Ceticismo bíblico, parte 3: Ester

ester.jpgA nossa série sobre os livros bíblicos que esposam uma visão de mundo relativamente próxima do que chamaríamos de ceticismo chega ao fim com uma comédia: Ester. Comédia? Precisamente, gentil leitor. O texto original hebraico de Ester é uma farsa burlesca, com piadas maliciosas, personagens exagerados e uma batalha épica do bem contra o mal que chega a lembrar as peças do brasileiríssimo Ariano Suassuna.
Com uma diferença importante: ao contrário do que vemos em “O Auto da Compadecida”, não existe deus ex machina em Ester. Aliás, o nome de Deus não aparece em nenhum ponto da obra (coisa que Ester compartilha com O Cântico dos Cânticos, poema erótico hebraico que hoje faz parte do cânone da Bíblia). Não há referências ao sobrenatural na obra, cuja autoria é anônima. Em momentos de crise, os personagens nem parecem saber rezar (embora jejuem, vistam-se de saco e se cubram de cinzas quando estão de luto).
Tudo indica que, como nossos outros livros bíblicos “céticos”, Ester é obra do período em que o Império Persa era senhor do Oriente Próximo. (Talvez a reconstrução profunda dos valores culturais israelitas nessa fase histórica explique o caráter sui generis de tais textos.) A ambientação é pseudohistórica, cheia de luxúria e fantasia: a corte do Grande Rei persa Ahasuero (provavelmente Xerxes) em Susa, na Mesopotâmia.
Ahasuero é o típico rei fanfarrão, promovendo banquetes suntuosos nos quais a ordem é encher a cara da população inteira de Susa. Em dado momento, já bebaço, o Grande Rei ordena que sua rainha, Vashti, apareça diante dos demais cortesãos “usando uma diadema real” (a interpretação dos antigos estudiosos rabínicos é que a frase quer dizer “usando a diadema e mais nada”, ou seja, peladona).
Natalie Portman avant la lettre
Vashti se recusa a pagar esse micaço e acaba simplesmente sendo retirada do posto de rainha pelo colérico Ahasuero. O qual, lógico, põe-se logo em busca de uma nova rainha. A escolhida acaba sendo a deslumbrante Ester, jovem órfã de pai e mãe que foi criada por seu parente Mordecai (ou Mardoqueu, como também se usa transliterar o nome). Detalhe: tanto Mordecai quanto Ester são judeus, membros da tribo de Benjamim cujos ancestrais foram parar na Mesopotâmia durante o exílio da Babilônia, embora não divulguem esse fato para o rei.
Tudo parece caminhar às mil maravilhas para a nossa Natalie Portman do Império Persa, se não fosse pelo fato de que Ahasuero resolveu promover um de seus cortesãos, Hamã, o agaguita (descendente de Agag, rei dos amalecitas, antigo tribo inimiga dos israelitas). Mordecai, também membro da corte, recusa-se a se curvar diante de Hamã.
E é aqui que a história ganha uma virada sombria — antissemítica, pra ser mais exato. Hamã propõe ao rei o extermínio de todos os judeus do império, uma vez que eles têm “leis diferentes das de todos os outros povos e não seguem as leis do rei”. De quebra, Hamã ainda prepara uma estaca da altura de um prédio de sete andares (o exagero ridículo é típico da narrativa) para empalar o odiado Mordecai. Ahasuero, depois de uma polpuda propina oferecida ao tesouro real por Hamã, consente que todos os judeus do império sejam executados num só dia.
Porrada
É claro que, após alguma hesitação, Ester revela sua origem judia ao rei, o malvado Hamã acaba tendo o que merece e os judeus não só escapam do massacre como matam 75 mil (!!!) de seus inimigos império afora. Final feliz, portanto. O aniversário da vingança israelita se torna o festival do Purim, espécie de carnaval judaico no qual, até hoje, o costume é “ficar tão bêbado que seja impossível distinguir entre ‘abençoado seja Mordecai’ e ‘maldito seja Hamã'”. Mas é interessante ponderar a mensagem que fica dessa historinha burlesca e sangrenta.
Em vez de “gritarem ao Senhor”, os judeus da Diáspora são instruídos a fortalecer suas redes de conexões políticas, aumentar sua coesão comunal, preparar-se de maneira prudente para o conflito, se for possível. É uma visão de mundo completamente secularizada, não muito diferente do sionismo socialista (e ateu) que guiou os fundadores do moderno Estado de Israel.
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Discussão - 5 comentários

  1. Augustus Agnosticus disse:

    Eu ia na escola dominical evangelica, ouvia todas essas estorias. Mas CLARO que todos os professores falavam apenas o fato, nunca discutiam a etica e a moral dos fatos.
    Tampouco diziam que o deus cristao aprovava todas estes atos biblicos como estupro, incesto, sequestro, etc.
    MAS UMA COISA EU TE DIGO: Tudo isso foi para o meu inconsciente. Eu vivi a vida inteira com um dilema do certo ou errado, e agora eu posso ver.
    SIM, EU POSSO VER. AGORA MEUS OLHOS FORAM ABERTOS!!!!!! EU POSSO VER QUE TUDO O QUE ME ENSINARAM FICOU MESMO LA NO FUNDO DA MINHA ALMA E EU NUNCA PUDE ACEITAR QUE O DEUS CRISTAO ERA UM SER TAO FILHA DA PUTA ASSIM!!!
    Vivi assim por quase 4 decadas. Foi foda. Ate que dei um basta. Rompi totalmente com a religiao.
    Foi um sufoco la em casa. Pais e tios atuantes na igreja batista. Minha condicao agora passou a ser fonte de VERGONHA para eles.
    Obrigado pelo diva(n)(nao tenho acentuacao).
    Obrigado pela sua releitura da biblia, que bota pra fora exatamente o que eu queria dizer todos esses anos mas nao tinha palavras. Ta na bencao, queima ele Jesuis!

  2. Oi CR,
    Obrigado pela visita. achei o Bíblia Twist engraçado, mas talvez um pouco violento demais na sátira 😉 Abração.

  3. CRDias disse:

    Muito bom o texto. O título do post me remete a um blog que explora um ceticismo bíblico irônico e sob uma ótica bastante interessante. Trata-se do Biblia Twist: a Bíblia com limão e gelo.
    É uma releitura do Velho testamento com um Q de interpretação da lógica científica.
    Saudações,

  4. CRDias disse:

    Muito bom o texto. O título do post me remete a um blog que explora um ceticismo bíblico irônico e sob uma ótica bastante interessante. Trata-se do Biblia Twist: a Bíblia com limão e gelo.
    É uma releitura do Velho testamento com um Q de interpretação da lógica científica.
    Saudações,

  5. Mark disse:

    Genial! Eu sabia, do tempo que fazia aulas de primeira comunhão — e lá se vão uns 15 anos –, que o livro de Ester presente na Bíblia é uma versão fortemente adaptada de um texto mais antigo que “sequer citava o nome de Deus” (lembro-me especialmente desta frase). Porém nunca fui atrás da história do texto, que agora você trouxe, com seu cuidado e dedicação de costume — praticamente um presente deixado no meu leitor de feeds.

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