Guia arqueologicamente incorreto da história do Brasil

narloch.jpgAnda bombando há tempos nas listas dos mais vendidos o livro “Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, de autoria do curitibano Leandro Narloch, amigo e colega de longa data. O Narloch já encomendou e editou textos meus, por exemplo, nas revistas “Superinteressante” e “Aventuras na História”. O que me põe numa posição incômoda: após ler o livro e encontrar algumas escorregadas grandes sobre os temas que eu trato aqui no Carbono-14, corro tanto o risco de perder o amigo quanto, quem sabe, alguns futuros frilas se me dispuser a criticar o conteúdo da maneira devida.
Bem, antes de fazer este post, comuniquei ao Narloch a minha intenção, de maneira a não pegá-lo desprevenido. Aproveito agora para convidá-lo a um post convidado aqui no blog caso queira contra-argumentar sobre o que escrevi aqui. De qualquer maneira, o comichão após ler o livro se tornou forte demais, porque acho perigoso os leitores comprarem certas afirmações do texto pelo seu valor de face. Vira desinformação. E não me senti à vontade para cruzar os braços.
O livro
Para quem não sabe, o “Guia” é dividido em capítulos temáticos — “Negros”, “Escritores”, “Samba”, “Comunistas” e muito mais — cujo objetivo declarado é desmontar os heróis de papel que a historiografia tradicional criou. A ideia é demolir os mitos históricos que não se sustentam e construir uma história do Brasil “sem mocinhos”.
Meu problema é justamente com o primeiro capítulo, “Índios”, no qual as informações trazidas pela arqueologia e disciplinas conexas mostram que o quadro traçado pelo Narloch é enviesado, quando não factualmente errado. Vamos por partes, como diria Jack.
“As tribos não apoiavam os colonos por alguma obediência cega. Seus líderes, que também participavam das bandeiras e das batalhas, estavam interessados na parceria para derrotar outras tribos.”
A frase faz parte da argumentação de que boa parte da destruição de tribos indígenas teria se dado pelas mãos de outros índios. Os portugueses, bem menos numerosos, teriam precisado oferecer vantagens para seus aliados indígenas, numa colaboração mais ou menos igual.
OK, não há como discutir a intensão participação indígena nas bandeiras, digamos. O problema é a mistureba de períodos e situações coloniais, como se tudo fosse a mesma coisa. Mesmo no início, as tribos só quiseram ajuda portuguesa porque estavam cientes da desproporção de poderio tecnológico entre os europeus e elas.
No entanto, conforme os núcleos coloniais foram se fortalecendo e ficando mais numerosos, a ajuda se tornou dispensável — tanto que os tupiniquins de São Paulo, antigos aliados, foram esmagados quanto ameaçaram se rebelar. E as tropas de choque indígenas das bandeiras do século XVII eram formadas largamente por indivíduos que eram tão escravos quanto os índios que eles iam capturar.
“O melhor exemplo é Domingos Jorge Velho, bandeirante paulista que destruiu o Quilombo dos Palmares. Filho de um europeu com uma índia, ele não falava português. Assim como quase todos naquela época, expressava-se na língua geral tupi-guarani.”
Errado. O grupo de Heitor Megale, filólogo da USP, estuda há anos o português falado no Brasil durante o século XVII, em especial os registros deixados por bandeirantes, e mostrou que Jorge Velho não só falava como escrevia (mal, vá lá) português. Deixou rabiscos de próprio punho. A lenda de que ele não arranhava a nossa língua foi propagada por um bispo do Nordeste que difamou Jorge Velho por puro preconceito de classe (tipo “isso aí que esse sujeito fala nem chega a ser português!).
“O interessante é que esses nobres senhores não eram descendentes de nenhum poderoso fidalgo português. O homem que criou a dinastia dos Souza de Niterói chamava-se Arariboia. Era o cacique dos índios temiminós, que ajudaram os portugueses a expulsar franceses e tupinambás do Rio de Janeiro.”
Aqui, o Narloch argumenta que a maioria dos índios não foi exterminada, mas se integrou pacificamente e de livre vontade, inclusive em cargos de mando, na população colonial. Ele cita inclusive dados interessantes sobre índios pintores, músicos, pedreiros e de outras profissões listados em censos de São Paulo, Rio e Minas nos séculos XVII e XVIII.
É significativo, no entanto, que ele não consiga citar nenhum outro caso de “dinastia fidalga” indígena além da família de Arariboia. Alguns mestiços, é verdade, também chegaram lá. Mas é difícil contestar o fato de que a imensa maioria dos indígenas “se integrou” à sociedade colonial como escravos ou camponeses e trabalhadores pobres. Qual a vantagem material que existe nisso em relação à vida tribal? Zero — voltaremos a isso mais tarde.
Além disso, no caso do litoral, essas tribos, há mais de um século, estavam aldeadas — reunidas em vilas comandadas por jesuítas e outros religiosos –, em avançado processo de conversão religiosa e transformação cultural, além de reduzidas em número por epidemias e guerras. Não admira que elas tenham se integrado com facilidade: a “cola” cultural e religiosa das sociedades indígenas já tinha ido para o saco havia muito.

