Jesus existiu? Parte 1: As fontes, sempre as fontes

Este é o primeiro de, quem sabe, uma série consideravelmente longa de posts sobre as pesquisas envolvendo o “Jesus histórico”, como é conhecida a reconstrução acadêmica da vida e da mensagem de Cristo baseada única e exclusivamente no que se pode extrair de historicamente confiável das fontes do século I a.C.
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Paradoxalmente, no entanto, sinto-me compelido a começar respondendo a indagação que virou moda nos últimos tempos: afinal, quem garante que Jesus existiu mesmo? Na esteira do documentário-cascata “Zeitgeist”, e na ânsia de arrumar mais uma arma contra as religiões, a ideia de que Jesus nem teria existido, sendo apenas uma lenda meio Frankenstein montada a partir dos pedaços de todas as mitologias do Mediterrâneo pelo espertíssimo apóstolo Paulo (por exemplo), tornou-se relativamente popular nos meios céticos.
Começarei defendendo aqui que, na verdade, de longe o mais provável é que Jesus tenha de fato vivido e caminhado na Palestina do século I a.C. “Numdiga, Reynolds”, brincarão alguns. “Claro, você é católico, TEM de acreditar que Jesus existiu.” Pode ser. Mas ser cristão não me impede de tentar usar o método científico de maneira desapaixonada, seguindo os passos dos principais historiadores do cristianismo mundo afora, os quais, quase sem exceção, não duvidam que Jesus tenha sido uma pessoa real. Claro, ciência não se faz por maioria de votos, e consensos científicos podem estar enganados. Mas o que pretendo demonstrar é que, usando o velho e confiável princípio da navalha de Occam, segundo o qual a explicação mais simples que consegue dar conta dos dados é a verdadeira, é que a hipótese do “mito forjado” simplesmente não funciona.
Claro, nada disso significa que, do ponto de vista estritamente histórico e científico, as pessoas são obrigadas a aceitar que os aspectos sobrenaturais do ministério de Jesus, como os milagres e a ressurreição de Jesus, aconteceram tal como narrados nos Evangelhos canônicos do Novo Testamento — ainda que, pela fé, eu aceite a realidade essencial deles. (Até porque cada um dos Evangelhos narra esses fatos de maneira substancialmente diferente da dos demais.) Meu propósito, até por uma questão de naturalismo metodológico, é mais modesto: mostrar que há fatos não-sobrenaturais, empiricamente verificáveis, que fornecem ao menos um esqueleto de fatos concretos sobre a vida de Jesus.
Evidência direta? Vai sonhando
Indo finalmente ao que interessa, vamos relativizar um ponto no qual muita gente insiste sem entender o contexto da Galileia e da Judeia do século I a.C. É aquele negócio de exigir evidências arqueológicas diretas da existência de Jesus. Enquanto não acharem uma tábua de passar com o logotipo “Carpintaria José & Jesus – made in Nazareth”, não acreditarão, e ponto.
O que esses São Tomés modernos esquecem é, em primeiro lugar, o meio social e cultural de onde Jesus, com quase 100% de probabilidade, veio. O mundo mediterrâneo antigo, como ocorria com a imensa maioria das culturas pré-modernas, era povoado por gente que não sabia escrever, que dependia de materiais perecíveis para quase todos os momentos da vida e que tinha tão poucos direitos políticos que dificilmente seria mencionado pelo nome em qualquer documento governamental (os quais, aliás, também podiam ser perecíveis).
E daí? Daí que Jesus era muito provavelmente invisível do ponto de vista arqueológico. Ele e quase toda a primeira geração de seus seguidores. Nem o famoso sepulcro onde teria ocorrido a Ressurreição escapa — não é improvável que a narrativa de um sepultamento honroso seja um acréscimo posterior, e que o corpo crucificado tenha ido parar numa vala comum, o que seria mais ou menos a prática padrão dos executores da Roma imperial.
Os invisíveis
O que vale para o carpinteiro rústico de um vilarejo insignificante da Baixa Galileia, no entanto, vale também para algum dos nomes mais importantes da Antiguidade Clássica. O fato surpreendente é que, tanto em evidência material direta quanto em evidências textuais, o que chegou até nós do mundo antigo é ridiculamente pouco. Em larguíssima medida, dependemos de relatos de segunda ou terceira mão, e os que parecem melhores e mais detalhados muitas vezes vieram séculos depois dos eventos que narram.
Um exemplo extremo? Ninguém menos que Alexandre, o Grande. Sim, temos moedas cunhadas com as fuças dele que datam do fim de sua vida ou de pouco depois — aleluia, evidência arqueológica direta, afinal! –, mas só com isso o máximo que saberíamos é que houve um rei poderoso de origem grega chamado Alexandre no século IV a.C. Superútil. Para qualquer detalhe que preste sobre a vida do sujeito, temos de nos basear no que escreveram Arriano e Plutarco — em pleno período romano, uns QUINHENTOS anos depois da época de Alexandre. Arriano e Plutarco teriam se baseado nas memórias de sujeitos como Ptolomeu, um dos generais do jovem rei. Só que essas fontes contemporâneas se perderam. Em tese, os escritores poderiam simplesmente ter inventado essas fontes — não que qualquer estudioso de Alexandre aposte nisso.
Segundo exemplo: Temístocles, o homem que salvou Atenas das mãos dos persas em 480 a.C. Escavações em Atenas acharam “cédulas” de ostracismo — a votação para exilar pessoas instituída pelos atenienses — com o nome “Temístocles, filho de Néocles”. De novo, seria apenas um nome — se não fosse pelo pitoresco relato das aventuras de Temístocles feito por Heródoto uns 40 anos depois da guerra com os persas (aliás, o mesmo período de tempo que separa a morte de Jesus do Evangelho de Marcos, o mais antigo). Heródoto é a única fonte mais ou menos contemporânea sobre Temístocles a sobreviver até hoje.
Terceiro exemplo, desta vez duplo: Leônidas e Sócrates. Aí a coisa fica REALMENTE feira. Heródoto também escreveu sobre Leônidas, com a mesma distância temporal de Temístocles. Uma única fonte literária é só o que sugere que o rei casca-grossa e cabra-macho de Esparta sequer existiu — nenhuma inscrição com seu nome chegou até nós. Sócrates deu mais sorte: são basicamente seus discípulos Platão e Xenofonte, escrevendo décadas depois de sua morte, que nos informam sobre sua vida (de maneira um bocado contraditória, aliás).
A conclusão me parece inescapável: se aplicarmos os mesmos critérios que os céticos mais extremados usam para falar de Jesus ao resto da Antiguidade, ou vamos concluir que Atenas e Esparta mal chegaram a existir, ou ficaremos eternamente presos a um agnosticismo paralisante. O caso de Jesus está longe de ser excepcional em termos de falta de dados: é, na verdade, um caso típico.
A série continua em breve com uma velha questão: existem fontes não-cristãs independentes que comprovem a existência de Jesus?

