Podcast especial: a tragédia do Butantan

Você que nunca ouviu as vozes maviosas (adjetivo empregado pela última vez por Monteiro Lobato em algum momento da década de 1940) do pessoal do ScienceBlogs, inclusive a minha, pode conferir esse bálsamo para seus ouvidos no podcast especial que preparamos sobre a tragédia da destruição da coleção de serpentes e aracnídeos do Instituto Butantan.
Basta clicar aqui. Agradecimentos aos nobilíssimos colegas Igor Santos, Eduardo Bessa e Luiz Bento. Bom apocalipse ofídico pra você.
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Mais uma resenha de “Além de Darwin”

O amigo e psiquiatra (não meu, esclareço!) Daniel Barros fez a gentileza de resenhar meu filhote “Além de Darwin”. Confira a resenha clicando aqui. Pra quem se interessar, a promoção continua: receba o livro com dedicatória, autógrafo, desconto e frete grátis, bastando, para isso, perguntar-me como no endereço [email protected] Cheers!
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Guia arqueologicamente incorreto da história do Brasil

narloch.jpgAnda bombando há tempos nas listas dos mais vendidos o livro “Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, de autoria do curitibano Leandro Narloch, amigo e colega de longa data. O Narloch já encomendou e editou textos meus, por exemplo, nas revistas “Superinteressante” e “Aventuras na História”. O que me põe numa posição incômoda: após ler o livro e encontrar algumas escorregadas grandes sobre os temas que eu trato aqui no Carbono-14, corro tanto o risco de perder o amigo quanto, quem sabe, alguns futuros frilas se me dispuser a criticar o conteúdo da maneira devida.
Bem, antes de fazer este post, comuniquei ao Narloch a minha intenção, de maneira a não pegá-lo desprevenido. Aproveito agora para convidá-lo a um post convidado aqui no blog caso queira contra-argumentar sobre o que escrevi aqui. De qualquer maneira, o comichão após ler o livro se tornou forte demais, porque acho perigoso os leitores comprarem certas afirmações do texto pelo seu valor de face. Vira desinformação. E não me senti à vontade para cruzar os braços.
O livro
Para quem não sabe, o “Guia” é dividido em capítulos temáticos — “Negros”, “Escritores”, “Samba”, “Comunistas” e muito mais — cujo objetivo declarado é desmontar os heróis de papel que a historiografia tradicional criou. A ideia é demolir os mitos históricos que não se sustentam e construir uma história do Brasil “sem mocinhos”.
Meu problema é justamente com o primeiro capítulo, “Índios”, no qual as informações trazidas pela arqueologia e disciplinas conexas mostram que o quadro traçado pelo Narloch é enviesado, quando não factualmente errado. Vamos por partes, como diria Jack.
“As tribos não apoiavam os colonos por alguma obediência cega. Seus líderes, que também participavam das bandeiras e das batalhas, estavam interessados na parceria para derrotar outras tribos.”
A frase faz parte da argumentação de que boa parte da destruição de tribos indígenas teria se dado pelas mãos de outros índios. Os portugueses, bem menos numerosos, teriam precisado oferecer vantagens para seus aliados indígenas, numa colaboração mais ou menos igual.
OK, não há como discutir a intensão participação indígena nas bandeiras, digamos. O problema é a mistureba de períodos e situações coloniais, como se tudo fosse a mesma coisa. Mesmo no início, as tribos só quiseram ajuda portuguesa porque estavam cientes da desproporção de poderio tecnológico entre os europeus e elas.
No entanto, conforme os núcleos coloniais foram se fortalecendo e ficando mais numerosos, a ajuda se tornou dispensável — tanto que os tupiniquins de São Paulo, antigos aliados, foram esmagados quanto ameaçaram se rebelar. E as tropas de choque indígenas das bandeiras do século XVII eram formadas largamente por indivíduos que eram tão escravos quanto os índios que eles iam capturar.
“O melhor exemplo é Domingos Jorge Velho, bandeirante paulista que destruiu o Quilombo dos Palmares. Filho de um europeu com uma índia, ele não falava português. Assim como quase todos naquela época, expressava-se na língua geral tupi-guarani.”
Errado. O grupo de Heitor Megale, filólogo da USP, estuda há anos o português falado no Brasil durante o século XVII, em especial os registros deixados por bandeirantes, e mostrou que Jorge Velho não só falava como escrevia (mal, vá lá) português. Deixou rabiscos de próprio punho. A lenda de que ele não arranhava a nossa língua foi propagada por um bispo do Nordeste que difamou Jorge Velho por puro preconceito de classe (tipo “isso aí que esse sujeito fala nem chega a ser português!).
“O interessante é que esses nobres senhores não eram descendentes de nenhum poderoso fidalgo português. O homem que criou a dinastia dos Souza de Niterói chamava-se Arariboia. Era o cacique dos índios temiminós, que ajudaram os portugueses a expulsar franceses e tupinambás do Rio de Janeiro.”
Aqui, o Narloch argumenta que a maioria dos índios não foi exterminada, mas se integrou pacificamente e de livre vontade, inclusive em cargos de mando, na população colonial. Ele cita inclusive dados interessantes sobre índios pintores, músicos, pedreiros e de outras profissões listados em censos de São Paulo, Rio e Minas nos séculos XVII e XVIII.
É significativo, no entanto, que ele não consiga citar nenhum outro caso de “dinastia fidalga” indígena além da família de Arariboia. Alguns mestiços, é verdade, também chegaram lá. Mas é difícil contestar o fato de que a imensa maioria dos indígenas “se integrou” à sociedade colonial como escravos ou camponeses e trabalhadores pobres. Qual a vantagem material que existe nisso em relação à vida tribal? Zero — voltaremos a isso mais tarde.
Além disso, no caso do litoral, essas tribos, há mais de um século, estavam aldeadas — reunidas em vilas comandadas por jesuítas e outros religiosos –, em avançado processo de conversão religiosa e transformação cultural, além de reduzidas em número por epidemias e guerras. Não admira que elas tenham se integrado com facilidade: a “cola” cultural e religiosa das sociedades indígenas já tinha ido para o saco havia muito.

