Ciência e Religião

Salve, Pessoal!
O meu professor particular de Física de Altas Energias, Prof. Daniel Doro Ferrante (que, nas horas vagas – eu sou um aluno muito aplicado, portanto ele tem bastante delas – está tirando um PhD em Física de Altas Energias na Universidade de Brown, Providence, Rhode Island, USA, enquanto se diverte como Webmaster do Departamento de Física daquela pequena instiuição acadêmica) tem um irritante hábito de publicar em seu BLOG (o link está aí do lado) uma porção de links para assuntos extremamente interessantes e deixar de comentá-los, sob pretextos vagos de que tem que preparar alguns papers, ou torturar os undergraduates em cursos sobre assuntos triviais como Relatividade Geral (ou – risível – jogar basquete)…
Em 27 de outubro, sob o prosaico título de “As coisinhas interessantes de hoje“, entre outros links, ele deixou um para um artigo, republicado, sobre o tópico deste artigo. Embora o autor seja uma figura obscura, suas idéias me pareceram bastante razoáveis e, como eu adoro traduzir, lá vai:

Sobre ciência e Religião
Uma palestra proferida na Conferência sobre Ciência, Filosofia e Religião em 1941
Por Albert Einstein
Não deveria ser difícil chegar a um acordo sobre o que entendemos por ciência. Ciência é o empreendimento centenário de arrebanhar, por meio do raciocínio sistemático, os fenômenos perceptíveis deste mundo, em uma associção tão abrangente quanto possível. Em uma definição ampla, é a tentativa de reconstruir, a postreriori, a existência, por meio de conceitualizações. Porém, quando me pergunto sobre o que é religião, eu não consigo pensar em uma resposta tão simples. E, mesmo depois de encontrar uma resposta que me satisfaça no momento, eu ainda permaneço convencido de que não posso, sob circunstância alguma, conciliar, nem mesmo um pouco, todos os que deram a esta questão uma consideração séria.
Em primeiro lugar, então, em vez de perguntar o que é religião, eu prefiro perguntar o que caracteriza as aspirações de uma pessoa que me dá a impressão de ser religiosa: uma pessoa que é religiosamente iluminada, me parece ser uma que, na melhor medida de suas habilidades, se libertou das limitações de seus desejos egoístas e se preocupa com pensamentos, sensações e aspirações aos quais se liga por causa de seus valores supra-pessoais. Me parece que o que realmente importa é a força desse contentamento supra-pessoal e a profundidade da convicção acerca de seu supremo significado, a despeito de qualquer tentativa de unir este conteúdo com um Ser Divino, porque, senão, seria impossível contar Buddha e Spinoza como personalidades religiosas. De acordo com esta ideía, uma pessoa religiosa é devota, no sentido de que não tem dúvida alguma sobre o significado e supremacia desses metas e objetivos supra-pessoais, que não necessitam, nem são adequados a fundamentos racionais. Eles existem com a mesma necessidade factual da pessoa. Neste sentido, a religião é o empreendimento da humanidade que se perde nas brumas dos tempos, em se tornar clara e completamente consciente desses valores e metas, e de reforçar e estender, constantemente, seus efeitos. Se alguém concebe religião e ciência de acordo com estas definições, então um conflito entre elas parece impossível. Porque a ciência só pode afirmar aquilo que é, mas não o que deveria ser, e, fora destes domínios, julgamentos de valores de todos os tipos permanecem necessários. A religião, por outro lado, lida apenas com avaliações dos pensamentos e ações humanos: ela não pode falar, justificavelmente, dos fatos e dos relacionamentos entre os fatos. De acordo com esta interpretação, os bem conhecidos conflitos entre religião e ciência, no passado, devem ser atribuídos a uma má compreensão da situação descrita.
Por exemplo, um conflito começa quando uma comunidade religiosa insiste na absoluta veracidade de todos os ensinamentos contidos na Bíblia. Isto significa uma intervenção, por parte da religião, na esfera da ciência; este é o campo no qual se travaram as lutas da Igreja contra as doutrinas de Galileu e Darwin. Por outro lado, representantes da ciência têm tentado chegar a julgamentos fundamentais a respeito de valores e finalidades, com base no método científico, e, deste modo, se colocaram em oposição à religião. Todos estes conflitos nasceram de erros fatais.
