Ceticismo bíblico, parte 2: Jó

jó.jpgDemorei tanto para continuar esta série aqui no blog que talvez vocês tenham até se esquecido do primeiro capítulo. (Para quem quiser refrescar a memória, eis o post sobre o Eclesiastes.) Grosso modo, minha intenção é demonstrar como a tradição bíblica não é monolítica: alguns textos fascinantes do Antigo Testamento apresentam uma veia questionadora poderosa, que lança dúvidas sobre alguns dos pressupostos mais caros à antiga religião israelita. Dessas obras, o livro de Jó provavelmente é a mais bela e desafiadora.
O livro de Jó é uma exploração desesperada (e às vezes desesperadora) da natureza do Mal em forma poética. Ou, para tomar emprestado o título de uma obra moderna sobre o mesmo tema, a pergunta central do livro é “por que coisas ruins acontecem com pessoas boas”.
Em certo sentido, a mera pergunta já é radical para a forma “ortodoxa” da antiga religião de Israel, ou do Levante antigo como um todo. Era generalizada a crença num sistema de retribuição moral simples, na base do um-para-um, no qual Deus ou os deuses recompensavam os bons e puniam os culpados. Ponto final.
No máximo, admitia-se que os descendentes dos justos (ou dos pecadores) poderiam ser “colocados na mesma conta” que os ancestrais, por assim dizer, o que se explica pela visão altamente coletiva das responsabilidades em sociedades tribais antigas. Além do mais, isso era visto como indício da benevolência divina: Deus “espalhava” sua benção por muitas gerações, o que comprovava sua generosidade, ou “diluía” sua raiva entre pais, filhos e netos, o que indicava sua leniência (afinal, mesmo os culpados não levavam na cabeça todo o peso da punição).
Arbitrariedade
E se alguém tão justo e correto quanto é possível ser humanamente passar por sofrimentos indescritíveis? Essa é a pergunta que o livro de Jó coloca. Como no caso de tantos livros bíblicos, não sabemos quem escreveu o texto hebraico que temos hoje, nem quando ele foi composto. Afinidades conceituais como obras proféticas tardias (como a presença da figura chamada de ha-satan, “o Adversário” — que pelo visto não é Satã ou o Capeta tal como o conhecemos, como explicarei melhor a seguir) sugerem uma versão final no período da dominação persa na Palestina, quem sabe entre 500 a.C. e 400 a.C.
Seja como for, há sinais de que o autor anônimo reaproveitou personagens e motivos muito antigos para criar sua obra filosófica. “Jó” é o nome de uma figura tradicionalmente conhecida por sua sabedoria e piedade, citada pelo profeta Ezequiel (século VI a.C.). O prólogo narrativo do livro, em prosa, tenta dar um clima arcaico, tipo “era uma vez”, à história, retratando Jó como uma espécie de sósia do patriarca Abraão: um magnata nômade, dono de uma imensa fortuna em ovelhas e camelos, vivendo na terra de Uz (nome poético para Edom, região do sul da Transjordânia).
Jó, portanto, não é um israelita, mas adora o verdadeiro Deus (muitas vezes chamado pelo epíteto arcaico de “Shaddai” no texto) e é, acima de tudo, extremamente ético, caridoso e religioso. Costuma oferecer sacrifícios a Deus em nome de seus filhos e filhas, tentando antecipar qualquer pecado que eles possam ter cometido sem que o pai soubesse. Não é de estranhar, portanto, que Deus o cubra de bençãos, dando-lhe todo tipo de riquezas e muita saúde.
E é aqui que a porca torce o rabo. Deus recebe regularmente em sua corte divina os relatórios dos “filhos de Deus” ou “seres divinos” (figuras equivalentes a anjos) sobre o estado das coisas aqui na Terra. E entre esses seres divinos está ha-satan, “o Adversário” — uma figura que atua como uma espécie de promotor público, ou chefe do FBI celestial. Deus elogia Jó para o Adversário e este responde que Jó só faz o bem porque é cumulado de vantagens pela bondade divina. Deus, então, permite que o Adversário retire de Jó tudo o que ele tem – primeiro os bens e a família e, num segundo ciclo de “aposta” entre ha-satan e o Senhor, também a saúde, deixando Jó coberto de chagas purulentas.
Poesia no meio
