Encouraçados fofuchos: longer, bigger and uncut

Termina o mistério dos encouraçados fofuchos, como sabe quem leu a “Folha” de hoje. Mas, como o jornal impresso é (cada vez mais) cruel com o espaço disponível, eis abaixo a versão “do diretor”, sem cortes, da reportagem sobre uma nova espécie de parente gigante e extinto dos tatus achada em terras potiguares. Ah, e Takata, NÃO é um gliptodonte 😉 Espero que gostem!
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Chamar o Pachyarmatherium brasiliense de supertatu não passa de licença poética, por mais que o bicho pareça se encaixar na descrição. Na verdade, a criatura de 100 kg é um parente relativamente distante dos tatus atuais. A espécie, recém-descoberta por paleontólogos em meio ao material arquivado num museu de Natal (RN), traz novas pistas sobre como era a fauna de gigantes do Brasil pré-histórico.
“O material foi coletado nos anos 1960 e levado para o Museu Câmara Cascudo. Parte ficou na área de exposições, parte no acervo técnico, mas ninguém se interessou por trabalhar com aquilo durante muito tempo”, contou à Folha Kleberson Porpino, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Porpino assina a descrição da nova espécie de “supertatu” junto com Lílian Bergqvist, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e Juan Fernicola, do Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia.
Em artigo na revista científica “Journal of Vertebrate Paleontology”, o trio se debruça sobre fragmentos relativamente escassos do bicho, como pedaços da carapaça, vértebras e ossos dos membros, para tentar reconstruir o P. brasiliense. Embora o gênero Pachyarmatherium já fosse conhecido a partir de fósseis da Flórida, detalhes do casco do bicho brasileiro indicam que se trata mesmo de uma espécie “nova”.
Lego
E são justamente as unidades que formam a carapaça, os chamados osteodermas (“ossos dérmicos”, explica Porpino), que ajudam a dar uma pista sobre o comportamento e o “álbum de família” da espécie.
Por um lado, os animais de hoje, como o tatu-galinha, possuem osteodermas diferenciados em certas regiões de sua couraça, formando as chamadas bandas de articulação, que dão flexibilidade à armadura. O exemplo extremo disso é o tatu-bola, cujo truque de se dobrar sobre si mesmo é famoso.
Já os chamados gliptodontes (mais avantajados entre os parentes extintos dos tatus, podendo alcançar o tamanho de um Fusca) não possuem essas bandas de articulação, o que dá a esses bichos a aparência de um pequeno tanque de guerra.
O P. brasiliense, diz Porpino, provavelmente estava entre esses dois extremos. “Não chegava a ser uma faixa flexível, mas havia uma região com algum grau de articulação, mais parecida com uma dobradiça”, afirma o paleontólogo. Embora não chegasse perto do tamanho monstruoso de alguns gliptodontes, a espécie do Rio Grande do Norte claramente era mais avantajada do que o maior tatu vivo hoje, o tatu-canastra (Priodontes maximus), cujos maiores exemplares nem chegam aos 50 kg.
Se o trio conseguiu entender a biomecânica da armadura do bicho, coisas como seus hábitos alimentares ou locomoção são mais misteriosos por pura falta de dados. O crânio (com os dentes, claro) não foi preservado. “Os gliptodontes aparentemente eram herbívoros [muitos tatus atuais são basicamente comedores de insetos]. No caso do P. brasiliense é difícil afirmar alguma coisa. Do mesmo modo, ele parece ter sido um animal fossorial [de hábitos cavadores], mas não dá para ter certeza”, afirma Porpino.
Sumiço
Da mesma maneira, a falta de uma datação precisa do material das cavernas onde o bicho foi achado, em Baraúna (RN), impede que se aponte a idade da criatura. Mas os fósseis associados com ele parecem sugerir o finzinho do Pleistoceno (a Era do Gelo), entre 40 mil e 10 mil anos atrás.
A fauna nordestina incluía então criaturas muito maiores, como preguiças do tamanho de elefantes africanos, o dente-de-sabre Smilodon populator e até primos extintos dos próprios elefantes, os mastodontes. No Brasil, são escassas as pistas que poderiam explicar o sumiço dessa fauna de gigantes, embora bichos parecidos na América do Norte tenham sido alvo de caça por parte dos primeiros seres humanos que invadiram o continente, vindos da Ásia.
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E mais, uma vez, meu profundo obrigado à bela paleoarte de Felipe Alves Elias, que recriou o bichão!
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