Agora, mesmo que os reinos da religião e da ciência, em si, estejam claramente definidos como separados entre si, ainda assim, existem entre os dois fortes vínculos e dependências recíprocos. Apesar da religião ser aquela que determina as metas, ela, não obstante, aprendeu com a ciência, em seu sentido mais abrangente, quais os meios podem contribuir para atingir as metas estabelecidas. Mas a ciência só pode ser criada por aqueles que estejam totalmente imbuídos da aspiração pela verdade e compreensão. A fonte deste sentimento, entretanto, nasce da esfera da religião. Daí vem, também, a fé na possibilidade de que as leis para o mundo da existência sejam racionais, ou seja, compreensíveis para a razão. Eu não consigo pensar em um genuíno cientista sem esta profunda fé. A situação pode ser expressa em uma imagem: a ciência sem religião é capenga; religião sem ciência é cega.
Embora eu tenha afirmado acima que, na verdade, um conflito legítimo entre religião e ciência não pode existir, eu devo, não obstante, qualificar essa assertiva mais uma vez, acerca de um ponto essencial, com referência ao real conteúdo das religiões históricas. Esta qualificação tem a ver com o conceito de Deus. Durante o período juvenil da evolução espiritual da humanidade, a fantasia humana criou deuses à imagem e semelhança dos homens, que, por força de suas vontades, supostamente determinavam, ou, pelo menos, influenciavam, o mundo dos fenômenos. O homem tentou alterar a disposição desses deuses, em seu próprio favor, por meio de mágica e da prece. A idéia de Deus nas religiões atualmente ensinadas é uma sublimação desta velha concepção dos deuses. Seu caráter antropomórfico é mostrado, por exemplo, pelo fato de que as pessoas apelam ao Ser Divino em orações e pedem pela satisfação de seus desejos.
Ninguém, certamente, negará que a idéia da existência de um Deus pessoal onipotente, justo e oni-beneficente, é adequada ao consolo, à ajuda e à orientação dos homens; igualmente, em virtude de sua simplicidade, ela é acessível à mente menos desenvolvida. Mas, por outro lado, existem fraquezas decisivas ligadas a essa idéia, em si, que se fazem sentir dolorosamente, desde o início da história. Isto é, se esse ser é onipotente, então qualquer acontecimento, inclusive todas as ações humanas, todos os pensamentos humanos, e cada sensação e aspiração humanas são, também, obra sua; como será possível, então, responsabilizar as pessoas por seus atos e pensamentos perante um Ser tão todo-poderoso? Ao distribuir punições e recompensas Ele estaria, de uma certa forma, julgando a Si próprio. Como isso pode ser combinado com a bondade e retidão que se Lhe atribuem?
A principal fonte de conflitos, nos dias de hoje, entre as esferas da religião e da ciência, repousa neste conceito de um Deus pessoal. O alvo da ciência é estabelecer regras gerais que determinem as conexões recíprocas entre objetos e eventos no tempo e no espaço. Para essas regras, ou leis da natureza, uma validade absoluta é necessária – não comprovada. Trata-se principalmente de um programa e a fé na possibilidade de seu cumprimento, em princípio é fundamentado somente em sucesso parcial. Mas dificilmente se poderá achar alguém que negue esses sucessos parciais e os atribua à auto-ilusão humana. O fato de que, com base nessas leis, nós sejamos aptos a prever o comportamento temporal dos fenômenos em certos domínios com grande precisão e certeza, está profundamente imbuído na consciência do homem moderno, muito embora ele possa ter compreendido muito pouco do conteúdo dessas leis. Ele só precisa considerar que as órbitas planetárias dentro do sistema solar podem ser calculadas com granda exatidão, com base em um número limitado de leis simples. De uma forma similar, embora não com a mesma precisão, é possível calcular, antecipadamente, o modo de operação de um motor elétrico, um sistema de transmissão, ou um aparelho sem-fio, mesmo quando se lida com um novo desenvolvimento.
Para ser franco, quando o número de fatores intervenientes em um complexo fenomenológico, é grande demais, o método científico, na maior parte das vezes, falha. Basta pensar nas condições climatológicas que são impossíveis de prever, apenas alguns dias à frente. Não obstante, ninguém duvida que estamos nos confrontando com uma conexão causal, cujos componentes causais são, em sua maioria, conhecidos. As ocorrências nesse domínio ficam além do alcance da predição exata, por causa da variedade dos fatores em operação, não por conta de qualquer falta de ordem na natureza.