“Pesquisas de ancestralidade genômica, que medem o quanto europeu, africano ou indígena um indivíduo é, sugerem que os brasileiros são em média 8% indígenas. (…) É pouco sangue indígena, mas não tanto pensando numa população de 190 milhões de habitantes. Se pudéssemos organizar esses genes em indivíduos cem por centro brancos, negros ou ameríndios, 8% dos brasileiros daria 15,2 milhões de pessoas, ou mais de quatro vezes a população indígena de 1500.”

Essa matemática não cola, a começar pelo fato de que, mesmo com esses indígenas “Frankenstein”, formados pela reunião arbitrária de DNA de corpos separados num só corpo, o crescimento “populacional” indígena teria sido inferior à metade do crescimento populacional do resto dos brasileiros nos últimos 500 anos (que foi da ordem de dez vezes).
Faltou se perguntar: por que só 8%? Não é porque o número inicial fosse baixo — ele era, afinal, o mais alto de todos. É preciso considerar outra possibilidade: reprodução diferencial positiva dos não-índios. Ou seja: ao menos certa parcela da população indígena tinha menos chances de se reproduzir – beeem menos. A resposta está no parágrafo seguinte, embora o Narloch não tenha conseguido vê-la.

“O número fica ainda maior se considerarmos como descendente de índios toda pessoa que tem o menor toque de sangue nativo. Em 2000, um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais causou espanto ao mostrar que 33% dos brasileiros que se consideram brancos têm DNA mitocondrial vindo de mães índias. (…) Esses números sugerem que muitos índios largaram as aldeias e passaram a se considerar brasileiros.”

