Super Quântico – parte 1

Se você tem algum interesse em ciência, por menor que seja, provavelmente já se deparou com expressões do tipo supercondutividade, superfluidez, etc, etc. Talvez você até saiba de onde vem o prefixo super- nessas palavras, mas se você não sabe, então este post é pra você. 😀

Nesta primeira parte, vamos discutir os “super” fenômenos que permeiam a física, e sua origem. Na parte 2 deste post, que verá a luz do dia amanhã, eu vou tocar num assunto bem recente (que motivou esses dois posts, na verdade) e bem quente: a des-descoberta da supersolidez. É isso mesmo: o mesmo cientista que anos atrás observou indícios da existência de um supersólido, agora, em um trabalho recente, mostrou que ele estava errado e ainda não há uma prova definitiva de que exista um supersólido. Sem mais blá-blá-blá, vamos ao que interessa.

Os super fenômenos da física quântica

Há alguns fenômenos, todos exclusivamente dentro do contexto da Física Quântica que carregam o sufixo super. Historicamente, os dois primeiros que foram descobertos/estudados carregam o “super” como uma forma literal de descrever o que foi observado: quando a capacidade um corpo qualquer de conduzir corrente elétrica é exacerbada enormemente, isso se chama supercondutividade. Da mesma forma, a supefluidez: um fluido que flui (será que o prof. Pasquale aprova essa?) sem resistência alguma é chamado de superfluido.

No entanto, se você procurar na literatura, vai ver que há outros “superfenômenos” quânticos nos quais não é fácil de se ver o que está aumentado, exacerbado, exagerado. Dentre eles há, por exemplo, os super-átomos ou um super-sólido. E aí como fica? Mau uso? Presunção de quem batizou essas crianças?  Na verdade nada disso.

O que acontece é que é preciso olhar para os mecanismos por trás desses fenômenos. Cada um dos quatro que eu citei acima, superfluidez, supercondutividade, super-átomos e supersolidez carregam no seu âmago uma característica em comum: eles são fenômenos coletivos (mais sobre isso aí embaixo). Dessa forma, estabelemos um paradigma único para todos os fenômenos que carregam a alcunha de “super”: mais do que exacerbar alguma característica própria, que agora se tornou uma conseqüência e não o foco, os super fenômenos são todos aqueles que carregam algum tipo de comportamento coletivo dos seus constituintes.  Mas o que é um comportamento coletivo?

Comportamento coletivo

Você já foi a uma boate? E a uma festa de São João, com quadrilha? Sim? Então você sabe a diferença entre “entidades independentes” e um “comportamento coletivo”: enquanto na boate é “cada um por si”, numa quadrilha a dança é coreografada, cada um sumindo na sua individualidade para que o todo se sobressaia.

Na boate, cada um dança na sua…

A analogia é razoável, mas vamos fazer ela mais formal: o comportamento coletivo acontece quando as partículas que constituem o sistema perdem sua individualidade e essa perda transforma o seu comportamento individual. O comportamento do grupo é completamente distinto do comportamento das suas partes. Tipicamente, esse comportamento só é encontrado em sistemas quânticos, pois aí as condições existentes (seja a energia baixa, seja a estatística que rege o sistema) permitem que as partículas se associem (não leve isso ao pé da letra) e possam se comportar como um grupo. Quando estamos num regime clássico, as partículas normalmente se comportam individualmente, sem qualquer relação entre si.

Numa outra analogia, acho que os psicólogos chamam isso de “efeito manada”. Se algum psicólogo chegar até esse ponto do texto, favor se manisfestar. 🙂

Numa quadrilha, o conjunto é que é importante…

E como isso se traduz nos sistemas super, especificamente? É isso que discutimos brevemente a seguir.