O engraçado é que poderíamos ter saltado diretamente desse prólogo em prosa para o epílogo, também em prosa, no qual Jó recebe de volta de Deus, em dobro, tudo o que havia perdido. A mensagem, nesse caso, seria simplesmente a de que Deus às vezes nos testa para saber se realmente praticamos o bem de forma desinteressada, mas sempre acabará nos recompensando se fizermos tudo direitinho.
O que estraga essa moral da história banal é a inserção, entre esses dois textos em prosa, de dezenas de capítulos formados por diálogos poéticos rebuscados e cheios de paixão. Esses diálogos correspondem aos debates entre o pobre Jó, arranhando suas feridas e desejando a morte, e três amigos que vêm visitá-lo e inicialmente querem consolar o coitado, Eliphaz, Zophar e Bildad. (Mais tarde aparece um quarto amigo, Elihu.) A conversa é encerrada com a aparição do próprio Deus, que também fala, de maneira exaltada e até violenta.
O ponto central desses diálogos é que o tempo todo os amigos de Jó defendem a visão tradicional sobre pecado, punição e sofrimento — dizendo “Jó, você e/ou seus filhos devem ter pisado na bola, por isso eles morreram e você está aí todo detonado” –, enquanto Jó continua afirmando que não fez nada para merecer tudo aquilo. Mais importante ainda, ele bate na tecla de que Deus é que está sendo injusto, de que Deus deixa que certas pessoas pratiquem o mal sem punição enquanto os justos sofrem. E, ao menos nesse caso, nós, como leitores, sabemos que Jó está certo, porque acompanhemos toda a aposta entre o Senhor e o Adversário no prólogo.
E quando Deus entra em cena? Será que explica tudo, finalmente? Nada disso. Numa extensa fala sobre as forças da Natureza e sobre o imenso poder necessário para domá-las exercido durante a criação do mundo, Deus apenas diz que nenhum ser humano chega perto dessa potência e, por isso, não tem direito de exigir explicações sobre como o Universo funciona. Mas o mais maluco vem agora. Depois desse discurso, Deus diz que está enraivecido contra os amigos de Jó e exige que eles façam — por meio de Jó — um sacrifício de expiação, “porque nenhum de vocês falou a verdade sobre mim, como fez meu servo Jó”. Como é que é??? Sim, é isso mesmo que Deus diz.
O texto, portanto, não tem medo de deixar pontas soltas e coisas sem explicação. É temerário tentar extrair uma moral da história de uma obra tão complexa e cheia de nuances poéticas, mas talvez o centro do que o livro de Jó quer dizer seja uma mensagem que mesmo um ateu não deveria desprezar. Sim, o Universo talvez não faça sentido; sim, talvez não haja justiça neste e em nenhum outro mundo; mas isso não desobriga os seres humanos de tentar fazer o que é certo. E a própria incerteza sobre a recompensa de fazer o que é certo é que torna a escolha correta algo com sentido.
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E não percam, em breve (sabe-se lá quando), o último capítulo da nossa saga cético-bíblica, com o livro de Ester!
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Discussão - 3 comentários

  1. Igor Santos disse:

    Reinaldo, mais uma vez é um prazer ler seus textos.
    Esse me deu até vontade de ler a Bíblia novamente.

  2. Interessante, os livros de Jó e Eclesiastes(e mesmo alguns discursos de Jesus e Buda) são citados no livro “Dúvida: uma História”, sobre a história do ceticismo. Tenho um exemplar extra, posso vender por R$ 20 reais….rs
    A moral tradicional (Deus recompensa nesta vida os justos e pune os injustos), por estar francamente em contradição com os fatos, foi complementada pela idéia de recompensa-punição em uma Vida Além-Túmulo, um conceito que não existia entre os israelitas mas parece se originar no Egito ou talvez na India (ou algo similar, tipo a ideia de reencarnação, Carma, Roda de Sansara etc).
    É interessante seguir a história da idéia de vida além-tumulo e punição em um “inferno” (o Hades judaico e mesmo helenista não era infernal): parece ser mais uma ideia tardia helenista (e portanto, tardia cristã) do que do judaismo (e primitivo-cristã), e já estava presente em Pitágoras e em cultos de mistério greco-romanos, me parece.

  3. Excelente texto, para dizer o mínimo!

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