O termo “DNA mitocondrial” é a chave, senhoras e senhores. Como bem nota o livro, ele só é transmitido pela linhagem materna. O equivalente masculino dele é o cromossomo Y, só passado de pai para filho (do sexo masculino). Por simetria, seria interessante ter os dados do Y, omitidos pelo Narloch, mas presentes no estudo de Sérgio Danilo Pena que ele cita. Sabe quantos brasileiros considerados brancos carregam um Y “de índio” nessa amostragem? Nenhum. Vou repetir: zero.
Essa assimetria é típica de populações conquistadas, gente. Pra não deixar dúvida: CONQUISTADAS. Será que os portugueses eram tão mais gostosos (ui!) que os índios que as índias magicamente resolveram ter filhos só com europeus assim que Cabral pôs os pés aqui? É claro que não. Aconteceu o que acontece com todas as populações conquistadas desde que o mundo é mundo, das sagas bíblicas às guerras de Alexandre: os homens são mortos e as mulheres, emprenhadas.
Deixa eu reforçar, porque é importante: esse é um dado básico de biologia molecular e de comportamento humano (eu diria até primata). É assim que as coisas funcionam. Outros fatores talvez tenham contribuído — seleção natural contra doenças europeias às quais os mestiços eram resistentes e os índios “puros” não, vantagens dos portugueses na hora de obter parceiras para relações polígamas, relativa falta de mulheres europeias etc. — mas dificilmente eles explicam a maior parte do fato arrasador de que os homens indígenas, de repente, pararam de se reproduzir.
Parafraseando certo profeta do Design Inteligente, trata-se de um fato, fato, FATO incontestável, não passível de ser manipulado via documentos adulterados ou historiografias com peso ideológico duvidoso. Está no DNA dos brasileiros pra quem souber interpretar: “integração pacífica” quer dizer pegue a mulherada e descarte os homens.
Já deu
Eu poderia abordar outros detalhes. Outra grande escorregada é assumir que os animais domésticos e a tecnologia europeia aumentaram instantaneamente o nível de vida dos índios (animais e implementos eram caros, e a expectativa de um camponês de Portugal era rigorosamente idêntica à de um índio tupinambá). Mas acho que o texto já ficou cansativo.
É normal, e humano, maquiar a evidência um pouquinho pra defender sua hipótese predileta. Deus sabe que eu e a torcida do Corinthians já fizemos isso não poucas vezes. Mas, nesse capítulo indígena, o Narloch não só maquiou a evidência como botou meia arrastão e minissaia nela e ainda levou a coitada para rodar bolsinha no Putusp. Não dá.
E o pior é que nem precisava. Há picaretas suficientes na história do Brasil pra tese do livro ficar em pé, sem mudança nenhuma, caso esse capítulo não existisse. A vontade de derrubar mitos saiu do controle. E há a frase final:

“Da mesma forma, quem hoje se considera índio poderia deixar de culpar os outros por seus problemas.”

É, o pessoal que quer construir Belo Monte e as usinas do Tapajós vai adorar ouvir isso. Os índios não são santos. Mas 90% dos problemas deles vêm de um único fato: eles são populações conquistadas.
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Prêmio Bê Neviani: o Carbono-14 apoia!

Com muito atraso, finalmente consegui colocar no ar minha adesão ao glorioso Prêmio Bê Neviani. Confiram, dispersem e divirtam-se!
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Porque não basta divulgar, tem que dispersar!

Depois do recente anúncio feito pela vetusta Biblioteca do Congresso (Library of Congress), comunicando que arquivará todas as mensagens públicas postadas no Twitter desde o início do serviço de microblog, não restam dúvidas de que esta mídia social veio para ficar.

Segundo os cofundadores Bizz Stone e Evan Williams, hoje o Twitter tem 105 milhões de usuários registrados, e 300 mil novos usuários ingressam no serviço a cada dia. Seu crescimento médio foi de 1.500% por ano, desde a fundação da "Twitter Inc" em março de 2006. O serviço atende a 19 bilhões de buscas por mês. Apenas comparando, o Google atende a 90 bilhões no mesmo período.

Não se pode negar – o Twitter é uma ferramenta 2.0 por excelência: seu conteúdo é gerado e compartilhado pelos próprios usuários. A dinâmica do microblog funda-se primordialmente na atuação dos tuiteiros, que seguindo e sendo seguidos, dispersam conteúdos virtuais.

A ação de tuiteiros que dispersam conteúdos relevantes no universo tuitiano merece destaque e deve ser aplaudida. Foi essa premissa que inspirou a criação do Prêmio Bê Neviani, reconhecendo a incrível capacidade de dispersão de tuítes com conteúdo diversificado, como cultura, ciência, tecnologia, notícias e muito mais, do perfil @Be_neviani.


Hoje, dia 22 de abril de 2010, estamos lançando o Prêmio Bê Neviani: porque não basta divulgar, tem que dispersar

Regulamento:

– O Prêmio Bê Neviani é aberto a todos os tuiteiros que tenham blogues de conteúdo informativo: ciências, cultura (literatura, cinema, artes, fotografia, música, etc), filosofia, notícias, dicas e assemelhados.

– Os blogues participantes da campanha tuitarão, no período de 23 de abril de 2010 a 23 de maio de 2010 links para seus posts, publicados em qualquer data e com qualquer temática, obrigatoriamente usando a hashtag #PremioBeNeviani e o encurtador de links Bit.ly.