“Pesquisas de ancestralidade genômica, que medem o quanto europeu, africano ou indígena um indivíduo é, sugerem que os brasileiros são em média 8% indígenas. (…) É pouco sangue indígena, mas não tanto pensando numa população de 190 milhões de habitantes. Se pudéssemos organizar esses genes em indivíduos cem por centro brancos, negros ou ameríndios, 8% dos brasileiros daria 15,2 milhões de pessoas, ou mais de quatro vezes a população indígena de 1500.”

Essa matemática não cola, a começar pelo fato de que, mesmo com esses indígenas “Frankenstein”, formados pela reunião arbitrária de DNA de corpos separados num só corpo, o crescimento “populacional” indígena teria sido inferior à metade do crescimento populacional do resto dos brasileiros nos últimos 500 anos (que foi da ordem de dez vezes).
Faltou se perguntar: por que só 8%? Não é porque o número inicial fosse baixo — ele era, afinal, o mais alto de todos. É preciso considerar outra possibilidade: reprodução diferencial positiva dos não-índios. Ou seja: ao menos certa parcela da população indígena tinha menos chances de se reproduzir – beeem menos. A resposta está no parágrafo seguinte, embora o Narloch não tenha conseguido vê-la.

“O número fica ainda maior se considerarmos como descendente de índios toda pessoa que tem o menor toque de sangue nativo. Em 2000, um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais causou espanto ao mostrar que 33% dos brasileiros que se consideram brancos têm DNA mitocondrial vindo de mães índias. (…) Esses números sugerem que muitos índios largaram as aldeias e passaram a se considerar brasileiros.”

O termo “DNA mitocondrial” é a chave, senhoras e senhores. Como bem nota o livro, ele só é transmitido pela linhagem materna. O equivalente masculino dele é o cromossomo Y, só passado de pai para filho (do sexo masculino). Por simetria, seria interessante ter os dados do Y, omitidos pelo Narloch, mas presentes no estudo de Sérgio Danilo Pena que ele cita. Sabe quantos brasileiros considerados brancos carregam um Y “de índio” nessa amostragem? Nenhum. Vou repetir: zero.
Essa assimetria é típica de populações conquistadas, gente. Pra não deixar dúvida: CONQUISTADAS. Será que os portugueses eram tão mais gostosos (ui!) que os índios que as índias magicamente resolveram ter filhos só com europeus assim que Cabral pôs os pés aqui? É claro que não. Aconteceu o que acontece com todas as populações conquistadas desde que o mundo é mundo, das sagas bíblicas às guerras de Alexandre: os homens são mortos e as mulheres, emprenhadas.
Deixa eu reforçar, porque é importante: esse é um dado básico de biologia molecular e de comportamento humano (eu diria até primata). É assim que as coisas funcionam. Outros fatores talvez tenham contribuído — seleção natural contra doenças europeias às quais os mestiços eram resistentes e os índios “puros” não, vantagens dos portugueses na hora de obter parceiras para relações polígamas, relativa falta de mulheres europeias etc. — mas dificilmente eles explicam a maior parte do fato arrasador de que os homens indígenas, de repente, pararam de se reproduzir.
Parafraseando certo profeta do Design Inteligente, trata-se de um fato, fato, FATO incontestável, não passível de ser manipulado via documentos adulterados ou historiografias com peso ideológico duvidoso. Está no DNA dos brasileiros pra quem souber interpretar: “integração pacífica” quer dizer pegue a mulherada e descarte os homens.
Já deu
Eu poderia abordar outros detalhes. Outra grande escorregada é assumir que os animais domésticos e a tecnologia europeia aumentaram instantaneamente o nível de vida dos índios (animais e implementos eram caros, e a expectativa de um camponês de Portugal era rigorosamente idêntica à de um índio tupinambá). Mas acho que o texto já ficou cansativo.
É normal, e humano, maquiar a evidência um pouquinho pra defender sua hipótese predileta. Deus sabe que eu e a torcida do Corinthians já fizemos isso não poucas vezes. Mas, nesse capítulo indígena, o Narloch não só maquiou a evidência como botou meia arrastão e minissaia nela e ainda levou a coitada para rodar bolsinha no Putusp. Não dá.
E o pior é que nem precisava. Há picaretas suficientes na história do Brasil pra tese do livro ficar em pé, sem mudança nenhuma, caso esse capítulo não existisse. A vontade de derrubar mitos saiu do controle. E há a frase final:

“Da mesma forma, quem hoje se considera índio poderia deixar de culpar os outros por seus problemas.”

