente, materiais supercondutores foram descobertos a temperaturas baixas, mas nem tanto. E a teoria que supõe os pares de Cooper não funciona muito bem por lá. Há muito ainda embaixo desse pano.

Levitação na superfície de um supercondutor.

Dentre os efeitos mais bacanas relacionados a supercondutores, há o fato de que eles odeiam campos magnéticos dentro de si e expulsam qualquer um que tente entrar. Isso permite os famosos experimentos de “levitação” de ímans na superfície de supercondutores. Um vídeo bacana (em inglês, legendado em português) pode ser visto aqui.

Super-Átomos

 O conceito de super-átomo é um pouco mais direto e simples de ser entendido: dada uma coleção de átomos individuais, eles podem se arranjar de forma que o conjunto se comporta e mostra propriedade de um único átomo. Há muito interesse recente nesse tipo de fenômeno, pois esses arranjos de grandes números de átomos que imitam átomos individuais podem se tornar plataformas para o estudo de diversos fenômenos físicos e químicos sem a necessidade de se usar os átomos em si, mas os complexos que os imitam. Na prática, isso poderia adicionar uma “terceira dimensão” à nossa querida tabela periódica, onde a nova dimensão é dedicada aos complexos que imitam os átoms originais. O interesse nessa área é razoavelmente recente e deve dar muito “pano pra manga” ao longo dos próximos anos.

Super átomos podem adicionar uma nova dimensão à Tabela Periódica

Supersólidos

Bom, como a gente disse lá em cima (você chegou até aqui?), a des-descoberta da existência de um supersólido foi o que motivou este post. Por outro lado, ele também requer um extrinha de preliminares para ser explicado e este post já está longo pra caramba. É por isso que eu te convido a voltar aqui amanhã, pra segunda parte dessa história. Te vejo lá.

Protocolo de experimento – Sono infantil

Protocolo experimental para o teste de histórias alternativas na indução do sono de crianças.

Hipótese: Histórias de cientistas são tão eficientes para fazer crianças adormecerem quanto contos de fadas.

Breve introdução ao problema: contos de fadas são mundialmente reconhecidos por atuarem com sucesso no processo de adormecimento de crianças pequenas. Não há contra-indicação conhecida. O objetivo deste experimento é avaliar a eficácia de histórias relacionadas a cientistas/ciência no mesmo processo.

Cobaias: Um menino espivetado de 4 anos e uma menina pimentinha de 3 anos.

As cobaias, um ano antes do experimento…

As histórias utilizadas: 

1) Newton, com enredo na linha: “rapaz muito curioso que queria arrumar uma maneira de transformar pedras em ouro e quando passaeava pelo campo pensando sobre o assunto, uma maça caiu em sua cabeça e ele descobriu que, e porque, todas as coisas caem.”

2) Heisenberg, mais ou menos assim: “um rapaz curioso que queria entender o mundo das coisas muito pequinininhas. Um dia ele ficou doente e foi para uma ilha sozinho. Lá ele descobriu que as coisas pequenininhas se transformavam de bolinhas para ondinhas e vice-versa”.

3) Dirac: “um rapaz curioso que também queria entender muitas coisas sobre as coisas bem pequenininhas. Descobriu que cada bolinha pequenina que existia possuía uma irmã gêmea igualzinha a ela a menos por alguns detalhezinhos.”

Resultados: sucesso em cada um dos experimentos realizados. As cobaias demonstraram notório interesse nas histórias contadas e adormeceram em poucos minutos durante o curso da história.

Notas relacionadas: os experimentos sempre foram realizados no período noturno, em diversas condições de cansaço físico das cobaias em questão. Da mesma forma, diversas condições de colchão, luminosidade e presença/ausência de mamadeiras com leite morno foram testadas. O mesmo contador de histórias foi utilizado em todos os casos.

Ações subsequentes: aumentar a quantidade de experimentos a fim de obter uma amostragem estatística relevante. Avaliar possíveis contra-indicações e/ou vantagens do método desenvovido comparado aos tradicionais contos de fadas. Testar em cobaias mais novas e mais velhas a fim de obter as idades limítrofes nas quais as histórias perdem eficácia.

Ação esperada do leitor: deixar seu comentário contando se já utilizou métodos semelhantes e os resultados obtidos. 😀

O Nobel de Física de 2012

O Nobel de Física de 2012 foi anunciado a quase um mês e nós ainda não falamos dele. 🙁

Pois hoje nos redimiremos dessa falha grotesca… 😀

O Nobel deste ano foi dividido por um francês e um americano, Serge Haroche e David Wineland, por, numa tradução livre, “desenvolvimento de métodos experimentais revolucionários que permitem medir e manipular sistemas quânticos individuais”.

