Com (muito) atraso, e antes de voltar à arqueologia e a coisas mais divertidas, vou meter rapidamente a minha colher no rolo envolvendo Ruth de Aquino, colunista da revista "Época". Como sabe amplamente quem acompanha o ScienceBlogs, a moça causou uma reação calorosa da comunidade científica ao criticar o que considera o "besteirol" da pesquisa atual em um de seus textos.
Gostaria de ter podido comentar o affair lá no G1, onde trabalho. O fato de eu não ter feito isso levou até alguns amigos e colegas a achar que estava rolando algum tipo de censura; afinal, ambos os veículos pertencem às Organizações Globo. Na verdade, o que ocorreu é mais prosaico: não temos mais um espaço opinativo genérico no G1. (O Blog da Redação foi praticamente desativado para publicação de conteúdo original, porque não conta como audiência de jornalismo para o Ibope. Pois é.) Como seria absurdamente off-topic tratar do tema na minha coluna/blog, que versa sobre evolução, acabei deixando a coisa passar. Mas a liberdade aqui no ScienceBlogs me permite voltar ao tema.
A doença e os sintomas
Anyway: para ser sucinto, eu diria que Dona Ruth não é a doença, é apenas um sintoma dela. Não vejo problema nenhum em fazer humor com ciência e sou contra a tentativa de "sacralizar" o mundo científico. A ciência tem seus elementos de ridículo, assim como todo tipo de empreendimento humano. Também não se faz humor sendo equilibrado ou ponderado. Beleza. Mesmo assim, as coisas que a moça escreveu são preocupantes porque denotam um tipo de pensamento utilitarista e simplista que domina as grandes figuras do jornalismo brasileiro. É a "síndrome do pra quê serve", batizada em homenagem a um ex-ombudsman da "Folha de S.Paulo" que sempre fazia essa pergunta em relação a reportagens de ciência.
Desculpe, Dona Ruth, mas não dá para fazer ciência pensando só no "pra quê serve". Alguém já disse que, se os cientistas tivessem organizado um megaprojeto para tentar achar formas de curar o glaucoma, jamais teriam chegado... ao laser, que é o que realmente resolve o problema em cirurgias hoje. A pesquisa básica, por mais inútil que pareça, tem justamente a vantagem de abrir novas avenidas pro conhecimento. Nunca se sabe quando elas vão ser úteis, mas isso não é motivo para deixar de abri-las.
Outro problema sério: essa mania de ficar se esgoelando, dizendo que "o meu, o seu, o nosso" dinheirinho está sendo desperdiçado com estudos sobre a velocidade do pum dos pinguins. Na boa, achar que as pesquisas estilo IgNobel (muitas vezes legais e interessantes, por sinal) monopolizam o financiamento público à pesquisa é ser MUITO cego. Basta comparar o dinheiro que é destinado, em qualquer lugar do mundo, aos estudos sobre câncer com a verba para mapear a biodiversidade de insetos (grande exemplo de pesquisa "inútil", dirão alguns) para ver que a pesquisa "útil" é desproporcionalmente financiada.
São essas distorções que todos nós, como comunicadores de ciência, temos de trabalhar para combater.
Arqueologia é mais do que aventura cinematográfica ou coisa de viciado em livro poeirento: é uma ferramenta ímpar para entender o que a humanidade pode fazer consigo mesma e com o planeta. Meu nome é Reinaldo José Lopes e sou jornalista de ciência da Folha de S.Paulo. Leio grego antigo e já ajudei a desenterrar uma preguiça gigante em Minas Gerais. Na foto acima, testo a viabilidade bélica de um artefato da cultura Rohirrim (Terceira Era da Terra-média). Bem-vindo!
Commentários (6)
reinaldo,
bela contribuição: equilibrada e clara. pra fechar o caixão mesmo.
Escrito por: maria | abril 13, 2009 1:25 PM