É, o pessoal que quer construir Belo Monte e as usinas do Tapajós vai adorar ouvir isso. Os índios não são santos. Mas 90% dos problemas deles vêm de um único fato: eles são populações conquistadas.
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Discussão - 12 comentários

  1. Marcos disse:

    A amizade de longa data citada pode ser percebida pelo respeitoso comentário, após uma das insinuações mais infelizes que eu já tive o desprazer de ler na minha vida, “Essa matemática não cola”.. eu subistituiria tranquilamente por
    “velho.. VAI TOMAR NO SEU CU!”
    .

  2. Philippe Alphonse de Milly disse:

    Crítica de qualidade equivalente ou pior que o livro em questão. Pelo menos, por lá, o português é “mais decente.”

  3. Marcos disse:

    Olá Reinaldo,
    parabéns pelo Blog. Postei uma resenha crítica sobre o capítulo II de Narloch que complementa a sua em meu novo site. Convido-o a dar uma olhada.
    um abraço.
    Mar.

  4. Pedro Cunha disse:

    Reinaldo, parabéns pela crítica. Sem levantar bandeira ideológica ela aponto os problemas técnicos e metodológicos do livro do Narloch. Abraço.

  5. Oi Vinícius,
    Desculpe a demora pra responder. Não, não está omitido nenhum argumento consistente, só mais do mesmo.
    Abraço,
    R.

  6. Reinaldo, acato algumas de suas observações e ataco outras lá no meu blog:
    http://guiapoliticamenteincorreto.wordpress.com/2010/05/24/replica-ao-reinaldo-jose-lopes/
    abraço!

  7. Claudio Angelo disse:

    Xa ver se eu entendi: a evidência de que os índios se integraram de livre e espontânea vontade à sociedade colonial é o número de PEDREIROS indígenas?
    Sem mais perguntas, Meritíssimo.

  8. Gabriel Cunha disse:

    Muito bom ler o seu texto Reinaldo!
    Depois que nos falamos via Twitter comecei a verificar a bibliografia de cada capítulo e vi algumas coisas que me deixaram um pouco cabreiro. Várias referências dizem respeito a artigos publicados em revistas de pouquíssima visibilidade científica, ou a textos provenientes de teses e dissertações, que eu bem sei que podem servir para porcaria nenhuma visto que o peer-review é baixo e às vezes nulo.
    Fora a polêmica já existente e a facilidade em se interpretar a evidência A como fato 1 ou 2, dependendo do seu objetivo.
    De qualquer modo acho interessantíssimo um livro com esse enfoque, ainda mais com alguém como você na outra ponta debatendo pontos enevoados.
    Grande abraço e tudo de bom!

  9. Vinícius Policarpo Quintão disse:

    Reinaldo, eu fiquei com uma dúvida, já que não li o livro. Na passagem abaixo, a supressão omite algum argumento consistente ou é apenas esta base citada para embasar a justificativa de que os índios abandonaram pacificamente suas convicções?
    “O número fica ainda maior se considerarmos como descendente de índios toda pessoa que tem o menor toque de sangue nativo. Em 2000, um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais causou espanto ao mostrar que 33% dos brasileiros que se consideram brancos têm DNA mitocondrial vindo de mães índias. (…) Esses números sugerem que muitos índios largaram as aldeias e passaram a se considerar brasileiros.”
    Abraços!

  10. Daniel Lopes disse:

    Sobre a Elisa Lynch, também, esse livro é inexato. Ainda mais tendo em vista essa biografia – http://www.amalgama.blog.br/10/2009/elisa-lynch-resgatada/ -, que eu acho que o autor não leu.
    Abs.

  11. Eis o que encontrei sobre o Leandro Narloch e seu livro: “É preciso ser um pouco louco para desafiar o patriotismo no Brasil — onde os ídolos e símbolos nacionais são intocáveis. Ou ter veia para polêmica. O jornalista curitibano Leandro Narloch, autor de “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, parece cultivar a segunda condição com destreza. Sua passagem pela redação da revista “Veja” não nega: lá escutava “calma, você precisa ser mais equilibrado”.” Passagem pela Veja? Editora Abril? Direita, volver!
    Um abraço!

  12. Igor Santos disse:

    O que vem a mostrar que pensamento crítico é necessário até para informações vindouras de alguém que se diz cético.
    Ótimo texto, Reinaldo. As usual.

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