Jesus existiu? Parte 3: Um conclave nada papal

O animado debate que andou rolando nos comentários da série de posts sobre o Jesus histórico (veja aqui e aqui) ajudou a reforçar a importância dos pressupostos metodológicos. Apesar do bate-papo interessantíssimo entre os visitantes, senti que a coisa tomou um rumo um tanto lateral, justamente porque eu não deixei muito claro como, metodologicamente, estou abordando o problema.
Nesse ponto, acho muito útil e divertida a parábola do “conclave não-papal”, bolada pelo historiador americano John P. Meier, autor da série de livros “Um Judeu Marginal” (sobre vocês-sabem-quem). O cenário é o seguinte:
Pegue quatro especialistas na história das origens do cristianismo: um católico, um protestante, um judeu e um agnóstico. (Tá, eu sei que lembra aquelas piadas do tipo “um padre, um pastor, um rabino e um ateu entram num boteco”. Foco, gente, foco.) Parta do princípio de que todos eles são especialistas competentes e honestos, que se esforçam para evitar os vieses inerentes a seus próprios pontos de vista. Tranque esse negada toda na biblioteca da Faculdade de Teologia de Harvard, provavelmente a mais bem suprida do mundo. Deixe os sujeitos a pão e água e só permita que saiam quando produzirem um documento de consenso sobre a vida e os feitos do Jesus histórico.
Meu ponto de vista é o do conclave não-papal, porque estou falando de arqueologia e história, e não de fé (embora eu, pessoalmente, seja uma pessoa de fé). Se o documento é de consenso, muito provavelmente o católico e o protestante terão de abrir mão do que só a fé pode lhes ensinar (como a Ressurreição, por exemplo), para chegar a um retrato MÍNIMO de Jesus que leve em conta todas as evidências disponíveis para um observador honesto e de boa vontade.
O que estou querendo dizer é que as discussões sobre a inspiração divina da Bíblia, sobre a Ressurreição ou mesmo sobre o aspecto sobrenatural dos milagres de Jesus são IRRELEVANTES neste blog — que é um blog laico, embora de maneira nenhuma hostil à fé. Meu interesse é pelo que pode ser compartilhado por todos nós, crentes e não-crentes, como empiricamente verificável. Ademais, o que estou postando não é, obviamente, a opinião da minha linda cacholinha loura. É, sim, o consenso científico e historiográfico (ou o mais perto do que se pode chegar dele) entre os principais especialistas no estudo do Jesus histórico mundo afora. That clear, gentlemen? 😉
Se der, respondo as dúvidas mais pontuais do pessoal num futuro post, mas acho que isso é suficiente pra gente continuar. Mais posts metodológicos virão. Até breve.
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Discussão - 12 comentários

  1. Leonardo disse:

    Pra qualquer maluco que queira dizer que Jesus não existiu, não basta exigir evidências históricas desproporcionais (que ninguém exige pra acreditar na existência de muitos outros), mas é preciso pensar ainda em COMO Jesus passou a ser conhecido se ele não existiu. E aí é que começa a ladainha: as conspirações que inventam pra explicar o conhecimento a respeito de Jesus são um delírio muito mais sem raízes e evidências históricas do que a própria existência de Jesus criticada.

  2. Kentaro,
    Meus questionamentos foram inspirados pelos comentarios do B.O.B. no blog do Reinaldo. Voce conhece o B.O.B.? Ele é um cético medianamente respeitavel? Ele me pareceu bastante articulado para ser apenas um comentarista eventual. Ele tem um blog?
    Takata,
    Desculpe citar voce, mas acho que, se Shermer nao escapou do conspiracionismo dos ceticos do clima, em principio nenhum cetico está imune de cair em conspiracionismos quando os mesmos se alinham com sua ideologia:
    “Mas o ponto central é que, só com esses dados, nós só saberíamos que Alexandre existiu ” – Mas a questão aqui é exatamente mostrar que uma figura supostamente histórica provavelmente existiu.
    Então que tal Robert in the Hood?
    []s,
    Roberto Takata
    PS: Acho que no futuro Robert Takata será uma figura mitica. Colegas já comentaram que é impossivel para um ser humano estar onipresente em todos os blogs e jornais, twitar 24 h por dia, ter 30 blogs, etc, e que Takata é o pseudonimo de um grupo de escritores, tipo Bourbaki. Eu nao discuto a existencia historia de um tal Roberto Takata que conheci no Ewclipo, mas o Takata presencial nada tem a ver com o Takata internetico. Takata, prove que voce existe!