Superfluidez

Pegue um potinho de mel e um potinho de água e vire eles de cabeça pra baixo. A água flui melhor que o mel ou, em outras palavras, o mel é mais viscoso que a água. Viscosidade é essa resistência que algo tem a fluir. Asfalto, por exemplo, é super viscoso. Mesmo sendo bem fluida, ainda assim, algumas gotinhas de água ficam agarradas às paredes do copo e nesse hora você nota que mesmo um bom fluido possui algum tipo de viscosidade, especialmete quando encontra as paredes de um recipiente.

Um superfluido é a negação de tudo isso. Ele flui sem resistência alguma, não se importa com paredes e nem mesmo com tubos bem fininhos: ele simplesmente flui. Há diversos vídeos que mostram isso acontecendo com Hélio líquido superfluido. Você pode vê-los (em inglês) aqui, aqui e aqui (este com explicações em português). Você verá o líquido literalmente “subir pelas paredes” dos recipientes. É bem bonito.

Um vórtice num fluido comum…

A explicação pro fenômeno é um pouco mais difícil e envolve alguma matemática. Essencialmente, uma característica associada a superfluidos é a “delocalização” dos átomos ao longo da amostra. Trocando em miúdos: não é possível associar um átomo a uma posição dentro do fluido, pois cada um deles está “espalhado” pela amostra inteira e “todos estão em todo lugar”. Talvez a explicação seja meio simplista, mas a linha de pensamento é por aí. Uma conseqüência da superfluidez é que um superfluido não gira. Isso mesmo: se você pegar um balde cheio de supefluido e colocar ele pra rodar, o balde roda e o fluido fica quietinho. Mas tudo tem um limite, como você bem sabe. Se você rodar muito rápido o superfluido desenvolve vórtices, mais ou menos como os que a gente vê quando enche um pia e depois deixa a água escorrer pelo ralo. Um vórtice é equivalente a um redemoinho ou, se você preferir, um ciclone, um furacão…

Bom, então, só pra reforçar dois pontos que serão importantes pra entender supersólidos: os átomos em um superfluido estão delocalizados no espaço e um superfluido se recusa a girar. Guarde isso com você, voltaremos a eles.

Supercondutividade

Que alguns materiais conduzem energia elétrica você sabe, especialmente se já tomou um choque. No processo de condução, o material esquenta e isso caracteriza uma perda de energia no processo. Mas alguns materiais, quando resfriados a temperaturas muito baixas simplesmente conduzem eletricidade sem perda nenhuma, como se um superfluido de elétrons fluísse pelo condutor sem viscosidade nenhuma. É essa a supercondutividade.

Na prática, este é um negócio complicado e que ainda guarda muitas questões em aberto. De um modo geral, a teoria básica de supercondutividade diz que os elétrons juntam-se em pares, chamados pares de Cooper e estes são quem conduz eletricidade sem perdas. Mas, mais recentemente, materiais supercondutores foram descobertos a temperaturas baixas, mas nem tanto. E a teoria que supõe os pares de Cooper não funciona muito bem por lá. Há muito ainda embaixo desse pano.

Levitação na superfície de um supercondutor.

Dentre os efeitos mais bacanas relacionados a supercondutores, há o fato de que eles odeiam campos magnéticos dentro de si e expulsam qualquer um que tente entrar. Isso permite os famosos experimentos de “levitação” de ímans na superfície de supercondutores. Um vídeo bacana (em inglês, legendado em português) pode ser visto aqui.

Super-Átomos

 O conceito de super-átomo é um pouco mais direto e simples de ser entendido: dada uma coleção de átomos individuais, eles podem se arranjar de forma que o conjunto se comporta e mostra propriedade de um único átomo. Há muito interesse recente nesse tipo de fenômeno, pois esses arranjos de grandes números de átomos que imitam átomos individuais podem se tornar plataformas para o estudo de diversos fenômenos físicos e químicos sem a necessidade de se usar os átomos em si, mas os complexos que os imitam. Na prática, isso poderia adicionar uma “terceira dimensão” à nossa querida tabela periódica, onde a nova dimensão é dedicada aos complexos que imitam os átoms originais. O interesse nessa área é razoavelmente recente e deve dar muito “pano pra manga” ao longo dos próximos anos.