– No período de vigência da campanha, os retuítes (RTs) que os links desses posts receberem serão computados para a apuração de dois ganhadores, um em cada uma das duas seguintes categorias:

Categoria 1: blogueiros – o vencedor será o blogueiro cujo post recebeu mais RTs. O prêmio dessa categoria será o livro "Criação Imperfeita", de Marcelo Gleiser.

Categoria 2: tuiteiros – o vencedor será o tuiteiro que deu RTs em qualquer dos tuítes postados durante a vigência da campanha. Essa categoria terá sua apuração por sorteio. O prêmio para essa categoria será o livro "Além de Darwin", de Reinaldo José Lopes.

O anúncio do prêmio será em 30 de maio de 2010, pelo Twitter.

Para participar, envie um tuíte para as administradoras @sibelefausto ou @dra_luluzita, ou então comente aqui, que entraremos em contato.

Abaixo, segue a relação dos blogues e tuiteiros participantes. À medida que mais blogueiros aderirem a essa campanha, essa listagem será atualizada.

Blog – Blogueiro-tuiteiro

100nexos @kenmori

Amiga Jane @lacybarca

Blog Bastos @bastoslab

CeticismoAberto @kenmori

Chapéu, Chicote e Carbono 14 @reinaldojlopes

Ciência na Mídia @ciencianamidia

Discutindo Ecologia @brenoalves e @luizbento

Dicas Caseiras para quem mora só @uoleo

Ecce Medicus @Karl_Ecce_Med

Efeito Azaron @efeitoazaron

Ideias de Fora @IdeiasdeFora

Joey Salgado… mas bem temperado @joeysalgado

Karapanã @alesscar

Maquiagem Baratinha @aninhaarantes

Meio de Cultura @samir_elian

Minha Literatura Agora @jamespenido

O Amigo de Wigner @LFelipeB

O divã de Einsten @aninhaarantes

O que todo mundo quer @desireelaa

Química Viva @quiprona

Quiprona @quiprona

Rabiscos @skrol

Tage des Glücks @nataliadorr

Tateando Amarras @eltonvalente

Terreno Baldio @lacybarca

Twiterrorismo @aninhaarantes

Uma Malla pelo Mundo @luciamalla

Uôleo @uoleo

Update: Mais adesões ao #PremioBeNeviani
Bala Mágica @balamagica
Ciência ao Natural @CienAoNatural
Diário de um Gordo @Edgard_
Psiquiatria e Sociedade @danielmbarros
The Strange Loop @josegallucci
Toda Cultura à Nossa Volta @fabiocequinel
Tuka Scaletti @TukaScaletti
XisXis @isisrnd

