Artefatos que importam: Asherah (?)

asherah peituda.jpgDepois de um inverno dos mais tenebrosos, estou de volta. Putz, faz mais de um ano. Vergonha. Mas, se serve de desculpa, nesse meio tempo virei editor de Ciência da Folha, depois foi nomeado também editor de Saúde, esse negócio de ser pai dá um trabalhão e, como diria Tolkien, “tive também muitos outros deveres, que não pude negligenciar”.
Mas chega de chororô. Voltamos com os artefatos que importam, desta vez com um exemplar das centenas de estatuetas de terracota achadas no território do antigo reino de Judá (a parte sul dos territórios israelitas da Antiguidade), datadas em torno de 700 a.C. e 600 a.C.
Elas tendem a ter a parte de baixo do corpo trocada por um pilarzinho, os seios absurdamente exagerados, numa pose que o finado especialista americano William Foxwell Albright apelidou de “dea nutrix” (deusa nutridora, em latim). A se acreditar na interpretação oferecida por muitos arqueólogos, elas representam ninguém menos que a esposa de Deus. Nada menos que a Juno do Júpiter bíblico, a Hera do Zeus monoteísta. You get my drift.
Ou, usando o nome próprio da moça, Asherah. Antes, achava-se que a deusa, uma divindade dos cananeus (povo que teria precedido os israelitas na Palestina), teria sido apenas uma inimiga de Javé, o Deus monoteísta adorado pelos autores bíblicos. No entanto, a descoberta das estatuetas, e a de inscrições que associam Javé a “sua Asherah”, andam levando muita gente a defender que, em muitos círculos do antigo Israel, os dois eram adorados juntos, como casal divino.
Uma interpretação não mutuamente excludente para as estatuetas é que elas seriam “orações em forma de argila”: uma maneira de as mulheres israelitas pedirem os atributos superabundantes da imagem para si mesmas, para gerarem e amamentarem filhos saudáveis.
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Abelhas bíblicas

Simpática materinha bíblica que publico hoje na Folha.com pra galera curtir:
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Para a Bíblia, Israel é “a terra onde corre leite e mel”. Não era só força de expressão: arqueólogos anunciaram ontem a descoberta das mais antigas colmeias com abelhas domésticas do mundo, no território israelense.
colmeias.JPG
A equipe liderada por Amihai Mazar, da Universidade Hebraica de Jerusalém, já tinha forte suspeitas de que os cilindros de argila achados em Tel Rehov (norte do país), no vale do rio Jordão, tinham servido para criar abelhas. Uma pequena abertura de um lado e uma tampa do outro sugeriam locais para a entrada dos insetos e para a manipulação dos favos.
Mas foi só agora, com a ajuda de um biólogo brasileiro, que a equipe conseguiu estudar em detalhe os restos de abelhas achados dentro de duas das colmeias. Tiago Francoy, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, explica que foi procurado pelos israelenses graças à sua colaboração com outro autor do estudo, o alemão Stefan Fuchs.
“Eu fiz parte do meu doutorado na Alemanha e desenvolvi um método para identificar espécies de abelhas com base apenas em pedacinhos da asa”, conta. As nervuras que dão sustentação às asas dos insetos formam um desenho típico, que é único de cada tipo de abelha, diz Francoy. “Como eles tinham esses fósseis, deram uma busca na literatura e viram que eu podia ajudar na identificação”, afirma o biólogo, que fez o trabalho usando fotos. “É uma pena, infelizmente não pude ir até lá para o trabalho”, brinca.
Com pouco menos de 3.000 anos de idade, as colmeias podem datar da época em que o rei Salomão governava as tribos israelitas ou ser um pouco mais recentes, quando o país tinha se dividido nos reinos rivais de Judá (no sul) e Israel (no norte). Apesar de antigas, elas sugerem que a criação de abelhas no Oriente Próximo pode ter uma origem ainda mais remota que a apicultura em Tel Rehov.
Isso porque Francoy usou o programa de computador que desenvolveu para identificar a subespécie de abelha criada lá, e os pesquisadores perceberam que o bicho provavelmente não era a subespécie nativa de Israel (a Apis mellifera syriaca), mas sim a que existe hoje na Turquia (a Apis mellifera anatoliaca).
“Pode ser que a distribuição das subespécies fosse diferente no passado, ou então a abelha criada lá foi trazida originalmente da Turquia”, diz ele. O transporte de longa distância da subespécie turca faz sentido porque ela é menos agressiva e produz mais mel do que a variante de Israel. Além do mais, os apicultores de Tel Rehov montavam suas colmeias no meio da cidade, provavelmente para proteger um recurso valioso, o que poderia causar problemas se os bichos saíssem do controle.
“Na verdade, não seria tão difícil transportar as abelhas. Não sabemos se, na época, eles sabiam que a rainha era a responsável por manter a colmeia funcionando. Nesse caso, poderiam transportar só a rainha. Também seria possível fazer algo que ainda é comum hoje: de noite, fecha-se a entrada da colmeia com um pano, para permitir a ventilação, e aí dá para carregar a colmeia por até uma semana”, afirma ele.
Ou seja, é provável que a domesticação tenha acontecido antes, talvez na própria Turquia. E mais: talvez houvesse um comércio constantes de rainhas ou colmeias de um lugar para o outro. Isso porque as rainhas turcas, caso se acasalassem com zangões de Israel, teriam menos chance de transmitir sua docilidade e produtividade às descendentes. Valeria a pena, portanto, continuar trazendo animais de fora.
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Jesus existiu? Parte 3: Um conclave nada papal