Super átomos podem adicionar uma nova dimensão à Tabela Periódica

Supersólidos

Bom, como a gente disse lá em cima (você chegou até aqui?), a des-descoberta da existência de um supersólido foi o que motivou este post. Por outro lado, ele também requer um extrinha de preliminares para ser explicado e este post já está longo pra caramba. É por isso que eu te convido a voltar aqui amanhã, pra segunda parte dessa história. Te vejo lá.

Protocolo de experimento – Sono infantil

Protocolo experimental para o teste de histórias alternativas na indução do sono de crianças.

Hipótese: Histórias de cientistas são tão eficientes para fazer crianças adormecerem quanto contos de fadas.

Breve introdução ao problema: contos de fadas são mundialmente reconhecidos por atuarem com sucesso no processo de adormecimento de crianças pequenas. Não há contra-indicação conhecida. O objetivo deste experimento é avaliar a eficácia de histórias relacionadas a cientistas/ciência no mesmo processo.

Cobaias: Um menino espivetado de 4 anos e uma menina pimentinha de 3 anos.

As cobaias, um ano antes do experimento…

As histórias utilizadas: 

1) Newton, com enredo na linha: “rapaz muito curioso que queria arrumar uma maneira de transformar pedras em ouro e quando passaeava pelo campo pensando sobre o assunto, uma maça caiu em sua cabeça e ele descobriu que, e porque, todas as coisas caem.”

2) Heisenberg, mais ou menos assim: “um rapaz curioso que queria entender o mundo das coisas muito pequinininhas. Um dia ele ficou doente e foi para uma ilha sozinho. Lá ele descobriu que as coisas pequenininhas se transformavam de bolinhas para ondinhas e vice-versa”.

3) Dirac: “um rapaz curioso que também queria entender muitas coisas sobre as coisas bem pequenininhas. Descobriu que cada bolinha pequenina que existia possuía uma irmã gêmea igualzinha a ela a menos por alguns detalhezinhos.”

Resultados: sucesso em cada um dos experimentos realizados. As cobaias demonstraram notório interesse nas histórias contadas e adormeceram em poucos minutos durante o curso da história.

Notas relacionadas: os experimentos sempre foram realizados no período noturno, em diversas condições de cansaço físico das cobaias em questão. Da mesma forma, diversas condições de colchão, luminosidade e presença/ausência de mamadeiras com leite morno foram testadas. O mesmo contador de histórias foi utilizado em todos os casos.

Ações subsequentes: aumentar a quantidade de experimentos a fim de obter uma amostragem estatística relevante. Avaliar possíveis contra-indicações e/ou vantagens do método desenvovido comparado aos tradicionais contos de fadas. Testar em cobaias mais novas e mais velhas a fim de obter as idades limítrofes nas quais as histórias perdem eficácia.

Ação esperada do leitor: deixar seu comentário contando se já utilizou métodos semelhantes e os resultados obtidos. 😀

O Nobel de Física de 2012

O Nobel de Física de 2012 foi anunciado a quase um mês e nós ainda não falamos dele. 🙁

Pois hoje nos redimiremos dessa falha grotesca… 😀

O Nobel deste ano foi dividido por um francês e um americano, Serge Haroche e David Wineland, por, numa tradução livre, “desenvolvimento de métodos experimentais revolucionários que permitem medir e manipular sistemas quânticos individuais”.

E porque o que eles fizeram merece o Nobel, um dos mais (se não o mais) prestigiados prêmios em Física? A questão é razoavelmente simples de se responder, e vai ao encontro da razão pela qual muitos outros também ganharam esse mesmo prêmio: o que eles fizeram é muito, muito, muito difícil de se fazer. Mas, como diria Jack, vamos por partes.

