Perfil

Reinaldo Lopes Arqueologia é mais do que aventura cinematográfica ou coisa de viciado em livro poeirento: é uma ferramenta ímpar para entender o que a humanidade pode fazer consigo mesma e com o planeta. Meu nome é Reinaldo José Lopes e sou jornalista de ciência da Folha de S.Paulo. Leio grego antigo e já ajudei a desenterrar uma preguiça gigante em Minas Gerais. Na foto acima, testo a viabilidade bélica de um artefato da cultura Rohirrim (Terceira Era da Terra-média). Bem-vindo!


Busca

Posts recentes

Categorias

Comentários Recentes

Arquivos

Blogs e sites recomendados

Outras informações

Caso você queira saber como cheguei até aqui, confira o meu Currículo Lattes.

Alguns dos meus trabalhos podem encontrados na editoria de Ciência e Saúde do G1, na revista Aventuras na História e na Folha de S.Paulo.

« Lançando luz sobre artefatos do passado | Principal | Megafauna brasileira: difícil de caçar ou dura de de mastigar? »

Peitões da Idade da Pedra

Categoria: Paleolítico
Escrito em maio 14, 2009 10:52 AM, por Reinaldo José Lopes

venusgorda500.jpg
ResearchBlogging.orgAlgumas coisas nunca saem de moda. Quem reclama da onda das mulheres-fruta talvez se console com o fato de que a preferência por moças, digamos, avantajadas já existia há 40 mil anos, a julgar pela estatueta de uma "Vênus gordinha" alemã, cuja descrição acaba de ser publicada na revista "Nature".

Como explico na reportagem abaixo, que saiu nesta manhã no G1, trata-se da mais antiga escultura produzida por mãos humanas -- e provavelmente também a mais antiga forma de arte figurativa, na qual há uma tentativa de reproduzir a realidade. (Por incrível que pareça, a arte abstrata é mais antiga; veja o post anterior.)

Mas é claro que a gente precisa qualificar um pouco a afirmação acima. "Reproduzir" qual realidade, cara-pálida? É muito difícil especular sobre a função de um objeto como a Vênus de 40 mil anos numa cultura desaparecida que não sabia escrever. Os arqueólogos não vão muito além de uma vaga proposta de "simbologia da fertilidade" (fora o fato óbvio de que havia uma argolinha no topo da estatueta, o que indica que ela provavelmente era portátil).

Mulher ideal?
Correndo o risco de especular além da conta, acho que dá para ir um pouco mais longe. Graças a outros achados um pouco mais recentes na mesma região, a Suábia (sudoeste da Alemanha), sabemos que os povos do Paleolítico Superior tinham uma capacidade de raciocínio abstrato e imaginativo comparável ao das populações tradicionais de hoje.

Eles também produziam, por exemplo, estatuetas teriantrópicas -- seres humanos com características animais, como um homem com cabeça de leão, por exemplo. Pode ser que essa seja a representação de um xamã, ou seja, um mago-sacerdote que, segundo a crença de muitos caçadores-coletores, consegue transitar entre o mundo dos humanos, dos animais e dos espíritos.

Diante dessa capacidade conceitual complexa, acho bem pouco provável que a mulher-fruta do Paleolítico representasse de fato o ideal de beleza do período, o tipo de mulher que eles considerariam "gostosona". Minha impressão é que ela está mais para uma alegoria do feminino -- uma criatura com os traços sexuais tão exagerados que serve como uma representação abstrata do papel da mulher como reprodutora. Alguma outra ideia para interpretar essa figura? Estou aberto a sugestões. Confiram a reportagem a seguir.

---------------

O pessoal não estava nem aí para a ditadura da magreza no Paleolítico, a julgar pelo físico cheinho (para dizer o mínimo) das mulheres representadas pelos artistas de 40 mil anos atrás. Essa é a idade do que parece ser a mais antiga escultura feita por mãos humanas, encontrada na Alemanha, e que retrata um corpo feminino de formas volumosas e estilizadas.

O achado foi descrito por Nicholas J. Conard, da Universidade de Tübingen, em artigo na edição desta semana da revista científica britânica "Nature". Trata-se de mais um clássico golpe de sorte arqueológico: os caquinhos de marfim de mamute lanoso (seis pedaços no total) que compõem a figura foram encontrados, em parte, espalhados durante a escavação e, em parte, peneirados de sedimentos com a ajuda de água. A figura pequenina (veja a foto acima para ter uma ideia da escala) ainda está incompleta, mas Conard conseguiu remontar a estatueta com bom grau de segurança mesmo assim.