O animado debate que andou rolando nos comentários da série de posts sobre o Jesus histórico (veja aqui e aqui) ajudou a reforçar a importância dos pressupostos metodológicos. Apesar do bate-papo interessantíssimo entre os visitantes, senti que a coisa tomou um rumo um tanto lateral, justamente porque eu não deixei muito claro como, metodologicamente, estou abordando o problema.
Nesse ponto, acho muito útil e divertida a parábola do “conclave não-papal”, bolada pelo historiador americano John P. Meier, autor da série de livros “Um Judeu Marginal” (sobre vocês-sabem-quem). O cenário é o seguinte:
Pegue quatro especialistas na história das origens do cristianismo: um católico, um protestante, um judeu e um agnóstico. (Tá, eu sei que lembra aquelas piadas do tipo “um padre, um pastor, um rabino e um ateu entram num boteco”. Foco, gente, foco.) Parta do princípio de que todos eles são especialistas competentes e honestos, que se esforçam para evitar os vieses inerentes a seus próprios pontos de vista. Tranque esse negada toda na biblioteca da Faculdade de Teologia de Harvard, provavelmente a mais bem suprida do mundo. Deixe os sujeitos a pão e água e só permita que saiam quando produzirem um documento de consenso sobre a vida e os feitos do Jesus histórico.
Meu ponto de vista é o do conclave não-papal, porque estou falando de arqueologia e história, e não de fé (embora eu, pessoalmente, seja uma pessoa de fé). Se o documento é de consenso, muito provavelmente o católico e o protestante terão de abrir mão do que só a fé pode lhes ensinar (como a Ressurreição, por exemplo), para chegar a um retrato MÍNIMO de Jesus que leve em conta todas as evidências disponíveis para um observador honesto e de boa vontade.
O que estou querendo dizer é que as discussões sobre a inspiração divina da Bíblia, sobre a Ressurreição ou mesmo sobre o aspecto sobrenatural dos milagres de Jesus são IRRELEVANTES neste blog — que é um blog laico, embora de maneira nenhuma hostil à fé. Meu interesse é pelo que pode ser compartilhado por todos nós, crentes e não-crentes, como empiricamente verificável. Ademais, o que estou postando não é, obviamente, a opinião da minha linda cacholinha loura. É, sim, o consenso científico e historiográfico (ou o mais perto do que se pode chegar dele) entre os principais especialistas no estudo do Jesus histórico mundo afora. That clear, gentlemen? 😉
Se der, respondo as dúvidas mais pontuais do pessoal num futuro post, mas acho que isso é suficiente pra gente continuar. Mais posts metodológicos virão. Até breve.
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Jesus existiu? Parte 2: Respondendo as dúvidas

Audiência qualificada é outra coisa. Mal dei o pontapé inicial na minha série sobre o Jesus histórico e já recebi um caminhão de comentários e dúvidas interessantíssimos sobre a primeira postagem e os desdobramentos do tema. Como seria um pecado (só pra manter o clima cristão) relegar debate tão legal à caixa de comentários, resolvi transformar a coisa num novo post enquanto não consigo dar prosseguimento à série.
Sem mais delongas, vamos nessa.
O grande Luís Brudna questiona: O que será que os historiadores do futuro pensarão sobre as “Aparições da Virgem Maria”? Considerarão elas como históricas?
Dependendo das fontes disponíveis, eles certamente vão considerá-las históricas no sentido de que um grupo de pessoas do século XXI ACREDITAVA mesmo ter visto Nossa Senhora. As evidências de que muita gente acredita nisso são abundantes. Agora, as aparições são reais? São realmente um evento sobrenatural, ou são alucinação coletiva? Isso não cabe aos historiadores responder, até por uma questão metodológica, embora possa ser investigado por cientistas que disponham, por exemplo, de um vídeo da suposta aparição.
Rafael Machado indaga: 1)Em relação ao documentário “Zeitgeist”, você já o comentou seja aqui seja no outro blog que tinha? Porque é o típo do documentário que fala o que você quer ouvir ou não, citando referências que são muito difíceis de se procurar.
Não estava nos meus planos abordar detalhadamente as afirmações em “Zeitgeist”, mas vou considerar a ideia 😉

2)Em relação aos escritos do Mar Morto, há muita teoria da conspiração em cima dele, por acaso você vai tratar dele?

