A queda do lêmur marqueteiro?

ResearchBlogging.orgdarwinius.jpgEsta semana pode ter marcado o fim de um dos capítulos potencialmente mais constrangedores da interação entre ciência e mídia dos últimos tempos. O pomo da discórdia está aqui do lado — é Ida, ou Darwinius masillae, primatinha de 47 milhões de anos que foi trombeteado como o mais primitivo membro da linhagem de mamíferos que desembocou na gente.
Escrevi a respeito na Folha desta semana (reportagem original depois do break, pra quem se interessar). Ao que tudo indica, uma análise bem mais completa do que a feita pelos autores originais da descrição de Ida, publicada na “Nature”, mostrou que ela é só um primo dos lêmures. Nisso, porém, o dano já estava feito: circo midiático, paleontólogos comparando o bicho ao Santo Graal, aparente relaxo na revisão por pares do artigo, o diabo.
Eu acho que o caso expõe uma série de problemas meio sérios sobre a maneira como a paleontologia, e a área da evolução humana em particular, tem funcionado nos últimos tempos. A saber:
1)“Veja o filme, leia o paper”: é meio bizarro que um pacote completo de livro, documentário e site interativo sobre um novo fóssil esteja pronto antes de a descrição científica do bicho seja publicada. Desse jeito, os autores do estudo tentam controlar fortemente o que a opinião pública vai pensar do seu achado antes de a comunidade científica avaliá-lo.
2)As mazelas do embargo: supostamente, o sistema de embargo pra imprensa — eu, por exemplo, tive acesso ao novo artigo na “Nature” com uma semana de antecedência — deveria ajudar no preparo de reportagens mais fundamentadas. Não é o que acontece. O efeito principal parece ser a publicação simultânea da descoberta no mundo inteiro, aumentando apenas o impacto midiático dela.
3)Peer-review que nem o seu nariz: é difícil evitar a desconfiança de que alguns artigos são revisados com menos rigor que outros por causa do potencial de embasbacar o grande público.
4)Ciência pobre em dados: o problema de lidar com fósseis é o caráter fragmentário dos dados, por definição. Diante disso, não é incomum que pesquisadores tentem ir além do que o material fossilizado está dizendo e se apeguem a suas interpretações “de estimação” dele. E isso é péssimo para a ciência e para a educação científica, claro.
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Seiffert, E., Perry, J., Simons, E., & Boyer, D. (2009). Convergent evolution of anthropoid-like adaptations in Eocene adapiform primates Nature, 461 (7267), 1118-1121 DOI: 10.1038/nature08429
Franzen JL, Gingerich PD, Habersetzer J, Hurum JH, von Koenigswald W, & Smith BH (2009). Complete primate skeleton from the Middle Eocene of Messel in Germany: morphology and paleobiology. PloS one, 4 (5) PMID: 19492084
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Segue a minha matéria na Folha.