Sistemas Quânticos Individuais

As leis fundamentais que regem o que quer que seja no Universo conhecido (não, iso não é um exagero) são as Leis da Física Quântica. Elas foram estabelecidas no início do século passado, com Planck, Einstein, Bohr, Schrödinger, Heisenberg, Dirac e vários outros. Dentre as muitas facetas da Física Quântica, algumas das mais fascinantes dizem respeito ao estado em que um sistema quântico pode existir. De fato, ao contrário do que vemos no nosso dia-a-dia, em que algo que é branco não é preto e vice-versa, um sistema quântico individual pode ser branco, preto ou uma mistura de ambos, nos mais variados tons de cinza que você imaginar. É a chamada superposição de estados. Mas você nunca vai realmente ver esse sistema em nenhum tom de cinza: quando você olhar pra ele, o sistema vai escolher se é branco ou preto, e isso destruirá o estado superposto do sistema. Você só é capaz de saber qual o tom de cinza, se medir o mesmíssimo sistema quântico (=cópias exatamente iguais) muitas vezes. Mas a cada vez, você o destrói. Complicado? Sim, especialmente porque não é o tipo de coisa que nos deparamos todo dia. Mas é esse tipo de comportamento que causa tanto frenesi nas propostas de computação quântica (o bit deixa de ser 1 ou 0, mas pode ser qualquer mistura entre os dois) e criptografia quântica (meça um estado uma vez e ele é destruído: a proteção perfeita contra bisbilhoteiros na comunicação de dados sigilosos).

Apesar de tão importantes, sistemas quânticos são muitíssimo frágeis. Coloque vários deles juntos e o que você tem é exatamente o que a gente conhece bem como “dia-a-dia”, a física clássica, Leis de Newton e companhia bela. Coloque eles em contato com o ambiente e pode dizer adeus à qualquer superposição de estados. É por essas e outras que sistemas quânticos individuais são dificílimos de observar e por isso mesmo, todos esse fenômenos exóticos e promissores ficam muitas vezes restritos a elucubrações teóricas e longe do mundo experimental.

O que os dois ganhadores do Nobel deste ano fizeram foi desenvolver formas de se estudar experimentalmente sistemas quânticos isolados, ultrapassando essas limitações fundamentais e abrindo a possibilidade de se estudar e entender os fenômenos quânticos.

Dois lados da mesma moeda

Bom, agora que a ideia está exposta, vejamos o que eles fizeram, individualmente.

Há uma simetria muito bonita nesses dois experimentos: enquanto Wineland estuda e manipula átomos aprisionados (íons, na verdade) usando para isso luz, Haroche estuda partículas de luz (fótons) aprisionadas numa cavidade, usando para isso átomos.

No caso de Wineland, ele resfria os íons, usando luz, de forma que o seu movimento vai para o menor grau possível (é impossível parar totalmente um sistema no contexto da Física Quâtica) e usando luz ele efetivamente coloca o íon em um estado superposto, exclusivamente quântico, e pode estudar esse sistema, completamente isolado do ambiente. De fato, esse tipo de estado é o que se convencionou chamar de estados do tipo “gato”, em homenagem ao famoso gato de Schrödinger.

No caso de Haroche, ele possui uma cavidade (dois espelhos, um de frente pro outro) super especial, resfriada, ultra-refletora e na qual ele coloca um ou alguns fótons que vivem dentro dessa cavidade um tempo longuíssimo (décimos de segundo) o que permite estudá-los. Para isso ele passa pela cavidade átomos especiais, chamados de átomos de Rydberg que são super-sensíveis. Quando os átomos saem da cavidade, após interagir com os fótons (sem destruí-los!!!) ele consegue medir, a partir do que aconteceu com os átomos, quantos fótons havia na cavidade. Uma das conseqüência mais interessantes do seu experimento é que ele consegue observar o “desaparecimento” dos fótons de dentro da cavidade em passos inteiros: o fóton desaparece e não apenas metade dele ou um terço, mas sempre um por vez.

