Cachorro-quente das cavernas?

ResearchBlogging.orgperritofeo.jpgLeio no jornalão americano “New York Times” uma proposta mirabolante para explicar a domesticação dos cães: fazer cachorro-quente. Literalmente. Peter Savolainen e seus colegas do Real Instituto de Tecnologia de Estocolmo, na Suécia, afirmam que os primeiros totós a serem criados por humanos serviram de comida, e só depois passaram a ser tratados como companheiros de caça, guardas e animais de trabalho.
É claro que a hipótese tem apelo popular, em parte por ser nojenta, em parte por ser um tanto cômica. Mas, quando olhamos os dados científicos publicados por Savolainen e companhia, é difícil evitar a impressão de que eles estão forçando um pouco a barra. Tanto que a ideia do filé de buldogue nem entra no resumo do artigo, recém-publicado na revista especializada “Molecular Biology and Evolution”.
O que Savolainen e companhia realmente fizeram foi analisar o DNA mitocondrial (aquele presente nas mitocôndrias, as usinas de energia das células) de cerca de 1.500 cães, em busca de padrões geográficos e de uma data estimada de domesticação. Segundo eles, a diversidade genética indica uma origem única, no sul da China, há uns 12 mil anos, quando a agricultura e a vida sedentária estava emergindo na região.
Beleza. Nada contra. O problema é fazer o pulo-do-gato (só pra combinar com quem quer sacanear a cachorrada) da origem no sul da China para o uso culinário dos cães. É fato que levar cachorros para a panela é comum nessa parte do mundo; também é fato que, em alguns sítios arqueológicos de lá, foram encontrados ossos de cachorro com marcas de corte. Daí a estabelecer que a motivação da domesticação foi devorar os bichos é ir um tanto longe demais.
Primeiro, “esse documento não prova nada”, como diz o Báteman: marcas de corte podem só significar sepultamento secundário, em que o corpo é descarnado antes do enterro. É preciso usar critérios mais detalhados pra provar o consumo culinário da carne. Também é preciso saber o quão comuns são esses sítios de churrasco de cachorro, e que idade eles têm. Finalmente, algum chinês pré-histórico pode muito bem ter comido seus cãezinhos no desespero, e não como algo rotineiro — em situação de guerra, nem os alemães desprezavam um salsichão canino, diz a lenda.
O que a gente sabe de outras culturas sobre o consumo de carne de cão — caso dos polinésios ou dos astecas, que curtiam fatiar o xoloitzcuintle, raça careca que você vê na foto acima — é que em geral ele é motivado ou favorecido pela relativa falta de outras fontes de proteína animal. Surgiram raças já dedicadas ao abate — motivo pelo qual o xoloitzcuintle foi selecionado para ser careca. Pode até ser que esses critérios sejam satisfeitos pelos mais antigos cães chineses, mas, por enquanto, a ideia parece especulol puro.
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Pang, J., Kluetsch, C., Zou, X., Zhang, A., Luo, L., Angleby, H., Ardalan, A., Ekstrom, C., Skollermo, A., Lundeberg, J., Matsumura, S., Leitner, T., Zhang, Y., & Savolainen, P. (2009). mtDNA Data Indicates a Single Origin for Dogs South of Yangtze River, less than 16,300 Years Ago, from Numerous Wolves Molecular Biology and Evolution DOI: 10.1093/molbev/msp195

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Discussão - 4 comentários

  1. Oi Kim,
    Vc tem toda a razão sobre o destaque dado ao motivo da domesticação. Feliz ou infelizmente, esse é o procedimento jornalístico padrão: pegar o que é mais chamativo de uma entrevista e transformar isso na coisa principal da reportagem, mesmo que tenha sido algo só subsidiário na conversa original. Abraço!

  2. Kim disse:

    (Putz, quanto autor nesse artigo!)
    Engraçado que nem o artigo nem a matéria do NYT enfocam-se muito na questão do porquê da domesticação (no artigo, são duas páginas entre 34 de biologia recheada de matemática, sem contar anexos), mas é isso que vira manchete :)
    O Igor colocou que se come carne de cavalo no Nordeste, mas tradicionalmente, não teriam comido apenas a carne de animais sacrificados? Cavalo é um bicho muito útil para ser criado para a alimentação, imagino.
    Imagino que possa ter ocorrido o mesmo com os cachorros, caso se comprove que eles eram úteis E comidos. Comer a carne de um companheiro útil ao fim de sua vida poderia até ser uma coisa honrada… bom, aí estou especulando ainda mais longe.
    De qualquer modo, muito bom post!

  3. Igor Santos disse:

    Como assim “em parte por ser nojenta“?
    Não tenha nojo do que for gostoso.
    Mas tem também aquela estória (tirei da capa da Vague Scientist) de que cachorros eram criados para transporte e comer quem puxa sua carroça não é uma boa ideia.
    Se bem que aqui no nordeste é comum comer carne de cavalo.

  4. Curiosamente, uma linha de pesquisa – também usando ADN mitocondrial – sugere que a galinha tenha sido domesticada no Sudeste Asiático, mas não para ser comida, e sim para uso ritualístico e para briga de galo. (Também porque tal uso é comum na região.)
    (Embora haja uma certa briga sobre se a galinha doméstica é monofilética ou não.)
    []s,
    Roberto Takata

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