Sobre os manuscritos do mar Morto: rapaz, o surpreendente, na verdade, é que há pouquíssima informação sobre Jesus e os primeiros cristãos neles. Tais textos parecem ter sido, em sua maioria, escritos por uma seita judaica extremamente fechada e com pouco interesse direto em movimentos mais “plurais”, como o de Jesus. Mas, claro, é um tema fascinante a ser abordado no futuro.
O amigo Vinícius Policarpo Quintão manda a real:
1) Se Jesus, e não jesus, de fato existiu, seus feitos causariam um enorme alvoroço, e seriam lembrados através de registros de outros indivíduos, acredito. Imagino que, mesmo com a escassez de inidivíduos letrados, boa parte deles se postaria a relatar o fato. Inclusive seus agressores, amaldiçoando-o ou tratando-ou tal qual um “demônio do mundo antigo” ou qualquer outra entidade do imaginário coletivo.
Tem uma série de problemas nessa questão. Primeiro, quem garante que o alvoroço seria tão grande? O mundo mediterrâneo antigo estava COALHADO de milagreiros e mestres itinerantes. A Palestina do século I a.C. conheceu uma loooonga lista de candidatos a profetas e Messias. E, claro, a transmissão da tradição que desembocaria nos Evangelhos pode muito bem ter transformado os 100 espectadores originais do Sermão da Montanha em 5.000.
Isso explicaria, em parte, a discrepância, mas também temos boas razões para acreditar que alguns dos historiadores não-cristãos da época realmente ficaram sabendo do ministério de Jesus e o abordaram — brevemente –, em seus escritos. Mas é preciso lembrar que Jesus, tendo restringido sua missão aos judeus palestinos, não teve contato com nenhuma das grandes personalidades da Antiguidade. Aliás, sabe quantos historiadores judeus estiveram ativos ao longo dos séculos I e II inteirinhos? Um só – Flávio Josefo (do qual falarei no próximo post). A historiografia não era um gênero comum entre judeus, letrados ou não-letrados. Havia pouca gente disponível para fazer um relato “secular” sobre o ministério de Jesus.
2) A existência de figuras como Alexandre, Hércules, Ptolomeu, Perseu e outros, pode ser vista como mera idealização de senhores gloriosos e ícones de outras virtudes, não concorda? Uma vez que as provas de sua real existência ou se perderam ou são insubstânciais (dadas as condições temporais dos relatos, mas não só por isto).
Cuidado para não misturar alhos com bugalhos. Hércules e Perseu são MUITO diferentes de Alexandre e Ptolomeu, a começar pelo fato de que os dois primeiros, se é que existiram, datam de um passado tão remoto e sem continuidade com o presente que não dá nem para comprovar sua simples existência. Jesus está muito mais para Alexandre e Ptolomeu do que para Hércules e Perseu.
O poderoso Roberto Takata afirma:
Há extensa iconografia de Alexandre, o Grande, contemporânea ao imperador macedônio. Os diários astronômicos babilônios mencionam a morte de Alexandre. Mas digamos que fossem apenas as tais moedas. Sim, elas seriam úteis para estabelecer que provavelemente Alexandre existiu. Elas servem como confirmação independente de que as narrativas de Xenofon e Plutarco não são totalmente fantasiosas.
A iconografia que chegou até nós na verdade é um pouco posterior à morte do homem, já heroicizando um pouco a figura. Esqueci-me dos diários babilônicos. Mas o ponto central é que, só com esses dados, nós só saberíamos que Alexandre existiu – e ponto. Não seria possível sequer dizer que ele era macedônio e não, sei lá, tessálio (outro lugar da Grécia onde a monarquia ainda existia). E, só pra takatizar você um pouquinho, é ARRIANO e Plutarco – Xenofonte morreu quando Alexandre tinha dois anos de idade 😉

A melhor comparação seria em relação a Arthur, Beowulf e cia. p.e. Ou a Siddhartha Gautama, Noah, Moshê…

Nope, não seria. Definitivamente não seria. A melhor comparação é mesmo com Temístocles ou Leônidas. Exceto no caso de Buda, que eu confesso não conhecer muito bem, os demais personagens só são mencionados pela primeira vez em textos escritos três séculos ou muitos séculos mais DEPOIS de sua suposta existência histórica. De fato, é tempo demais para um nome ficar rodando na tradição oral, e tudo vira saga mesmo.
Esse NÃO é o caso de Jesus, como pretendo demonstrar aqui. Ao longo dos 60, 70 anos após sua morte, há cerca de uma dezena de fontes literárias independentes — a maioria cristãs, mas algumas judaicas e romanas também — concordando nos elementos básicos: pregação, crucificação, movimento religioso que se propaga depois. Só isso já é suficiente para mostrar, no mínimo, a existência histórica do personagem. Mas não coloquemos os carros na frente dos bois (embora você tenha me forçado a fazer precisamente isso, hehehe…)
O perspicaz Henrique afirma:
No caso das figuras históricas, eles realizaram grandes feitos, mas coisas que, desculpem se ofender alguém com isso mas não encontrei outro modo de falar, são possíveis e fazem algum sentido, contrário do caso de Jesus onde os relatos são de coisas que se por exemplo eu chegar e contar pra um amigo meu hoje que eu vi um cara andando sobre a água ele vai rir de mim.
Concordo, claro. Acho que os aspectos sobrenaturais do ministério de Jesus têm de ser colocados, metodologicamente, na categoria do inverificável (ainda que, pela fé, eu pessoalmente acredite neles). Agora, numa sociedade pré-moderna, quase todo mundo não tinha problema nenhum em aceitar milagres como parte da vida. No caso das curas — façanha que de longe é a mais comum nos Evangelhos –, alguém com mentalidade completamente secularizada só precisa lembrar das situações atuais de “curas pela fé” e perceber que estaríamos falando de fenômenos psicossomáticos (efeito placebo, basicamente) afetando doenças com um componente emocional forte, por exemplo. O importante não é Jesus ter mesmo feito um paraplégico andar; é, sim, ALGUMAS pessoas da época terem ACREDITADO que ele fez um paraplégico andar.
Weiner Assis Gonçalves citou:
Papa Leão X: “A fábula de Cristo é de tal modo lucrativa que seria loucura advertir os ignorantes de seu erro”.
Você poderia me mostrar onde achou a citação, Weiner? De qualquer maneira, é totalmente esperado um papa corrupto do Renascimento ter essa atitude cínica em relação à religião 😉 João Paulo II e Bento XVI podem ter inúmeros defeitos, mas não me parece que cinismo esteja entre eles.
E chega! Dai-me tempo para um novo post, Senhor! :oP
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Jesus existiu? Parte 1: As fontes, sempre as fontes