Um grupo independente de cientistas analisou o fóssil de primata propagandeado em maio deste ano como “o elo perdido” da evolução humana e chegou a uma conclusão não muito empolgante: o bicho é provavelmente só um primo antigo e esquisito dos lêmures.
Se eles estiverem corretos, o alarde midiático organizado em torno de “Ida, o elo perdido”, ou Darwinius masillae, como o animal foi batizado oficialmente, pode se tornar um dos casos clássicos em que a vontade de chamar a atenção do público atropelou a ciência.
Afinal, a descrição científica de Ida foi coreografada com o lançamento de documentários, sites, livros e de um evento para a imprensa no qual os pesquisadores responsáveis por estudá-la compararam o fóssil com a Mona Lisa e com o Santo Graal, afirmando que ele mudava tudo o que se sabia sobre a evolução humana.
Devagar com o andor
À época, boa parte da comunidade científica concordou que se tratava de um exemplar belíssimo. Diferentemente dos outros primatas antigos, Ida, com quase 50 milhões de anos de idade, teve seu esqueleto completo preservado –sem falar na presença de pelos e até do conteúdo digestivo do animal. Mas poucos concordaram com a sugestão de que o fóssil representava um ancestral direto dos antropoides, a linhagem de macacos que acabou desembocando no homem.
No novo estudo, que está na revista científica “Nature” desta semana, a equipe coordenada por Erik Seiffert, da Universidade de Stony Brook (EUA), compara Ida a uma nova espécie de primata extinto descoberta por eles no Egito.
Trata-se do Afradapis longicristatus, que é 10 milhões de anos mais novo que o suposto elo perdido, mas, ao que tudo indica, é um parente próximo de Ida, a julgar pela análise detalhada da mandíbula e dos dentes da espécie africana (aliás, esses são os únicos materiais preservados do bicho).
Seiffert e companhia também compararam Ida, o novo primata e outras 117 espécies vivas e extintas de primatas, levando em conta uma lista de 360 características do esqueleto. Essa comparação extensa, que não foi feita na descrição original de Ida, ajuda a estimar quais traços dos bichos realmente se devem ao parentesco e permite montar uma árvore genealógica dessas espécies.
O veredicto: Ida seria apenas uma prima muito distante do grupo que inclui o homem, estando bem mais perto dos lêmures atuais. As semelhanças superficiais dela com o grupo dos antropoides seriam explicadas por evolução convergente –ou seja, porque ambos os grupos adotaram estilos de sobrevivência parecidos.
Comedora de folhas
“São características relacionadas ao encurtamento do focinho e ao processamento de alimentos relativamente duros, como folhas”, explica Seiffert. O pesquisador aponta o que, para ele, foi o principal erro da equipe que descreveu Ida.
“Acho que eles deveriam ter feito comparações mais detalhadas com os mais antigos antropoides indiscutíveis. Eles teriam visto que traços como a fusão das duas metades da mandíbula, que não aparecem nesses antropoides [mas aparecem em Ida], não poderiam ser um elo entre Ida e eles.”
Philip Gingerich, paleontólogo da Universidade de Michigan e um dos “pais” de Ida, não concorda. “Acho esquisito que o Afradapis seja muito parecido com os antropoides, mas acabe classificado em outro grupo. A ideia de convergência parece implausível”, diz ele.
Aliás, argumenta Gingerich, “o Darwinius [Ida] conta com um esqueleto muito mais completo que o do Afradapis, e ele apresenta características adicionais de primatas avançados que não aparecem na análise”.
Embora os autores do estudo original sobre Ida estejam entre os mais exagerados ao ressaltar a importância de seu achado, a ideia de casar a descoberta de fósseis relevantes com um espetáculo midiático virou lugar-comum.
Se Ida foi ao ar num documentário no History Channel, outra fêmea, o hominídeo de 4,4 milhões de anos conhecido como Ardi, virou a estrela do canal Discovery. A diferença é que poucos contestaram a importância de Ardi.
Um dos pesquisadores que assinam a descrição de Ida, Jorn Hurum, da Universidade de Oslo (Noruega), já era conhecido por tentar atrair a atenção do público para seus achados antes de publicá-los num periódico científico.
No ano passado, com pouca verba, Hurum divulgou o achado de um réptil marinho gigante para tentar levantar fundos. Ele não respondeu às mensagens enviadas pela Folha sobre o novo estudo.

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Discussão - 5 comentários

  1. roelf disse:

    Oi Reinaldo, tudo bem? Apenas para saber, vc escreveu alguma análise crítica à época da divulgação sensacionalista de Ida? Acho que é sempre esse o momento. Agora esta desmistificação vai ficar como anedota de poucos. Uma pena.

  2. Bessa disse:

    Demais, Reinaldo, desde o princípio esse troço estava me cheirando a exagero midiático, o surpreendente foi ter sido manobrado por cientistas. Quarto poder total! Aliás, parabéns pelo livro.

  3. Sibele disse:

    Puxão de orelha também na comunicação científica não só de “meia pataca” como cheia de vícios e vieses!
    Bela explicação mesmo, Reinaldo! Parabéns e obrigada!

  4. maria disse:

    reinaldo, obrigada pela bela explicação!

  5. Tatiana Nahas disse:

    Como sempre: ótimas, Reinaldo! A matéria na Folha e o puxão de orelhas na divulgação científica de meia pataca!

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