Guia arqueologicamente incorreto da história do Brasil: a réplica

And so it begins. Meu amigo Leandro Narloch leu a crítica sobre seu livro, o best-seller “Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, aqui mesmo no Carbono-14, e replicou no texto abaixo, que tenho o prazer de reproduzir aqui. O debate está ficando interessante. Já aviso ao Narloch que vem tréplica por aí 😉 Leiam abaixo a resposta dele.
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Quando o Reinaldo José Lopes me contou que preparava uma crítica metendo o cacete no capítulo do Guia sobre os índios, eu tremi. O cara é um dos melhores repórteres de ciência do Brasil – domina de supercordas a seleção natural, tem um texto alegre e livre de clichês de ciência, o que é bem raro nessa área. A crítica que ele postou semana passada tem observações interessantes, mas, para meu alívio, não é tão devastadora quanto ele prometeu. Abaixo acato alguns pontos e ataco outros.
O Reinaldo me acusa principalmente de ter feito uma “mistureba de períodos e situações coloniais”, omitindo o fato de os portugueses, depois de bem instalados no Brasil, promoverem caçadas, guerras e escravizarem os índios. Isso é injusto. Três ou quatro vezes o capítulo deixa claro que houve caçadas, escravidão indígena e extermínio deliberado de índios por europeus. Passei longe de negar isso tudo. Por que não dei detalhes? Porque o livro não é um guia neutro sobre a história do Brasil: é um guia politicamente incorreto. Como diz o título e a apresentação, trata-se de uma obra parcial, que mostra só um lado. Se eu me dedicasse a chutar cachorro morto e repetir o que as pessoas já sabem, trairia o projeto e teria talvez duas dúzias de leitores.
Revelar esse outro lado não é só um exercício de polêmica. A maior novidade da história do Brasil hoje é mostrar que nem sempre os indivíduos se enquadram em grandes esquemas sociológicos ou modelos de dominação. Mesmo diante de um número menor de possibilidades, os índios faziam escolhas diversas, como qualquer ser racional. Os índios coloniais, mesmo sem ser maioria (não digo no livro que são maioria, como o Reinaldo sugere) mostram que é preciso contar uma história com pessoas, não com robôs movidos por interesses de classe.
Ainda que a proposta seja mostrar só o outro lado, o Reinaldo está certo quando me acusa de omitir que, de acordo com o Retrato Molecular do Brasil, 0% dos brasileiros que se consideram brancos tem Cromossomo Y indígena, ou seja: índios homens não deixaram descendentes entre os brancos do Brasil. Se eu cito os dados da pesquisa, então deveria mostrá-la inteira – prometo acrescentar isso na próxima edição. Com devidas ressalvas. O estudo analisou o DNA de brasileiros que se consideram brancos. Não os mestiços, os negros, os caiçaras, os mamelucos ou os índios urbanos da Amazônia (região com 20 milhões de habitantes). Entre brancos, o mais esperado seria encontrar uma genética… branca, e não indígena. Por isso foi uma surpresa perceber que 30% dos brancos brasileiros vêm de linhagens maternas ameríndias. Apesar dessa limitação do estudo, o Reinaldo se baseia nele para dizer que “os homens indígenas, de repente, pararam de se reproduzir”. Eis aí o que ele chama de maquiar e botar minissaia na evidência.
Mas a pergunta continua: por que os índios deixaram tão menos descendentes que as índias? É aí que a crítica do Reinaldo desce uns dez degraus de qualidade e chega a um trecho constrangedor:
Será que os portugueses eram tão mais gostosos (ui!) que os índios que as índias magicamente resolveram ter filhos só com europeus assim que Cabral pôs os pés aqui? É claro que não. Aconteceu o que acontece com todas as populações conquistadas desde que o mundo é mundo, das sagas bíblicas às guerras de Alexandre: os homens são mortos e as mulheres, emprenhadas.
É sintomático falar de Alexandre para explicar por que os índios homens deixaram tão poucos descendentes. Para a escravidão negra, um exemplo equivalente seria o Remador de Ben-Hur: os escravos acorrentados, obrigados a remar enquanto levam um carrasco maldoso grita: “Reeeemem”! Estamos acostumados a pensar o passado brasileiro a partir desses modelos clássicos, mas deveríamos nos esforçar para deixá-los de lado. A nova história do Brasil mostra justamente que os modelos clássicos não nos servem. Como costuma perguntar o historiador João Fragoso, como é que se pode explicar, pelos modelos clássicos de escravidão, que uma parte dos escravos de um engenho ganhasse armas do próprio senhor para proteger a fazenda?
É simplista e obsoleto olhar a história do Brasil como as guerras e conquistas clássicas. É melhor deixá-las aos filmes de Hollywood ou para o Cecil B. deMille.
A história sexual entre europeus e índias deixa isso evidente. No modo de pensar de muitas tribos, alianças militares só existiam se fossem acompanhas de alianças de sangue: só parentes eram aliados políticos. Do mesmo modo, o casamento não era uma instituição privada, baseada no amor e na intimidade do casal, mas parte da estrutura social da tribo. “O casamento entre os guaranis determinava, ao mesmo tempo, todas as relações que no Ocidente se conhecem como econômicas e todas as relações chamadas sociais”, diz o Jorge Caldeira no livro Mulheres a Caminho do Prata. Em São Paulo, em Pernambuco, no Paraguai, índios só se aliavam depois que suas filhas casassem com os europeus. Um exemplo de europeu que por influência indígena teve várias esposas índias é Jerônimo de Albuquerque, cunhado de Duarte Coelho, o primeiro donatário de Pernambuco. Os dois precisavam do trabalho dos índios para mover os engenhos. Como os nativos preferiam derrubar pau-brasil, os portugueses tiveram que conquistar o apoio das tribos por meio de casamentos. Jerônimo de Albuquerque teve tantos filhos com índias que ganhou o nome de “Adão Pernambucano”.
Vejam como esse caso vai além das batalhas gregas e da lógica “os homens são mortos e as mulheres, emprenhadas”. Vejam como a história perde se nos limitarmos a aqueles modelos simplórios. É isso que eu tentei dizer no livro – e não negar caçadas e extermínios.