Este é o primeiro de, quem sabe, uma série consideravelmente longa de posts sobre as pesquisas envolvendo o “Jesus histórico”, como é conhecida a reconstrução acadêmica da vida e da mensagem de Cristo baseada única e exclusivamente no que se pode extrair de historicamente confiável das fontes do século I a.C.
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Paradoxalmente, no entanto, sinto-me compelido a começar respondendo a indagação que virou moda nos últimos tempos: afinal, quem garante que Jesus existiu mesmo? Na esteira do documentário-cascata “Zeitgeist”, e na ânsia de arrumar mais uma arma contra as religiões, a ideia de que Jesus nem teria existido, sendo apenas uma lenda meio Frankenstein montada a partir dos pedaços de todas as mitologias do Mediterrâneo pelo espertíssimo apóstolo Paulo (por exemplo), tornou-se relativamente popular nos meios céticos.
Começarei defendendo aqui que, na verdade, de longe o mais provável é que Jesus tenha de fato vivido e caminhado na Palestina do século I a.C. “Numdiga, Reynolds”, brincarão alguns. “Claro, você é católico, TEM de acreditar que Jesus existiu.” Pode ser. Mas ser cristão não me impede de tentar usar o método científico de maneira desapaixonada, seguindo os passos dos principais historiadores do cristianismo mundo afora, os quais, quase sem exceção, não duvidam que Jesus tenha sido uma pessoa real. Claro, ciência não se faz por maioria de votos, e consensos científicos podem estar enganados. Mas o que pretendo demonstrar é que, usando o velho e confiável princípio da navalha de Occam, segundo o qual a explicação mais simples que consegue dar conta dos dados é a verdadeira, é que a hipótese do “mito forjado” simplesmente não funciona.
Claro, nada disso significa que, do ponto de vista estritamente histórico e científico, as pessoas são obrigadas a aceitar que os aspectos sobrenaturais do ministério de Jesus, como os milagres e a ressurreição de Jesus, aconteceram tal como narrados nos Evangelhos canônicos do Novo Testamento — ainda que, pela fé, eu aceite a realidade essencial deles. (Até porque cada um dos Evangelhos narra esses fatos de maneira substancialmente diferente da dos demais.) Meu propósito, até por uma questão de naturalismo metodológico, é mais modesto: mostrar que há fatos não-sobrenaturais, empiricamente verificáveis, que fornecem ao menos um esqueleto de fatos concretos sobre a vida de Jesus.
Evidência direta? Vai sonhando
Indo finalmente ao que interessa, vamos relativizar um ponto no qual muita gente insiste sem entender o contexto da Galileia e da Judeia do século I a.C. É aquele negócio de exigir evidências arqueológicas diretas da existência de Jesus. Enquanto não acharem uma tábua de passar com o logotipo “Carpintaria José & Jesus – made in Nazareth”, não acreditarão, e ponto.
O que esses São Tomés modernos esquecem é, em primeiro lugar, o meio social e cultural de onde Jesus, com quase 100% de probabilidade, veio. O mundo mediterrâneo antigo, como ocorria com a imensa maioria das culturas pré-modernas, era povoado por gente que não sabia escrever, que dependia de materiais perecíveis para quase todos os momentos da vida e que tinha tão poucos direitos políticos que dificilmente seria mencionado pelo nome em qualquer documento governamental (os quais, aliás, também podiam ser perecíveis).
E daí? Daí que Jesus era muito provavelmente invisível do ponto de vista arqueológico. Ele e quase toda a primeira geração de seus seguidores. Nem o famoso sepulcro onde teria ocorrido a Ressurreição escapa — não é improvável que a narrativa de um sepultamento honroso seja um acréscimo posterior, e que o corpo crucificado tenha ido parar numa vala comum, o que seria mais ou menos a prática padrão dos executores da Roma imperial.
Os invisíveis
O que vale para o carpinteiro rústico de um vilarejo insignificante da Baixa Galileia, no entanto, vale também para algum dos nomes mais importantes da Antiguidade Clássica. O fato surpreendente é que, tanto em evidência material direta quanto em evidências textuais, o que chegou até nós do mundo antigo é ridiculamente pouco. Em larguíssima medida, dependemos de relatos de segunda ou terceira mão, e os que parecem melhores e mais detalhados muitas vezes vieram séculos depois dos eventos que narram.
Um exemplo extremo? Ninguém menos que Alexandre, o Grande. Sim, temos moedas cunhadas com as fuças dele que datam do fim de sua vida ou de pouco depois — aleluia, evidência arqueológica direta, afinal! –, mas só com isso o máximo que saberíamos é que houve um rei poderoso de origem grega chamado Alexandre no século IV a.C. Superútil. Para qualquer detalhe que preste sobre a vida do sujeito, temos de nos basear no que escreveram Arriano e Plutarco — em pleno período romano, uns QUINHENTOS anos depois da época de Alexandre. Arriano e Plutarco teriam se baseado nas memórias de sujeitos como Ptolomeu, um dos generais do jovem rei. Só que essas fontes contemporâneas se perderam. Em tese, os escritores poderiam simplesmente ter inventado essas fontes — não que qualquer estudioso de Alexandre aposte nisso.
Segundo exemplo: Temístocles, o homem que salvou Atenas das mãos dos persas em 480 a.C. Escavações em Atenas acharam “cédulas” de ostracismo — a votação para exilar pessoas instituída pelos atenienses — com o nome “Temístocles, filho de Néocles”. De novo, seria apenas um nome — se não fosse pelo pitoresco relato das aventuras de Temístocles feito por Heródoto uns 40 anos depois da guerra com os persas (aliás, o mesmo período de tempo que separa a morte de Jesus do Evangelho de Marcos, o mais antigo). Heródoto é a única fonte mais ou menos contemporânea sobre Temístocles a sobreviver até hoje.
Terceiro exemplo, desta vez duplo: Leônidas e Sócrates. Aí a coisa fica REALMENTE feira. Heródoto também escreveu sobre Leônidas, com a mesma distância temporal de Temístocles. Uma única fonte literária é só o que sugere que o rei casca-grossa e cabra-macho de Esparta sequer existiu — nenhuma inscrição com seu nome chegou até nós. Sócrates deu mais sorte: são basicamente seus discípulos Platão e Xenofonte, escrevendo décadas depois de sua morte, que nos informam sobre sua vida (de maneira um bocado contraditória, aliás).
A conclusão me parece inescapável: se aplicarmos os mesmos critérios que os céticos mais extremados usam para falar de Jesus ao resto da Antiguidade, ou vamos concluir que Atenas e Esparta mal chegaram a existir, ou ficaremos eternamente presos a um agnosticismo paralisante. O caso de Jesus está longe de ser excepcional em termos de falta de dados: é, na verdade, um caso típico.
A série continua em breve com uma velha questão: existem fontes não-cristãs independentes que comprovem a existência de Jesus?