E porque o que eles fizeram merece o Nobel, um dos mais (se não o mais) prestigiados prêmios em Física? A questão é razoavelmente simples de se responder, e vai ao encontro da razão pela qual muitos outros também ganharam esse mesmo prêmio: o que eles fizeram é muito, muito, muito difícil de se fazer. Mas, como diria Jack, vamos por partes.

Sistemas Quânticos Individuais

As leis fundamentais que regem o que quer que seja no Universo conhecido (não, iso não é um exagero) são as Leis da Física Quântica. Elas foram estabelecidas no início do século passado, com Planck, Einstein, Bohr, Schrödinger, Heisenberg, Dirac e vários outros. Dentre as muitas facetas da Física Quântica, algumas das mais fascinantes dizem respeito ao estado em que um sistema quântico pode existir. De fato, ao contrário do que vemos no nosso dia-a-dia, em que algo que é branco não é preto e vice-versa, um sistema quântico individual pode ser branco, preto ou uma mistura de ambos, nos mais variados tons de cinza que você imaginar. É a chamada superposição de estados. Mas você nunca vai realmente ver esse sistema em nenhum tom de cinza: quando você olhar pra ele, o sistema vai escolher se é branco ou preto, e isso destruirá o estado superposto do sistema. Você só é capaz de saber qual o tom de cinza, se medir o mesmíssimo sistema quântico (=cópias exatamente iguais) muitas vezes. Mas a cada vez, você o destrói. Complicado? Sim, especialmente porque não é o tipo de coisa que nos deparamos todo dia. Mas é esse tipo de comportamento que causa tanto frenesi nas propostas de computação quântica (o bit deixa de ser 1 ou 0, mas pode ser qualquer mistura entre os dois) e criptografia quântica (meça um estado uma vez e ele é destruído: a proteção perfeita contra bisbilhoteiros na comunicação de dados sigilosos).

Apesar de tão importantes, sistemas quânticos são muitíssimo frágeis. Coloque vários deles juntos e o que você tem é exatamente o que a gente conhece bem como “dia-a-dia”, a física clássica, Leis de Newton e companhia bela. Coloque eles em contato com o ambiente e pode dizer adeus à qualquer superposição de estados. É por essas e outras que sistemas quânticos individuais são dificílimos de observar e por isso mesmo, todos esse fenômenos exóticos e promissores ficam muitas vezes restritos a elucubrações teóricas e longe do mundo experimental.

O que os dois ganhadores do Nobel deste ano fizeram foi desenvolver formas de se estudar experimentalmente sistemas quânticos isolados, ultrapassando essas limitações fundamentais e abrindo a possibilidade de se estudar e entender os fenômenos quânticos.

Dois lados da mesma moeda

Bom, agora que a ideia está exposta, vejamos o que eles fizeram, individualmente.

Há uma simetria muito bonita nesses dois experimentos: enquanto Wineland estuda e manipula átomos aprisionados (íons, na verdade) usando para isso luz, Haroche estuda partículas de luz (fótons) aprisionadas numa cavidade, usando para isso átomos.

No caso de Wineland, ele resfria os íons, usando luz, de forma que o seu movimento vai para o menor grau possível (é impossível parar totalmente um sistema no contexto da Física Quâtica) e usando luz ele efetivamente coloca o íon em um estado superposto, exclusivamente quântico, e pode estudar esse sistema, completamente isolado do ambiente. De fato, esse tipo de estado é o que se convencionou chamar de estados do tipo “gato”, em homenagem ao famoso gato de Schrödinger.

No caso de Haroche, ele possui uma cavidade (dois espelhos, um de frente pro outro) super especial, resfriada, ultra-refletora e na qual ele coloca um ou alguns fótons que vivem dentro dessa cavidade um tempo longuíssimo (décimos de segundo) o que permite estudá-los. Para isso ele passa pela cavidade átomos especiais, chamados de átomos de Rydberg que são super-sensíveis. Quando os átomos saem da cavidade, após interagir com os fótons (sem destruí-los!!!) ele consegue medir, a partir do que aconteceu com os átomos, quantos fótons havia na cavidade. Uma das conseqüência mais interessantes do seu experimento é que ele consegue observar o “desaparecimento” dos fótons de dentro da cavidade em passos inteiros: o fóton desaparece e não apenas metade dele ou um terço, mas sempre um por vez.

Ambos os sistemas permitem fazer uma infinidade de experimentos interessantes nos fundamentos da Física Quântica e abrem possibilidades efetivas de se estudar experimentalmente as bases do que podem ser futuros sistemas aplicáveis, baseados nas leis fundamentais da Física Quântica.