Outra crítica é sobre o Domingos Jorge Velho, bandeirante paulista que destruiu o Quilombo de Palmares. O Reinaldo se baseia nos estudos do filólogo Heitor Megale para mostrar que, ao contrário do que defendo no livro, o bandeirante falava, sim, português. Eu não conhecia essas pesquisas, agradeço o Reinaldo pela dica. Mas peraí. O estudo do Heitor Megale é sobre a língua escrita no século 17, não a língua falada. Está baseada em documentos de cartório e cartas oficiais. Em mensagens assim, é óbvio que os textos não seriam em tupi-guarani. Certamente se usava o português, e um português formal, puxado para trás. Numa época em que poucos sabiam escrever e raros tinham naturalidade com a escrita, era muito comum esbanjar eruditismo nos textos. Escrever em tupi-guarani? Jamais.
Ok, talvez o Jorge Velho falasse algum português, mas de que qualidade? O bispo de Olinda, que encontrou Jorge Velho no fim do século 17, diz que ele usava um tradutor: “Este homem é um dos maiores selvagens com que tenho topado: quando se avistou comigo trouxe consigo língua, porque nem falar sabe nem se diferencia do mais bárbaro tapuia; […] lhe assistem sete índias concubinas”. Deve haver muita opinião nesse testemunho, mas é apressado descartá-lo como “preconceito de classe”, como diz o Reinaldo (o que, aliás, é um tipo de comentário meio velho, comum no Brasil uns 60 anos atrás, quando se criticava o Stálin). Eu não descartaria tão rapidamente o depoimento do bispo, já que encaixa no que se sabe hoje sobre estilo de vida de São Paulo nos séculos 16 e 17. Será que o “língua” servia para traduzir dois tipos de português? Difícil acreditar nisso. No século 17, entre tupis, jês, franceses, holandeses, espanhóis, angolanos, falar outro português deveria ser o menor dos problemas.

O Reinaldo termina o texto dizendo que “há picaretas suficientes na história do Brasil pra tese do livro ficar em pé, sem mudança nenhuma, caso esse capítulo não existisse”. Não sei sobre quem ele está falando. A nossa história está sendo muito bem contada nos últimos dez, vinte anos. O Guia está baseado em trabalhos de pesquisadores excelentes: Francisco Doratioto, Manolo Florentino, Alberto da Costa e Silva, Guiomar de Grammont, Maria Regina Celestino de Almeida, Elio Gaspari. Se o Reinaldo prefere fechar os olhos à nova história do Brasil e ficar com os manifestos de esquerda que predominavam até os 80, tudo bem. É uma decisão pessoal.

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Discussão - 4 comentários

  1. josiel disse:

    Opa Reinaldo, tô gostando de ver essa discussão. Gostaria que visitasse meu blog e lesse o que escrevi sobre o livro do Narloch.

  2. LG disse:

    Bota o link pro post da sua crítica, facilitará a vida dos leitores!

  3. Citando trecho da réplica: “Se o Reinaldo prefere fechar os olhos à nova história do Brasil e ficar com os manifestos de esquerda que predominavam até os 80, tudo bem.” Ou seja, como eu já disse, direita, volver!
    Minha dúvida: é melhor um manifesto de direita do que os de esquerda?
    Um abraço!

  4. Os picaretas não são os pesquisadores, mas sim personagens históricos – Reinaldo diz que não é preciso criar mais um picareta, basta os que já tem para serem “desmitificados”.
    []s,
    Roberto Takata

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