Artefatos que importam: a estela de Merneptah

merneptah1.jpgNossa série sobre os artefatos mais importantes do registro arqueológico mundial continua com mais uma estela (pra quem não sabe, nome afrescalhado para postes de pedra), desta vez do antigo Egito. Erigida a mando do Báteman, digo, do faraó Merneptah (1213 a.C. – 1203 a.C.), o consenso entre os estudiosos é que ela representa a mais antiga evidência arqueológica da existência do povo de Israel, ainda que não de uma entidade política que possamos chamar de reino de Israel.
No Egito faraônico, entre os maias e num sem-número de povos antigos, estelas desempenham mais ou menos a mesma função social das plaquinhas comemorativas de aeroportos e estádios: permitir que o governante da vez conte vantagem. Com Merneptah não é diferente. O soberano botou esse troço de pé em Tebas, cidade real egípcia a 800 km do Mediterrâneo, como forma de celebrar suas (supostas) vitórias militares.
A maior parte do texto fala das bordoadas que ele teria distribuído em batalhas contra os líbios, mas uma seção menor fala das campanhas guerreiras na terra de Canaã — a região que hoje conhecemos como Israel e territórios palestinos. Ao que parece, a área estava dividida em cidades-Estado, como Gezer e Ashkelon — as quais, desde o terceiro milênio antes de Cristo, já eram consideradas vassalas do Egito. Só que aí vem a passagem abaixo:
merneptah2.jpg
Não lê hieróglifos? Tá, vou relevar essa lacuna imperdoável na sua formação cultural e traduzir pra você: “Israel está destruído, sua semente não existe mais”. Não se sabe se “semente” é usada no sentido metafórico de “descendência” ou se o faraó quer dizer que destruiu as reservas de comida de seus inimigos. Se o sentido empregado é o metafórico, a primeira conclusão é que Merneptah era um pusta de um mentiroso, como qualquer judeu vivo ainda hoje poderá atestar para você.
Êxodo? Que Êxodo?
Mas é claro que as implicações da estela vão além disso. A escrita hieroglífica empregava determinativos, sinais que não tinham valor de som, mas serviam para determinar (dã!) categorias conceituais. O usado para “Israel” é o de “povo”, não o de “cidade-Estado” ou unidade política. Costuma ser usado pelos egípcios para designar tribos nômades.
OK, isso significa que os egípcios, nessa época, não viam os israelitas como unidade política organizada. O mais curioso, no entanto, é Israel aparecer “pronto” na cena da terra de Canaã sem menção alguma ao episódio que teria iniciado o conflito israelitas x egípcios: o Êxodo bíblico.
Claro que um império do naipe do egípcio não teria lá muito interesse para anunciar uma derrota fragorosa como teria sido a do Êxodo. No entanto, o fato de não haver pelo menos uma pista da morada israelita de séculos em terras egípcias, mais uma série de pistas — linguísticas, sociais e arqueológicas — indicam que, pelo visto, o Êxodo NÃO aconteceu, ou ao menos se deu numa escala minúscula, bem menor do que o mito fundador israelita nos sugere. Voltarei a esse assunto fascinante em breve.
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And the winner is…