Isenção jornalística é o esculete da nonna

Aviso: as opiniões expressas neste post são de exclusiva responsabilidade da minha pessoa física e não representam a linha editorial do veículo para o qual trabalho. Peço desculpas aos leitores do blog pelo tema um tanto off-topic, mas estava entalado faz tempo com isso.
Fazer jornalismo científico é divertidíssimo, mas às vezes exige um estômago de leão para as histerias coletivas alheias. Comecei a cobrir ciência em 2001, meu último ano de faculdade, e passei seis anos acompanhando e reportando os estudos sobre mudanças climáticas nas principais revistas científicas do mundo. Em praticamente todos os trabalhos publicados, a mensagem era um bocado clara: as incertezas eram consideráveis, havia muita coisa ainda a compreender, mas a seriedade do aquecimento global provocado pelo homem era indiscutível. A mesma mensagem durante seis anos, gentil leitor. Dou um doce pra quem adivinhar quantas vezes esse tipo de notícia foi parar na primeira página nesse período. (Dica: dá pra contar nos dedos de uma mão.)
Então chegou 2007, o ano em que um novo relatório do IPCC, o painel climático da ONU, veio a público. Note bem: o IPCC não produz pesquisa original, apenas empacota dados alheios. O que o relatório do IPCC dizia era apenas o que a revisão da literatura deixava claro: o papel preponderante da humanidade nas mudanças climáticas, e a aparente seriedade do fenômeno.
E aqui começa a histeria coletiva, fase 1. Do ponto de vista da ciência, rigorosamente NADA havia mudado, mas a linguagem um pouco mais forte do que o usual no texto do IPCC fez com que, de repente, a mídia dorminhoca acordasse para o tema das mudanças climáticas. Inacreditavelmente, por um desses passes de mágica do Zeitgeist, do espírito do tempo, todo mundo resolveu falar do apocalipse climático.
Lembro que, na época, eu e meus colegas do jornalismo científico nos entreolhamos incrédulos. Será que todo mundo tinha passado a década sob efeito de tranquilizantes, menos a gente? Recordo ter perguntado a mais de um entrevistado se a overdose do tema não levaria a um anestesiamento do público, ou mesmo a uma reação futura que acabaria sendo contraproducente para a necessidade de agir contra o problema.
Cansaço besta
Batata: passados meros dois anos, o planeta estava tão cansado da cantilena sobre salvar o planeta que, desde o fim de 2009, estamos vivendo a era de ouro dos negacionistas do clima, o pessoal que não crê na existência do aquecimento global ou, pelo menos, nega que o homem tenha tido algo a ver com isso.
Note bem: quando se trata de ciência, mais uma vez, NADA mudou. Rigorosamente NADA. O chamado “Climagate”, como ficou conhecida a divulgação de e-mails roubados por hackers dos servidores da Universidade de East Anglia (Reino Unido), só mostrou, como bem disse nosso chefe supremo Carlos Hotta, que cientistas também são humanos. É claro que os climatologistas também se exasperam com as incertezas do seu trabalho; é claro que eles ironizam seus opositores e, às vezes, ficam doidos para cobri-los de sopapos; é claro que isso pode contaminar o processo de revisão por pares de artigos científicos. Se você achava que esse tipo de coisa não acontecia na ciência, é porque esposava uma visão higienizada e romântica de uma disciplina que é humana, demasiado humana.
E-mails mal educados à parte, o conteúdo do Climagate não muda a robustez dos dados sobre o aquecimento global causado, ao menos em boa parte, pela ação humana. Os cientistas negacionistas — muitos dos quais a soldo da indústria dos combustíveis fósseis — não têm nada nas mãos, por mais que balbuciem hipóteses sobre atividade solar e raios cósmicos. Mesmo assim, é impressionante como leigos negacionistas passaram a fazer muito, muito barulho. Supostamente, o jornalismo científico não cumpriu seu papel fundamental de “informar com isenção”, “ouvir os dois lados”, “publicar o contraditório”.

Bullshitando

A esse tipo de argumento eu digo: bullshit, negão. Titica de vaca. Isenção jornalística é o esculete da nonna. Em ciência, nem todas as opiniões nascem iguais. O meu dever não é abrir espaço para toda e qualquer opinião, mas sim para a que estiver apoiada pelos melhores fatos. Claro, há que se fazer com a máxima humildade possível, diante da natureza provisória dos dados, e da eterna possibilidade de que novas análises produzem uma reinterpretação radical deles.
Mas, enquanto isso não acontece, seria covardia, canalhice mesmo, fingir que o que dizem negacionistas e climatologistas tem peso igual. NÃO TEM. Nem no quesito teoria da conspiração os negacionistas conseguem dar uma bola dentro. É sempre a mesma ladainha sobre os “grandes interesses” de Al Gore e companhia, a suposta vontade de manter os paises em desenvolvimento sem chegar ao Primeiro Mundo.
É só parar pra pensar por 30 segundos pra perceber que o interesse de Gore de cobrar por palestras é infinitamente mais fraco do que o poderio da indústria de combustíveis fósseis. Quanto ao suposto complô dos países ricos, que tal prestar atenção na imensa choradeira de todos eles, em especial dos EUA, pra cortar emissões de carbono.
Isenção, “imparcialidade”, é covardia quando os fatos estão claros. Esse crime eu não quero que paire sobre a minha consciência. Se outros se sentem à vontade com ele, é de se lamentar.
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Eu e o Gordo

Demorou mas chegou rápido, como dizia um garçom que eu conheço. Pra quem ainda não viu, eis a íntegra do vídeo com a minha entrevista no Programa do Jô sobre o livro “Além de Darwin”. E a promoção continua: quem quiser a obra com autógrafo, dedicatória, descontão e frete grátis só precisa me escrever no endereço [email protected] e perguntar como 😉