Ambos os sistemas permitem fazer uma infinidade de experimentos interessantes nos fundamentos da Física Quântica e abrem possibilidades efetivas de se estudar experimentalmente as bases do que podem ser futuros sistemas aplicáveis, baseados nas leis fundamentais da Física Quântica.

Uma nota pessoal

Lá pelos idos de 2007 eu fui a uma conferência na Cidade do México. Lá estava Serge Haroche, os primeiros resultados que levaram ao Nobel deste ano tinham acabado de aparecer e ele era “a bola da vez” na maioria das conferêcias da área. Por coincidência, meu ex-orientador também estava lá, é amigo do Haroche e por isso tivemos a chance de ir jantar juntos: eu, dois colegas mexicanos, meu ex-orientador o Haroche e a esposa. [Há uma história ótima desse jantar que está perdida em algum rascunho pra virar um post aqui… vou ver se recupero.]

Não, o jantar não foram Tacos mexicanos… Mas que eles são apetitosos, isso são…

Ele então começou a contar algumas das dificuldades que nunca aparecem para o público que envolvem esse experimento que lhe deu o prêmio. Dentre muitas questões técnicas, como o fato de a cavidade ser mantida resfriada (a -270 oC) o tempo todo (fins de semana, Natal e feriados inclusos) ou de que eles nunca podem colocar a mão nela porque isso a destrói, um fato em especial me chamou a atenção.

Ele disse algo como: “eu sacrifiquei 3 a 4 gerações de estudantes, 12 anos de vai-e-vém, testes, resultados negativos, aprimoramentos, mais testes e pouquíssimos resultados efetivos.” Esse é o que eu chamo de “custo humano” de um projeto, muito mais difícil de mensurar que gastos com equipamentos, reagentes, viagens, etc. Os estudantes dessa fase, claro, tiveram suas carreiras comprometidas, doutorados e mais doutorados com pouquíssimo resultado efetivo. Um custo humano alto para um resultado científico igualmente alto. Infelizmente, é assim que funciona muitas vezes: muitíssimo esforço e sacrifício por um objetivo maior em algum momento do futuro. Para a ciência é super-válido. Mas e do ponto de vista humano? Valeu? Isso eu não sei responder.

Ecos da Múmia

Atenção: este não é um post sobre ciência. Ou pelo menos não a ciência que você costuma ver por aqui comumente. Este post é uma reflexão que surgiu da discussão com o Igor Santos, meu vizinho aqui do 42, no post sobre a Múmia, aí embaixo. Avisado está.

A discussão lá no outro post gira em torno de uma questão apenas, no meu modo de ver: até onde nós humanos nos reconhecemos como uma espécie em separado? Que o ser humano é diferente dos ratos (alguns nem tanto) ou dos macacos, isso é óbvio e eu sei que há formas de caracterizar e catalogar tudo isso. Este não é o ponto aqui. Mas quando eu e você nos relacionamos com o restante das espécies e entre nós, esse fator de sermos diferentes entra na equação? Levando para a questão específica do post: alguns podem se incomodar com um corpo humano preservado em exposição em um museu mas não ver qualquer problema quando um macaco ou qualquer outro animal é exposto. Outros podem não ver qualquer problema em expor um cadáver. O mesmo vale para um zoológico: muitos se chocam quando, por alguma “ação conscientizadora” colocamos homens em jaulas, mas não se chocam por fazermos o mesmo com qualquer animal. Provavelmente há quem não veja problemas em expor homens vivos em zoológicos. Ou não há? O que há, com certeza, são aqueles que vêem o outro lado completamente: encarcerar e expor animais é tão errado quanto expor um homem.