Nós penentramos muito menos profundamente nas regularidades observáveis dentro do reino das coisas vivas, porém fundo o suficiente para sentir ao menos a regra das necessidades fixas. Só precisamos pensar na ordem sistemática da hereditariedade e nos efeitos dos venenos, como, por exemplo, o álcool, no comportamento dos seres orgânicos. O que ainda está faltando é uma compreensão de conexões de profunda generalidade, mas não o conhecimento da existência de uma ordem.
Quanto mais uma pessoa está imbuída da ordenada regularidade de todos os eventos, mais firme se torna sua convicção de que não existe espaço disponível do lado desta regularidade ordenada para causas de uma natureza diferente. Para esta pessoa, nem as regras humanas, nem as regras divinas poderão existir como uma causa de eventos naturais. Para ser franco, a idéia de um Deus pessoal que interfere nos eventos naturais, nunca pode ser refutada, no sentido real, pela ciência, porque esta doutrina sempre pode se refugiar naqueles domínios onde o conhecimento científico ainda não conseguiu firmar um pé.
Mas eu estou persuadido de que tal comportamento, por parte dos representantes da religião, não só seriam contraproducentes, mas também fatais. Porque uma doutrina que não consegue se manter na clar luz, mas somente na escuridão, perderá, necessariamente, seu efeito sobre a humanidade, com um incrível dano ao progresso humano. Em sua luta pelo bem ético, os professores de religião devem ter a estatura suficiente para desistir de uma doutrina de um Deus pessoal, isto é, desistir dessa fonte de medo e esperança que, no passado, colocou um poder tão vasto nas mãos dos padres. Em seus trabalhos, eles terão que se valer dessas forças que são capazes de cultivar a Bondade, a Verdade e a Beleza no próprio ser humano.
Esta é, certamente, uma tarefa mais difícl, mas incoparavelmente mais valiosa. (Este pensamento é convincentemente apresentado no livro “Crença e Ação” de Herbert Samuel). Depois que os professores de religião consigam obter o processo de refinamento indicado, eles seguramente reconhecerão com alegria que a verdadeira religião foi enorbrecida e tornada mais profunda com o conhecimento científico.
Se uma das metas da religião é libertar a humanidade, tanto quanto possível, dos grilhões das ânsias, dos desejos e dos medos egocêntricos, o raciocínio científico pode auxiliar a religião em ainda outro sentido. Embora seja verdade que a meta da ciência é descobrir regras que permitam a associação e a predição de fatos, este não é seu único alvo. Ela também busca reduzir as conexões descobertas ao menor número possível de elementos conceituais independentes. É nessa busca frenética da unificação racional dos diversos aspectos que ela tem encontrado seus maiores sucessos, embora seja precisamente por conta dessa tentativa que ela corre o maior risco de se tornar uma presa das ilusões. Mas qualquer um que tenha passado pela intensa experiência dos avanços bem sucedidos neste domínio, é movido por uma profunda reverência pela racionalidade que se manifesta na existência. Por meio da compreensão ele alcança uma emancipação de longo alcance das algemas das esperanças e desejos pessoais e, dessa forma, atinge a humilde atitude mental com respeito à grandeza da razão encarnada na existência e que, em suas maiores profundiades, é inacessível ao homem. Esta atitude me parece, entretanto, ser religiosa, no mais alto sentido da palavra. E, assim, me parece que a ciência não só purifica o impulso religioso do ranço de seu antropomorfismo, mas também contribui para uma espiritualização religiosa de nosso entendimento da vida.
Quanto mais a humanidade avançar espiritualmente, mais certo me parece que o caminho para a genuína religiosidade não reside no medo da vida e no medo da morte, e na fé cega, mas na perseguição do conhecimento racional. Neste sentido, eu acredito que o padre deve se tornar um professor, se ele quiser fazer justiça a sua elevada missão educacional.
Traduzido e divulgado sem a adequada permissão de “Science and Religion” in The Conference on Science, Philosophy and Religion © Jewish Theological Seminary, 1941.

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