Uma nota pessoal

Lá pelos idos de 2007 eu fui a uma conferência na Cidade do México. Lá estava Serge Haroche, os primeiros resultados que levaram ao Nobel deste ano tinham acabado de aparecer e ele era “a bola da vez” na maioria das conferêcias da área. Por coincidência, meu ex-orientador também estava lá, é amigo do Haroche e por isso tivemos a chance de ir jantar juntos: eu, dois colegas mexicanos, meu ex-orientador o Haroche e a esposa. [Há uma história ótima desse jantar que está perdida em algum rascunho pra virar um post aqui… vou ver se recupero.]

Não, o jantar não foram Tacos mexicanos… Mas que eles são apetitosos, isso são…

Ele então começou a contar algumas das dificuldades que nunca aparecem para o público que envolvem esse experimento que lhe deu o prêmio. Dentre muitas questões técnicas, como o fato de a cavidade ser mantida resfriada (a -270 oC) o tempo todo (fins de semana, Natal e feriados inclusos) ou de que eles nunca podem colocar a mão nela porque isso a destrói, um fato em especial me chamou a atenção.

Ele disse algo como: “eu sacrifiquei 3 a 4 gerações de estudantes, 12 anos de vai-e-vém, testes, resultados negativos, aprimoramentos, mais testes e pouquíssimos resultados efetivos.” Esse é o que eu chamo de “custo humano” de um projeto, muito mais difícil de mensurar que gastos com equipamentos, reagentes, viagens, etc. Os estudantes dessa fase, claro, tiveram suas carreiras comprometidas, doutorados e mais doutorados com pouquíssimo resultado efetivo. Um custo humano alto para um resultado científico igualmente alto. Infelizmente, é assim que funciona muitas vezes: muitíssimo esforço e sacrifício por um objetivo maior em algum momento do futuro. Para a ciência é super-válido. Mas e do ponto de vista humano? Valeu? Isso eu não sei responder.

Ecos da Múmia

Atenção: este não é um post sobre ciência. Ou pelo menos não a ciência que você costuma ver por aqui comumente. Este post é uma reflexão que surgiu da discussão com o Igor Santos, meu vizinho aqui do 42, no post sobre a Múmia, aí embaixo. Avisado está.

A discussão lá no outro post gira em torno de uma questão apenas, no meu modo de ver: até onde nós humanos nos reconhecemos como uma espécie em separado? Que o ser humano é diferente dos ratos (alguns nem tanto) ou dos macacos, isso é óbvio e eu sei que há formas de caracterizar e catalogar tudo isso. Este não é o ponto aqui. Mas quando eu e você nos relacionamos com o restante das espécies e entre nós, esse fator de sermos diferentes entra na equação? Levando para a questão específica do post: alguns podem se incomodar com um corpo humano preservado em exposição em um museu mas não ver qualquer problema quando um macaco ou qualquer outro animal é exposto. Outros podem não ver qualquer problema em expor um cadáver. O mesmo vale para um zoológico: muitos se chocam quando, por alguma “ação conscientizadora” colocamos homens em jaulas, mas não se chocam por fazermos o mesmo com qualquer animal. Provavelmente há quem não veja problemas em expor homens vivos em zoológicos. Ou não há? O que há, com certeza, são aqueles que vêem o outro lado completamente: encarcerar e expor animais é tão errado quanto expor um homem.

Bom, no fundo, a meu ver, isso retrata até que ponto nós nos identificamos como uma espécie única, diferente, superior e que “tem direito” de subjugar as outras. Não nos vemos, normalmente, como parte da natureza, não nos sentimos como apenas mais uma éspecie, semelhante a todas a outras. Se fosse esse o caso, ou seja, se nos víssemos realmente como uma espécie como todas as outras (e todas as outras como nós), não haveria exposição de qualquer ser vivo em museus, ou haveria, quem sabe, mais homens em zoológicos. São situações equivalentes? Eu não sei. Na prática, quanto mais penso no assunto, mais noto que preciso pensar mais.E não sei se tenho a bagagem necessária pra ir mais a fundo no tema

Provavelmente há estudos psicológicos sobre o tema. Algum psicopata psicólogo de plantão que queira se pronunciar aí nos comentários e nos iluminar sobre o tema me faria muito feliz.

P.S.: O Igor está fazendo um trabalho muito bacana ciceronando a segunda temporada do Dispersando, o podcast do Science Blogs Brasil. Já há duas entrevistas por lá, inclusive a deste blogueiro que vos escreve. E há mais por vir. Não deixe de conferir!

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