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Discussão - 18 comentários

  1. Por favor, editem a wikipedia:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Christ_myth_theory
    By the 21st century, the non-existence of Jesus had become a dead thesis within academia.[83] Nevertheless, a number of proponents continue to advocate the theory, often through the internet.[84]
    Vale dizer que esses proponentes sao teoricos da conspiracao…

  2. Gilmara disse:

    As evidências sobre a existência de Jesus são comparaveis a de outros personagems mitologicos.
    Prova de existência concreta não há, pelo menos de fontes idôneas.Apenas fontes tendenciosas afirmam que ele existiu.
    Muitos personagens historicos tem sua existência colocada em dúvida também, mas nenhum deles subiu aos céus ressucitado no 3º dia , nem realizou tantos outros feitos extraordinários sendo testemunhado por várias pessoas.

  3. Teodorio de queiroz disse:

    Em relação a pergunta inicial Jesus existiu?Se vocês descobrirem alguma prova me avisem.Porque a arqueologia só tem apresento, pelo menos o que tenho lido, marcas de um tempo onde supostamente Jesus viveu, mas não são convincentes.Estou me referindo a Jesus enquanto homem, porque como salvador da humanidade é so uma fabulação ilusória.

  4. Olá! Uma sugestão de bibliografia:
    A Origem do Cristianismo, de Jacó Abramovitch Lentsman.
    Obra soviética, traduzida por João Cunha Andrade para Editora Fulgor em 1963.
    Pode ajudar no seu trabalho.
    Saudações,
    Alexandre Linares

  5. Manzoni disse:

    Takata,
    Acho que está muito claro que a referência que o Reinaldo fez à existência de Atenas ou Esparta foi meramente retórica, não? Foi fina ironia e, portanto, centrar a crítica ao texto dele nisso é totalmente improcedente. Mas, imagino que o Reinaldo pode ou não confirmar minha interpretação.