  3. Ateísmo sim, conspiracionismo não!
    Para meus amigos blogueiros de ciência ateus que estão querendo se tornar conspiracionistas pseudocientíficos (muito triste isso!). Se vocês acham que a Wikipedia está errada, por favor, tentem editá-la:
    List of conspiracy theories
    [edit]
    Bible conspiracy theory
    Bible conspiracy theories posit that much of what is known about the Bible, in particular the New Testament, is a deception. These theories variously claim that Jesus really had a wife, Mary Magdalene, and children, that a group such as the Priory of Sion has secret information about the bloodline of Jesus, that Jesus did not die on the cross and that the carbon dating of the Shroud of Turin was part of a conspiracy by the Vatican to suppress this knowledge, that there was a secret movement to censor books that truly belonged in the Bible, or the Christ myth theory, proposed for example in Zeitgeist, the Movie as a means of social control by the Roman Empire. This is portrayed in the book The Da Vinci Code.
    Como detetar um denialista:
    How to be a denialist Martin McKee, an epidemiologist at the London School of Hygiene and Tropical Medicine who also studies denial, has identified six tactics that all denialist movements use. “I’m not suggesting there is a manual somewhere, but one can see these elements, to varying degrees, in many settings,” he says (The European Journal of Public Health, vol 19, p 2).
    1. Allege that there’s a conspiracy. Claim that scientific consensus has arisen through collusion rather than the accumulation of evidence. Diga que o consenso historigrafico foi influenciado por uma conspiração dos religiosos.
    2. Use fake experts to support your story. “Denial always starts with a cadre of pseudo-experts with some credentials that create a facade of credibility,” says Seth Kalichman of the University of Connecticut. Cite cientistas e filosofos ateus que não são experts em história da Palestina ou história das religiões. Use a autoridade deles para apoiar idéias idiosincráticas.
    3. Cherry-pick the evidence: trumpet whatever appears to support your case and ignore or rubbish the rest. Carry on trotting out supportive evidence even after it has been discredited. Mostre os paralelos entre a vida de Osiris e Jesus, mas ignore os paralelos entre a vida de Newton e Pitágoras… E dado que Pitagoras não existiu (sic) conclui-se que Jesus não existiu. Fale que os evangelhos foram escritos no final do século II, que Paulo existiu mas Pedro não, que Pedro existiu mas Tiago o irmão de Jesus não, ou que Tiago existiu mas não tinha irmão…
    4. Create impossible standards for your opponents. Claim that the existing evidence is not good enough and demand more. If your opponent comes up with evidence you have demanded, move the goalposts. Para cada evidencia que os historiadores apresentarem, exija outras mais rigorosas. Dado que existem mais evidencias da existencia de Sherlok Holmes e Papai Noel, conclua com uma lógica irrefutável que Jesus e Sócrates não existiram.
    5. Use logical fallacies. Hitler opposed smoking, so anti-smoking measures are Nazi. Deliberately misrepresent the scientific consensus and then knock down your straw man.
    Dado que os criacionistas acreditam que Jesus existiu, segue-se logicamente que Jesus não exisitiu…
    6. Manufacture doubt. Falsely portray scientists as so divided that basing policy on their advice would be premature. Insist “both sides” must be heard and cry censorship when “dissenting” arguments or experts are rejected. Afirme que o “outro lado” (a Teoria do Cristo Mitico) merece crédito, é cientifica e deve ser divulgada igualmente, que deve se ter um ensino plural, “teach the controversy” etc…
    Seria cômico se não fosse trágico. Estou insistindo nesse ponto, pois vejo grande risco do movimento cético cair nas garras do irracionalismo conspiratório pseudocientifico. Por favor, Kentaro Mori e Takata, salvem o movimento cético denunciando a teoria conspiratória do Cristo Mítico!