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Nós, o asteroide

cratera.jpgEsse é o título da reportagem de capa da última edição da revista “Unesp Ciência”, assinada pelo escriba que vos fala. Ficaria um bocado feliz se pudessem dar uma olhada no material (totalmente de grátis, aqui, em PDF), primorosamente editado por Giovana Girardi e seus asseclas. Como vocês provavelmente vão notar pelo texto, o tema — a aparente extinção em massa que está em curso, causada pela ação humana — me toca muito de perto.
Entretanto, por uma questão metodológica, acabou ficando de fora da reportagem um pedaço da tragédia que tem tudo a ver com a temática deste blog. A gente decidiu iniciar nossa “contagem de corpos” a partir do ano convencional de 1500, para marcar o estrago que a expansão europeia causou nos ecossistemas do resto do mundo desde então. Mas o registro arqueológico revela que nenhum povo precisa de caravelas para produzir um ecocídio dos grandes.
Esse registro é mais claro nas ilhas oceânicas do planeta, a maior parte delas colonizada por seres humanos há poucos milhares de anos, após o fim da Era do Gelo. Como muita gente sabe, ecossistemas insulares são especialmente frágeis porque o isolamento tende a produzir neles, ao mesmo tempo, espécies endêmicas (que só existem ali e em nenhum outro lugar) e que evoluíram sobre baixa pressão relativa de competidores e predadores.
Resultado: é comum que elas sejam relativamente lerdas, de reprodução vagarosa e sem grandes defesas naturais. Por isso, agricultores primitivos ou mesmo caçadores-coletores da Idade da Pedra são capazes de verdadeiras hecatombes quando encontram esse tipo de criatura.
Coxinha
Nossos principais exemplos vêm dos oceanos Índico e Pacífico. Quando navegadores vindos da Indonésia botaram os pés pela primeira vez em Madagáscar, a ilha estava povoada por lêmures do tamanho de gorilas e aves gigantes que botavam ovos do tamanho de bolas de futebol.
Na Nova Zelândia, não apenas uma, mas várias espécies de aves gigantes, os moas, tinham ocupado os nichos ecológicos que nós normalmente associamos a mamíferos de grande porte. Os maoris, polinésios que chegaram às terras neozelandesas, tinham tanta facilidade para abater os moas que, em muitos sítios arqueológicos, parece que apenas as coxas dos bichos foram devoradas — o resto foi simplesmente queimado. E o timing foi de vendaval: os maoris chegaram por volta do ano 1000 da Era Cristã, tendo conseguido extinguir os bichos em poucos séculos.
Portanto, a Sexta Extinção já se desenrola faz alguns milhares de anos. E não dá para saber quando — e se — deixaremos de bancar os carrascos planetários. Quem quiser mais detalhes, com requintes de crueldade, pode conferir esta coluna, feita nos meus idos tempos de G1. Bom requiém pra vocês.
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“Além de Darwin” hoje, no Programa do Jô

Quem quiser me ver falando de algumas das histórias mais divertidas do meu livro “Além de Darwin” — patos bem-dotados, parasitas que manipulam a mente de seus hospedeiros, corvos que fabricam ferramentas e polvos muito, muito espertos — deve ficar de olho no Programa do Jô desta madrugada. Aparentemente o célebre Gordo foi com a minha cara e eu ganhei dois blocos 😉
E quem quer adquirir o livro com descontão, frete grátis, autógrafo e dedicatória só precisa me perguntar como no e-mail [email protected] Boa insônia pra todo mundo!
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Mais uma resenha de “Além de Darwin”