O vencedor da primeira promoção livresca aqui no Carbono-14 é Luiz Paz! Confiram a resposta dada por ele à pergunta “Jesus existiu? Por quê?”:
Sim!
Poderíamos aventar a hipótese de que os diversos evangelhos, inclusive os apócrifos, teriam sido escritos por líderes de alguma seita “herética” que teriam criado um personagem fictício, e a “mentira” teria crescido com o tempo. Porém, independente da crença ou descrença (!) de cada um é inegável o conteúdo elevado moralmente e a qualidade de diversos trechos evangélicos. As parábolas de Jesus são provocativas e apontam a hipocrisia romana e, principalmente judaica. A citação de personagens históricos como Herodes, Herodes Antipas, Pôncio Pilatos localiza bem os possíveis acontecimentos. Juntando todas as evidências concluo que a história de Jesus é rica demais para ter sido inventada, sei que é um argumento frágil, mas é suficiente frente aos poucos registros históricos. Aliás, a ausência de registros históricos é plenamente compreensível, afinal Jesus era um líder dos pobres, e foi banido pela classe dominante judaica.

Peço ao Luiz que envie seu endereço físico para receber os dois livros da promoção. E, aos pouquinhos, exploraremos por aqui, ponto por ponto, os dilemas envolvendo o chamado “Jesus histórico”.
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Ceticismo bíblico, parte 3: Ester

ester.jpgA nossa série sobre os livros bíblicos que esposam uma visão de mundo relativamente próxima do que chamaríamos de ceticismo chega ao fim com uma comédia: Ester. Comédia? Precisamente, gentil leitor. O texto original hebraico de Ester é uma farsa burlesca, com piadas maliciosas, personagens exagerados e uma batalha épica do bem contra o mal que chega a lembrar as peças do brasileiríssimo Ariano Suassuna.
Com uma diferença importante: ao contrário do que vemos em “O Auto da Compadecida”, não existe deus ex machina em Ester. Aliás, o nome de Deus não aparece em nenhum ponto da obra (coisa que Ester compartilha com O Cântico dos Cânticos, poema erótico hebraico que hoje faz parte do cânone da Bíblia). Não há referências ao sobrenatural na obra, cuja autoria é anônima. Em momentos de crise, os personagens nem parecem saber rezar (embora jejuem, vistam-se de saco e se cubram de cinzas quando estão de luto).
Tudo indica que, como nossos outros livros bíblicos “céticos”, Ester é obra do período em que o Império Persa era senhor do Oriente Próximo. (Talvez a reconstrução profunda dos valores culturais israelitas nessa fase histórica explique o caráter sui generis de tais textos.) A ambientação é pseudohistórica, cheia de luxúria e fantasia: a corte do Grande Rei persa Ahasuero (provavelmente Xerxes) em Susa, na Mesopotâmia.
Ahasuero é o típico rei fanfarrão, promovendo banquetes suntuosos nos quais a ordem é encher a cara da população inteira de Susa. Em dado momento, já bebaço, o Grande Rei ordena que sua rainha, Vashti, apareça diante dos demais cortesãos “usando uma diadema real” (a interpretação dos antigos estudiosos rabínicos é que a frase quer dizer “usando a diadema e mais nada”, ou seja, peladona).
Natalie Portman avant la lettre
Vashti se recusa a pagar esse micaço e acaba simplesmente sendo retirada do posto de rainha pelo colérico Ahasuero. O qual, lógico, põe-se logo em busca de uma nova rainha. A escolhida acaba sendo a deslumbrante Ester, jovem órfã de pai e mãe que foi criada por seu parente Mordecai (ou Mardoqueu, como também se usa transliterar o nome). Detalhe: tanto Mordecai quanto Ester são judeus, membros da tribo de Benjamim cujos ancestrais foram parar na Mesopotâmia durante o exílio da Babilônia, embora não divulguem esse fato para o rei.
Tudo parece caminhar às mil maravilhas para a nossa Natalie Portman do Império Persa, se não fosse pelo fato de que Ahasuero resolveu promover um de seus cortesãos, Hamã, o agaguita (descendente de Agag, rei dos amalecitas, antigo tribo inimiga dos israelitas). Mordecai, também membro da corte, recusa-se a se curvar diante de Hamã.
E é aqui que a história ganha uma virada sombria — antissemítica, pra ser mais exato. Hamã propõe ao rei o extermínio de todos os judeus do império, uma vez que eles têm “leis diferentes das de todos os outros povos e não seguem as leis do rei”. De quebra, Hamã ainda prepara uma estaca da altura de um prédio de sete andares (o exagero ridículo é típico da narrativa) para empalar o odiado Mordecai. Ahasuero, depois de uma polpuda propina oferecida ao tesouro real por Hamã, consente que todos os judeus do império sejam executados num só dia.
Porrada
É claro que, após alguma hesitação, Ester revela sua origem judia ao rei, o malvado Hamã acaba tendo o que merece e os judeus não só escapam do massacre como matam 75 mil (!!!) de seus inimigos império afora. Final feliz, portanto. O aniversário da vingança israelita se torna o festival do Purim, espécie de carnaval judaico no qual, até hoje, o costume é “ficar tão bêbado que seja impossível distinguir entre ‘abençoado seja Mordecai’ e ‘maldito seja Hamã'”. Mas é interessante ponderar a mensagem que fica dessa historinha burlesca e sangrenta.
Em vez de “gritarem ao Senhor”, os judeus da Diáspora são instruídos a fortalecer suas redes de conexões políticas, aumentar sua coesão comunal, preparar-se de maneira prudente para o conflito, se for possível. É uma visão de mundo completamente secularizada, não muito diferente do sionismo socialista (e ateu) que guiou os fundadores do moderno Estado de Israel.
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Responda à pergunta e ganhe livros no Carbono-14!