  6. Pessoal, valeu pela presença. As dúvidas de todos vocês serão sanadas num post que entra no ar amanhã cedo. Obrigado mesmo pelo feedback e grande abraço.

  7. Weiner Assis Gnçalves disse:

    Quando a gente lê frases como estas:
    Papa Leão X: ”A fábula de Cristo é de tal modo lucrativa que seria loucura advertir os ignorantes de seu erro”.
    Santo Agostinho: ”Não creria nos evangelhos, se isso não me visse obrigado pela autoridade da igreja”.
    Papa Pio XII: “Para os cristãos, o problema da existência de Cristo concerne à fé, e não a história”.
    A verdade que não existem relatos, fora dos evangelhos, comprovando da existência de Cristo, coisa impossível de acontecer com alguém, em qualquer época que tenha realizado os feitos descritos, o pior é as contradições existentes ali, começando com a gravidez de Maria, onde deus é o pai e o filho ao mesmo tempo, passando pela transfiguração e finalizando na ressurreição, a razão nos induz a pensar que ele é apenas mais um deus-solar.
    A gente deixa de acreditar.

  8. Henrique disse:

    Olá, irei acompanhar a série ancioso! Como ateu agnóstico gostarei de ver o que você escreve.
    Se você escreveu já deve esperar isso, mas prepare-se, vai vir muito ateu ferrenho e chato aqui. Eu estarei aqui tentando desenvolver um ponto de vista crítico e ficarei feliz se aprender alguma coisa. Como ateu não acho impossível Jesus ter existido, simplesmente não acredito que tenha sido como diz na bíblia.
    A priori eu posso dizer desse primeiro post que realmente, não é de se esperar que hajam evidências físicas, porém não adianta colocar o nome de um monte de personalidades históricas e dizer “olhem! eles também eram invisíveis e hoje são aceitos!”. Primeiro que o fato que ter esses casos aceitos hoje também não implicam necessariamente que sejam verdade! É claro que é o melhor que temos com nossas evidências e por isso não devemos descartar, mas na história, diferente da ciência onde podemos refazer experimentos e realizar n medidas para depois fazermos a análise dos dados, temos que nos contentar com algumas evidências e “registros óticos”.
    O que devemos ressaltar é que mesmo no caso quando você põe para comparação com o caso de Jesus temos a grande diferença que é o que esses personagens fizeram. No caso das figuras históricas, eles realizaram grandes feitos, mas coisas que, desculpem se ofender alguém com isso mas não encontrei outro modo de falar, são possíveis e fazem algum sentido, contrário do caso de Jesus onde os relatos são de coisas que se por exemplo eu chegar e contar pra um amigo meu hoje que eu vi um cara andando sobre a água ele vai rir de mim.
    Não é especificamente para religião, mas gosto sempre de mencionar o exemplo de Carl Sagan do “Dragão em minha garagem”, eu não gosto da idéia de relatos de coisas que quando “colocadas a teste” são evasivas diriamos assim.
    Valeu! Continue escrevendo que eu irei ler!
    Abraço!

  9. Wendell disse:

    Texto joinha, vou acompanhar a série!
    Li certa vez o livro “Não tenho Fé Suficiente para ser Ateu”, e ele também fala a respeito de figuras do passado que, tal como Jesus, também carecem de provas arqueológicas mas possuem inúmeros registros históricos escritos, independente de quantos anos após tenham sido feitos.
    Acho interessante a abordagem desse tema sem os argumentos rasteiros de documentários como o Zeitgeist, que são comparáveis aos spams da vacina contra H1N1, haha.
    Abs!