Bom, no fundo, a meu ver, isso retrata até que ponto nós nos identificamos como uma espécie única, diferente, superior e que “tem direito” de subjugar as outras. Não nos vemos, normalmente, como parte da natureza, não nos sentimos como apenas mais uma éspecie, semelhante a todas a outras. Se fosse esse o caso, ou seja, se nos víssemos realmente como uma espécie como todas as outras (e todas as outras como nós), não haveria exposição de qualquer ser vivo em museus, ou haveria, quem sabe, mais homens em zoológicos. São situações equivalentes? Eu não sei. Na prática, quanto mais penso no assunto, mais noto que preciso pensar mais.E não sei se tenho a bagagem necessária pra ir mais a fundo no tema

Provavelmente há estudos psicológicos sobre o tema. Algum psicopata psicólogo de plantão que queira se pronunciar aí nos comentários e nos iluminar sobre o tema me faria muito feliz.

P.S.: O Igor está fazendo um trabalho muito bacana ciceronando a segunda temporada do Dispersando, o podcast do Science Blogs Brasil. Já há duas entrevistas por lá, inclusive a deste blogueiro que vos escreve. E há mais por vir. Não deixe de conferir!

Uma boa proposta! O que você escreveria?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aqui onde eu trabalho, recebemos uma proposta de escrever um capítulo de um novo livro sobre átomos frios, especificcamente sobre esses átomos muito magnéticos com os quais trabalhamos. Nem sempre esses livros são muito úteis porque os autores tendem a simplesmente escrever um artigo de revisão e colocá-lo lá: não há profundidade e nem ensina nada. No máximo, serve como uma coletânea de referências, usualmente daquele autor et caverva.

Mas o editor do livro tem uma proposta diferente para este. Numa tradução livre do “manual de instruções” que recebemos para o livro: “…o objetivo do livro é responder às seguintes questões: 1) se um novo estudante começar a trabalhar nesta área, o que ele deveria aprender sobre a física básica da área e sobre problemas avançados, possíveis erros de interpretação, etc… e 2) se um pesquisador que nunca trabalhou nessa área tentar entender os resultados teóricos e experimentais desta área, o que ele deve aprender para fazer as interpretações corretas e se fazer capaz de trabalhar na área sozinho?…”

Eu gostei e estamos quebrando a cabeça para filtrar o que é realmente essencial e importante para responder essas perguntas e comum a todo a sub-área que trabalhamos. Tem sido um exercício interessante e bem difícil. Veremos em breve o resultado.

Eu deixo aqui uma sugestão: coloque aí nos comentários a sua área de atuação (trabalho, pesquisa, etc, etc) e o que você ressaltaria para alguém que quer começar na sua área. O que é fundamental? Enfim, como você responderia a pergunta-objetivo do livro?

Em tempo: no nosso caso há vários pontos a ser ressaltados. O fundamental: cuidado ao generalizar os resultados dos gases não-magnéticos para os magnéticos. A direção Norte-Sul dos átomos se comporta completamente diferente das outras duas.

A Múmia

Se tem algo no meu trabalho no laboratório de que gosto é não precisar fazer experimentos com seres vivos: ratos, pessoas, mesmo células estão (bem) fora da minha área de atuação (e interesse). Antes que você pergunte: não, também não faço experimentos com alunos de IC.

Quem tem que fazer pesquisa nesses campos, como alguns dos meus vizinhos aqui no SBBr, usualmente precisa ter autorização de algum comitê de ética e seguir protocolos rígidos e bem definidos. Há, para todos os efeitos, uma série de regulamentações. Normalmente, essas regras servem para evitar abusos com seres vivos, respeito com seus cadáveres e/ou procedimentos indolores na indução da morte, no caso de animais. Igualmente, dados das pessoas envolvidas, identidades e afins são mantidos em sigilo e não-correlacionados com os dados experimentais obtidos, a fim de proteger sua privacidade ao máximo. Tudo muito bem, tudo muito bom.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aí, outro dia, estive num museu grande, que tem essa múmia aí da foto exposta. Aquilo me acendeu uma angústia e uma dúvida grande: pode isso? É óbvio que é permitido, afinal o museu não estaria fazendo algo contra a lei mas… aquele é o corpo de um ser humano… ou foi. Às vezes, se penso no assunto, vejo muitos motivos que me dizem não haver problema nenhum e, até por isso, aqui está a foto da múmia…