Com patrocínio das editoras Paulus e Edições Loyola, é com prazer que anuncio a primeira promoção aqui no Carbono-14. Os vencedores ganharão os livros Para Além da Bíblia, de Mario Liverani, e A tapeçaria da teologia cristã, de Gregory C. Higgins.
São duas obras um bocado interessantes, a primeira explorando o que realmente existe de histórico na saga do povo de Israel contada na Bíblia (resposta curta: pouco), a segunda explicando as principais tendências teológicas do cristianismo, e principalmente do catolicismo, na atualidade. Tanto religiosos quanto não-religiosos certamente terão muito material para ruminar com os livros.
E, para ganhar, basta responder à pergunta:
Jesus existiu? Por quê?
Em no máximo 2.000 caracteres de Word. A melhor argumentação nesse espaço sucinto leva, e será publicada aqui no blog na quarta-feira que vem, dia 2 de dezembro, quando se encerram as inscrições. Enviem por favor para o meu e-mail, [email protected]
Ah, e como vocês devem ter percebido, isso indica o começo de uma nova série aqui, sobre o Jesus histórico. Em breve.
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Ceticismo bíblico, parte 2: Jó

jó.jpgDemorei tanto para continuar esta série aqui no blog que talvez vocês tenham até se esquecido do primeiro capítulo. (Para quem quiser refrescar a memória, eis o post sobre o Eclesiastes.) Grosso modo, minha intenção é demonstrar como a tradição bíblica não é monolítica: alguns textos fascinantes do Antigo Testamento apresentam uma veia questionadora poderosa, que lança dúvidas sobre alguns dos pressupostos mais caros à antiga religião israelita. Dessas obras, o livro de Jó provavelmente é a mais bela e desafiadora.
O livro de Jó é uma exploração desesperada (e às vezes desesperadora) da natureza do Mal em forma poética. Ou, para tomar emprestado o título de uma obra moderna sobre o mesmo tema, a pergunta central do livro é “por que coisas ruins acontecem com pessoas boas”.
Em certo sentido, a mera pergunta já é radical para a forma “ortodoxa” da antiga religião de Israel, ou do Levante antigo como um todo. Era generalizada a crença num sistema de retribuição moral simples, na base do um-para-um, no qual Deus ou os deuses recompensavam os bons e puniam os culpados. Ponto final.
No máximo, admitia-se que os descendentes dos justos (ou dos pecadores) poderiam ser “colocados na mesma conta” que os ancestrais, por assim dizer, o que se explica pela visão altamente coletiva das responsabilidades em sociedades tribais antigas. Além do mais, isso era visto como indício da benevolência divina: Deus “espalhava” sua benção por muitas gerações, o que comprovava sua generosidade, ou “diluía” sua raiva entre pais, filhos e netos, o que indicava sua leniência (afinal, mesmo os culpados não levavam na cabeça todo o peso da punição).
Arbitrariedade
E se alguém tão justo e correto quanto é possível ser humanamente passar por sofrimentos indescritíveis? Essa é a pergunta que o livro de Jó coloca. Como no caso de tantos livros bíblicos, não sabemos quem escreveu o texto hebraico que temos hoje, nem quando ele foi composto. Afinidades conceituais como obras proféticas tardias (como a presença da figura chamada de ha-satan, “o Adversário” — que pelo visto não é Satã ou o Capeta tal como o conhecemos, como explicarei melhor a seguir) sugerem uma versão final no período da dominação persa na Palestina, quem sabe entre 500 a.C. e 400 a.C.
Seja como for, há sinais de que o autor anônimo reaproveitou personagens e motivos muito antigos para criar sua obra filosófica. “Jó” é o nome de uma figura tradicionalmente conhecida por sua sabedoria e piedade, citada pelo profeta Ezequiel (século VI a.C.). O prólogo narrativo do livro, em prosa, tenta dar um clima arcaico, tipo “era uma vez”, à história, retratando Jó como uma espécie de sósia do patriarca Abraão: um magnata nômade, dono de uma imensa fortuna em ovelhas e camelos, vivendo na terra de Uz (nome poético para Edom, região do sul da Transjordânia).