E num lugar totalmente inesperado, o site da Secretaria de Ensino Superior do Estado de São Paulo. Pedro Ulsen curtiu o livro mas, surpreendentemente, não foi com a cara do capítulo sobre sexo. Pra você ver que nem sempre o que parece o tema mais pop é o que mais agrada. O link original da resenha segue aqui, mas você também pode lê-la abaixo. E o que está esperando? Quer receber “Além de Darwin” com desconto, autógrafo, dedicatória e frete grátis no conforto de seu lar? Pergunte-me como: [email protected]
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Jornalista da Folha de S.Paulo apresenta, em livro, teorias da evolução “além de Darwin”
“Além de Darwin” não é um livro de tema restrito e pouco avançado. A obra é resultado de uma produção semanal do autor Reinaldo José Lopes na coluna Visões da Vida do G1, o portal de notícias da Rede Globo na internet, onde ele trabalhava antes de ingressar na editoria de ciência do jornal Folha de S.Paulo. O objetivo da obra, lançada no final do ano passado pela Ed. Globo, é “proporcionar uma visão telescópica, de longo alcance, da história da vida no nosso planeta”, revela o próprio autor.
Como proposta, aliás, é bom assumir: haja visão! Antes de ser um livro sobre a evolução, e antes mesmo de ficar travado nas teorias darwinistas, “Além de Darwin” é fiel à ideia continuísta do seu título e debate do início ao fim conceitos biológicos, sociais, racionais, emocionais, sexuais e comportamentais de diferentes seres vivos. Uma escala crescente de evolução, o próprio livro. O bom desempenho, aliás, faz com que a obra seja mais indicada para estudiosos da área científica. Claro que sua leitura pode ser útil a todos os interessados pelo tema, mas conhecer a área só contribui para a compreensão dos temas discutidos.
A proposta é de fato alcançada, mas esbarra no primeiro capítulo da obra – meio enfadonho e bastante polêmico -, que se detém demais na análise “dos deleites e das agruras de se reproduzir fazendo sexo”. Todas as pesquisas têm seu valor, mas esta observação vem de forma exagerada e simplista. O autor tem que as mulheres são a causa mais comum de brigas internas e externas em determinadas sociedades que cita. “É simples assim: os chefes mais poderosos, com maior habilidade militar e maior número de guerreiros à sua disposição, são quase sempre os que possuem o maior número de esposas e concubinas”, crê.
Ainda polêmico e menos acintoso o autor retoma a discussão com narrações bem articuladas – que marcam a obra a partir daqui: “Confessemos o inconfessável: sexo é bom e todo mundo gosta, mas dá um trabalho dos infernos. Considere quanto sangue e suor, quantas lágrimas, notas de cem e faturas de cartão de crédito já foram empregados na história do cosmos para esse fim; quantas caudas de pavão e Ferraris, quantos vestidos decotados, sem falar no gasto de energia intelectual, como a invenção do soneto, os romances medievais sobre o amor cortês, o Cântico dos Cânticos. É muita dor de cabeça”, opina.
Desde então compreensões como essas são deixadas para trás. É o momento de transformação da obra, que avança com qualidade para compreender a evolução da vida. As diferentes formas de inteligência são abordadas, os componentes biológicos dos seres vivos também, além da história e origem da Humanidade. Na reta final o assunto são as maneiras e as aparências dos corpos para finalizar com um belo – e ousado – capítulo que aborda acertadamente os pontos de encontro entre fé e razão, as conexões entre sabedoria e ciência.
Escalada positiva
Se é para avaliar a evolução, tentando entender a história e o destino da vida, Lopes não se priva de estabelecer parábolas. Não surpreende ao dizer que “a diferença entre nós e o resto das formas de vida nesse quesito é menor do que gostaríamos”. Ousado nas propostas e com evolução de ideias graduada, a obra traz temas diversificados da Ciência, que vão do bipedalismo às especificidades da evolução. O texto, vale ressaltar, é muito bem escrito. Tem narração articulada, por vezes complexa pelo tema, mas sempre com desenvolvimento conceitual ascendente. Não é, como dito acima, um livro básico, e tem também um tempero literário de narrativa.
De um modo geral, a obra tem conteúdo extenso, que garante aos interessados não só uma visão sobre evolução. Este, é claro, o conceito que conduz a narrativa do livro. Mas é a partir dele que o autor entra em diferentes temas. Até a religião – tema ímpar à Ciência – é tratada na reta final da obra. “A ciência pode entender como a fé se desenvolve, mas a base e o sentido que ela dá à existência humana estão fora do alcance dos laboratórios. (…) Não há nada de desrespeitoso em tentar entender esse processo. Como o próprio Jesus disse, ´Conhecereis a verdade – e a verdade vos libertará´”, escreveu Lopes.
“Além de Darwin” condensa posteriormente sua escalada de evolução e aponta perspectivas ao futuro. Uma das conclusões é que a compreensão do processo biológico não parece um substituto completo para outras formas de exprimir a verdade sobre nós mesmos, ou sobre o Universo. A declaração é equilibrada: “Não se pode esquecer que a racionalidade e o método científico são ferramentas, não oráculos. (…) O belo e o horrendo, o certo e o errado – ainda cabe a faculdades que não a razão julgar qual é qual, por mais que o exame racional possa fornecer pistas e subsídios para o veredicto.”
E é assim, depois de construir seu próprio desenvolvimento, de entrar em detalhes sobre a história da evolução, de abandonar uma concepção isoladamente antropocêntrica, e de pensar o momento atual como parte de uma evolução mais ampla, que Reinaldo José Lopes fecha a obra de modo assertivo: “Que as nossas mãos sejam instrumentos para um florescimento cada vez mais formoso da Criação (sim, não tenho medo de usar a palavra), enquanto ela durar. Que os que vierem depois de nós tenham solo sadio para plantar – e espaços vastos onde não precisem plantar. Mais do que isso não se pode pedir de ninguém.”
Por Pedro Ulsen.
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Simpática resenha de “Além de Darwin”