Mas por outro lado… não sei… me parece um disparate sem tamanho expor um corpo humano de verdade, mesmo morto a uns 3k anos… Se fosse sua tia (mãe, sobrinho, filho, amigo, conhecido, primo,…) morta a algumas semanas e propriamente embalsamada, você toparia deixá-la exposta no museu? Pois é… Nessas horas, eu acho que está errado expor uma múmia num museu, por mais que ninguém saiba sua identidade, não haja nenhum parente vivo, etc e tal.

No final das contas, continuo na dúvida: não sei se acho certo ou errado e, na prática, nem tenho muita base pra argumentar a favor ou contra. Sei que tenho dúvidas. E queria ouvir sua opinião sobre o assunto, seja você um especialista em ética biológica ou apenas um palpiteiro de plantão.

P.S.: Para ser justo: a dúvida só apareceu DEPOIS que eu cheguei na exposição da múmia e estava ali, olhando pra ela e pensando. Antes, devo admitir, fui até lá querendo ir e sabendo o que ia fazer. Eu gosto muito de história antiga e sabia que naquele museu haveria bastante, inclusive a múmia. Eu a encontrei porque quis e não por acaso.

 

Menos é mais

Eu estava numa conferência esta semana (é, de novo). É uma conferência com um formato que me agrada: apenas algumas palestras plenárias, sem sessões paralelas e uma imensidão de posters. Assim você pode ver todas as palestras que mostram, em princípio, os tópicos mais importantes da área num passado recente e ainda têm muitas opções (e tempo) de posters, com chance de discutir “a fundo” os trabalhos, incluindo aí trabalhos de muita qualidade mas que ficaram fora das palestras plenárias.

Mas esse formato têm um efeito colateral muito ruim: os palestrantes tentam “valorizar” o tempo precioso que ganharam pra falar e espremem numa mesma palestra uma infinidade de temas e tópicos diferentes. Não é incomum palestrantes correndo, vomitando resultados, 10s por slide ou menos, 3, às vezes 4 tópicos diferentes numa mesma palestra. E isso é muito ruim. Ao contrário de se valorizar, no meu modo de entender, o palestrante se desvaloriza, porque passa uma mensagem errada ao público.

Não me entenda mal: ele passa a mensagem de que é alguém super produtivo, com 763.5 trabalhos publicados na Nature, Science, Cell e etc, no último mês e meio. Mas nenhum dos trabalhos fica retido na memória do público, simplesmente porque o palestrante não ocupa mais que alguns minutos com ele, por mais complexo que seja. A palestra que tinha tudo pra mostrar algo no topo do conhecimento não faz nenhum impacto porque ninguém (ou quase ninguém) é capaz de seguir os tópicos. E isso é muito ruim.

Ao contrário, quando o palestrante usa seu tempo para focar em um (único) assunto é como um oásis: mesmo os tópicos mais complicados são possíveis de entender, porque há tempo para uma introdução bem feita, uma conclusão decente e um tempo razoável em cada slide de resultados. Em resumo: a palestra tem um impacto, porque a audiência leva uma mensagem “pra casa”. Quem dera fosse sempre assim.

Se você se interessa pelo assunto, aqui tem uma discussão bacana na mesma linha.

Um jornal extra-terrestre


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um dos maiores desafios de editores de publicações científicas é convencer autores a submeterem artigos de qualidade aos seus jornais e leitores a lê-los e citá-los. O sistema todo se auto-alimenta desse processo: bons papers implicam muitas citações e muitas citações implicam mais bons papers.