Não é a primeira vez que a caverna de Hohle Fels, na Suábia (sudoeste da Alemanha), deixa os arqueólogos de boca aberta. Em 2003, o próprio Conard, com outros colegas, tinha apresentado o que então eram as mais antigas esculturas do mundo -- animais como cavalos e aves --, com idade estimada de 33 mil anos. Agora, eles parecem ter se superado

A mera antiguidade da estatueta é importante sem dúvida, embora haja algum grau de incerteza em relação à datação, que foi feita por materiais orgânicos -- carvão, por exemplo -- associados ao objeto. O que realmente intriga qualquer um são as características da obra, que antecipam em até 10 mil anos uma "mania" dos artistas do Paleolítico Superior, a produção de pequenas "Vênus gordinhas".

Excesso de gostosura
Em comum com essas obras bem posteriores, a "Vênus de Hohle Fels" tem as características sexuais muito exageradas, como o busto volumoso "escapando" das mãos, a barriga nem um pouco sarada e a ênfase na vagina -- o escultor primitivo se deu ao trabalho de representar até os grandes lábios da vulva.

Por outro lado, fora a óbvia espessura, os membros não têm muitos detalhes, e a figura praticamente não conta com uma cabeça -- ela parece ter sido transformada num simples anel com buraco, o que leva o arqueólogo alemão a sugerir que a estatueta era carregada. Como um amuleto, talvez?

Essa é a grande questão. Muitas teorias sobre a arte do Paleolítico apostam que as "Vênus gordinhas" são "ídolos de fertilidade", formas de cultuar a figura feminina exagerando seus atributos sexuais. Como os caçadores-coletores da Idade do Gelo não sabiam escrever -- embora, sendo humanos anatomicamente modernos, certamente fossem capazes de falar --, a ideia provavelmente continuará sendo apenas um palpite bem formulado.
--------
Conard, N. (2009). A female figurine from the basal Aurignacian of Hohle Fels Cave in southwestern Germany Nature, 459 (7244), 248-252 DOI: 10.1038/nature07995

No TrackBacks

TrackBack URL: http://scienceblogs.com/mt/pings/110014

Commentários (12)

1

"Alguma outra ideia para interpretar essa figura?"

Pode ser a cabeça de um gafanhoto ou de um louva-deus.

[]s,

Roberto Takata

Escrito por: Roberto Takata | maio 14, 2009 6:09 PM

2

"Alguma outra ideia para interpretar essa figura?"

Pode ser a cabeça de um gafanhoto ou de um louva-deus.

[]s,

Roberto Takata

Escrito por: Roberto Takata | maio 14, 2009 6:09 PM

3

"Alguma outra ideia para interpretar essa figura?"

Pode ser a cabeça de um gafanhoto ou de um louva-deus.

[]s,

Roberto Takata

Escrito por: Roberto Takata | maio 14, 2009 6:09 PM

4

Ou uma ninfa de cigarra.

[]s,

Roberto Takata

Escrito por: Roberto Takata | maio 14, 2009 8:53 PM

5

Ah, eu conheço a modelo que posou pra essa escultura!

Foi a coelinha-de-dente-de-sabre da Paleoboy de maio!

Escrito por: Igor Z | maio 14, 2009 10:29 PM

6

Reinaldo, algumas suposicoes:

1. Ao contrario de outros mamiferos e aves, me parece que os homens fazem selecao sexual (o tal do homem ser visual etc), de modo que é plausivel que a Venus, se nao representa um ideal de beleza, tambem nao corresponda a um ideal de feiura.
2. O uso de talismas é muito antigo, e o comportamento supersticioso pode ser definido para animais (lembra do Skiner e os pombos supersticiosos). Logo a teoria do talismã tambem tem pontos a favor. Mesmo hoje, as correntinhas com crucifixos ou medalhinhas sao talismas.

3. É engracado que, desculpem minhas amigas feministas, mas o comportamento supersticioso parece ser mais disseminado em mulheres (fazer simpatias etc).

(off topic: aprendi esses dias que a Igreja da Graca anda distribuindo correntinhas com pequenas pombas, representando o Espirito Santo - você jáa notou como as igrejas neopentecostais adotam praticas do catolicismo popular?). E, é claro, os colantes de automoveis tipo Deus é Fiel etc funcionam como os equivalentes a fitinhas vermelhas para espantar inveja do seu carro...

3. Quarenta mil anos atras me parece estar bem no meio de uma era do gelo. Mocas magras deviam morrer de frio ou nao ter gordura para aguentar os periodos de fome, amamentar os filhos etc. Assim, obesidade em um mundo de fome parece ser um sinal atraente. Ouvi falar que no seculo XIX mulheres preferiam homens gordos por isso ser sinal de simbolo de status social (homens magros seriam trabalhadores).