  4. enjolras disse:

    hehe, pois é, usei o “ressuscitar” de propósito mesmo. 😀
    Ok, sei como é que é. Vou aguardar então, valeu pela atenção.
    Abraços

  5. Oi enjolras!
    É adequado RESSUSCITAR um post sobre Jesus, né 😛
    Falando sério, a série vai continuar, só não sei quando. São posts trabalhosos e longos, e o tempo anda escasso.
    Abração,
    R.

  6. enjolras disse:

    ops, corrigindo ali: *ressuscitar 😀

  7. enjolras disse:

    Reinaldo, desculpe resuscitar um post antigo, mas como faz tempo que não escreve sobre o assunto, queria saber:
    os artigos desta série acabaram?

  8. Joao Sborchia disse:

    Desculpe, estou chegando agora e peguei o bonde ja andando.
    Ja ouviram falar de Sherlock Holmes, o famoso detetive ingles?
    Pois eu visitei o museu Sherlock Holmes instalado na Baker Street 221-b, em Londres.
    Esse é o endereco dele em todos os romances.
    Existem “objetos pessoais” dele!
    Vivo na Inglaterra e, muitos dos meus amigos ingleses o consideram um herói nacional e acreditam piamente que ele tenha existido e nao apenas saido da mente criativa de Sir Arthur Conan Doyle.

  9. Abelmon disse:

    Man, Sei que você está a preparar o novo post sobre este estudo. Desculpe-me se adianto algo assim…
    Acredito que se o Flávio Josefo foi o historiador responsável por retratar a história do povo judeu da época, seria bem normal encontrar algo sobre Jesus. E de fato, já vi na internet que alguns apontam isto, e também sei que outros apontam que os fatos sobre Jesus foram “enxertados” posteriormente, mas sem nenhuma evidência, apenas elocubrações dos que defendem o seu ponto de vista. O que é correto afirmar é que nos registros de Flávio Josefo é citado um Jesus histórico (ponto).
    O que se pode refutar ou confirmar é se os registros de Flávio Josefo foram alterados ou não e como comprovar isso ou qual o motivo da desconfiança etc. Isto seria interessante aprofundar.
    ………………………………………………….
    Fugindo ao estado laico deste blog, eu sei que Jesus continua a operar por aí milagres em seu próprio nome, e que as parábolas como a do “filho pródigo” e do “bom samaritano” são eternas e inspiraram desde teólogos como Santo Agostinho, Madre Teresa de Calcutá a Martin Luther King. Dê um pulo no meu blog depois. Abração.

  10. B.O.B. disse:

    Linda observação do colega do Idéias Cretinas.

  11. Cretinas disse:

    Reinaldo, eu me pergunto se esse “consenso mínimo” é possível e, se for, se é significativo. Porque no caso de uma figura como Jesus de Nazaré, o que se tem de “hard facts” é tão pouco que qualquer descrição logo se torna tingida de interpretação e toda interpretação, de juízo de valor… Digo, concluir que havia um curandeiro itinerante na Palestina que vivia aos berros de “arrependei-vos, o fim está próximo” e que acabou pregado numa cruz não é lá muito lisonjeiro, certo?

  12. B.O.B. disse:

    Reinaldo,
    Novamente, parabéns pelo post. E em relação à sua isenção enquanto cientista, é importante lembrar que o debate do post passado se dá inicio exatamente por você ter considerado o fato de Jesus ter andado sobre as águas como algo da ordem do não-verificável — algo que, sinceramente, parece inclinar-se numa fantasiosa noção de que andar sobre as águas é algo possível (ainda que marginalmente) dentro do universo físico em que vivemos.
    Posto isso, tenho certeza absoluta da sua seriedade como cientista. Eu trouxe esse deslize para o debate exatamente por acreditar que não é incomum esse tipo de colocação mesmo em textos científicos e que tal lógica pode sim ser repensada.

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