Uma das estratégias para alcançar o sucesso é dar uma cara “global” para um jornal que parece regional. O Brazilian Journal of Physics, por exemplo, tem poucas chances de atrair papers de outros países.

O mesmo se aplica ao Europhysics Letters, por mais que os editores sempre reforçassem o carácter global da revista, o nome dá toda a cara de ser um jornal “europeu para europeus”. Para aumentar a penetração entre autores e leitores de outros lugares o jornal mudou seu nome, em 2007, para EPL apenas, suprimindo o “euro” da história mas ainda assim mantendo o acronímio. Tenta-se assim atrair autores e leitores de todos os cantos do planeta.

Pois em dezembro de 2011 o EPL superou suas próprias expectativas e tornou-se um jornal extra-terrestre ao publicar um trabalho onde um dos autores vinha da Estação Espacial Internacional (ISS, da sigla em inglês International Space Station).

Você pode ver a história contado pelo próprio editor aqui. O paper mesmo, sobre plasmas complexos em condições de microgravidade pode ser visto aqui (uma assinatura pro jornal é necessária.)

Diários de Lindau, dia 5

Hoje, uma vez mais “old school” ou, pelo menos sem vídeo meu, porque hoje tem vídeo de música.

Dudley Herschbach, prêmio Nobel de Química, terminou sua apresentação com uma música de Cole Porter, composta em 1933, sobre experimentos e ciência. Eu fui atrás da letra completa e da música pra compartilhar com vocês! Vai aí embaixo:

 

 

 

————–

EXPERIMENT

From the London Stage Musical “Nymph Errant” (1933) (Cole Porter)

 

Before you leave these portals

To meet less fortunate mortals

There’s just one final message

I would give to you

You all have learned reliance

On the sacred teachings of science

So I hope, through life you never will decline In spite of philistine

Defiance

To do what all good scientists do

Experiment

 

Make it your motto day and night

Experiment

And it will lead you to the light

The apple on the top of the tree

Is never too high to achieve

So take an example from Eve

Experiment

Be curious

Though interfering friends may frown,

Get furious

At each attempt to hold you down

If this advice you’ll only employ

The future can offer you infinite joy

And merriment Experiment And you’ll see

———-
 E aqui a música:

———-
Hoje teve também Robert com uma palestra participativa e uma proposta interessante: imagine o que será o futuro, daqui a 200 anos, quando todas as fontes de energia fóssil, carvão e petróleo, estarão exauridas. Como vai ser a vida? Haverá vida? O que as pessoas daquele tempo pensarão de nós, do que nós (não) fizemos para melhorar o planeta. Um discussão bem interessante que acho que meu colegas ecochatos engajados com a proteção ambiental aqui do SBBr iriam gostar bastante.

Por fim, pra acabar com a parte científica: Walther Kohn, o inventor da Teoria do Funcional da Densidade, uma das maneiras mais poderosas de resolver problemas físicos complicados. Ele deu uma verdadeira lição pra quem acha que a ciência e a vida pessoal são imiscíveis. Sua palestra foi sobre “ciência e cegueira”, focada em problemas oculares relacionados à mácula. E por quê ele, numa idade avançada e consagrado, resolveu atacar um problema de Fisiologia? Porque sua esposa desenvolveu essa doença e ele se perguntou se, como físico, ele poderia contribuir pra resolver esse problema. Foi tocante.

 

 

Eu deixo vocês com uma foto do pôr-do-sol aqui em Lindau.

 

E lembrando: amanhã é o último dia, mas vai ser bem complicado postar à noite, pós-conferência. Então a última edição dos Diários de Lindau vai chegar, mas provavelmente com alguns dias de atraso! Espero vocês lá!

 

Diários de Lindau, dia 4

Um dia de Luz, de espera por Higgs e de dicas valiosas para a sua pesquisa de todo dia.

Um dia que começou cedo demais. Com café-da-manhã num barco.

Isso e algo mais, no quarto dia dos Diários de Lindau.

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