Jó, portanto, não é um israelita, mas adora o verdadeiro Deus (muitas vezes chamado pelo epíteto arcaico de “Shaddai” no texto) e é, acima de tudo, extremamente ético, caridoso e religioso. Costuma oferecer sacrifícios a Deus em nome de seus filhos e filhas, tentando antecipar qualquer pecado que eles possam ter cometido sem que o pai soubesse. Não é de estranhar, portanto, que Deus o cubra de bençãos, dando-lhe todo tipo de riquezas e muita saúde.
E é aqui que a porca torce o rabo. Deus recebe regularmente em sua corte divina os relatórios dos “filhos de Deus” ou “seres divinos” (figuras equivalentes a anjos) sobre o estado das coisas aqui na Terra. E entre esses seres divinos está ha-satan, “o Adversário” — uma figura que atua como uma espécie de promotor público, ou chefe do FBI celestial. Deus elogia Jó para o Adversário e este responde que Jó só faz o bem porque é cumulado de vantagens pela bondade divina. Deus, então, permite que o Adversário retire de Jó tudo o que ele tem – primeiro os bens e a família e, num segundo ciclo de “aposta” entre ha-satan e o Senhor, também a saúde, deixando Jó coberto de chagas purulentas.
Poesia no meio
O engraçado é que poderíamos ter saltado diretamente desse prólogo em prosa para o epílogo, também em prosa, no qual Jó recebe de volta de Deus, em dobro, tudo o que havia perdido. A mensagem, nesse caso, seria simplesmente a de que Deus às vezes nos testa para saber se realmente praticamos o bem de forma desinteressada, mas sempre acabará nos recompensando se fizermos tudo direitinho.
O que estraga essa moral da história banal é a inserção, entre esses dois textos em prosa, de dezenas de capítulos formados por diálogos poéticos rebuscados e cheios de paixão. Esses diálogos correspondem aos debates entre o pobre Jó, arranhando suas feridas e desejando a morte, e três amigos que vêm visitá-lo e inicialmente querem consolar o coitado, Eliphaz, Zophar e Bildad. (Mais tarde aparece um quarto amigo, Elihu.) A conversa é encerrada com a aparição do próprio Deus, que também fala, de maneira exaltada e até violenta.
O ponto central desses diálogos é que o tempo todo os amigos de Jó defendem a visão tradicional sobre pecado, punição e sofrimento — dizendo “Jó, você e/ou seus filhos devem ter pisado na bola, por isso eles morreram e você está aí todo detonado” –, enquanto Jó continua afirmando que não fez nada para merecer tudo aquilo. Mais importante ainda, ele bate na tecla de que Deus é que está sendo injusto, de que Deus deixa que certas pessoas pratiquem o mal sem punição enquanto os justos sofrem. E, ao menos nesse caso, nós, como leitores, sabemos que Jó está certo, porque acompanhemos toda a aposta entre o Senhor e o Adversário no prólogo.
E quando Deus entra em cena? Será que explica tudo, finalmente? Nada disso. Numa extensa fala sobre as forças da Natureza e sobre o imenso poder necessário para domá-las exercido durante a criação do mundo, Deus apenas diz que nenhum ser humano chega perto dessa potência e, por isso, não tem direito de exigir explicações sobre como o Universo funciona. Mas o mais maluco vem agora. Depois desse discurso, Deus diz que está enraivecido contra os amigos de Jó e exige que eles façam — por meio de Jó — um sacrifício de expiação, “porque nenhum de vocês falou a verdade sobre mim, como fez meu servo Jó”. Como é que é??? Sim, é isso mesmo que Deus diz.
O texto, portanto, não tem medo de deixar pontas soltas e coisas sem explicação. É temerário tentar extrair uma moral da história de uma obra tão complexa e cheia de nuances poéticas, mas talvez o centro do que o livro de Jó quer dizer seja uma mensagem que mesmo um ateu não deveria desprezar. Sim, o Universo talvez não faça sentido; sim, talvez não haja justiça neste e em nenhum outro mundo; mas isso não desobriga os seres humanos de tentar fazer o que é certo. E a própria incerteza sobre a recompensa de fazer o que é certo é que torna a escolha correta algo com sentido.
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E não percam, em breve (sabe-se lá quando), o último capítulo da nossa saga cético-bíblica, com o livro de Ester!
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