4. O culto à(s) deusa(s) da fertilidade também é bastante antigo e disseminado geograficamente.

Juntando tudo, temos: Por psicologia evolucionaria, a mulher obesa é o padrao de beleza, a deusa deveria corresponder a uma mulher bela (daí a expressao: "Ela é uma deusa!"), o talisma da deusa era o crucifixo da epoca. Todas as teorias estao corretas!

E eu aposto um kit de cervejas colorado que esse talismã foi usado por uma mulher...

O que resta por explicar é como o nosso gosto por mulheres magras se estabeleceu contra antigas tendencias de psicologia evolucionaria. Afinal de contas, quando as magrinhas comecaram a ser socialmente atraentes? Alguem sabe?

Escrito por: Osame Kinouchi | maio 15, 2009 2:59 AM

7

A se julgar pelas cariátides, os gregos antigos consideravam um corpo semiatlético para as mulheres mais atraente.

Antes, pelas representações pictóricas e escultóricas, os egípcios antigos tb preferiam as não obesas.

A iconografia babilônica também representam figuras femininas - como deusas - em estilo de IMC abaixo de 30 em geral.

Aqui estamos falando de civilizações agrícolas euroafroasiáticas da idade do bronze.

[]s,

Roberto Takata

Escrito por: Roberto Takata | maio 15, 2009 3:58 AM

8

Posso estar muito, mas muito errado mesmo, mas acho que o gosto por mulheres magras começou a predominar quando, na sociedade burguesa, o gosto pelos prazeres sexuais se tornou mais importante que o gosto por ter filhos, lá pelo final do século XIX ou começo do século XX. A exaltação desse padrão se fez mesmo ao longo do século XX, quando o visual andrógino passou a ser considerado "chique": uma mulher bastante magra lembra um homem, e ambos são tipos com quem um outro homem tem pouca probabilidade de ter filhos - ou seja, alguém com quem se pode fazer sexo sem se preocupar muito. Hoje, ter filhos é coisa de pobre: "ricos" e chiques fazem controle de natalidade (e também podem assumir a homossexualidade sem muita culpa na consciência ou medo de serem marginalizados).

Escrito por: Stephen Dedalus | maio 15, 2009 1:01 PM

9

Pessoal, muito obrigado pelas observações, em especial ao Osame ;-)

Eu tendo a achar, com base no que a gente vê de iconografia, que mulheres cheinhas realmente eram a norma de beleza até os anos 1960. Cheinhas, vejam bem, não obesas mórbidas como é o caso da nossa moçoila. Também não creio que na Era do Gelo ser obesa mórbida fosse padrão de beleza por razões adaptativas; primeiro porque o frio não era pior do que o do
Ártico de hoje (e não me consta que os inuítes curtam mulheres assim) e em segundo lugar porque mesmo o maior acúmulo de gordura em seres humanos não dá tanta proteção assim contra o frio ou a fome. Não temos essa adaptação, ao contrário de ursos e focas.

Anyway, divertidíssima a reflexão, pessoal ;-)

Escrito por: Reinaldo José Lopes | maio 19, 2009 11:01 PM

10

Devia apenas ser um amuleto para as mulheres com problemas para gerar filhos carregarem no pescoço na esperança de que a "simpatia" funcionasse e elas conseguissem engravidar logo. Um talismã da fertilidade.

Escrito por: Marie Jo Cantuaria | agosto 5, 2009 9:54 AM

11

Tem mais, a forma lembra muito como fica o corpo da maioria das mulheres depois de ter dado a luz a uma criança, com bastante gordura pelo corpo, o ventre ainda inchado, os seios cheios de leite e a vulva também maior pelo depósito de gordura. Claro que algumas sortudas não ficam assim, mas a mulher que teve um bebê pode ser comparada à uma flor que depois virou fruto e gerou um fruto.

Escrito por: Marie Jo Cantuaria | agosto 5, 2009 9:57 AM

12

Mais um pouquinho: todo mundo já leu que uma cintura fina é mais atraente para os homens e isso a tempos longínquos, pois indica que aquele ventre ainda não gerou filhos portanto é virgem e sexualmente mais atraente para os homens por isso acho brabo que mulheres cheinhas tenham sido padrão de beleza em alguma época, cheinhas como aquela figurinha lá em cima.

Escrito por: Marie Jo Cantuaria | agosto 5, 2009 10:01 AM

Comente

(Um email será necessário somente para autenticação. Comentários serão moderados por causa de spam. O seu comentário pode não aparecer imediatamente. Obrigado por esperar.)

ScienceBlogs Brasil

Buscar ScienceBlogs Brasil:

Vá para:

Publicidade
Publicidade

ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2009 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.

Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM