Isenção jornalística é o esculete da nonna

Aviso: as opiniões expressas neste post são de exclusiva responsabilidade da minha pessoa física e não representam a linha editorial do veículo para o qual trabalho. Peço desculpas aos leitores do blog pelo tema um tanto off-topic, mas estava entalado faz tempo com isso.
Fazer jornalismo científico é divertidíssimo, mas às vezes exige um estômago de leão para as histerias coletivas alheias. Comecei a cobrir ciência em 2001, meu último ano de faculdade, e passei seis anos acompanhando e reportando os estudos sobre mudanças climáticas nas principais revistas científicas do mundo. Em praticamente todos os trabalhos publicados, a mensagem era um bocado clara: as incertezas eram consideráveis, havia muita coisa ainda a compreender, mas a seriedade do aquecimento global provocado pelo homem era indiscutível. A mesma mensagem durante seis anos, gentil leitor. Dou um doce pra quem adivinhar quantas vezes esse tipo de notícia foi parar na primeira página nesse período. (Dica: dá pra contar nos dedos de uma mão.)
Então chegou 2007, o ano em que um novo relatório do IPCC, o painel climático da ONU, veio a público. Note bem: o IPCC não produz pesquisa original, apenas empacota dados alheios. O que o relatório do IPCC dizia era apenas o que a revisão da literatura deixava claro: o papel preponderante da humanidade nas mudanças climáticas, e a aparente seriedade do fenômeno.
E aqui começa a histeria coletiva, fase 1. Do ponto de vista da ciência, rigorosamente NADA havia mudado, mas a linguagem um pouco mais forte do que o usual no texto do IPCC fez com que, de repente, a mídia dorminhoca acordasse para o tema das mudanças climáticas. Inacreditavelmente, por um desses passes de mágica do Zeitgeist, do espírito do tempo, todo mundo resolveu falar do apocalipse climático.
Lembro que, na época, eu e meus colegas do jornalismo científico nos entreolhamos incrédulos. Será que todo mundo tinha passado a década sob efeito de tranquilizantes, menos a gente? Recordo ter perguntado a mais de um entrevistado se a overdose do tema não levaria a um anestesiamento do público, ou mesmo a uma reação futura que acabaria sendo contraproducente para a necessidade de agir contra o problema.
Cansaço besta
Batata: passados meros dois anos, o planeta estava tão cansado da cantilena sobre salvar o planeta que, desde o fim de 2009, estamos vivendo a era de ouro dos negacionistas do clima, o pessoal que não crê na existência do aquecimento global ou, pelo menos, nega que o homem tenha tido algo a ver com isso.
Note bem: quando se trata de ciência, mais uma vez, NADA mudou. Rigorosamente NADA. O chamado “Climagate”, como ficou conhecida a divulgação de e-mails roubados por hackers dos servidores da Universidade de East Anglia (Reino Unido), só mostrou, como bem disse nosso chefe supremo Carlos Hotta, que cientistas também são humanos. É claro que os climatologistas também se exasperam com as incertezas do seu trabalho; é claro que eles ironizam seus opositores e, às vezes, ficam doidos para cobri-los de sopapos; é claro que isso pode contaminar o processo de revisão por pares de artigos científicos. Se você achava que esse tipo de coisa não acontecia na ciência, é porque esposava uma visão higienizada e romântica de uma disciplina que é humana, demasiado humana.
E-mails mal educados à parte, o conteúdo do Climagate não muda a robustez dos dados sobre o aquecimento global causado, ao menos em boa parte, pela ação humana. Os cientistas negacionistas — muitos dos quais a soldo da indústria dos combustíveis fósseis — não têm nada nas mãos, por mais que balbuciem hipóteses sobre atividade solar e raios cósmicos. Mesmo assim, é impressionante como leigos negacionistas passaram a fazer muito, muito barulho. Supostamente, o jornalismo científico não cumpriu seu papel fundamental de “informar com isenção”, “ouvir os dois lados”, “publicar o contraditório”.

Bullshitando

A esse tipo de argumento eu digo: bullshit, negão. Titica de vaca. Isenção jornalística é o esculete da nonna. Em ciência, nem todas as opiniões nascem iguais. O meu dever não é abrir espaço para toda e qualquer opinião, mas sim para a que estiver apoiada pelos melhores fatos. Claro, há que se fazer com a máxima humildade possível, diante da natureza provisória dos dados, e da eterna possibilidade de que novas análises produzem uma reinterpretação radical deles.
Mas, enquanto isso não acontece, seria covardia, canalhice mesmo, fingir que o que dizem negacionistas e climatologistas tem peso igual. NÃO TEM. Nem no quesito teoria da conspiração os negacionistas conseguem dar uma bola dentro. É sempre a mesma ladainha sobre os “grandes interesses” de Al Gore e companhia, a suposta vontade de manter os paises em desenvolvimento sem chegar ao Primeiro Mundo.
É só parar pra pensar por 30 segundos pra perceber que o interesse de Gore de cobrar por palestras é infinitamente mais fraco do que o poderio da indústria de combustíveis fósseis. Quanto ao suposto complô dos países ricos, que tal prestar atenção na imensa choradeira de todos eles, em especial dos EUA, pra cortar emissões de carbono.
Isenção, “imparcialidade”, é covardia quando os fatos estão claros. Esse crime eu não quero que paire sobre a minha consciência. Se outros se sentem à vontade com ele, é de se lamentar.
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Discussão - 19 comentários

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  2. Tobias disse:

    Olá Reinaldo !
    Achei uma entrevista bacana e textos que podem ajudar sobre este tema no site do NPR.
    A dificuldade de precisão sobre os resultados dos estudos é apontada pela entrevistada como um dos motivos de dificuldades de ações efetivas.
    Segue a página: http://www.npr.org/templates/story/story.php?storyId=126985040
    Abraço
    Tobias V. de Moraes

  3. Anderson Arndt disse:

    Olá Reinaldo,
    sugiro a leitura de uma carta assinada pelos membros da US National Academy of Sciences em que eles dão uma “voadora no peito” daqueles que criticam os trabalhos dos cientistas em relação às mudanças climáticas por causa de questões pessoais ou dogmas.
    A carta intitula-se “Climate Change and the Integrity of Science” e está publicada na revista Science, volume 328 de 7 de maio, página 689-690.

  4. Vinícius Policarpo Quintão disse:

    Bem vindo de volta ao seu sítio Reinaldo, já estavam a invadir e reclamar uso capião, e garanto que não participei do motim…hehehehe
    Bom, pra variar, ótimo artigo! Aproveito pra dizer que a baderna do aquecimento global é muito nítida, só não vê quem olha pro outro lado. Pra mim estes negacionistas são como os que também refutam Darwin, com “aqueles argumentos”.
    Prezado Luis Guilheme,
    1) Gráficos de mudança do clima no passado são bem parecidos com o do presente, o que descartaria a tese “antropogênica”, ainda que a Terra estivesse a aquecer.
    Semelhança entre gráficos? Certeza que quer assumir isso como base científica? Cuidado hein, cenários diferentes e influencias diferentes podem ocasionar variáveis de comportamento semelhante, mas não necessariamente conclusões semelhantes.
    2) CO2 provoca aquecimento local. Todo mundo já estudou o efeito estufa e pode reproduzi-lo em casa.
    O que acontece se as ilhas de emissão se dispersam rapidamente pelo planeta? Uma onda de efeitos locais dispersos, em meu entendimento, poderia representar um efeito coletivo de massa, global e não mais local.
    Bom, sou leigo como muitos, mas ainda acredito que é discutindo que a gente se entende. E sem desespero, se tantas espécies já se extinguiram ao longo das “piscadelas geológicas”, que mal há no fato de nosso embarque estar se aproximando?
    Interessante seria um estudo de macrociclos climáticos, agora, não me pergunte sobre métodos para tal, no momento estou há alguns anos-luz deste ramo da ciência.
    Abração!

  5. Ed disse:

    Opinião com base mais empírica impossível.
    Abraço.

  6. Eli Vieira disse:

    @ Luís Guilherme
    Este documentário é apenas uma peça publicitária.
    Veja os comentários da postagem “Aquecimento Global: salve-se quem puder!”, no Evolucionismo:
    http://evolucionismo.ning.com/profiles/blogs/aquecimento-global-salvese

  7. Eli Vieira disse:

    Muito bom.
    A parte mais deprimente disso tudo é que os políticos parecem ouvir em primeiro lugar o jornalismo.
    O problema não é o jornalismo. Nós aqui, ignorantes que somos em várias áreas, confiamos no trabalho jornalístico para ficar sabendo das notícias dessas áreas.
    Se a maior parte dos jornalistas científicos decidem tratar conclusões fundamentadas de uma pesquisa científica progressiva como apenas uma “opinião” num espaço de opiniões possíveis ou defendidas, o valor jornalístico de levar a verdade ao leitor é simplesmente abandonado.
    Engraçado que em áreas como a denúncia de crimes, geralmente o interesse em “ouvir o outro lado” é bem diminuído.
    Bons jornalistas como o Reinaldo têm sobretudo uma boa noção de natureza humana: sabem de nossa propensão ao viés da confirmação, sabem da preguiça de procurar boas fontes e boas evidências antes de tirar conclusões.
    Negacionistas são todos iguais: não precisam levantar a bunda da cadeira, só precisam dizer “isso tudo aí que você diz, que impacta minha vida, é falso”.
    ‘Afirmacionistas’ são todos diferentes, e as afirmações da ciência são mais diferentes ainda.