  10. “A conclusão me parece inescapável: se aplicarmos os mesmos critérios que os céticos mais extremados usam para falar de Jesus ao resto da Antiguidade, ou vamos concluir que Atenas e Esparta mal chegaram a existir, ou ficaremos eternamente presos a um agnosticismo paralisante.”
    Alto lá, Reynolds!
    1) Ninguém duvida que Galiléia existiu. A comparação de Jesus – uma figura supostamente histórica – com uma cidade da qual temos as ruínas e estensos registros (só ir a Atenas atual e ver lá a acrópolis) não procede.
    2) Há dúvidas a respeito da existência de Páris, Odisseu, Helena – isso não faz com que a existência de Atenas, Esparta e cia. fique na berlinda. Ou que a Inglaterra não existiu no passado pelas dúvidas sobre a existência de um Arthur real.
    3) Há extensa iconografia de Alexandre, o Grande, contemporânea ao imperador macedônio. Os diários astronômicos babilônios mencionam a morte de Alexandre. Mas digamos que fossem apenas as tais moedas. Sim, elas seriam úteis para estabelecer que provavelemente Alexandre existiu. Elas servem como confirmação independente de que as narrativas de Xenofon e Plutarco não são totalmente fantasiosas.
    4) A melhor comparação seria em relação a Arthur, Beowulf e cia. p.e. Ou a Siddhartha Gautama, Noah, Moshê…
    5) “agnosticismo paralisante”: até tu?
    []s,
    Roberto Takata

  11. Vinícius Policarpo Quintão disse:

    Boa noite Reinaldo, cá estou novamente.
    Bom, primeiramente gostaria de dizer que a opção pelo “se ele não existiu esses outros todos também não existiram” é totalmente aceitável, uma vez que os parâmetros de reconstrução da história são por vezes excessivamente crédulos, por vezes um tanto quanto “dedutivos” (mais ou menos no estilo denominado pixelização para o aumento da escala em imagens). Uma coisa, de fato, é deduzir que jesus, ou Jesus, existiu tanto quanto Alexandre. Outra coisa é deduzir que ele ressucitou tal qual deduzir que Tróia fora atacada em função de uma única mulher (este exemplo em seu livro atingiu um raciocínio fantástico!).
    Gostariade de fazer algumas perguntas:
    1) Se Jesus, e não jesus, de fato existiu, seus feitos causariam um enorme alvoroço, e seriam lembrados através de registros de outros indivíduos, acredito. Imagino que, mesmo com a escassez de inidivíduos letrados, boa parte deles se postaria a relatar o fato. Inclusive seus agressores, amaldiçoando-o ou tratando-ou tal qual um “demônio do mundo antigo” ou qualquer outra entidade do imaginário coletivo.
    2) A existência de figuras como Alexandre, Hércules, Ptolomeu, Perseu e outros, pode ser vista como mera idealização de senhores gloriosos e ícones de outras virtudes, não concorda? Uma vez que as provas de sua real existência ou se perderam ou são insubstânciais (dadas as condições temporais dos relatos, mas não só por isto).
    O que acha?

  12. Alaor Neto disse:

    Reinaldo, parabéns pela iniciativa! Estou no aguardo das próximas partes, muito interessante!

  13. Reinaldo, obrigada pela série desde já!
    Beijo grande

  14. Pan disse:

    isso tudo me lembra a frase que tinha numa das minhas provas de lógica na faculdade de filosofia: “GRAÇAS A DEUS PELA LÓGICA”. amei ^^

  15. Rafael Machado disse:

    Parabéns, vou acompanhar a série com atenção, gostaria de lhe fazer as seguites perguntas:
    1) Em relação ao documentário “Zeitgeist”, você já o comentou seja aqui seja no outro blog que tinha, porque é o típo do documentário que fala o que você quer ouvir ou não, citando referências que são muito difíceis de se procurar.
    2) Em relação aos escritos do Mar Morto, há muita teoria da conspiração em cima dele, por acaso você vai tratar dele?
    Forte abraço,
    Rafael Machado

  16. Robson disse:

    Ótima iniciativa e consequentemente ótimo tema. Aguardo ansiosamente a continuação.

  17. Gabriel disse:

    Acompanharei a série, como já acompanho suas postagens com frequência. Também sou cristão (tradicionalmente evangélico, mas deixei essa alcunha de lado por motivos diversos), e imagino que muito tenha se fantasiado a respeito de Jesus.

  18. Luís Brudna disse:

    Parabéns pelo texto. Vou acompanhar a série.
    -
    Pensando no futuro.
    O que será que os historiadores do futuro pensarão sobre as ´Aparições da Virgem Maria´? Considerarão elas como históricas? Para (alguns) cristãos essas aparições são reais e indubitáveis, e possuem sólidas circunstâncias históricas. Essas aparições também terão o caráter de ´invisibilidade histórica´. Mas serão elas menos verídicas?
    Sei que estou entrando em um ponto sutil e em um degradê de veracidades.

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