Rogério Parentoni, professor de ecologia aposentado pela UFMG e professor-visitante no Departamento de Biologia da Universidade Federal do Ceará, teve a imensa gentileza de me mandar uma resenha do meu livro “Além de Darwin”. O professor Rogério me deu permissão de reproduzi-la abaixo. Quem sabe você, nobre leitor, não se inspira a adquirir o livro também? 😉 Aliás, quem quiser fazê-lo com desconto, frete grátis, autógrafo e dedicatória pode fazer o pedido comigo mesmo, no e-mail [email protected] Aí vai o texto.
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Muito além dos “mistérios evolutivos”
Reinaldo José Lopes, por meio de seu livro, “Além de Darwin”, merece loas pelo estilo jocoso e leve sem perder a consistência e o raciocínio científico lógico, por intermédio dos quais divulga alguns dos mais intrigantes “mistérios” da evolução. Leitores exigentes, curiosos e imaginativos deverão apreciar a leitura desse compêndio pelos motivos acima exarados.
De fato é de impressionar a diversidade de formas e comportamentos em organismos tão distintos, mas de origem comum. As relações de parentescos entre os organismos que resultam da evolução podem ser representadas como se fossem bifurcações de galhos em uma árvore em crescimento que, desde a germinação, só faz ampliar sua copa e tornar-se mais complexa. Tais bifurcações ocorrem em virtude de condições ecológicas distintas no tempo geológico-evolutivo.
Vale aqui a metáfora bem adequada, nome do pequeno e estimulante livro escrito pelo ecólogo britânico G. E. Hutchinson (merecedor de uma biografia): O teatro ecológico e o drama evolutivo.
Bem estribado em leituras técnicas e capaz de entendê-las adequadamente, porque inteligentemente digeridas, Reinaldo trafega em um mundo de ardis e perigos iminentes. Distraidamente e em intenção de leveza e clareza da divulgação, passeia entre concepções teóricas e evidências empíricas lábeis, posto que tanto as causas como os resultados da seleção natural e a conseqüente evolução de atributos dos organismos, estão e estarão sempre “sub judice”.
Essa atitude jurídica de pendência traduz a existência de armadilhas sintáticas e semânticas na estrutura teórico-empírica do sistema de teorias evolutivo (inclui as teorias de evolução em si mesmo, descendência com modificações, árvore da vida, evolução por seleção natural e especiação). Por isso mesmo peço que alguém me apresente uma ciência tão difícil de ser construída quanto o é a Biologia Evolutiva.
Mas, como o fariam diretores teatrais exigentes, há necessidade de que sejam explicitados detalhes das configurações ecológicas das cenas e do desenrolar do próprio espetáculo evolutivo, tarefa que aguarda o esforço criativo de muitos pesquisadores para muitos anos vindouros. Nesse ponto, Reinaldo José Lopes, inadvertidamente e algo entusiasta, não explicitou dúvidas benfazejas, combustíveis intelectuais para mentes inquietas.
Todavia, ele deve ser (repito) lido. Estou a chegar ao final do compêndio satisfeito com sua prosa fluente, leve e às vezes portadora de piadinhas inofensivas: faz parte do estilo. Mas em seu livro, há o pecado original de uma divulgação científica, do qual o autor consegue imunizar-se parcialmente, é o que produz a sensação de que os “mistérios” evolutivos estão sobejamente esclarecidos.
Darwin deu o “start” fundamental e genial para a compreensão da evolução orgânica. Mas a partir daí o que se tenta há 150 anos é entender os detalhes para os quais as teorias evolutivas apontam. Quaisquer sejam eles, os resultados do esforço científico resultarão em compreensões necessariamente incompletas. Reconhecer essa limitação da ciência é reconhecer sua autenticidade, credenciada pela dúvida. A compreensão científica não se encerra e nem se basta apenas com as concepções e atitudes do mais brilhante pesquisador.
Retorno a Reinaldo, não apenas para novamente reconhecer-lhe os méritos, mas também para adverti-lo de que seu esforço literário criativo poderá não alcançar tantas mentes e corações com seria desejável, por mais que seja tão bem intencionado e sinceramente” evolutivo”.

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