  8. Luís Guilherme disse:

    Não sei se você assistiu ao documentário “The Great Global Warming Swindle”, food for thought. Um amigo meu (João Cláudio Toniolo) fez um trabalho de Geografia sobre as controvérisas do aquecimento global antropogênico, tanto na ciência geológica quanto na cobertura da mídia.
    Não gosto de teorias da conspiração, mas — como você — acredito que o “orgulho” humano pode levar a delírios de onipotência. E acho que é o que ocorre com o tema do aquecimento global. Estou mais para os céticos, considerando os estudos que vi. Agora fujo do assunto, mas queria dizer minhas razões:
    1) Gráficos de mudança do clima no passado são bem parecidos com o do presente, o que descartaria a tese “antropogênica”, ainda que a Terra estivesse a aquecer. O link abaixo pode até vir de uma fonte “extremely biased”, mas apresenta referências científicas e dados concretos que podem ser vistos.
    http://www.worldclimatereport.com/index.php/2008/02/11/a-2000-year-global-temperature-record/
    2) CO2 provoca aquecimento local. Todo mundo já estudou o efeito estufa e pode reproduzi-lo em casa.
    3) Os pontos de medida de temperatura da Terra sofreram, nos últimos anos, adensamentos urbanos. Os pontos de medida em áreas inabitadas mantiveram o nível ou até registraram um resfriamento da temperatura média.
    (não tenho a citação aqui, mas é do trabalho do meu amigo João Toniolo, que já pedi uma cópia)
    4) Isso me leva a concluir que houve aquecimento local antropogênico em torno dos pontos em que a temperatura da Terra é medida.
    Esse não era o tema, mas trago um argumento nada conspiratório e firme contra a ideia de aquecimento global antropogênico. Abraços!

  9. Desireê disse:

    Chorei ao ler isso. Lindo demais! Dentre todas as agruras do jornalismo, essa baboseira da “imparcialidade” era uma das que mais me chateavam. E a omissão, ou pior, a responsabilidade de falar um monte de besteita e tapar o sol com a peneira? Quem põe isso na conta?
    Você brilha.

  10. Paula disse:

    Pena que esse desabafo não cabe só na “imparcialidade” climática. Também cabe na “imparcialidade” da vacinação, na “imparcialidade” política, na “imparcialidade” da indústria farmacêutica, de energia fóssil, de defensivos agrícolas ou de sementes transgênicas. Pena que na busca de ser “imparcial” nosso jornalismo deixe de ser opinativo e crítico e passe a ter “dois pesos e duas medidas”, considerando lados claramente menores e menos representativos da mesma maneira que considera a opinião de especialistas e estudiosos do tema.

  11. Carlos Hotta disse:

    Perfeito! O que me preocupa é quão exceção vc é no jornalismo.
    Agora, chefe supremo é o esculete da nonna!

  12. Luiz Bento disse:

    Alguém manda esse texto pro Luis Nassif, por favor. Fantástico.

  13. Clap, clap, clap.
    Grande texto.

  14. Gabriel disse:

    O que me pareceu mais estranho foi que eu já ouvia sobre efeito estufa desde criança, e sempre foi certo que era causado por nós, principalmente pela queima de combustíveis fósseis.
    Cientificamente não houveram surpresas, apenas a triste constatação que nós fudemos com tudo.

  15. Claudia Chow disse:

    Lindo o texto Reinaldo! Faço minhas as palavras do Igor! Se todos jornalistas fossem igual a vc q maravilha seria ler noticias!

  16. Luís Brudna disse:

    Perfeito.
    Ciência não é enquete.

  17. Alessandra disse:

    bravo! Tô levando o texto pra turma de jornalismo amanhã! bjs

  18. Igor Santos disse:

    Exato. Ciência não é justa, é apenas certa. Não busca balanço, busca verdade.
    Reinaldo, se todos os jornalistas fossem sensatos como você, sem dúvida nosso trabalho de divulgação seria um passeio no parque.

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